terça-feira, 18 de setembro de 2018

O pecado original da República



Veredas e labirintos de uma História

Cecilia Helena L. de Salles OliveiraI
IMuseu Paulista da Universidade de São Paulo, São Paulo, São Paulo, Brasil.

CARVALHO, J. M.. O pecado original da República, . Debates, personagens e eventos para compreender o Brasil. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2017. 296pp.

Reconhecido pela vasta produção acadêmica e pelas contribuições ao estudo da formação histórica do Brasil, José Murilo de Carvalho lançou, pela recém-criada casa editorial fluminense Bazar do Tempo, coletânea de artigos voltada para públicos mais amplos e não especializados. Como ele próprio assinala na Introdução, são "trabalhos mais leves", em linguagem menos aprisionada aos protocolos do historiador e do cientista político, visando facilitar a leitura e a compreensão de episódios, personagens e interpretações sobre a história política do país nos séculos XIX e XX. O objetivo é reunir e tornar mais acessíveis textos dispersos, de visível engajamento político, editados em jornais e revistas de divulgação, ou apresentados originalmente na forma de conferências proferidas em instituições, como a Academia Brasileira de Letras e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

São 43 trabalhos, escritos entre 1999 e 2017, organizados por Ana Cecilia Impellizieri Martins e Luciano Figueiredo, distribuídos em cinco grandes blocos que procuram articulá-los de forma temática. Desses, apenas um é inédito, os demais, mesmo os textos de conferências, já foram editados, alguns pela terceira vez. Mas esses aspectos, que poderíamos considerar de natureza formal, não comprometem o impacto da coletânea que se caracteriza pela evidente manifestação do autor contra os "desvios" passados e presentes da República e pela abordagem de questões centrais ao debate sobre a nação e a identidade nacional brasileiras. Permeiam os artigos ora a indignação frente ao que Carvalho define como "a entrada tardia do povo na esfera da política" (p.8), ora a denúncia da "nossa dificuldade" em construir uma democracia que seja capaz de desfazer desigualdades sociais.

O formato da obra e sua destinação procuram atender demandas pela história e pela memória nacionais, o que tem se mostrado uma constante contemporaneamente, como já observaram Beatriz Sarlo e Pierre Nora. No entanto, seu conteúdo não decepciona pesquisadores, professores e historiadores de profissão. Ao contrário, alarga polêmicas e acirra controvérsias que vêm se desdobrando desde o século XIX e que datam do momento mesmo em que eram discutidas as possibilidades de organização de um Império constitucional na América.

Os assuntos e questões apresentados envolvem tanto procedimentos relativos à escrita da História (a exemplo dos artigos "Brasil de Noel a Gabriel" e "Biografia tem dono?") quanto avaliações sobre condicionamentos e peculiaridades da emergência da nação e do Estado nacional no Brasil, tema que, sobretudo às vésperas das comemorações do Bicentenário da Independência, adquire enorme repercussão.

Os artigos selecionados pelos organizadores remetem a propostas analíticas lançadas por José Murilo de Carvalho nos anos 1980 e 1990 quando da edição de algumas de suas obras mais conhecidas e estudadas: A construção da Ordem (1980); Os bestializados (1987) Teatro de sombras (1988) e A formação das almas (1990). A coletânea realimenta, assim, discussões em torno dos significados da República e da democracia, ao mesmo tempo em que Carvalho expõe suas próprias expectativas para o futuro.

O título escolhido - O pecado original da República - por si só provoca inúmeras ilações. Reproduz e realça a denominação dada ao primeiro bloco de artigos do livro e ao texto de abertura da coletânea, escrito em 2005. A metáfora foi usada pelo autor para indicar que, desde os primórdios, os idealizadores e dirigentes do regime republicano cometeram erros e faltas, dos quais o "pecado" maior foi, segundo Carvalho, a exclusão do "povo" da política e da esfera pública. As ações políticas do "povo", no século XIX e, particularmente, ao longo do século XX, teriam resultado em manifestações de rua fora dos espaços tradicionais de ação político-partidária, sem que, todavia, o sistema legal de representação se modificasse. Esse teria se caracterizado sempre pela "ausência do povo" e, portanto, não haveria no Brasil, desde a Independência até o momento presente, um governo verdadeiramente representativo. Nas circunstâncias atuais, os processos de inclusão política e de representação seriam fragmentados e agiriam na direção do agravamento das distâncias entre Estado e sociedade, elites e "povo", distâncias essas mensuradas pela enorme e persistente desigualdade social. Nesse ponto, ao "pecado original" aliam-se, segundo o autor, outros quatro "pecados capitais" a ancorar a formação nacional: a escravidão, o latifúndio, o patriarcalismo e o patrimonialismo (p.36-41).

A insistência na metáfora do "pecado", que sem dúvida pode gerar curiosidades em torno do livro, remete a complexo universo de práticas políticas e culturais, não explicitado na coletânea, mas que vem sendo profundamente debatido há tempos pela historiografia dedicada à política no Império e na República. A noção de pecado relaciona-se à violação individual de preceitos, à desobediência a normas morais e de conduta, bem como à consciência cristã do bem e do mal. O "pecado original" foi herdado por toda a humanidade e sua remissão exige não só a demonstração da fé nas leis de Deus, como o exercício de ações que possam expiar a culpa. Mas, trata-se de ação-pensamento de foro íntimo, muito embora possa exercer interferências familiares e sociais. Na Epístola aos Romanos, Paulo prega: "Eis porque, como por meio de um só homem o pecado entrou no mundo e, pelo pecado, a morte e assim a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram...". Mais adiante, registra: "[...] assim como pela falta de um só resultou a condenação de todos os homens, do mesmo modo, da obra de justiça de um só [Jesus Cristo] resultou para todos os homens justificação que traz a vida...." (A Bíblia de Jerusalém, 1989, p.2127).

