segunda-feira, 27 de outubro de 2008

MARTIN HEIDEGGER

HERÁCLITO
A despedida de Heidegger
10/Out/98
Ernildo Stein

Quem lê com atenção o volume 55 das obras reunidas de Heidegger, que traz como título o nome "Heráclito", e procura situá-lo no contexto de toda a obra do filósofo, descobre nele uma série de características muito particulares e esclarecedoras.
Trata-se, primeiro, das duas últimas grandes preleções de Heidegger durante a Segunda Guerra Mundial. A primeira preleção é do semestre de verão de 1943 e vem com o título "A Origem do Pensamento Ocidental (Heráclito)" e a segunda se intitula "Lógica - A Doutrina Heraclítica do Lógos" e foi desenvolvida durante o semestre de verão de 1944. Pouco antes de sua morte, o filósofo confiou a Manfred Frings a edição do volume em 1976. Em meio a tantos textos inéditos, ele tinha por estas duas preleções sobre Heráclito um interesse muito particular.
Precedido pela preleção sobre "Parmênides", do semestre de inverno 1942/43, situa-se com ele no fim das grandes aulas dos anos 30 e da primeira metade dos 40, em que foram analisados filósofos como Kant (1930 e 1935/36), Hegel (1930/31), Aristóteles (1931), Platão (1931/32), Anaximandro e Parmênides (1932), Schelling (1936,1941) e, sobretudo, Nietzsche (1936, 1937, 1938, 1939, 1940, 1941 e 1942) e Höderlin (1934, 1935, 1941 e 1942), importantes preleções, essenciais para a compreensão do segundo Heidegger e quadro em que tomaram forma os tratados notáveis que seguiram o primeiro tratado "Ser e Tempo" (1927). Estes tratados repensam a matriz de "Ser e Tempo" e a história do ser e o destino da metafísica ocidental e da era da técnica. Deles já foram publicados: "Contribuições para a Filosofia (Do Acontecimento-Apropriação)" (1936-1938), "Meditação" ("Besinnung") (1938/39) e "A História do Ser" ("Seyn") (1938,1939,1940), volumes 65, 66 e 69 da obra reunida.
Por que "Heráclito"? E por que o conteúdo e o estilo de análise destas aulas? Já conhecíamos "Lógos" e "Alétheia", ensaios dos anos 50, e "O Seminário sobre Heráclito", de 1966/67, realizado com Eugen Fink.
As duas preleções sobre Heráclito são o momento extraordinário em que o filósofo conjuga num único movimento:
a) a análise do enigma do pensamento ocidental e a relação entre o originário e a palavra;
b) procura evocar todos os filósofos analisados nos anos 30 e mostra como nesta história da filosofia aconteceu o esquecimento do ser (da verdade do ser) enquanto pensamento metafísico;
c) mostra como pensar a "obscuridade" do pensamento essencial e a inadequação da dialética para expor a tensão entre o pensamento originário e o encobrimento;
d) pensa o que chama a "verdade do ser" a partir do fragmento 16, cuja ambiguidade permite a combinação com outros como o 123, o 30 e, sobretudo, com os fragmentos 64, 66, e 124;
e) liga a "alétheia" a desvelamento e à palavra do ser na história ocidental;
f) passa então para a análise do "lógos", da lógica como disciplina e como tarefa (preleção de 1944);
g) descreve o afastamento do "lógos" originário e os caminhos de acesso, procurando mostrar para o retorno à região originária da lógica, a "verdade do ser".
O exposto no item anterior não resume o livro "Heráclito", mas nos quer mostrar uma unidade que não é apenas de tema, mas de temas. Apesar de jogar com o "obscuro", codinome do filósofo, o texto não é obscuro, nem hermético, nem rebarbativo e artificioso como por exemplo, "Parmênides", preleção anterior.
O fragmento 16 e a combinação entre "alétheia" e "physis" dão a Heidegger a atmosfera de tensão e o espaço de jogo de que se serve seu pensamento dos anos 30.
Repassando com referências rápidas os autores expostos durante 15 anos de labuta obsessiva que a edição da obra póstuma exibe, Heidegger escolhe dois autores como marcos para inseri-los na interpretação de "Heráclito".
São Nietzsche e Hölderlin. Foram os mais estudados pelo viés do fim da metafísica e do outro começo. Nietzsche, como o último metafísico, e Hölderlin (Rilke por momentos), como o arauto de um outro começo: Nietzsche com a vontade de poder (lógica, técnica) e Hölderlin ("Quem pensou o mais profundo ama o que é mais vivo").
Mas o que ressoa no "Heráclito" de Heidegger é o conjunto temático dos tratados da segunda metade dos anos 30. Neles se fala do "Ereignis" (acontecimento-apropriação), da técnica, da subjetividade, do esquecimento do ser, da verdade do ser, da vontade da vontade, da lógica como origem do destino ocidental, da falência histórica do cristianismo ("será necessário ainda uma terceira guerra mundial para comprová-lo?" -diz Heidegger em 1944).
Todos os temas caros ao segundo Heidegger juntam-se na hermenêutica de "Heráclito". Do "Obscuro" trata a última preleção sobre um autor da história da filosofia ocidental (de algum modo o primeiro). E nos espantamos em ver com que auto-suficiência, distância, orgulho, ironia, desprezo e satisfação Heidegger realiza esta obra no início da noite que se estende sobre a Alemanha. É também o fim de sua atividade acadêmica normal. Em 1946 seria excluído da universidade.
"Heráclito" é um dos melhores textos do segundo Heidegger. De uma complexidade fulgurante. E, contudo, revela uma essencial simplicidade.
Em 1929/1930, Heidegger realizou a preleção volumosa -"Os Conceitos Fundamentais da Metafísica - Mundo, Finitude, Solidão", que, numa carta a Elysabeth Blochmann, chamara de "minha metafísica". Estava no limiar de um novo tempo. Os anos 20 haviam sido a sua "guerra interior" que se encerrava com a "sua metafísica" (um "Ser e Tempo" mais explícito e livre). Entrava agora na "outra guerra" -a sua escolha política que se encerraria de modo arrasador em 1945 ou em 1946 com o banimento do único campo em que sabia lutar, a universidade, e onde apostara todas as suas fichas. "Heráclito" (1944) é a obra que encerra o segundo Heidegger. O que vem depois é o terceiro. Sua criação filosófica termina com a guerra ou com as guerras.
Depois de 1946 quase tudo é consequência, seleção, resumos, sínteses de produção dos anos 30 ou explicações e auto-interpretação, também dos anos 30: dos erros e das errâncias. "Heráclito", que temos agora em português, é uma espécie de manifesto e também uma despedida. A grande filosofia de Martin Heidegger se encerra aí.
A tradução brasileira de Márcia de Sá Cavalcante Schuback é uma bela surpresa. Lê-se com gosto e quase sem o auxílio do texto alemão. Há muitas escolhas felizes para problemas sérios de tradução. A nova edição deveria rever as escolhas -sobretudo descobrimento = desvelamento? "Sache" é tarefa ou causa, não coisa, em geral no texto. "Contréa" é um achado de luxo para "Gegend" (região). O texto está mundos na frente do nível da tradução de "Ser e Tempo".


Ernildo Stein é professor de filosofia na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.

Folha de São Paulo

Um comentário:

Juliana disse...

Eu gostei muito do seu texto, e ele me ajudou muito a realizar um trabalho para a faculdade. Muito obrigada!