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sexta-feira, 13 de maio de 2022

Frontiers of Citizenship: A Black and Indigenous History of Postcolonial





CONSTRUINDO FRONTEIRAS DENTRO DAS FRONTEIRAS DO IMPÉRIO DO BRASIL

André Roberto de A. Machado

Resenha de: MIKI, Yuko. . Frontiers of Citizenship: A Black and Indigenous History of Postcolonial Brazil. New York: Cambridge University Press, 2018.




A especialização no campo das pesquisas históricas trouxe inegáveis avanços para o nosso conhecimento a respeito das indagações que fazemos sobre o passado. Ao lado desses avanços há armadilhas, quase que inevitáveis, especialmente para os historiadores em formação. É na definição dos recortes - seja ele espacial, cronológico, bibliográfico ou de grupos sociais - que se antevê o tamanho do cabresto que cerceia a visão do autor e retroalimenta interpretações de escolas clássicas. São recortes que não nascem livremente de perguntas - o único meio de dar unidade coerente à pesquisa, como ensinava Marc Bloch - e, sim, estão naturalizados pelos campos ou pelas instituições. No Brasil, uma das especializações mais curiosas é a que separa de forma extremamente rígida a história dos povos indígenas e dos escravizados afro-brasileiros. De modo geral, persiste a crença de que o avanço territorial da escravização afro-brasileira tinha como sua consequência o desaparecimento ou perda de importância dos povos indígenas. Os estudos sobre o século XIX vem sistematicamente negando essa perspectiva, mas muitas vezes também criando uma história dos povos indígenas no Império do Brasil quase autônoma à da escravização dos afro-brasileiros.3



Frontiers of Citizenship, de Yuko Miki, já mereceria ser saudado por explorar essa primeira “fronteira”: a que separa a história de afro-brasileiros e de indígenas no Império do Brasil. Mais uma vez, o olhar estrangeiro nos ajuda a questionar os cânones da história nacional. Miki nascida em Tóquio, mas há muitos anos radicada nos Estados Unidos, onde é professora da Fordham University (NY), conta ao longo do livro o seu estranhamento em ver a história desses dois grupos tão apartada. Por outro lado, o livro - e especialmente seus comentários de contracapa - lhe atribuem muitas vezes uma originalidade que não é verdadeira. Muitos pontos - sobretudo em relação à história dos povos indígenas - podem ser pouco conhecidos do público estrangeiro, mas são absolutamente sabidos entre os historiadores brasileiros. A despeito disso, o esforço em buscar uma única interpretação, ou mesmo pontos de encontros, para a história de indígenas e afro-brasileiros escravizados é um ganho real.



Desde o início o livro chama a atenção por essa fusão que não está apenas na capa - uma bela arte de sobreposição de imagens de indígenas e afro-brasileiros - mas por se tratar de um volume da “Afro-Latin America” da Cambridge que tem como recorte espacial o vasto território conhecido na historiografia por ser aquele que foi alvo de D. João, em 1808, para se fazer guerra aos indígenas botocudos. Poucos territórios têm tão marcadamente um tema e uma cronologia: a guerra justa contra os botocudos e o período de 1808 a 1831, quando esta prática é extinta pelo Parlamento. Quase que exclusivamente tratado pela historiografia sobre os povos indígenas, é centro de discussão para as políticas indigenistas e as modalidades de trabalho imposta a estes povos.4



Miki implode esses parâmetros. Em primeiro lugar, avança a análise até o final do Império, permitindo revelar um quadro de mudanças muito mais complexo do que aquilo que se vê apenas até 1831, passando inclusive pelo Regulamento das Missões (1845)5, o movimento abolicionista e a própria abolição. Ainda mais importante, Miki tenta enxergar essa região - que ela chama de “Fronteira Atlântica”, algo que problematizaremos adiante - como uma espécie de síntese, de um laboratório do Império. Afinal, foi ali que se abriu no começo do século XIX uma política generalizada de extermínio indígena. É verdade que isto jamais foi suprimido no Império português, mas especialmente depois de Pombal as políticas que tentavam transformar os indígenas em portugueses tornaram-se centro da estratégia do Império na disputa por territórios com Madri.



Ao mesmo tempo, o espaço colonial é o símbolo de uma mudança política com a vinda da Corte, Corte que não valorizava mais “zonas tampão” - papel que o território e os botocudos tinham ocupado até 1808 para impedir o desvio de pedras preciosas. Ao invés disso, o que se precisava era expandir-se “para dentro”, feliz expressão de Ilmar Mattos que fará ainda mais sentido já no Império do Brasil.6 A expansão agrícola na “Fronteira Atlântica” é acompanhada de tentativas de implementação de novas alternativas de propriedade e trabalho. A mais famosa dessas iniciativas é a Colônia Leopoldina, incentivada pela própria Coroa através da vinda imigrantes e a distribuição de pequenas propriedades. A rápida transformação dessa experiência em apenas mais uma grande monocultura tocada com braços de escravizados afro-brasileiros, somada ao fato de ter se tornado um dos símbolos da resistência escravista, é extremamente destacado pela autora. Em alguma medida, o tom pessimista de toda a obra é sintetizado no “fracasso” da Colônia Leopoldina em manter-se com o trabalho livre.



Ainda que não dito explicitamente, Miki parece descrever um processo de mudança que nunca ocorre totalmente, como se o peso do passado fosse intransponível. A polissemia da palavra fronteira é habilmente explorada pela autora. A “Fronteira Atlântica” é a região que estuda. Os indígenas e afro-brasileiros estão fisicamente nesta fronteira, mas a sua cidadania também está em uma fronteira mais intangível, em uma área difícil de saber com clareza quem está dentro e quem está fora. Ainda que se valendo de análises já bastante conhecidas - sobretudo, de Sposito e Slemian7 - Miki faz uma problematização dessa questão, lembrando que a constituição brasileira não era racializada. Ou seja, não era a cor da pele que determinava os direitos políticos. Por outro lado, condições jurídicas intrinsicamente ligadas à condição de homens e mulheres não brancos - como ser escravo ou considerado “selvagem” no caso dos indígenas - excluíam essas pessoas do “pacto político”. É apenas no final do livro - já discutindo o abolicionismo e o final do Império - que Miki deixa explícito que a negativa de direitos políticos para indígenas e negros era um projeto e não uma deficiência do sistema. Nesse ponto, há uma perfeita sintonia entre os projetos que analisa para indígenas e para os escravos após a abolição: em todos esses casos jamais se pensa em entregar terras e autonomia a esses povos. Ao contrário, a condição de subordinados, tutelados por fazendeiros ou religiosos é vendida como a única forma para impedir que ex-escravizados ou indígenas se entregassem ao ócio. Um discurso que se sustentou por décadas - e no caso dos indígenas, por séculos - e que ela registrou ecoar até mesmo entre os mais radicais abolicionistas da “Fronteira Atlântica”.



Se ao discutir a extensão da condição de cidadãos para indígenas e afro-brasileiros, Miki consegue uma análise mais integrada, o mesmo não acontece a respeito de outros aspectos. O exemplo mais evidente nesse sentido é o uso desses homens como mão de obra. Há, evidentemente, a demonstração de que em todo esse território havia o emprego significativo de indígenas e afro-brasileiros. No entanto, este são universos que estavam no mesmo território, mas que a narrativa organiza em sistemas produtivos bastante distintos. Ou seja, o enfoque para os indígenas está, de modo geral, nas missões e os escravizados afro-brasileiros nas fazendas. A pureza dessas separações tão estanques é difícil de acreditar em um território como esse. Bezerra Neto já mostrou que as fazendas monocultoras do Pará, por exemplo, sempre foram tidas como tocadas por mão de obra exclusivamente escravizada afro-brasileira, mas na verdade dividia os campos com indígenas.8



Antes que se diga que se trata das “excentricidades” do Cabo Norte, Marco Morel, em belíssimo e recente trabalho sobre os botocudos, justamente mostra como a sua mão de obra era frequentemente requisitada para os mais diferentes tipos de trabalho, ocupando frentes inclusive no entorno da Corte. Além do trabalho em obras públicas, Morel dá vários exemplos de como eram recorrentes as denúncias do emprego de indígenas em fazendas em toda essa região, muitas vezes desviados de instituições públicas sob a alegação de que era um método de civilização mais barato.9 Para além disso, Miki passa ao largo da discussão mais interessante da historiografia recente: aquela que implode a visão dicotômica que separava todo o trabalho no Brasil do século XIX nas categorias de trabalho livre ou trabalho escravo. Em vez disso, há uma gigantesca zona cinzenta - não só no Brasil, mas em todo o mundo - em que homens livres são obrigados a trabalhar sob as mais diferentes formas de coerção, inclusive físicas.10 Indígenas e afro-brasileiros eram especialmente alvo dessas ações que Miki totalmente ignora no livro.



Por fim, há ainda uma última consideração geral: a ideia de classificar esta região de ataque aos botocudos como “Fronteira Atlântica”. Miki insiste muito na ideia da fronteira, certamente influenciada pela tradição americana e critica o pouco uso desse termo na historiografia brasileira. No entanto, esta designação parece ter muitas fragilidades: no Império do Brasil, no processo de “expansão para dentro”, a fronteira é o recorrente e não a exceção. Nesse sentido, a região estudada por Miki parece estar longe de ser algo particularmente singular.



Mais especificamente sobre a distribuição dos capítulos é importante salientar que as suas divisões são temáticas, ainda que de modo geral a evolução dos capítulos também siga em alguma medida um avanço cronológico. Assim, o primeiro capítulo explora as “fronteiras da cidadania”, enquanto o segundo busca dar uma interpretação ao que ela chama de “política popular” (em tradução livre). Nos capítulos seguintes, outros temas giram em torno de tópicos como a mestiçagem, a violência, os “campos negros” e o abolicionismo. Os capítulos podem ser lidos separadamente, quase sem prejuízo do seu entendimento, o que por sua vez revela um problema de coesão da obra no seu conjunto. Também é peculiar a mistura de abordagens mais “estruturais” - como as discussões da cidadania a partir de documentos do centro político do Império - com narrativas totalmente focadas na “agência”. Especialmente nesse último ponto a obra encontra mais dificuldades. Há alguns insights maravilhosos, mas custa enxergar que alguns eventos possam ser usados para generalizações reiteradamente feitas.



Apesar das críticas, Frontiers of Citizenship é um livro que provoca muitas reflexões e incomoda ao buscar análises de ângulos inusuais. Isso por si só já basta para merecer a sua leitura.