Estabelecer a sinonímia entre o regime republicano e a inobservância de preceitos morais interpretados como basilares para a vida individual e coletiva sugere, de imediato, a existência subjacente de um modelo de República. Percorrendo os vários artigos é possível encontrá-lo. Uma primeira aproximação em relação à forma exemplar de governo está no destaque atribuído a observações do jesuíta Simão de Vasconcelos, feitas em 1663: "Nenhum homem nesta terra é repúblico, nem vela ou trata do bem comum, senão cada um do bem particular" (p.48). Para o autor, a frase espelha a impossibilidade de o "brasileiro" ser efetivamente republicano, em razão de não seguir as leis, desejar privilégios, solicitar proteções em troca de favores e usufruir do Estado e dos recursos públicos como se fossem suas propriedades pessoais. Em outra passagem, Carvalho considera que a falta de enraizamento de práticas republicanas articula-se, entre outras razões, ao fato de que no Brasil grandes mudanças aconteceram sem que houvesse uma "revolução", o que é "nosso mérito e nosso drama" (p.69). Mérito, porque as mudanças ocorreram sem os custos sociais que as revoluções provocam. Drama, porque as mudanças não modificaram as estruturas sociais e "agravaram a dificuldade de viver sob o governo da lei" (p.69).

Mas o leitor pode compreender com traços mais nítidos o desenho que Carvalho propõe para a República a partir dos artigos dedicados a alguns dos protagonistas da História do Brasil e daqueles que foram reunidos sob a denominação "Nação impenitente". Merece destaque o estudo elaborado sobre as figuras de D. Pedro II e Euclides da Cunha (p.127-40). De modo comparativo, o autor procurou mostrar que em suas trajetórias ambos haviam desenvolvido o "espírito republicano", assim como o fizera Frei Caneca. Lutar pelo bem comum em detrimento de interesses pessoais e familiares seria a virtude maior de um republicano e estaria materializada na defesa da justiça e da liberdade, "na gestão honesta e eficaz dos dinheiros públicos" (p.138), na simplicidade das condições de vida dos governantes, no amor à pátria, no respeito ao "povo", práticas que, segundo o autor, nunca foram incorporadas pelos governantes tampouco pela maior parte da população.

Dentre as exceções estariam, ainda, segundo o autor, Tiradentes e Juscelino Kubitschek. Foram mobilizados para exemplificar tanto a "epifania da linguagem moderna e republicana" à época da Inconfidência como sua atualização no século XX (p.196), pois suas atitudes seriam condizentes com a iniciativa individual, a crença no progresso, a valorização de mudanças e a defesa da liberdade. No tocante a Tiradentes, o autor se refere a uma sonhada "República Florente" (p.199), tema por ele recuperado em recente carta aberta que fez circular pela internet. No documento, Carvalho explicita que o regime idealizado por Tiradentes permanece como inspiração para todos os que, como ele próprio, continuam na luta contra os donos da "República delinquente".

Entretanto, as personagens privilegiadas na coletânea parecem casos isolados, que surgem de tempos em tempos, mas que não representam o conjunto da sociedade e também eles, em função desse descolamento, apontam caminhos que desembocam reiteradamente em fracassos ou então em legados desperdiçados e esquecidos. "[...] Passados mais de cinco séculos, é preciso admitir que nossos melhores sonhos têm sido sistematicamente frustrados por nossa incapacidade em torná-los realidade. A retórica do ufanismo só serve para encobrir nossa frustração como povo e como nação..." (p.243).

Nesse sentido, para Carvalho, a nação e a identidade nacional seriam construções políticas e representações sem substância, porque incompletas, sempre à espera de acabamento. Ao desajuste e às distorções entre sociedade e República corresponderia a imoralidade dos nexos entre interesses públicos e privados. "Impenitente", incapaz de expiar e se redimir dos "pecados", a nação não consegue se realizar como formação social, equiparada às demais. Carente de forças internas que pudessem sustentar o autogoverno a nação estaria vulnerável (ou refratária) à atuação de homens excepcionais, que como faróis fariam iluminar o percurso da salvação? Poder-se-ia perguntar: tal como o Cristo descrito pelo apóstolo Paulo que lavou o pecado original do mundo?

As interrogações levantadas em relação à nação e à República se reproduzem, também, em relação ao "povo". Questão central aos artigos que se debruçam sobre as significações e práticas da cidadania, o "povo" foi apresentado pelo autor com diferentes qualificações. No século XIX, haveria um "povo eleitoral", constituído pelos votantes; um "povo político", formado pelos que tinham direito de voto, mas nem sempre o exerciam; e o "povo excluído", maioria composta por analfabetos, mulheres, estrangeiros e menores de 21 anos (p.13-18). Mas, nos dias de hoje, haveria vários "povos": "o povão das políticas sociais"; o "povo organizado em sindicatos e associações; o povo das redes sociais" (p.26-7). Ora exposto como vítima de políticas excludentes das elites - que parecem igualmente sucumbir a suas próprias faltas morais ecoando a nação "impenitente" -, ora parte de uma sociedade em busca de sua própria história e identidade, o "povo" aparece também, como na imagem estampada na capa da coletânea, na condição de pilar do mundo político.