Bibliografia
BEZERRA NETO, Jose Maia. Escravidao Negra no Grao Para (seculos XVIII-XIX) Belem: Paka-tatu, 2012.
DORNELLES, Soraia Sales. Trabalho compulsorio e escravidao indigena no Brasil imperial: reflexoes a partir da provincia paulista. Revista Brasileira de Historia. Sao Paulo, v. 38, nº 79, 2018.
LEMOS, Marcelo Sant’ana. O indio virou po de Cafe? Resistencia indigena frente a expansao cafeeira no Vale do Paraiba. Jundiai: Paco Editorial, 2016
LINDEN, Marcel van der. Trabalhadores do Mundo: ensaios para uma historia global do trabalho. Campinas: UNICAMP, 2013
MACHADO, Andre Roberto de A. O trabalho indigena no Brasil durante a primeira metade do seculo XIX: um labirinto para os historiadores. In: Henrique Antonio Re, Laurent Azevedo Marques de Saes e Gustavo Velloso. (Org.). Historia e Historiografia do Trabalho Escravo no Brasil: novas perspectivas. 1ed.Sao Paulo: Publicacoes BBM / Alameda, 2020.
MAMIGONIAN, Beatriz G. Africanos livres: a abolição do tráfico de escravos no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2017
MATTOS, Ilmar Rohloff de. Construtores e herdeiros: a trama dos interesses na construcao da unidade politica. Almanack Braziliense, n. 01, maio de 2005.
MOREL, Marco. A Saga dos Botocudos: guerra, imagens e resistencia indigena. Sao Paulo: Hucitec, 2018.
Resenha de MIKI, Yuko. Frontiers of Citizenship: A Black and Indigenous History of Postcolonial Brazil. New York: Cambridge University Press, 2018.
SLEMIAN, Andrea. “Seriam todos cidadaos? Os impasses na construcao da cidadania nos primordios do constitucionalismo no Brasil (1823 - 1824)”. In: JANCSO, Istvan (org.). Independencia: Historia e historiografia. Sao Paulo: Editora HUCITEC; FAPESP, 2005.
SPOSITO, Fernanda. As guerras justas na crise do Antigo Regime portugues. Analise da politica indigenista de D. Joao VI. Revista de Historia (USP), v. 161, p. 85-112, 2010.
SPOSITO, Fernanda. Nem cidadaos, nem brasileiros Indigenas na formacao do Estado nacional brasileiro e conflitos na provincia de Sao Paulo (1822-45). Sao Paulo: Alameda, 2012
STEINFELD, Robert J. The invention of free labor: the employment relation in English & American Law and Culture, 1350-1870. EUA, The University of North Carolina Press, 1991.


3
Entre outras novas evidências, percebe-se o uso da mão de obra indígena mesmo em regiões irrigadas com escravizados afro-brasileiros, como São Paulo ou mesmo a região do Vale do Paraíba, pelo menos até um determinado período. Entre outros, veja LEMOS, Marcelo Sant’ana. O índio virou pó de Café? Resistência indígena frente à expansão cafeeira no Vale do Paraíba. Jundiaí: Paco Editorial, 2016; DORNELLES, Soraia Sales. Trabalho compulsório e escravidão indígena no Brasil imperial: reflexões a partir da província paulista. Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 38, nº 79, 2018.
4
Para uma síntese, SPOSITO, Fernanda. As guerras justas na crise do Antigo Regime português. Análise da política indigenista de D. João VI. Revista de História (USP), v. 161, p. 85-112, 2010.
5
Trata-se da primeira lei para os povos indígenas como validade em todo o território do Império.
6
MATTOS, Ilmar Rohloff de. Construtores e herdeiros: a trama dos interesses na construção da unidade política. Almanack Braziliense, n. 01, maio de 2005.
7
SPOSITO, Fernanda. Nem cidadãos, nem brasileiros. Indígenas na formação do Estado nacional brasileiro e conflitos na província de São Paulo (1822-45). São Paulo: Alameda, 2012; SLEMIAN, Andrea. “Seriam todos cidadãos? Os impasses na construção da cidadania nos primórdios do constitucionalismo no Brasil (1823 - 1824)”. In: JANCSÓ, István (org.). Independência: História e historiografia. São Paulo: Editora HUCITEC; FAPESP, 2005.
8
BEZERRA NETO, José Maia. Escravidão Negra no Grão Pará (séculos XVIII-XIX). Belém: Paka-tatu, 2012.
9
MOREL, Marco. A Saga dos Botocudos: guerra, imagens e resistência indígena. São Paulo: Hucitec, 2018.
10
Entre outros, MACHADO, André Roberto de A. O trabalho indígena no Brasil durante a primeira metade do século XIX: um labirinto para os historiadores. In: Henrique Antonio Ré, Laurent Azevedo Marques de Saes e Gustavo Velloso. (Org.). História e Historiografia do Trabalho Escravo no Brasil: novas perspectivas. 1ed.São Paulo: Publicações BBM / Alameda, 2020; Mamigonian, Beatriz G. Africanos livres: a abolição do tráfico de escravos no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2017; LINDEN, Marcel van der. Trabalhadores do Mundo: ensaios para uma história global do trabalho. Campinas: UNICAMP, 2013; STEINFELD, Robert J. The invention of free labor: the employment relation in English & American Law and Culture, 1350-1870. EUA, The University of North Carolina Press, 1991.
Revista Almanack

terça-feira, 12 de outubro de 2021

Professor, ensino médio e juventude: entre a didática relacional e a construção de sentidos




MESQUITA, Silvana Soares de Araújo. Professor, ensino médio e juventude: entre a didática relacional e a construção de sentidos. Rio de Janeiro: Editora PUC-Rio, Numa, 2018. 239 p

No livro Professor, ensino médio e juventude: entre a didática relacional e a construção de sentidos, Silvana Soares de Araújo Mesquita, professora do Departamento de Educação da PUC-Rio, discute o exercício da docência em uma escola de ensino médio regular que atende a setores populares. A obra foi produzida com base em sua tese de doutorado em Educação, que recebeu o Prêmio Capes de Teses 2017 e o Prêmio CTCH de Teses, do Decanato do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio. O livro está organizado em oito capítulos, que incluem a introdução e a conclusão.

Na introdução, apresentam-se as justificativas da pesquisa realizada, os objetivos e as questões que nortearam o trabalho. A autora traz algumas discussões para a contextualização do campo e seus sujeitos, ou seja, o ensino médio no Brasil e os professores e jovens que nele trabalham e estudam. São ressaltadas as políticas educacionais para o ensino médio que vêm ganhando destaque no cenário nacional, em consequência de sua expansão por meio da universalização do ensino fundamental, tais como a Emenda Constitucional n. 59 (BRASIL, 2009)1 e a Lei n. 12.796 (BRASIL, 2013),2 que apontam para a obrigatoriedade e gratuidade desse nível de ensino. Entretanto, também é salientada a problemática que envolve o ensino médio no Brasil: a incapacidade dos sistemas públicos de atenderem à totalidade da população juvenil, o baixo nível de interesse dos jovens por essa escola, o conflito de identidade quanto à função do ensino médio, a ineficácia no que se refere à garantia de superação das desigualdades sociais, entre outros fatores. É destacada, ainda, a Lei n. 13.415 (BRASIL, 2017),3 que instituiu uma nova reforma do ensino médio, considerada pela autora um campo ainda em disputa e sobre o qual torna-se necessária a construção de indicadores que permitam sua melhor compreensão. Com relação aos sujeitos - professores que atuam no ensino médio no Brasil -, são apresentados dados quantitativos do Censo Escolar de 2016, apontando que menos da metade possui formação compatível com a disciplina que leciona. A autora conclui essa parte introdutória assinalando que o objetivo geral da pesquisa foi “compreender as especificidades do trabalho dos professores de ensino médio em suas competências e habilidades, características, funções e ações enquanto profissional responsável por formar jovens diferentes, heterogêneos, diversos para um mundo plural e complexo” (MESQUITA, 2018, p. 23). Assinala ainda que teve como principais eixos as perspectivas dos alunos sobre o ensino e a escola, por meio da indicação dos seus “bons professores”, em diálogo com as ações e concepções dos próprios docentes, identificadas no cotidiano escolar. Por fim, são apresentados brevemente os recursos de pesquisa utilizados e justifica-se a utilização do termo “bom professor”, como categoria nativa trazida pelos alunos que participaram da pesquisa.

O capítulo dois traz uma “revisão da literatura sobre bom professor, desempenho de professores, profissão e formação docente, com destaque para o cenário do ensino médio nas esferas nacional e internacional” (MESQUITA, 2018, p. 29). Tendo como principais referências Dubet (1994, 2002),4 Connell (2010),5 Cortesão (2000),6 Dias (2008),7 Fernandes (2008),8 Maués (2011),9 Bressoux (2003),10 entre outros, a autora discute a polissemia conceitual entre desempenho, competência e eficácia no âmbito do trabalho docente. Com Formosinho, Machado e Oliveira-Formosinho (2010),11 Fernandes (2008),12 Maroy (2002)13 e Lessard, Kamanzi e Larochelle (2010),14 é feita uma abordagem sociológica sobre desempenho docente e desenvolvimento profissional. Mesquita apresenta, ainda, a revisão de literatura acerca das competências para ensinar e dos saberes docentes, valendo-se principalmente dos trabalhos de Tardif (2005)15 e Perrenoud (2001)16 e do conceito de “bom professor” no contexto do ensino médio, recorrendo principalmente a Nogueira, Jesus e Cruz (2013)17 e Gatti (2010).18 Com base nos referenciais teóricos, são destacadas cinco dimensões “que podem contribuir para o bom desempenho dos professores no exercício da docência”: dimensão do conhecimento, dimensão estratégica, dimensão relacional, dimensão motivacional e dimensão profissional, que serviram de base para as análises efetuadas (MESQUITA, 2018, p. 51).