A ilustração reproduz a figura publicada no n.113 da revista O Malho, que circulou na cidade do Rio de Janeiro, em 12 de novembro de 1904,1 e traz a seguinte legenda: "Zé Povo: Sim, sim! Sou o Atlas da República; mas é preciso que o governo não me enfraqueça, nem me sobrecarregue muito.... do contrário não aguento... e vai tudo por água abaixo...". Tendo ao fundo a baía da Guanabara iluminada pelo sol, o desenho mostra, ironicamente, um homem franzino carregando nas costas um enorme globo azul, representando o céu da República, com a inscrição "Ordem e Progresso", sobre o qual estão ainda amontoados alguns dos políticos da época, como Rio Branco e o então presidente Rodrigues Alves, entre outros.

Atlas faz parte da mitologia grega e geralmente é idealizado como forte e robusto. Era um dos Titãs que investiram contra o poder de Zeus. Derrotado, foi condenado a sustentar eternamente o céu olímpico em suas costas. Foi excluído do Olimpo com todas as demais forças do mal, a exemplo dos Gigantes. Está associado, desse modo, à imagem do portador e do sofredor, sendo aquele que é obrigado a carregar, para sempre, o peso da materialidade, escravo dos sentidos e da existência física, contrapondo-se a Zeus e aos demais deuses que usufruíam das benesses da liberdade, da imortalidade e da ambrosia.2

Em uma primeira leitura, a charge pode ser interpretada como uma crítica contundente dos redatores da revista ao regime republicano, e mais ainda ao governo daquele período. Mas era, também, uma advertência aos governantes. O povo que sustentava nos ombros o peso do Estado e dos políticos que o regiam poderia não mais suportá-los. Apenas para situar o momento da publicação do desenho, naqueles dias de novembro de 1904 ocorreu a Revolta da Vacina - tratada em um dos artigos da coletânea - e outras manifestações populares se insurgiam contra as reformas urbanísticas promovidas na capital federal pelo prefeito Pereira Passos.

Mas, por outro lado, a ilustração abre uma senda para problematizar a metáfora do "pecado", porque alude a formas de dominação e exploração que não coadunam com a moral cristã a não ser por meio de retórica. Seria possível, então, compreender a promiscuidade entre a esfera pública e interesses particulares no passado e no presente da República - questão fundamental nos estudos sobre a formação da sociedade brasileira - por intermédio de outras leituras que não a da oposição recorrente entre bem e mal. Além de relativizar possíveis clivagens entre o céu da República e o mundo social que o sustentava, a imagem faz recordar observações elaboradas por Hannah Arendt (1988). Ao debruçar-se sobre as revoluções dos séculos XVIII e XIX, a filósofa evidenciou que a construção da liberdade política, dos espaços de cidadania e dos governos representativos - marco da Revolução Francesa e das independências americanas, nas quais se insere a do Brasil - foi atravessada pela mais brutal violência, inscrita não no cometimento de "pecados", mas na configuração de uma nova ordem mundial no qual a propriedade se tornou o fundamento da liberdade e, simultaneamente, da opressão. Para que alguns setores da sociedade pudessem exercer a liberdade de governar e decidir sobre os destinos públicos, muitos outros foram excluídos da participação ativa na política, posto que submetidos ao reino da necessidade e da produção incessante, sem a qual o Estado liberal e o correlato processo de acumulação e lucro não poderiam se concretizar.

O que quero dizer é que se a coletânea caminha por certas "veredas" interpretativas, expressão usada por Carvalho na Introdução em referência à obra de Guimarães Rosa, existem à disposição do leitor outras possibilidades de entendimento da História do Brasil. Dada a complexidade dos processos de configuração da nação e do Estado Nacional, são "veredas" diferentes daquelas que o leitor vai aqui encontrar, porém também merecem ser percorridas. Podem seguir paralelas às desta coletânea, podem ser divergentes, podem até ser convergentes em algum momento do trajeto, mas, sobretudo, quanto maior for seu número e a extensão de seus matizes e pressupostos mais profundamente poderemos conhecer e compreender práticas e concepções políticas que estão na origem da sociedade a que pertencemos. À imagem das "veredas" talvez seja possível agregar a metáfora do "labirinto", usada por Gabriel García Márquez (2007) para descrever a última viagem imaginária de Simón Bolívar. Ao revisitar lugares, pessoas e referências territoriais com as quais se defrontara durante as guerras de libertação, o general espantou-se com detalhes, ações e circunstâncias das quais não tinha memória e que pareciam ser inéditas para ele, o que o obrigou a percorrer por dentro e pelo avesso suas próprias convicções. Entre "veredas" e "labirintos", a coletânea de José Murilo de Carvalho é de consulta obrigatória, já que as propostas por ele defendidas trazem pertinentes motivações para rever e confrontar, à luz de ampla bibliografia recente dedicada aos temas discutidos, não só eventos e protagonistas como percursos e meandros da História do Brasil.

NOTAS
1A revista O Malho começou a circular, na cidade do Rio de Janeiro, em 1902, e com algumas interrupções foi publicada até 1954. Dela fizeram parte alguns dos mais importantes desenhistas e caricaturistas do país naquele período, entre os quais J. Carlos e Angelo Agostini. A coleção está disponível em formato digital na página da Casa de Rui Barbosa. Ver: .

2Sobre o tema, consultar Vernant (2000).

REFERÊNCIAS
A Bíblia de Jerusalém. 4ª. Impressão. São Paulo: Edições Paulinas, 1989. p.2127.
ARENDT, H. Da revolução. São Paulo: Ática, 1988. 
CARVALHO, J. M. O pecado original da República. Debates, personagens e eventos para compreender o Brasil. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2017. 296p. 
MÁRQUEZ, G. G El general en su laberinto. 5 ed. Buenos Aires: Debolsillo, 2007. [
VERNANT, J.-P. O universo, os deuses e os homens. Mitos gregos contados por Jean-Pierre Vernant. São Paulo: Cia. das Letras, 2000. 

Cecilia Helena L. de Salles Oliveira foi diretora do Museu Paulista da USP (2008/2012). Atualmente é professora titular sênior na mesma instituição e pesquisadora CNPq. @ - psalles@usp.br
Revista Estudos Avançados

Encontros. Nise da Silveira


Sem medo do inconsciente

Yudith RosenbaumI
IFaculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, São Paulo, Brasil.

MELLO, L.. Encontros. Nise da Silveira. São Paulo: Azougue Editorial, 2009.

Conhecer a psiquiatra Nise da Silveira (1906-1999) através de entrevistas e depoimentos que concedeu entre 1976 e 1997 é uma experiência transformadora. Ao reconstituir a trajetória de uma das maiores profissionais da área de saúde mental do país, o livro Encontros. Nise da Silveira realiza uma justa homenagem e acrescenta uma página valiosa no registro da memória científica e cultural do Brasil.

Ao longo de décadas, desde que criou nos anos 1950 o Museu de Imagens do Inconsciente, a Casa das Palmeiras e o Grupo de Estudos C.G. Jung, Nise da Silveira revolucionou a psiquiatria tradicional e apostou numa forma humanista e criativa de ajudar seus pacientes. Incomodada com os diagnósticos aprisionantes dos médicos psiquiatras, ainda cativos da taxonomia conservadora do alemão Emil Kraeplin (1856-1926), Nise rebelou-se contra os tratamentos e medicamentos adotados na época pelo Centro Psiquiátrico Nacional no Engenho de Dentro, onde trabalhava desde 1944. "Aquele miserável daquele português Egas Moniz, que ganhou o prêmio Nobel, tinha inventado a lobotomia", diz Nise a Ferreira Gullar, na bela entrevista que abre o livro. Outros métodos, recém-chegados ao Brasil, também foram rejeitados por ela, como o eletrochoque de insulina e cariazol. Mas sua revolta era, sobretudo, contra o olhar médico, pouco sensível ao ser humano que sofre.

O leitor logo estabelece empatia com a médica psiquiatra que, em seu primeiro treinamento, diante de um paciente na maca, se recusa a apertar o botão do choque. Recorrendo ao diretor geral, que aposta na novata e suas ideias excêntricas, Nise consegue autorização para renovar o setor de Terapêutica Ocupacional, bastante atrasado por usar doentes para serviços de limpeza, sem nada mais a oferecer. Aí nasce o novo modelo de cura, transformando uma pequena enfermaria numa sala de estar com oficinas de trabalhos manuais, chegando a 17 salas, como costura, modelagem, pintura, marcenaria etc. "A inovação consiste exatamente em abrir para eles [os pacientes] o caminho da expressão, da criatividade, da emoção de lidar com os diferentes materiais de trabalho", resume Nise. O que hoje é consenso, na época era absoluta vanguarda.

Importante ressaltar aqui como a experiência de ter sido presa na ditadura Vargas foi determinante para a renovação do setor de terapêutica ocupacional, quando Nise retoma seu posto no serviço público, em 1944. Antes disso, em 1933, Nise havia sido aprovada no concurso para médica psiquiatra do Hospital Nacional de Alienados da Praia Vermelha, na Urca, o mesmo em que Lima Barreto foi internado pela primeira vez em 1914. No mesmo hospício, Nise tinha ocupado um quartinho para estudar para o concurso (e também conviver com os loucos...), quando foi denunciada por uma enfermeira que viu os livros marxistas em sua mesa. Mas a reclusão trouxe uma lição definitiva: "Todo preso procura uma atividade, senão sucumbe mentalmente", afirma Nise, em outra entrevista do livro.

De fato, a prisão de Nise por mais de um ano, sem provas e sem processo jurídico, logo após a Intentona Comunista de 1935, retorna em várias entrevistas e revela a força e resistência dessa mulher, de fragilidade apenas física. Tendo enfrentado o mundo masculino para estudar medicina nos anos 1920, Nise sabia nadar na contracorrente e também não se rendeu ao Partido Comunista, desligando-se após algumas reuniões: "Eu não pertenço a nenhuma sociedade, nem mesmo à Junguiana. Está claro que a minha posição é de esquerda, mas não sou pessoa de se colocar nenhuma coleira no pescoço. Eu vou andando pela vida, fazendo rupturas" (p.149), diz Nise em depoimento à revista Bric a Brac, em 1977.