O terceiro capítulo apresenta o contexto social/territorial no qual a escola pesquisada se insere, os critérios de seleção da instituição e a descrição dos instrumentos metodológicos. A pesquisa teve como campo de investigação uma escola pública estadual de ensino médio regular, o que se justifica em virtude de a maioria das matrículas do ensino médio se concentrar nas redes estaduais e na modalidade de ensino médio regular, ou seja, voltada para a formação geral. Assim, a autora inicia por uma abordagem macro, trazendo dados relevantes sobre o ensino médio no Brasil e no estado do Rio de Janeiro e sobre a região onde a escola pesquisada está localizada. Em seguida, é feita uma abordagem micro, trazendo uma descrição minuciosa sobre a escola e seus agentes. Destaca-se que a escolha da escola se deu por três razões iniciais: ser uma escola exclusivamente de ensino médio, de grande porte e diurna, garantindo uma identificação com esse segmento de ensino. Para além dessas características, estabeleceu-se que a escola a ser escolhida deveria ser uma “escola de qualidade, que tivesse prestígio na sua região como lócus de boa formação para os jovens que atendesse” (MESQUITA, 2018, p. 63). Na sequência, a autora apresenta o contexto socioeconômico em que a escola está inserida (região da Baixada Fluminense, com grande densidade demográfica, marcada por fortes desigualdades sociais) e uma descrição detalhada da escola campo, seus agentes e sobre as referências históricas e culturais desse espaço. O capítulo finaliza com a discussão das escolhas metodológicas, destacando que a proposta foi fazer uma integração de instrumentos para a coleta das informações: questionários com professores e estudantes; entrevistas com gestores e professores indicados pelos estudantes com “bons professores”; e observação de aulas desses professores.

O capítulo quatro tem como foco o perfil do professor de ensino médio: desde uma abordagem macro, possibilitada pela análise das informações nacionais, até um enfoque micro, voltado para os docentes da escola pesquisada. A autora discute, com base nos dados disponibilizados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais “Anísio Teixeira” (Inep), Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ), Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro (Seeduc-RJ) e Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação do Rio de Janeiro (Sepe-RJ), as condições do trabalho docente no Brasil, no Rio de Janeiro e na região da Baixada Fluminense. O capítulo caracteriza ainda os docentes que atuam na escola pesquisada, no que se refere a disciplinas lecionadas, jornada de trabalho, número de turmas e alunos com que trabalham, além de abordar algumas diferentes representações e formas de atuar desses professores, em decorrência de fatores como gênero, tempo de serviço e formação. Nessa perspectiva, a autora chama a atenção para uma situação característica desse espaço, que se expressa na divisão do corpo docente em dois grandes grupos, de acordo com o tempo de atuação na escola: os professores novatos, que ingressaram há menos de cinco anos na escola; e os experientes que lá ingressaram há mais tempo.

O capítulo cinco tem como foco a análise das representações dos estudantes sobre o “bom professor”, que apontaram os docentes que foram acompanhados na segunda fase da pesquisa. Assumindo a perspectiva de uma pesquisa sobre o trabalho dos professores baseada no protagonismo dos agentes envolvidos na ação docente, a autora justifica a importância da participação dos alunos nessa investigação. Assim, nesse capítulo, é apresentado o perfil socioeconômico e cultural dos jovens que compõem o corpo discente da escola campo (aproximadamente 2.400 jovens) e também são discutidos os temas da relação com o saber e a escola e os sentidos desta e do conhecimento para esses jovens. No que se refere ao valor do conhecimento, evidenciou-se a existência, nesse espaço, de três grupos distintos de alunos: os que consideram que conhecimentos ensinados não têm significado prático e aplicabilidade no cotidiano, mostrando-se resistentes ou passivos diante do trabalho desenvolvido; os que valorizam os conhecimentos e buscam, por meio da escola, o acesso à universidade; e os que relacionam o conhecimento com as manifestações culturais e artísticas, valorizando especialmente as atividades que aí se inserem. Com relação à função da escola do ensino médio, também se evidenciou a existência de grupos que possuem diferentes interesses: a possibilidade de acesso à universidade e/ou a melhores empregos, como consequência da certificação de conclusão do ensino médio; e a socialização. Entretanto, destaca-se um eixo comum nos depoimentos desses jovens: o papel central dos professores para dar sentido ao ato de aprender. Por fim, o capítulo traz a discussão sobre as dimensões do trabalho docente, apresentadas no segundo capítulo, na perspectiva dos estudantes. Por meio do questionário aplicado e respondido por 341 estudantes, foi possível identificar a relevância dos aspectos relacionais e motivacionais para a indicação dos “bons professores”. O capítulo termina com a apresentação dos caminhos metodológicos para a indicação pelos estudantes dos professores que seriam observados pela pesquisadora e a exposição de algumas de suas características, no que se refere às dimensões do trabalho docente.

O sexto capítulo traz as análises sobre o exercício da docência no ensino médio, com base nas observações das aulas dos “bons professores” indicados pelos estudantes e nas respostas dos docentes aos questionários sobre sua prática pedagógica. A autora busca identificar os fatores que mais influenciam na efetividade do ensino desses professores indicados. Nessa perspectiva, evidenciou-se uma didática marcada pelas relações (sendo a indisciplina considerada a principal dificuldade para a realização do trabalho docente) e o envolvimento do professor - aluno como fator preponderante para o estabelecimento de um clima de aprendizagem. Nesse aspecto, ressaltou-se, ainda, um diálogo importante entre as estratégias didáticas utilizadas e a dimensão relacional do trabalho docente. No que se refere às estratégias de ensino-aprendizagem, a pesquisa constatou que as práticas desses professores são muito semelhantes e aproximam-se de um ensino tradicional. Destacaram-se três fatores que estiveram associados à ação didática desses professores: “interação, formas de tratamento e construção de regras no cotidiano da sala de aula” (MESQUITA, 2018, p. 160). Outros fatores identificados como relevantes para a efetividade do ensino nesses casos foram o papel motivador do professor em relação à aprendizagem dos alunos, a contextualização dos conteúdos selecionados, a otimização do tempo disponível para o ensino, apesar das regulações externas, e o desenvolvimento de um “estilo de ensinar”. Por meio dessas observações da prática docente e dos diferentes estilos de ensinar, a autora conclui que existem pontos comuns, mas também pontos divergentes entre tais práticas, sendo que os professores “não agem unicamente de acordo com um estatuto profissional baseado no pré-estabelecimento de normas norteadoras de condutas. A influência da subjetividade e da experiência de cada um regula fortemente a ação docente” (MESQUITA, 2018, p. 184).

Os desafios e dilemas enfrentados pelos professores do ensino médio são discutidos no sétimo capítulo, com base nas perspectivas dos docentes que participaram da pesquisa. O objetivo é entender o sentido da ação docente do ponto de vista dos próprios professores. Busca-se compreender suas concepções sobre o ensino, sobre a profissão e sobre os alunos para explicar o exercício da docência no ensino médio. O capítulo aborda as concepções desses professores acerca dos objetivos do ensino médio e da função da escola, bem como dos problemas enfrentados. Destaca-se o lugar da experiência no desenvolvimento profissional docente e no “estilo de ensinar” de cada professor. É identificada, ainda, uma satisfação profissional manifestada pelos docentes, apesar do desprestígio social da profissão, pautado no retorno dado pelo desempenho dos alunos. Por meio das discussões, a autora observou uma característica comum entre os “bons professores”: “o reconhecimento da centralidade do seu papel motivador nas escolas de massa e o efeito de suas ações na relação com os jovens”, sendo que suas habilidades foram construídas “pela prática reflexiva, com bases nos saberes da experiência, em diálogo com os conhecimentos adquiridos em seus processos formativos e com a subjetividade de cada docente” (MESQUITA, 2018, p. 211-212).

O capítulo oito traz as conclusões da pesquisa, com uma síntese dos principais temas abordados na obra. Defende-se que as dimensões motivacional e relacional são elementos norteadores da ação docente. Retomando as principais questões discutidas no livro, a autora identifica elementos comuns às aulas bem-sucedidas e reconhecidas pelos alunos como favorecedoras da aprendizagem: a gestão da classe onde predomina a autoridade negociada; a contextualização dos conteúdos de ensino articulados com as realidades dos estudantes; a utilização de estratégias de ensino mais participativas, interativas e com sentido concreto; e a boa gestão do tempo, deixando pouco tempo livre e ocioso no decorrer das aulas. Trata-se de um grupo de professores que valoriza os princípios pedagógicos e didáticos, tem compromisso com os bons resultados dos alunos e demonstra satisfação pela docência. A autora discute, ainda, as concepções didáticas dos professores e a necessidade de a escola garantir tempo e espaço comuns para a reflexão coletiva acerca das práticas de ensino, proporcionando assim condições para o desenvolvimento profissional. Ela defende a tese de que “os professores podem fazer a diferença” e destaca duas características fundamentais ao exercício da docência no ensino médio - “o professor como profissional das interações humanas e o professor como construtor de sentido” (MESQUITA, 2018, p. 222).

Recomendado a todos aqueles que se interessam pelo ensino e pelo trabalho docente, em sua complexidade e importância social, especialmente no ensino médio, o livro Professor, ensino médio e juventude: entre a didática relacional e a construção de sentidos tem potencial para fazer pensar as práticas docentes e os modelos pedagógicos que predominam nesse nível de ensino, bem como as políticas públicas voltadas para a educação dos jovens no Brasil e formação docente, em suas etapas inicial e continuada. A obra traz ainda contribuições importantes para os professores e gestores escolares no que se refere aos conceitos discutidos e às questões que se inscrevem no campo da didática em sala de aula do ensino médio.

REFERÊNCIAS

MESQUITA, Silvana Soares de Araújo. Professor, ensino médio e juventude: entre a didática relacional e a construção de sentidos. Rio de Janeiro: Editora PUC-Rio; Numa, 2018. 239 p.

1
BRASIL. Emenda Constitucional n. 59. Diário Oficial da União, Brasília, DF, n. 216, 12 nov. 2009. Seção 1. p. 8. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=1839-pec-dru-121109-pdf&category_slug=novembro-2009-pdf&Itemid=30192.
2
BRASIL. Presidência da República. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Casa Civil. Lei n. 12.796, de 4 de abril de 2013. Brasília, DF, 4 abr. 2013. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2013/lei/l12796.htm.
3
BRASIL. Presidência da República. Secretaria-Geral. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Lei n. 13.415, de 16 de fevereiro de 2017. Brasília, DF, 16 fev. 2017. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/lei/l13415.htm.
4
DUBET, François. A Sociologia da experiência. Lisboa: Porto, 1994. DUBET, François. El declive de la institución: profesiones, sujetos e individuos en la modernidad. Barcelona: Gedisa, 2002.
5
CONNELL, Raewyn. Bons professores em um terreno perigoso: rumo a uma nova visão da qualidade e do profissionalismo. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 36, n. especial, p. 165-184, 2010.
6
CORTESÃO, Luiza. Ser professor: um ofício em risco de extinção? Reflexões sobre práticas educativas face à diversidade, no limiar do século XXI. Porto: Afrontamento, 2000.
7
DIAS, Amália. Apostolado cívico e trabalhadores do ensino: história do magistério do ensino secundário no Brasil (1931-1946). 2008 Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2008.
8
FERNANDES, Domingos. Avaliação de desempenho docente: desafios, problemas e oportunidades. Cacém: Texto Editores, 2008.
9
MAUÉS, Olgaíses Cabral M. A política da OCDE para a educação e a formação docente. A nova regulação? Educação, Porto Alegre, v. 34, n. 1, p. 75-85, jan./abr. 2011.
10
BRESSOUX, Pascal. As pesquisas sobre efeito-escola e efeito-professor. Educação em Revista, Belo Horizonte, n. 8, dez. 2003.
11
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Revista Cadernos de Pesquisa

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Produzindo memórias para alimentar utopias



Das utopias que se tornam realidade, ou: sobre homens que trabalham com feminismos*


Ramon Pereira dos Reis**
** Doutorando em Ciência Social (Antropologia Social), Universidade de São Paulo (USP), São Paulo, SP, Brasil, com bolsa Fapesp. ramonrei@gmail.com

Medrado, Benedito; Lyra, Jorge. Produzindo memórias para alimentar utopias: Narrativas sobre uma organização feminista brasileira que, desde 1997, ousa trabalhar com homens e sobre masculinidades. 2015. Instituto PAPAI, Recife:

O problema da questão de gênero é que ela prescreve como devemos ser em vez de reconhecer como somos. Seríamos bem mais felizes, mais livres para sermos quem realmente somos, se não tivéssemos o peso das expectativas de gênero (Adichie, 2014).

Desde as formulações clássicas de Simone de Beauvoir (2009 [1949]) sobre a força político-identitária da categoria mulher e do quanto essa identificação é transitória e situacional, até os escritos de Judith Butler (2003) a respeito da desestabilização do termo gênero, a partir do confronto com uma determinada matriz de inteligibilidade sexual, já se passaram 66 anos, levando em conta os dias atuais.

Do ponto de vista do feminismo, enquanto marcação acadêmica, temporal e política, percorremos, ao longo desses anos, algumas vertentes balizadas pelos estudos feministas e de gênero, que, conforme o tempo, tornaram cada vez mais próxima a relação entre militância e academia, quais sejam: “feminismo socialista”, “feminismo radical” e “feminismo global” (Piscitelli, 2002), além daquela que há algum tempo demanda pautas mais detidas no entrecruzamento de raça, classe e sexualidade, a exemplo do feminismo negro (hooks, 1981; Davis, 1983; Collins, 1990). Um dos elos que une tais feminismos é que a grande maioria, se não todos, são protagonizados por mulheres.

É possível, então, ser homem feminista, ou ser homem e trabalhar com feminismos? Como articular a(s) pauta(s) feminista(s) aos estudos sobre homens e masculinidades? Com o intuito de percorrer tais questionamentos é que Benedito Medrado e Jorge Lyra (2015), psicólogos e fundadores do Instituto PAPAI (Programa de Apoio ao Pai) e do Núcleo de Pesquisas em Gênero e Masculinidades (GEMA) – ambos vinculados à Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) –, produzem memórias e alimentam utopias em torno da recuperação de narrativas sobre uma organização feminista brasileira que, desde 1997, ousa trabalhar com homens e sobre masculinidades, como assim intitulam o livro que celebra a maioridade do PAPAI, e cujas memórias servem de aporte explicativo a respeito do jogo político cotidiano que ocorre dentro e fora da universidade.

Trata-se de um livro em tom de memorial, composto por um prefácio, uma introdução, 12 pequenos capítulos (que compreendem a história, os projetos de desenvolvimento e visibilidade, até os objetivos de missão e gestão da organização), um posfácio (escrito por duas mulheres e dois homens que integram a equipe do PAPAI) e um registro fotográfico com uma seleção de imagens dos eventos mais emblemáticos, cuja intenção é


[...] registrar os acontecimentos e pessoas que tornaram essa história uma produção coletiva e um empreendimento compartilhado com vários/as em diferentes ocasiões e desafios. Não estamos aqui preocupados com o conteúdo, mas com os processos. Não estamos preocupados em sermos “fiéis aos fatos” porque não partimos de uma leitura realista sobre memória. O que nos comprometemos aqui foi, sobretudo, em fazer um exercício de (re)cordar e refletir criticamente sobre nossas escolhas, decisões e possíveis erros, colocando em suspensão e suspeição as ideias que acreditamos e defendemos (p.16).

Ressalto que, assim como os autores, não estou interessado em uma construção textual linear e que por isso darei ênfase ao processo de construção da organização, seu raio de desenvolvimento e ação, e os efeitos de sua permanência no cenário nacional dos estudos feministas e de gênero. Noto ainda que, do mesmo modo que existe uma funcionalidade e uma seleção dos eventos que terão lugar no livro, não posso deixar de perceber que esse exercício de recuperação de dados e de situações está sempre envolto da relação dialógica entre indivíduo e coletividade, passível das transformações do tempo (Cf. Halbwachs, 2006), e que também localiza a(s) memória(s) e a(s) identidade(s) como valores em constante disputa (Cf. Pollak, 1992).

Ao longo desses 18 anos de existência do Instituto PAPAI fica evidente, na composição da trajetória dessa organização, seu importante potencial enquanto disseminadora e multiplicadora de conhecimento dentro e fora da UFPE. Ressalto as articulações do PAPAI com organizações e grupos, em âmbito nacional e internacional, que atuam na publicação de conteúdos sobre gênero, sexualidade, saúde sexual, e no combate a violências de gênero e por orientação sexual: ECOS, Promundo, Núcleo Margens/UFSC, Fundação Carlos Chagas, Núcleo de Estudos de Gênero Pagu/Unicamp, Faculdade de Medicina da USP, Grupo de Pesquisa NósMulheres. Pela equidade de gênero étnico-racial/UFPA, entre outras.

O percurso histórico que sistematiza e sustenta o argumento central do livro garante, do início ao fim, o protagonismo e o reconhecimento à(s) figura(s) da(s) mulher(es), bem como leva em conta o importante papel dos estudos feministas e de gênero enquanto referências para a consolidação do PAPAI. Não se trata, assim, de uma instituição que invisibiliza lutas ou que pretende ser porta-voz da militância feminista. Nesse sentido, não há como negar


que os feminismos criaram modos específicos de existência mais integrados e humanizados, desfazendo as oposições binárias que hierarquizam razão e emoção, público e privado, masculino e feminino, heterossexualidade e homossexualidade (Rago, 2013:27).

Medrado e Lyra creditam à Fúlvia Rosemberg (in memoriam) – educadora com formação em psicologia social, pesquisadora e militante da causa feminista – o importante papel de incentivadora para que ambos pudessem fundar o PAPAI e o GEMA, além de ela ter servido de inspiração para que eles começassem a trabalhar efetivamente com as temáticas sobre homens e masculinidades dentro da perspectiva do campo de conhecimento supracitado.

A construção textual irá se sustentar sobre dois pilares: a emoção, menos de uma “emoção raciocinada” (Miceli, 2005) que age como disciplinadora de afetos, mas como uma pletora de significados e de sensações agenciadas pelo raciocínio e sobretudo pelo coração; e a política (cotidiana). A partir dessa chave é possível compreender sobre qual tripé se assenta o PAPAI e a maneira como produz ativismos dentro e fora da academia. Desse modo, o ensino, a pesquisa, e a intervenção política comunitária irão se associar ao que os autores concebem como tríade temporal deinteração, vivência e duração como formas de produzir, repassar e publicar conhecimento. Foi preciso, acima de tudo, de uma articulação efetiva entre teoria e prática para que esse projeto pudesse se tornar palpável.

Na esteira do comprometimento acima, a idealização do Núcleo de Pesquisas em Gêneros e Masculinidades (GEMA), sediado na UFPE, se mostrou uma poderosa ferramenta de suporte e visibilidade, principalmente porque o núcleo está formalmente vinculado ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), desde 1998, mesmo ano de sua fundação. Além de formar uma série de pesquisadoras/es, em nível de graduação, mestrado e doutorado, a atuação junto à população em geral ganhou fôlego por meio das seguintes linhas de pesquisa: 1 – Saúde, sexualidade e reprodução; 2 – Homens, masculinidades e contextos sociais; 3 – Teoria feminista: conceitos e implicações políticas e 4 – Experiências geracionais e a construção social das categorias etárias.

As marcações sociais de cada uma das linhas de pesquisa acima remontam ao que AdrianaPiscitelli (2002) irá chamar de “feminismos globais” que procuram trazer à baila o debate da produção social das diferenças (Brah, 2006) pela via das articulações entre gênero, sexualidade, raça, classe (McClintock, 2010), dentre outras. Nota-se que esse caráter global articulará demandas locais de pesquisa ampliando panoramas específicos em torno de perspectivas transnacionais que não se resumem à desigualdades e/ou superposições.

Outro ponto fundamental que atuará a favor do entendimento do porque o PAPAI e o GEMA podem ser consideradas organizações feministas, e, consequentemente, dos modos sobre os quais determinadas pautas feministas podem ser desenvolvidas por homens, refere-se ao compromisso e respeito com que Medrado e Lyra circulam e se inserem nesse campo. A entrada na Rede Feminista Norte-Nordeste de Estudos e Pesquisas sobre Mulher e Relações de Gênero (REDOR), em 1999, por ocasião do 9º Encontro da Rede, realizado em Fortaleza, é um bom exemplo disso. Diante dessas vicissitudes, eles comentam:


Obviamente, nossa aproximação com o movimento feminista nem sempre foi tranquila. Apesar do respeito e cuidado de algumas colegas, especialmente Ana Alice Costa e Luzia Miranda Álvares, entre outras, em diferentes momentos, na REDOR, fomos, direta ou indiretamente, motivo de desconforto quando nossos nomes eram sugeridos para ocupar algum lugar de representação da Rede. Mas, isso não aconteceu somente na REDOR. Muitas foram as situações em que fomos questionados sobre nosso trabalho. Havia as que não entendiam ou não queriam entender nossa proposta. Porém, na grande maioria das situações houve acolhimento e a compreensão compartilhada sobre a importância e necessidade de maior envolvimento de homens em questões relativas à saúde e à vida reprodutiva (p.55).

Lembro que na reconstituição que Bourdieu (2005)faz de sua trajetória acadêmica, ele também mostra como a formação de campos de conhecimento e de atuação passam por perspectivas de tensão e conflito nas quais entram em jogo proximidades e distanciamentos que dependem do manejo dehabitus específicos; nas palavras dele:


O efeito de campo exerce-se em parte por meio do confronto com as tomadas de posição de todos ou de parcela daqueles que também estão engajados no campo (e são outras encarnações distintas, e antagônicas, da relação entre um habitus e um campo: o espaço dos possíveis realiza-se nos indivíduos que exercem uma “atração” ou uma “repulsão”, a qual depende do “peso” deles no campo, isto é, de sua visibilidade, e da maior ou menor afinidade dos habitus que leva a achar “simpáticos” ou “antipáticos” seu pensamento e sua ação (Bourdieu, 2005:55).