Mesmo sem ser ativista, Nise é levada à famosa "Sala 4" para réus primários do Presídio Frei Caneca, onde se dá seu comovente encontro com o conterrâneo alagoano Graciliano Ramos, imortalizado nas páginas de Memórias do cárcere, reproduzidas neste volume. A amizade com o autor de Vidas secas seguiria, após a prisão, nos cafés e livrarias do Rio de Janeiro. Não teria a mesma sorte Olga Benário, mulher de Luis Carlos Prestes e colega de Nise dos tempos de clausura, entregue aos nazistas pelo governo de Getulio Vargas.

A partir de sua soltura, o percurso de Nise não cessa de criar novos territórios no Hospital Pedro II, ex-Centro Psiquiátrico Nacional de Engenho de Dentro, atual Instituto Municipal Nise da Silveira. As produções artísticas dos esquizofrênicos nas oficinas de terapia ocupacional levam à fundação do Museu de Imagens do Inconsciente, em 1952. Desde 1946, as pinturas dos internos eram arquivadas, chegando a compor um imenso acervo que deu origem ao museu. Talvez essa seja a grande realização de Nise e sua equipe, mobilizando críticos de arte, como Mario Pedrosa - que se encantou com as pinturas e incentivou Nise a montar uma exposição em 1959 no Masp - e o próprio Carl Gustav Jung, que se impressionou com o material enviado a ele por Nise.

A história da relação do grande mestre da psicologia analítica com Nise da Silveira é contada no livro diversas vezes, revelando-se um ritual de iniciação determinante. Nise pedia aos doentes do atelier que pintassem livremente, sem modelos ou guias. A abordagem interpretativa desses desenhos seguia, inicialmente, a teoria freudiana, que buscava

conflitos exclusivamente de natureza pessoal no conteúdo latente desses trabalhos. Um detalhe, no entanto, começou a causar preocupação: no meio de imagens de total desagregação, esperáveis dentro da produção de pacientes esquizofrênicos, apareciam, aqui e ali, símbolos de ordem: derivados do círculo e do quadrado, até mesmo círculos perfeitos. (p.53)

Pois bem: o que seriam essas imagens? Mandalas? A pergunta de Nise sintetiza o impasse: "Como um símbolo de perfeição, usado até mesmo como instrumento de meditação pelos orientais, pode ser produzido por mentes tão desintegradas?" (p.54).

Inquieta, em 1955 Nise fotografa mais de cem imagens e as anexa a uma carta para Jung, dizendo que eram "criações espontâneas de esquizofrênicos em estado de pura desordem psíquica" (p.54). Em um mês, recebia a resposta assinada pela secretária do discípulo de Freud, confirmando que eram mandalas e pedindo mais informações sobre os casos clínicos dos autores. Jung também esclarece a função dessas imagens para o processo de individuação dos pacientes: "Elas apareciam justamente nos momentos de maior desordem psíquica, como autodefesa da psique desordenada" (p.54).

Por dois anos eles se correspondem, até que Nise participa do II Congresso de Psiquiatria em Zurique, em 1957, no qual Jung inaugura uma exposição de pinturas de esquizofrênicos de vários países, sendo cinco salas ocupadas pela produção dos pacientes de Nise. O prefácio de Mário Pedrosa ao livro Museu de Imagens do Inconsciente (Funarte, 1980), também reproduzido em Encontros..., relata a conversa de Jung e Nise. Impactado com a produção pictórica brasileira levada a Zurique, Jung pergunta-se a respeito do ambiente em que pintavam e diz: "Suponho que trabalhem cercados de simpatia e de pes- soas que não têm medo do inconsciente" (p.181).

É exatamente essa a sensação que as entrevistas passam ao leitor. Como as narrativas de episódios mais marcantes se repetem pelos vários diálogos com os entrevistadores, entre eles Luis Carlos Lisboa, Lúcia Leão e Marco Lucchesi, o perfil de uma pesquisadora determinada e apaixonada, que respeita o sujeito em sua mais recôndita singularidade, vai se firmando a cada página. Uma cientista da psique, sem temor de deixar os núcleos profundos de cada paciente se expressarem, e, sobretudo, sem preconceito. E que enfrentou descrença e deboche dos colegas. Um dos diretores do Hospital chegou a afirmar que Nise trazia quadros de Di Cavalcanti e outros artistas à noite, às escondidas, dizendo que eram feitos pelos internos...

Ancorada na teoria junguiana, que ampliou o conceito de inconsciente freudiano pessoal para um território coletivo de imagens, uma espécie de esqueleto histórico da psique, expresso na forma de mitos, sonhos e arte universais, Nise mobilizava os pacientes pela linguagem do imaginário, sem buscar traduzi-la para o código verbal e racional, como faria Freud. A própria pintura seria uma forma de cura ao dar expressão e figuração ao mundo interno fragmentado e conflituoso. O self, que não se confunde com o ego consciente, explica Nise, ordenaria o processo de busca de unidade de opostos, atendendo à própria natureza da individuação.

Além de Jung e Espinosa, é na literatura que Nise vai beber para compreender o universo do ser humano e especificamente da loucura. Descobriu Machado de Assis, ao ler "A cartomante" na adolescência, e recomendava aos seus discípulos que aprendessem sobre a alma humana com o bruxo do Cosme Velho. "Pela literatura tenho chegado à psiquiatria", dizia Nise. Mas, de todos os autores mencionados no livro, Antonin Artaud tornou-se referência para a pesquisadora, quando leu as palavras do escritor comentando o pintor surrealista Victor Brauner nos Cahier d´Ars: "O ser tem estados inumeráveis e cada vez mais perigosos". Cito Nise, discorrendo sobre esses processos aos quais se refere Artaud:

[...] Descarrilhamentos e metamorfoses do corpo; perda de imites da própria personalidade, espantosas ampliações do espaço; caos, vazio; e muitas mais condições subjetivamente vividas que a pintura dos internados do Engenho de Dentro tornaram visíveis. (p.82)


Os "perigosos estados do ser" tornaram-se expressão de uso corrente entre os profissionais do Museu de Imagens do Inconsciente, combatendo a psiquiatria descritiva ao acolher os múltiplos estados que a psique atormentada pode produzir e que extrapolam as definições cartesianas dos manuais.