Nesse sentido, a aproximação mais direta com os movimentos feministas regional e nacional se mostrou uma estratégia válida para dar solidez à organização, embora nunca tivessem buscado exclusividade nesse contexto. Nas palavras deles: “[...] Nunca pleiteamos estar em espaços exclusivamente destinados às mulheres e sempre consideramos que estes espaços exclusivos, embora não fossem desejáveis, eram plenamente estratégicos e necessários” (p.57-58). Tais atuações os fizeram compreender que padrões “hegemônicos” de masculinidades e de feminilidades não se sustentam, além de entenderem que não é possível ser uma organização feminista que se propõe a trabalhar com homens e sobre masculinidades sem reconhecerem o papel crucial das mulheres, feministas ou não, nesse processo histórico de lutas e conquistas de direitos.

Foram muitas as mulheres que serviram de estimuladoras e inspiradoras para a continuidade do PAPAI, são elas: Sônia Correa, Ana Alice Costa, Margareth Arilha, Sônia Malheiros Miguel, Lilián Abrascinskas, Roxana Vazquez, Verena Stolcke, Nilza Iraci, Suely Carneiro, Edna Roland, Estela Aquino, Jaqueline Pitanguy, Simone Diniz, Débora Diniz, Suely Oliveira, Gigi, Ana Bosh, Vera Baroni, Vanete Almeida, e Maria Betânia Ávila, que também presidiu o conselho do PAPAI por alguns anos. Vale mencionar que atualmente a coordenação geral do Instituto é de uma mulher, Mariana Azevedo.

O fortalecimento dessas redes locais, regionais, nacionais e internacionais, ao mesmo tempo em que auxiliou no processo de amadurecimento tanto do PAPAI quanto do GEMA, também tonificou a produção de conhecimento em gênero e sexualidade nas regiões norte e nordeste. Infelizmente, esse é um aspecto que acabou ficando de fora da narrativa dos autores. Mesmo que eles tenham comentado de maneira pontual os esforços, individuais e coletivos, em formar um contingente de pesquisadoras/es que trabalhem com essa temática. Trata-se de uma reflexão que não ganhou força na seleção das memórias, e que necessitaria, no mínimo, de um capítulo.

O diálogo entre academia e militância é outra chave importante para a construção do livro. Essa é uma via de análise que irá se dar pela circulação e participação das/dos pesquisadoras/es que integram o PAPAI e o GEMA em eventos nacionais e internacionais e do envolvimento em campanhas tanto on quanto off line. Essa relação será mais fortemente esquadrinhada da metade para o final do texto com vistas a lançar olhar para o caráter de gestão e a própria missão das organizações referidas.

Do período de 1999 aos dias atuais, uma série de inserções foram importantes para o reconhecimento, a visibilidade e o consequente amadurecimento do Instituto em torno da temática das drogas, dos direitos humanos e sexuais, do HIV/IST/Aids, da saúde pública. Cito os seguintes eventos e organizações que tiveram lugar nesse processo de consolidação: Seminário Itinerante Latino-Americano (SILA), I Conferência Internacional sobre Consumo de Álcool e Redução de Danos, Programa Nacional de DST/Aids, Associação Brasileira de Psicologia Social (ABRAPSO), Associação Brasileira de Redutoras e Redutores de Danos (ABORDA), Programa H, Seminários Brasileiros sobre Homens e Masculinidades. Além, sobretudo, de participarem das seguintes campanhas: Machismo não combina com saúde. Por uma atenção integral à saúde dos homens; Campanha do Laço branco: Homens pelo fim da Violência contra a Mulher; Paternidade: Desejo, Direito e Compromisso; Pai não é visita! Pelo direito de ser acompanhante no pré-natal, parto e pós-parto; Dá licença, eu sou pai! Pela ampliação da licença paternidade. Machismo não combina com Saúde!; A Diversidade é Legal! Pela promoção da livre sexualidade e de expressões de gênero e, Amor Livre! Pelo fim da homofobia; estas duas últimas refletem a atuação direta do PAPAI e do GEMA na organização das Paradas do Orgulho LGBT de Recife.

As iniciativas mencionadas mostram a expressiva atuação das/dos pesquisadoras/es de maneira que suas práxis políticas não se circunscrevem ao espaço da universidade. Nesse sentido, mesmo que indiretamente, a narrativa que é construída nos auxilia a pensar metodológica e estrategicamente o que devemos fazer para garantirmos rentabilidade à(s) nossa(s) presença(s) em espaços onde somos vistos, inicialmente, comooutsiders; quais as alianças devemos estabelecer; e tantas outras questões que irão definir, a longo prazo, nossa posição enquanto sujeitos do conhecimento. É sobre essa perspectiva textual que o livro é finalizado. A partir dos breves depoimentos de Mariana, Thiago, Regina e Sirley, presentes no posfácio, sobre suas distintas entradas no PAPAI, é possível perceber a emoção e a política se renovando, ou melhor, sendo oxigenadas por meio da transparência, confiança, compromisso, respeito e humor – princípios básicos da organização.

À guisa de conclusão, esse é um livro importante para o campo de estudos feministas e de gênero não somente porque trata de modo sistemático como articular militância e academia a partir dos processos de constituição de uma organização feminista que ousa trabalhar com homens e sobre masculinidades, assim como por se comprometer em desmistificar que o conceito de “masculinidade hegemônica” (Connell, 1995) nada mais é que um arquétipo precário de representação; garantindo, então, que um amplo debate se instaure sobre homens, masculinidades, saúde sexual do(s) homem(ns) etc., e, portanto, possibilitando que homens, reconhecendo o pioneirismo das lutas feministas, possam, ainda que nem todos se identifiquem enquanto feministas, se aventurar e ousar trabalhar com feminismos.

Desta feita, “feminista é o homem ou a mulher que diz: ‘Sim, existe um problema de gênero ainda hoje e temos que resolvê-lo, temos que melhorar’. Todos nós, mulheres e homens, temos que melhorar” (Adichie, 2014:35). Afinal, como alertam Medrado e Lyra: não se nasce homem, torna-se homem. Desse modo, é notável o ganho epistemológico e prático que o livro apresenta a respeito da relação e da inserção de homens que ousam trabalhar com feminismos dentro do campo dos estudos de gênero e sexualidade e, sobretudo, da militância feminista.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Adichie, Chimamanda Ngozi. Sejamos todos feministas. São Paulo, Companhia das Letras, 2014. 

Beauvoir, Simone de. O segundo sexo – volume único. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 2009. [1949]. 

Bourdieu, Pierre. Esboço de auto-análise. São Paulo, Companhia das Letras, 2005. 

Brah, Avtar. Diferença, diversidade, diferenciação. Cadernos Pagu (26), Campinas-SP, Núcleo de Estudos de Gênero-Pagu/Unicamp, jan./jun. 2006, pp.329-376. 

Butler, Judith. Problemas de gênero – Feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2003. [1990].

Collins, Patricia Hill. Black Feminist Thought: Knowledge, Consciousness and the Politics of Empowerment. New York, Routledge, 1990. 

Connell, Robert. Masculinities. Berkeley, CA, University of California, 1995. 

Davis, Angela. Women, Race and Class. United States, Random House, 1983. 

Halbwachs, Maurice. A memória coletiva. São Paulo, Centauro, 2006. 

Hooks, Bell. Ain’t I a Woman?: Black women and feminism. United States, South end Press, 1981. [ Links ]

Mcclintock, Anne. Couro Imperial – Raça, gênero e sexualidade no embate colonial. Campinas-SP, Editora da Unicamp, 2010. 

Miceli, Sergio. Introdução. In: Bourdieu, Pierre. Esboço de auto-análise. São Paulo, Companhia das Letras, 2005, pp.7-20. 

Piscitelli, Adriana. Recriando a (categoria) Mulher?. In: Algranti, Leila (org.). A prática feminista e o conceito de gênero. Textos Didáticos, nº 48, Campinas-SP, IFCH – Unicamp, 2002, pp.7-42. 

Pollak, Michael. Memória e Identidade Social. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 5, nº 10, 1992, pp.200-212. 

Rago, Margareth. A aventura de contar-se: feminismos, escritas de si e invenções da subjetividade. Campinas-SP, Editora da Unicamp, 2013. 

* Resenha de Medrado, Benedito; Lyra, Jorge. Produzindo memórias para alimentar utopias: Narrativas sobre uma organização feminista brasileira que, desde 1997, ousa trabalhar com homens e sobre masculinidades. Recife, Instituto PAPAI, 2015. Agradeço o cuidado que Ronney Alano Reis teve durante sua revisão gramatical do texto.
Cadernos Pagu - Unicamp

quinta-feira, 1 de abril de 2010

O corpo do brasileiro: estudos de estética e beleza


Queiroz, R. da S. & Otta, Ema. O corpo do brasileiro: estudos de estética e beleza, São Paulo, Senac, 2000, 181 pp.

Maria de Lourdes Beldi de Alcântara
Núcleo/Laboratório do Imaginário e Memória do Instituto de Psicologia - USP


Já pelo título do livro podemos parabenizar o organizador e seus autores, na maioria antropólogos, ademais de um sociólogo e uma psicóloga. Aqui, no Brasil, temos escassa produção antropológica relativa à questão do corpo, pois está ela sempre inserida em um debate maior sobre a diversidade cultural e seus modos de representação. Sendo assim, esse tema costuma ser abordado apenas em um capítulo ou subcapítulo de um trabalho antropológico ou etnográfico a respeito de uma determinada cultura.

A despeito do trabalho clássico de Marcel Mauss, As técnicas corporais, tal análise fica em geral perdida no meio das etnografias. A escolha deste tema é, pois, da maior importância, já que as práticas simbólicas corporais são fundadoras da ordem cósmica e social e a partir delas poderemos compreender as diferentes culturas.

Tomando a dicotomia natureza/cultura, onde se localiza o corpo e suas representações, se é ele, ao mesmo tempo, uma unidade biológica e uma construção social? É justamente neste cruzamento que os autores em pauta trabalham, oferecendo-nos importantes estudos teóricos e metodológicos. Mostram que é impossível separar estes dois universos, isto é, as representações culturais que se criam em torno da vivencia biológica. Neste intrincado domínio, apresentam eles uma questão importantíssima para as ciências humanas, já que, ao mesmo tempo em que o corpo é uma representação universal, ele identifica e apresenta a cultura. Desse ponto de vista, a estética corporal é um dado cultural que variará de acordo com cada concepção de mundo. A partir disso, os autores vão desenhar este intrigante e, por que não, estético livro sobre a questão do corpo, não um corpo qualquer, e sim o corpo do brasileiro e suas representações.