As estórias e seus personagens são momentos especiais do livro, que traz depoimentos vivos e iluminados dessa psiquiatra mais do que irreverente e transgressora do status quo da ciência da época. O leitor se aproxima de pessoas com nome e história, muito diferente do anonimato e da reificação a que eram submetidos os psicóticos internados nos hospitais psiquiátricos até décadas atrás. Assim conhecemos Alfredo, que se curou ao cuidar de uma cadela abandonada, mostrando o caminho dos cães coterapeutas, introduzidos por Nise no mesmo hospital (não sem a brutal resistência de médicos e funcionários, o que culminou na matança de vários cães); Fernando Diniz, o artista de mais de 25 mil pinturas; Adelina e suas figuras do mito de Dafne; Emydgio, o torneiro mecânico (considerado incurável após 23 anos de internação) que virou pintor e impressionou o primeiro diretor do Masp; Carlos Pertuiss e as telas do mito de Dionysos, e muitos outros.

Alguns desses chegaram a ser considerados artistas, expondo fora dos ateliers do Engenho de Dentro. Vale ressaltar que definir as obras dos internos como arte nunca foi uma preocupação para Nise. A finalidade dos ateliers era exclusivamente oferecer caminhos de elaboração simbólica dos núcleos psíquicos emudecidos. Se dali nascesse um gênio da pintura, era uma alegria. Mas, para Nise, uma garatuja e uma obra são igualmente respeitadas, pois seu interesse reside no momento em que uma imagem arquetípica ganha forma como abordagem do mundo interno do psicótico. O julgamento estético, diz ela, "foge ao mérito de minha questão" (p.53).

Chama a atenção a escuta privilegiada de Nise para criar oportunidade curativas. Um exemplo é quando percebe que seus pacientes estão expressando recorrentes imagens relativas ao mito dionisíaco. Resolve, então, fazer a leitura de As bacantes, de Eurípedes, misturando atores profissionais, entre eles Rubens Corrêa, e doentes "para manter um de nossos pontos de vista: não separar, não discriminar", diz Nise (p.187). Um esquizofrênico leu tão bem o papel do cego Tirésias que a experiência foi um acontecimento teatral e terapêutico impressionante.

Como aprendiz de seus pacientes, Nise entendeu que era preciso ousar mais. Preocupada com a reincidência de internações, Nise funda a Casa das Palmeiras, em 1956, ativa até hoje. A casa nasceu de uma indignação: "O doente saía de uma porta e entrava pela outra [...] Que tratamento é esse? A partir daí, me inspirei para criar uma instituição na qual o doente que superasse o surto psicótico não caísse de súbito nesta sociedade, que é um pouco mais louca que o hospital" (p.123).

Movida pelo desejo de mitigar a violência da reintegração do sujeito ao mundo social, a Casa funciona em regime aberto, portas e janelas sem trancas, médicos sem jalecos. Teatro, literatura, botânica, bailes e outras atividades proporcionam vivências humanizadas aos doentes. O espírito inovador da Casa suscitou recentemente a "Ocupação Nise da Silveira", uma exposição da história da Casa pelo Itaú Cultural em São Paulo (http://www.itaucultural.org.br/casa-das-palmeiras-territorio-livre-ocupacao-nise-da-silveira-2017). Também o funcionamento do Grupo de Estudos Carl Gustav Jung por mais de 40 anos alimentou, com discussões e seminários, uma prática clínica intensa, referência para a formação de estudantes e profissionais de saúde mental.

A batalha de Nise para mostrar que a afetividade dos psicóticos não estava embotada, como queriam os livros técnicos, mantém-se extremamente atual. Quando a sociedade trata drogados e loucos como coisas, dispersando-os pela cidade sem rumo e sem atendimento adequado, é preciso mais do que nunca relembrar Nise da Silveira, para quem remédios e neurolépticos (que passaram a dominar a psiquiatria a partir dos anos 1970) podem, esses sim, embotar a criatividade. Quando lhe perguntaram, em 1977, por que não surgiam novos talentos no Engenho de Dentro, a resposta foi contundente: "Como podem aparecer novos artistas se eles estão dopados?" (p.131).

Por fim, ainda que o livro apresente falhas imperdoáveis de revisão e edição, seu valor é inegável ao trazer de volta a potência disruptiva de uma mulher excepcional, muito além de seu tempo. Sua fala continua ecoando na busca de um sujeito integrado, antes de tudo consigo mesmo. Como diz Nise, "o eu é um picadinho e nós devemos nos esforçar para juntar esse picadinho. Mas não é fácil, é uma grande luta" (p.217).