O primeiro capítulo analisa a concepção de beleza e como ela é construída numa intersecção entre o dado biológico e a representação cultural. Os seus autores, Renato da Silva Queiroz e Emma Otta, fazem aí uma leitura interdisciplinar, traçando um diálogo entre a antropologia e a etologia, cujo símbolo-chave é o corpo e as suas mais variadas concepções. Trata-se de um rico debate entre o inato e o adquirido que, como se sabe, caracteriza a nossa espécie Homo sapiens.

É a partir desta base teórica que os artigos serão desenvolvidos, demonstrando como, através da leitura sobre a estética corporal, o mosaico da cultura brasileira é construído, constatando-se, mais uma vez, a complexidade de nossa cultura. Por este prisma os artigos vão levantar as seguintes questões: poderíamos definir a cultura brasileira através dos vários olhares estéticos sobre o corpo? Se a resposta for positiva, como isso será analisado? É possível definir a estética brasileira como uma estética mestiça? É por meio dessas e de outras indagações que os autores traçam um interessante estudo sobre a construção do imaginário brasileiro relativo à estética do corpo.

Muito embora os textos apresentem vários olhares sobre a questão estética, a compreensão da construção simbólica será alcançada por meio de ambivalências: vertical e horizontal; áreas proibidas e não proibidas; exterior, interior; sagrado e profano; branco e preto; entre outras. Estes olhares irão variar de acordo com o lugar de quem atribui tais valores, ou seja, de acordo com uma visão popular ou da elite, literária e intelectual, fornecendo-nos uma visão estética polifônica de nossa cultura que, desde Gilberto Freire, é conhecida como "cadinho de raças". Dependendo do momento histórico, tudo isso vai ser concebido com uma conotação positiva ou negativa, como se pode avaliar mediante a leitura dos textos de Lilia Schwarcz e Teófilo de Queiroz Jr.

É ainda por meio dessa ordenação que as culturas se diferenciam e se identificam. Diante disso, o corpo configura-se como um mapa onde a identidade cultural se torna aparente, decifrável e ao mesmo tempo intrínseca (como nossos órgãos), mapa que precisa ser estudado, desvendado, para podermos melhor entender o significado simbólico de sua concepção de mundo. Nesse sentido o trabalho de Renate Vietler torna-se primoroso, apresentando-nos como o corpo é um paradigma privilegiado para a compreensão do universo simbólico Bororo.

Assim, parafraseando Marcel Mauss, o corpo, instrumento inato da espécie Homo sapiens, é transformado em corpo-representação, ou seja, um artefato cultural para se contrapor à fronteira que delimita aquilo que toda cultura chama de selvagem, promovendo assim a separação entre natureza e cultura, constructo filosófico que nos ajuda a esquecer que somos parte da espécie animal Homo sapiens.

Revista de Antropologia

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Sobre um fim em análise


Sobre um fim em análise

Irene Gondim GretherI; Alzira Costa de OliveiraII

IPsicóloga e psicanalista, mestre em Teoria Psicanalítica pela UFRJ e professora do Instituto de Psicologia e Psicanálise da Universidade Santa Úrsula. gigrether@yahoo.com.br
IIPsicóloga e psicanalista, mestre em Teoria Psicanalítica pela UFrJ, pós-graduada em Docência do Ensino Superior na Unicarioca e professora da Face-Bennett de Psicologia e Psicopatologia da Terceira Idade. costalzira@hotmail.com

Psicanálise interminável ou com fim possível?, de Theodor Lowenkron. Rio de Janeiro: Imago, 2007, 80 p.

Trata-se de uma obra que oferece uma contribuição decisiva para a transmissão da experiência psicanalítica. Tomando como base a narrativa clínica, o autor – um dos principais especialistas em psicanálise de nosso meio – utiliza-se, para cumprir seu objetivo, do recurso da transcrição de parte das sessões psicanalíticas realizadas com um dos seus pacientes durante seis anos. Seu estilo é preciso, num texto que por si só torna-se explicativo, e reúne os aspectos essenciais das consultas, permeados pela teoria e demonstrações práticas da mesma, o que torna acessível para o leitor, psicanalista ou não, conceitos bastante complexos, sem ser simplista.

Assim, ao apresentar o relato detalhado e envolvente do caso desse paciente, vai além do propósito terapêutico, no sentido de que se volta para a tríplice perspectiva da terapia, da investigação e do ensino, com base em sua sólida experiência como professor, pesquisador e clínico.

É importante ressaltar que tal obra é oferecida a nós por Theodor Lowenkron, um autor com experiência e competência para produzir um trabalho de significativa magnitude, uma vez que é, dentre muitos títulos, mestre e doutor em Psiquiatria pela UFrJ.

Inicia seu trabalho retomando um questionamento crucial para o campo da psicanálise, enquanto sustenta uma discussão importante sobre o fim da análise, em um contexto atual em que as análises intermináveis se configuram quase como uma lei.

Do ponto de vista clínico, trata-se de uma narrativa clínica bastante detalhada. Também por esse motivo é texto paradigmático, uma vez que essa modalidade de publicação cada vez mais fica escassa na comunidade analítica da atualidade. Isto, em oposição ao passado em que tais publicações eram costumeiras. Então, mais um motivo para se saudar a obra de Lowenkron como um resgate precioso na transmissão do campo teórico e clínico da psicanálise.

Seu relato ainda se faz sob a forma de um texto articulado a outras contribuições teóricas nesse campo, por meio de distintos olhares científicos, aproveitando-se assim da técnica da atenção flutuante, sob a forma de uma teoria flutuante proposta por ele, como a contrapartida do pesquisador analista; ou seja, busca enriquecer sua reflexão sobre o material clínico com autores que melhor possam contribuir para o entendimento das diferentes questões. Assim, autores como Winnicott, da escola inglesa e outros de origem francesa e norte-americana, são citados na abordagem teórica em diferentes etapas do trabalho. Dentre esses autores diferenciados, identifica-se no texto mais as semelhanças entre eles do que suas diferenças, quando o autor sempre oferece um gancho teórico apresentando assim uma postura voltada para o campo clínico, com enfoque para o processo psicanalítico e sua eficácia terapêutica.

Também somos convidados a valernos do uso da idéia da teoria flutuante em nossa clínica e também a acrescentar, se possível, outros aportes teóricos no exercício criativo de sua leitura.

O livro não esgota aí suas possibilidades já que reflete sobre a pesquisa em psicanálise, quando tal modalidade de prática teórica se torna cada vez mais rarefeita na comunidade psicanalítica. Mais uma vez o autor resgata a tradição freudiana na qual a experiência psicanalítica sempre serviu como fonte permanente da teorização em psicanálise.

Ao final, o autor apresenta suas considerações e conclusões. Enfatiza a importância do referencial teórico utilizado e ressalta ainda sua teoria flutuante, que torna essa obra uma demonstração viva que exemplifica e por isso auxilia no processo de esclarecer e habilitar o profissional de saúde no exercício da psicoterapia e, ao mesmo tempo, serve de estímulo e ajuda no enfrentamento de possíveis resistências, bem como no encorajamento para um estudo mais aprofundado dos conceitos fundamentais da psicanálise – e, em especial, o término da análise.

Considera que, embora Freud tenha marcado em sua teoria e prática a importância da investigação e da pesquisa, muitos de seus seguidores desconsideram que esse método se faça tanto na teoria quanto na prática. O professor Lowenkron vem reforçar deste modo que se revise essa definição da psicanálise para que ela possa continuar a considerar e estimular as pesquisas para o progresso desse saber no campo da saúde mental.

Referindo-se especificamente à avaliação da pesquisa clínica que deu origem ao livro, retoma as questões iniciais do estudo. Assim é que, em suas próprias palavras, ao decidir nomear a tese Psicanálise interminável ou com fim possível?, Lowenkron enfatiza o limite para o tratamento psicanalítico. Afirma que o objetivo da análise não é decifrar todas as peculiaridades do caráter humano em benefício de uma " normalidade" , também não se trata de exigir que a pessoa que foi completamente analisada esteja isenta das paixões ou de novos conflitos internos. Sendo assim, embora a análise tenha sua contingência intrinsecamente interminável e, sendo a experiência infinita para cada paciente – já que se impõe o interminável desejo –, isso não implica que a análise não deva ter concretamente um fim.

Para o principiante, os fatos relatados neste contexto científico e ao mesmo tempo numa forma literária – similar ao modelo que Freud utilizava em seus artigos sobre casos clínicos – possibilitam a oportunidade de acompanhar suas atividades psicoterápicas, nesta obra especificamente psicanalítica. Ao expor com generosidade sua prática, também nos é franqueado o espaço ético e clínico vivido tanto por Lowenkron como por seu paciente. Tal conduta acaba funcionando também como uma espécie de sala de consulta do psicanalista e sala de aula do professor e nos torna testemunhas de seu trabalho como pesquisador.

O livro constitui-se, assim, num exemplar único e indispensável para médicos, psicólogos, psiquiatras, psicanalistas, pesquisadores, demais trabalhadores de saúde mental e alunos de graduação das ciências humanas.

Revista Ágora - UFRJ

O possível e o impossível: contingências do ensino da psicanálise na universidade


O possível e o impossível: contingências do ensino da psicanálise na universidade

Ricardo de Sá

Psicanalista; membro do Tempo Freudiano Associação Psicanalítica; professor do Departamento de Psicologia/UFF. ricodesa@terra.com.br

Freud não explica: a psicanálise nas universidades, organizado por Anna Carolina Lo Bianco. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2006, 148 p.

O conjunto de artigos deste livro trata da delicada relação do discurso analítico com a universidade, partindo do pressuposto de que a função desse encontro não é a de explicar a psicanálise nem a de difundi-la para domínios mais amplos do que aqueles atingidos pela prática clínica. Assim sendo, de que modo e em nome de que é pertinente sustentar o ensino da psicanálise na universidade? São essas, basicamente, as questões que este conjunto de artigos se destina a responder.

Percebe-se que cada autor ilumina um ângulo do prisma multifacetado que se revela nesta relação. Certamente, não se trata de inserir a psicanálise na universidade para ensinar um saber que possa estar supostamente contido em seus conceitos. Isso introduz um impasse verdadeiro na prática do ensino da psicanálise que vemos perfilado ao longo dos artigos.