REFERÊNCIA
MELLO, L. (Org.) Encontros. Nise da Silveira. São Paulo: Azougue Editorial, 2009. [ Links ]

Yudith Rosenbaum é professora de Literatura Brasileira na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e psicóloga formada pela PUC-SP. @ - yudith@uol.com.br
Revista Estudos Avançados

Machado de Assis, o escritor que nos lê


Machado de Assis e sua crítica
Pedro Meira MonteiroI
IPrinceton University, Princeton, Estados Unidos.

GUIMARÃES, H. de S.. Machado de Assis, o escritor que nos lê. São Paulo: Editora Unesp, 2017.

A circulação e a recepção dos textos de Machado de Assis são temas complexos. O mais canônico dos escritores nacionais é também um dos mais sintomáticos. Nele, estão cifradas as grandes questões que balizam a imaginação sobre o Brasil e sua literatura: regional e global, afrodescendente de inspiração europeia, criador de narradores que minam o seu próprio poder, ora explicando o país e sua complicada inserção mundial, ora parecendo distanciar-se dos limites nacionais. Machado de Assis não dorme em paz: seu corpo e sua memória são chamados a auxiliar as mais diferentes causas e, não raro, o escritor se converte num grande monumento escolar, embora em outras ocasiões esse Machado imaginário se mantenha calado, como uma esfinge que nos olhasse de cima.1

Existem estudos competentes sobre a recepção do autor, assim como longas listagens da interminável e muitas vezes inclassificável fortuna crítica machadiana. Contudo, faltava um estudo que desse conta não só das ondas da recepção - positiva ou negativa, admirada ou irritada, colada ao texto ou capaz dos mais extraordinários voos teóricos -, como também das figuras que vão se formando, à medida que a história lança novos e velhos reptos para a compreensão do autor carioca. Machado de Assis, o escritor que nos lê se impõe à crítica machadiana, por ter identificado e desenvolvido, com precisão e clareza, as inflexões "na percepção e no entendimento da construção de quatro figuras do autor, em que os estudos críticos são agentes e sintomas de transformações que muitas vezes extrapolam o âmbito literário" (p.14). Essas quatro figuras pontuam os quatro capítulos deste livro, que é a versão retrabalhada de uma tese de livre-docência defendida em 2013 na Universidade de São Paulo. São elas: (1) o primeiro Machado esquadrinhado pela crítica, ainda quando o criador do Brás Cubas vivia, no tempo em que Sílvio Romero e José Veríssimo esgrimiam em torno da qualidade e do caráter nacional do autor; (2) o mito nacional, que se confunde à constituição de uma esfera cultural própria da era Vargas, e em torno do qual se forja todo um novo vocabulário crítico; (3) o Machado de Assis "internacional", que começa a ser traduzido, entre outros idiomas, para o inglês, e que não se entende sem a importante virada interpretativa de Helen Caldwell; e (4) finalmente o Machado de Assis "realista", figura que convida à discussão da complexa relação do autor com seu tempo e seu local, plano em que se projetam os grandes debates que ainda hoje orientam os estudos machadianos.

Um dos muitos méritos de Machado de Assis, o escritor que nos lê está em revelar que alguns dos problemas que julgamos recentes estão mergulhados na longa duração, e muitas vezes estão já no nascedouro da crítica sobre Machado. No início do primeiro capítulo, por exemplo, ficamos sabendo que o desconcerto que a chamada segunda fase da ficção machadiana causa tem um antecedente na reflexão coeva daquilo que viria a identificar-se posteriormente como sua primeira fase. A suposta falta de atenção aos aspectos locais, ou a falta de "carnalidade" dos personagens, já eram apontadas pelos críticos da década de 1870, indicando que Machado de Assis seria, como várias vezes sugere este livro, percebido como um "corpo estranho" na paisagem literária brasileira. Podemos até nos perguntar se a questão de um Machado de Assis "afrodescendente" já não estava armada na percepção do "Doutor Fausto", que resenha nada menos que Ressurreição e vê, no romancista estreante, o impasse entre a "limpidez da escrita" e a origem pobre do autor "trigueiro" (p.26).

O primeiro capítulo mostra como, nos embates entre José Veríssimo e Sílvio Romero, e na posição menos extremada de Araripe Júnior, já se arma a tensão que atravessaria a leitura da obra machadiana, jogada, na imaginação crítica, entre o compromisso com o meio local e a inspiração estrangeira, que logo será associada ao humor de matriz inglesa. Um dos pontos fascinantes do estudo de Hélio Guimarães é como ele nota que, ao errar o alvo, os críticos por vezes acertavam nas questões. Assim, a virulenta crítica de Romero, que vê um Machado anacrônico e imitativo, fornece pasto para a crítica futura, que viria a dividir-se entre a detecção da forma social entranhada na ficção, as fontes literárias e filosóficas de corte universalista, até chegar às leituras mais abertamente comparativas. A investigação atenta do entorno crítico em que se foi publicando a obra machadiana revela, ademais, a preocupação do autor das Memórias póstumas de Brás Cubas em responder às leituras que se faziam de sua obra. Assim, Machado insiste na matriz inglesa, promovendo um rico deslizamento no gosto em geral francófilo do universo letrado brasileiro. Machado constitui uma figura de exceção justamente pelo "efeito equívoco" (p.64) de sua obra, que parece dar razão às interpretações mais diversas, por vezes mesmo opostas.