Escars, em " O leitor suposto" , entende que não é possível se pensar a transmissão da psicanálise sem lembrar que esta é operada sob transferência, visto que a posição de quem ensina determina a transmissão. Como efetuar, então, uma transmissão num dispositivo que privilegia o que há de universal no saber, ou seja, os predicados ao invés da enunciação do sujeito? Sua questão nos mostra que o ensino da psicanálise somente poderá atingir aquele que vier a recebê-lo a partir " de seu próprio inconsciente" . Sbano enfatiza o mesmo ponto, porém, valorizando a relação da psicanálise com a universidade hoje – um tempo em que a ciência e o capitalismo produziram efeitos incontestáveis. Seu reflexo mais contundente na universidade concerne ao fato de o professor não se responsabilizar mais pelos efeitos que seu endereçamento produz nos alunos. Zela apenas pela disciplina que ministra, corroborando, através da burocratização do ensino, a lógica do sistema de créditos que reduz a universidade a um posto de habilitação profissional. Mas, que efeitos essa mutação produz especificamente sobre o ensino da descoberta freudiana, dirigido aos alunos que ingressam hoje na universidade com suas dificuldades e resistências?

Para Julio de Castro, o ensino da psicanálise implica uma operação ética que lhe permite discernir duas dimensões que se articulam num perpétuo movimento de báscula: o ensino da psicanálise e a psicanálise do ensino. Ao nos conduzir às conseqüências dessa distinção, somos lançados mais uma vez à questão: o que se transmite do discurso analítico depende do ato de quem ensina.

Lo Bianco, baseando-se em Moisés e o monoteísmo (FREUD, 1938), utiliza a contraposição que ele estabelece entre uma tradição herdada e uma tradição comunicada para isolar o que é específico na transmissão analítica. Através dessa oposição, circunscreve o impasse do ensino da psicanálise na universidade. Se a intervenção analítica visa à emergência da verdade no real, torna-se incongruente com sua transmissão o recurso a um dispositivo que se apóia na comunicação de um saber. Para ela, a tentativa de fazer passar o saber recalcado no lugar da verdade ao lugar de agente visa positivar aquilo que é marcado pelo impossível.

Jeferson Pinto extrai dos impasses apontados por Lo Bianco alguns elementos que esclarecem a estrutura da relação do sujeito ao saber. O problema se impõe ao buscar ensinar uma prática que se funda na emergência singular do sujeito e que não encontra no saber universitário a possibilidade de uma formalização do caso-a-caso que a clínica exige. Por conta desta dissimetria, a psicanálise traz algo de novo para a universidade – uma posição " mais feminina" em relação ao saber. Ao tornar o sujeito mais afeito ao regime do contingente, ela possibilita fazer emergir uma verdade singular quando um saber se revela em fracasso.

Poli, ainda sobre a questão do saber, demonstra que essa intrincada relação universidade/psicanálise diz respeito, mais fundamentalmente, à ciência. As operações da ciência constituem o solo sobre o qual a psicanálise pôde emergir, na medida que a ciência foracluiu o que a psicanálise veio a recolher.

A que serve a psicanálise na universidade, uma vez que ela não depende desta para estar no mundo, posto que o trabalho de transmissão da qual ela depende é promovido e continua a ser realizado nas instituições analíticas? Isabela de Sá coloca a questão admitindo, porém, que a psicanálise não opera fora do mundo do qual ela tira suas conseqüências. Assim, ainda que saibamos que o discurso universitário é impróprio para a transmissão da psicanálise, não devemos esperar fazê-la operar apenas em um suposto território limpo. Na verdade, a psicanálise deve subverter o funcionamento universitário do sujeito mantido cotidianamente em nome da economia de seu próprio exercício.

Elizabeth Juliboni sustenta que o ensino de Lacan pôde transmitir a radicalidade da descoberta de Freud porque se estabeleceu como uma verdadeira barreira ao saber. Para tirar as conseqüências desta posição, ela percorre a teoria da linguagem de Lacan, destacando que é no fracasso inerente à comunicação que se inscreve um limite no interior da linguagem, sendo ele mesmo a causa que move a transmissão.

Por fim, o texto de Juliana Castro apresenta o cenário no qual está se desenrolando a globalização irreversível do ensino universitário e a conseqüente abolição do sujeito. Com a valorização da lógica empresarial e a adoção de instrumentos de gestão definindo protocolos de ensino, desaparece a heterogeneidade de lugares entre professor e aluno e a possibilidade de que o ensino seja transmitido a partir da transferência. Esta marcha progressiva dos fatos está a serviço da economia de responsabilização do sujeito, pois como alguém regulado por textos padronizadores, pronto a consumir um saber, poderá fazer-se sujeito a este saber?

Assim, encontramos em Freud não explica: a psicanálise nas universidades o questionamento do tema, porém, ao nos perguntarmos sobre as condições de seu ensino resta ainda interrogar em que implica entrar em contato com a descoberta de Freud pela porta da universidade.

Revista Ágora - UFRJ

O sinthoma: uma questão de escrita


O sinthoma: uma questão de escrita

Angélica Bastos

Psicanalista; professora associada no Programa de Pós-graduação em Teoria Psicanalítica da UFRJ. abastosg@terra.com.br


O seminário, livro XXIII: o sinthoma, de Jacques Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 2005, 249p.

Para o Seminário XXIII, lançado entre nós em 2005 graças à tradução de Sérgio Laia do original francês publicado nesse mesmo ano, confluem várias linhas do ensino que Jacques Lacan endereçou aos psicanalistas ao longo de várias décadas.

A começar pelo título, O sinthoma (Le sinthome), cuja grafia inova pela recuperação de uma forma antiga de escrever sintoma em francês, toda uma tradição de jogos de palavras, equívocos e homofonias, que Lacan coloca como operadores da interpretação, é por ele evocada, desde o abandono da forma antiga sinthome em benefício da grafia symptôme, a forma, digamos, moderna, adotada pela psicanálise até que ele fizesse essa intervenção. Neste seminário, trata-se do escritor James Joyce, depois de quem a literatura e a língua inglesa não puderam mais ser o que eram até então.

O seminário, cujo texto foi estabelecido por Jacques-Alain Miller, compõe-se de dez lições proferidas entre 18 de novembro de 1975 e 11 de maio de 1976. Ao final, encontram-se agregados alguns documentos de autoria de Jacques Lacan, Jacques Aubert e do próprio Jacques-Alain Miller, todos em torno de James Joyce. O texto de Lacan em anexo oferece uma chave de leitura para o seminário, posto que corresponde à conferência "Joyce o sintoma" (Joyce le Symptôme), realizada por ele em 16 de junho de 1975, por ocasião do 5º Simpósio Internacional James Joyce, ocorrido cinco meses antes do início do seminário. Embora o título do anexo ainda registre a grafia tradicional, o comentário sobre James Joyce invoca a distinção entre o pai como nome e o pai como aquele que nomeia, este último suscetível de pluralização, segundo os artifícios de nomeação que cada um forja. Assim, situa-se com clareza o pivô da grafia introduzida no decorrer da própria conferência: ali lemos que o tema é Joyce o sintoma, e não Joyce o símbolo, uma vez que este é abolido por Joyce, e que, por isso, não se trata do inconsciente, do qual ele estaria desabonado. Este sintoma, que não é símbolo, não constitui uma formação do inconsciente, mas uma suplência, pai que nomeia. De acordo com Lacan, Joyce visava fazer para si um nome e imortalizar seu nome próprio. A carência paterna de que sofria, teria levado o escritor, por intermédio de seu nome como autor literário, a construir uma versão para o pai, uma pai-versão (père-version) no sentido de uma versão em direção ao pai.

Na grafia reintroduzida, sinthome corresponde a uma nova forma de escrita: a escrita dos nós. O deslocamento ortográfico do termo psicanalítico sintoma para sinthoma dá as coordenadas de uma discussão eminentemente clínica que erige a arte literária do escritor James Joyce como "suplência de sua firmeza fálica" ou como "fiadora do falo". A partir daí, assistimos a uma seqüência de lições sobre o nó borromeano de três elos, sobre o nó borromeano em que real, simbólico e imaginário justapostos, quer dizer, separados, são ligados pelo quarto elo, o sinthoma, equivalente do pai. As aulas discorrem sobre o nó borromeano em suas diversas apresentações, sobre a falha a que o nó, ou melhor, a cadeia borromeana é suscetível e a correção que alcança por meio da obra. As epifanias são, então, entendidas como conseqüência do lapso do nó, vale dizer, a partir das relações entre os registros, em particular, a relação direta entre real e inconsciente, enodamento não mediado pelo terceiro, o imaginário. O caso Joyce, corresponde, segundo a proposta enunciada no seminário, a uma maneira de suprir um desenodamento do nó, em alguém cuja pretensão artística compensava a demissão paterna.

Ao longo dos comentários sobre as várias produções literárias de Joyce, destaca-se a convergência entre prática da letra e o saber-fazer com lalíngua (definida pelo conjunto de equívocos que lhe são possíveis), assim como as relações do sujeito com a escrita. Os efeitos da escrita sempre interessaram a Lacan, que os acompanhou desde o caso Aimée em sua tese de doutorado. Ele também os prescrutou no estudo das memórias de Schreber ao longo do Seminário III e na Questão preliminar a todo tratamento possível da psicose, culminando neste Seminário XXIII com a análise do uso que o escritor James Joyce faz de sua obra literária e dos efeitos de sua criação. Lacan ressalta o corte, o inusitado dessa literatura que, com seus neologismos, ressonâncias e homofonias translingüísticas, promove a perda do sentido, enquanto torna presente o gozo de quem escreve, conforme atesta Finnegans Wake, leitura vivamente recomendada por Lacan, à medida que nos faz acordar (wake) do sonho literário do sentido.

À escrita significante acrescenta-se, portanto, uma outra escrita. Na escrita significante, o uso da letra dá suporte ao significante; nesta outra modalidade de escrita, aquela dos nós, a letra não se encontra a serviço do significante, mas do gozo. O real da letra efetua a partilha entre o legível do significante e o ilegível, que, pelo próprio obstáculo à leitura, apresenta-se como objeto de estudo aos universitários que se dedicam à obra de Joyce há décadas e por muito tempo ainda, conforme o voto expresso pelo próprio escritor. O livro revolve o inconsciente, a linguagem e o corpo, indicando que o sinthoma, qualquer que seja sua grafia, excede o sintoma entendido como formação do inconsciente; que a linguagem, longe de impor uma estrutura, sofre os efeitos de decomposição e homofonia que lalíngua exerce sobre ela; e que o corpo, para que o falante o faça seu, requer amarração, nó que só o nome é capaz de atar.

A loucura de Joyce permanece no estatuto de interrogação e as pulsões, definidas como "eco, no corpo, de que há dizer um dizer", abrem uma via de abordagem da corporeidade – entendida como saco ou bolha, sustentada por orifícios. O poder que possui a forma para cativar o falante o faz acreditar que tem um corpo, o qual, na verdade, escapole. O caso Joyce mostra os percalços a que está sujeita a idéia de si como corpo e a necessidade de escrever um ego, quando o ego dito narcísico não funciona.

Desse percurso, decanta-se que "A psicanálise, ao ser bem sucedida, prova que podemos prescindir do Nome-do-Pai. Podemos sobretudo prescindir com a condição de nos servirmos dele". Essa colocação abre um novo campo de pesquisa vetorizado pela invenção, pela suplência, permitindo abordar casos de psicose e autismo que, com base no ensino dos anos 1950, permaneciam sob o peso da redução a zero do Nome-do-Pai e do falo.

Se o real era, para Lacan, sua resposta sintomática, reduzindo a invenção ao sinthoma, para o analista, ele deixa considerações sobre o fim da análise e uma pontuação capaz de orientar a leitura do seminário e a prática clínica: não é a psicanálise que é um sinthoma, mas o psicanalista.

Revista Ágora - UFRJ

Vôo brasileiro


Vôo brasileiro

Ana Vicentini de Azevedo

Psicanalista, membro do Corpo Freudiano. Professora da Universidade Federal de São Carlos (SP), anavica@terra.com.br

Freud and the invention of jewishness, de Betty B. Fuks. New York: Agincourt Press, 2008, 129 p.

No prefácio à edição brasileira do inquietante poeta coreano, Yi Sáng, o tradutor Yun Jung Im traz uma reflexão importante acerca do estilo fragmentário do poeta, que, segundo alguns, produz "cacos de poesia". Interrogando-se sobre as complexas ressonâncias dos dois ideogramas chineses para 'tradução', afirma Jung Im que "o primeiro ideograma significa 'farfalhar, voar, subverter [...], virar'" (O olho.de.corvo e outras obras poéticas de Yi Sáng, Perspectiva, 1999), ressaltando ainda que sua composição se dá a partir de 'vez'e de 'vôo'. Já o segundo ideograma para o vocábulo 'tradução' é, ele também, um composto, tendo por base duas idéias centrais: a idéia de 'palavra', por um lado, e, por outro, a de 'rede' e de 'boa fortuna'.

As observações deste tradutor oferecem um rico ponto de partida e um convite à reflexão sobre a recente tradução para o inglês do livro de Betty B. Fuks, Freud e a judeidade: a vocação do exílio (Jorge Zahar, 2000), que em inglês recebeu o título mais conciso de Freud and the Invention of Jewishness.

À luz dos comentários de Jung Im, um primeiro aspecto se salienta: a tradução é um vôo que tece redes de palavras produzindo agitações, tremulações ou quem sabe até subversões. De fato, este é o enquadre em que podemos situar o vôo do trabalho de Fuks do Brasil para os Estados Unidos. Ele tem o privilégio de abrir uma série de publicações da recém inaugurada editora Agincourt Press, cuja orientação central é a de publicar textos "não exatamente 'de' ou 'sobre' psicanálise, mas textos que tenham interesse para o trabalho analítico, para os analistas e para aqueles que refletem sobre o impacto da psicanálise no pensamento de nosso tempo", como declara Paola Mieli no prefácio ao livro de Fuks.

O vôo inaugural do livro de Betty Fuks traz outro atributo importante, também destacado no desdobramento dos ideogramas chineses para tradução: ele é parte importante de uma rede, rede esta de vários matizes. Em primeiro lugar, ele integra uma rede de palavras, um trabalho da palavra e com a palavra, na trilha aberta por Freud para a psicanálise. Talking cure, batizou-o Anna O. O trabalho analítico, tal qual definido por Freud em seus múltiplos contornos, tem na palavra, na rede de palavras — ou na cadeia significante, como conceitualizou-a Lacan —, sua espinha dorsal. O sujeito do qual se ocupa a psicanálise é o sujeito como efeito desta rede de palavras. Uma rede que será tecida na busca incessante por palavras que possam tudo dizer. Tal experiência se mostrará para esse sujeito como sempre faltosa, como "cacos da poesia", tal como posta em cena pelo trabalho poético do jovem Yi Sáng.

Os poetas, na qualidade de artífices da linguagem — aliás, como o foi também Freud —, estão advertidos da natureza fragmentária desta rede: uma rede é "uma porção de buracos, amarrados com barbante..." como escreveu Guimarães Rosa em Tutaméia. A assunção deste vácuo que é ao mesmo tempo constitutivo e constituinte do texto literário é uma posição estética clara destes dois escritores — Yi Sáng e G. Rosa. Mas é também uma posição ética elaborada e sustentada por Freud desde os fundamentos da psicanálise, em A interpretação dos sonhos. Sempre faltará um significante que possa dizer (d)o sujeito completamente, daí este ser faltoso, esse fala-ser dividido que cria sua fala a partir do vazio, ao mesmo tempo em que o cria. Nesse ponto da rede, amarram-se poesia e psicanálise.

A ênfase lacaniana dada à ética fundadora de Freud no que se refere ao estatuto da palavra na experiência do sujeito e no trabalho analítico é retomada com vigor ao longo do livro de Fuks. O privilégio é igualmente dado ao texto, especialmente à herança advinda da tradição talmúdica do trabalho do texto e com ele. Trata-se, para Fuks, "de uma fundação ética que se assenta na primazia da palavra".

Nesta tradição, a dialética presença-ausência que marca a experiência com a palavra constitui um dos centros de confluência para a autora articular a construção freudiana com uma outra construção — a de judeidade. Em outros termos, tanto para a psicanálise como para certa vertente de interpretação da herança talmúdica, estamos muito distantes de uma posição metafísica de sustentação de uma essência, de uma fixidez, do humano, do sujeito, do "ser judeu". Não se trata de ontologia, mas da sustentação de uma concepção da subjetividade e da linguagem como instâncias de produção de metáforas, de produção de torções na linguagem a partir do vazio e como modo de fazer frente a ele.

Para essa empreitada analítica, em seu sentido de desmontagem, ou se quisermos, com Derrida, de desconstrução, Fuks convoca ao diálogo pensadores que, não à toa, se notabilizaram justamente por teorizar o literário, tais como Derrida, Blanchot e Barthes. Para indicar a pertinência e riqueza das escolhas de Fuks na tessitura de sua densa rede de articulações, basta lembrar um comentário de Derrida em A escritura e a diferença sobre o estatuto do literário: a "experiência de conversão que instaura o ato literário escritura ou leitura, é de uma espécie tal que as próprias palavras 'separação' e 'exílio', designando sempre uma ruptura e um caminho no interior do mundo, não conseguem manifestá-la diretamente[,] mas apenas indicá-la por uma metáfora (...)"

Freud acentuou em O mal-estar na civilização que "a escrita (...) é a fala [sprache] do ausente". É rigorosamente sob essa ótica freudiana que Fuks privilegia a dimensão da escrita (ou escritura, como preferem algumas traduções da noção francesa de écriture). Com ela nos afastamos de um mero jogo opositivo, imerso na lógica imaginária de ou/ou, como por exemplo, entre fala ou escrita; entre presença ou ausência, para torná-lo triádico: a escrita traz à baila a lógica que marca o simbólico, na medida que em ato, em presença, há não apenas presença e ausência, mas também presença do ausente, como marcou Freud.

Este traço leva-nos a um outro elemento importante do vôo do trabalho de Betty Fuks para o inglês. Mais uma vez a referência à escrita ideogramática chinesa e suas convocações ao trabalho de leitura, de tradução são pertinentes. A tradução é uma atividade de deslocamento, de transposição, como sugere o vôo. Freud cunhou um conceito específico para este tipo de vôo: Übertragung, transferência.

Por ser um balizador da clínica, a transferência é, desde Freud, um conceito fundamental da psicanálise, como ressaltou Lacan, daí decorrendo inclusive sua amplitude teórica. Desta amplitude, é importante destacar aqui alguns sentidos do conceito e do termo alemão que dizem respeito a Übertragung do livro de Fuks para o inglês. Um primeiro sentido da transferência remete-nos à noção de ligação. O lançamento de Freud and the Invention of Jewishness em Nova York, recentemente, é resultado de uma transferência de trabalho entre alguns analistas do Brasil e de Après-Coup Psychoanalytic Association, instituição que inclusive apoiou financeiramente sua tradução e publicação.

Sabemos das múltiplas e complexas formas de resistências ao discurso analítico nesse país, desde os comentários de Freud, notadamente em "A questão da análise leiga" (1926), até a atualidade. Nesta desmontagem da psicanálise, igualmente sabemos do papel preponderante desempenhado por alguns analistas judeus que tiveram que fugir do nazismo, emigrando para os Estados Unidos, mas não somente estes. Antes deles, Abraham A. Brill, por exemplo, judeu oriundo do império austro-húngaro e fundador da New York Psychoanalytic Society, em 1911, destaca-se como o mais forte opositor a Freud no debate sobre a questão da análise leiga. Mais tarde, nas décadas de 1950 e 60, a psicologia do eu toma fôlego ímpar com os trabalhos de Hartmann, Kris e Loewenstein. Tendo em vista tal contexto, a articulação de Betty Fuks em Freud and the Invention of Jewishness adquire um valor e uma importância ainda mais notáveis. A ética psicanalítica do rigor à palavra, à escrita, juntamente com a assunção de que "o eu não é senhor em sua própria casa" é entrelaçada com o rigor da tradução talmúdica da letra e com a "especificidade da ética judaica de abertura ao Outro".

Traduzir essa articulação, mantendo o delicado equilíbrio entre a cadência e a fluidez da língua e o rigor conceitual — traços do estilo de Fuks na versão original — é o aspecto que destaco para encerrar esse breve comentário. A Übertragung contempla também o sentido de transformar algo em sentido figurado, ou seja, de produção de linguagem figurada. Ao invés da tradução traidora, do traduttore traditore temos em Freud and the Invention of Jewishness um vôo da palavra, mantida em sua errância e dando notícia "da vocação do exílio" (preciso e precioso subtítulo de Fuks, lamentavelmente excluído da versão em inglês) que marca tanto o sujeito do inconsciente quanto a judeidade.

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