O segundo capítulo abrange a progressiva consagração do autor, desde o embaraço que o corpo estranho causou entre as hostes modernistas, até o surgimento de uma tríade que estabeleceria um novo plano interpretativo: Augusto Meyer, Lúcia Miguel Pereira e Astrojildo Pereira. De formas diversas, a biografia explicava a literatura, mas eram também os mecanismos profundos de uma sociedade patriarcal que vinham à tona nas novas análises de Machado de Assis. Como que elevando a crítica anterior a novo patamar, e enfrentando a figura que incomodara ou espantara os modernistas, os novos críticos atribuíam, ao autor de Dom Casmurro, estatuto de criador genial, atento às armadilhas das paixões humanas e ao tecido social em que elas florescem. A excentricidade machadiana, com seu lugar deslocado na linhagem da literatura nacional, reencontrava agora explicações de ordem psicológica, e sua novidade seria compreendida a partir de um impasse existencial que foi por muito tempo associado à crise dos quarenta anos, com a célebre doença que levou Machado e Carolina a Nova Friburgo, de onde o autor regressaria com a ideia do seu Brás Cubas, afiado no mais lúcido estilo e numa inclemente visão da comédia humana. Nesse ponto, Hélio Guimarães é feliz ao mostrar que a crítica iniciada na década de 1930, quando a estátua de Machado (que fora erguida em 1929) começa a ganhar "movimento", forma o esteio da própria crítica contemporânea. É como se víssemos, pelas lentes do autor de Machado de Assis, o escritor que nos lê, Alfredo Bosi e Roberto Schwarz surgindo como leitores de Lúcia Miguel Pereira e Augusto Meyer - este último, como bem nota o autor desse estudo, bebera na crítica anterior de Alcides Maya, ao mesmo tempo em que corroía o "medalhão" em que Machado corria o risco de se converter.

O Estado Novo varguista encontrou, no Machado realçado pela crítica e já entronizado na década anterior, um corpo simbólico a ser trabalhado pelas políticas culturais. Aí se dá a monumentalização do autor mulato, homem do povo e genial, a ser reverenciado e tornado patrimônio, o que acontece em diversas frentes, incluindo a literatura pedagógica, que aliás amanharia o solo para a retomada cívica de Machado de Assis em outros contextos e meios, como no caso do cinema, ainda no primeiro período varguista, e da telenovela, já em plena ditadura militar, na década de 1970. O processo não se dava sem acidentes, é claro, como sugere o delicioso despacho de um secretário de Educação do Rio Grande do Sul, que em 1938 se negou a autorizar que uma escola pública fosse chamada "Machado de Assis", alegando que não caberia a uma instituição de ensino elementar incorporar o nome de um "fascinante inoculador de venenos sutis" (p.119). Mais uma vez: mesmo quando erram, os leitores críticos parecem acertar...

O terceiro capítulo, que me parece o mais cheio de provocações, pode ser lido como um discreto puxão de orelha na crítica especializada, que tende à autossuficiência e a certo sentimento de superioridade em relação àquilo que se produz às margens, incluída aí a crítica estrangeira. O caso paradigmático, que fornece eixo ao capítulo, é o de Helen Caldwell, autora de The Brazilian Othello of Machado de Assis, publicado em 1960 na Califórnia e traduzido ao português na década passada. Numa interpretação interessada dos modelos clássicos que estariam operando na feitura de Dom Casmurro - especialmente o seu intertexto shakespeariano - a crítica norte-americana, como se sabe, gira a bússola e passa a defender o reverso do que havia por tanto tempo sido aceito: a culpa de Capitu. Os leitores de Machado de Assis notarão, ao ler esse capítulo, que a ambiguidade de Capitu, e mesmo o narrador não confiável que tanto renderia na crítica posterior, já estão prefigurados em algumas intervenções isoladas, anteriores à década de 1960, mas que demorariam a se cristalizar numa leitura amplamente reconhecida. O silêncio em relação à ruidosa tese de Caldwell é eloquente, e está todo no livro que Eugênio Gomes publicou em 1967, O enigma de Capitu, que pode ser visto como uma resposta à crítica norte-americana, sem contudo citá-la. Mas por que os ciúmes de Bento Santiago seriam mantidos debaixo do tapete por tanto tempo? O autor de Machado de Assis, o escritor que nos lê responde:

Talvez porque apenas a partir da década de 1960, com todos os movimentos de contestação que eclodiram no Ocidente, a desconfiança em relação à autoridade do narrador e a hipótese de que Capitu não tivesse traído puderam ter alguma ressonância entre leitores que passaram a questionar os papéis tradicionais de homens e mulheres, as relações de gênero e o autoritarismo das estruturas sociais no Brasil e no mundo. (p.179)

Chega a ser engraçado, e um pouco embaraçoso, que em 1963 a Academia Brasileira de Letras tenha oferecido a Helen Caldwell uma medalha, que de fato nunca foi entregue. A má fortuna das reflexões de Caldwell seguiria firme, passaria pelas críticas de Wilson Martins, e seria relativizada por Silviano Santiago, já no final da década de 1960, quando a "verossimilhança" da narrativa é desconstruída, e a lente crítica é novamente voltada para as engrenagens sociais que condicionam a história contada por Bento Santiago, em que o ciúme desempenha papel central. A circulação machadiana para além do Brasil, deslanchada com as traduções dos anos 1950 ao inglês, se fortaleceria num jogo de leituras e leitores que incluem a própria Helen Caldwell, William Grossman, Waldo Frank e, mais tarde, Susan Sontag e Salman Rushdie, sem contar essa espécie de momento pop da carreira internacional de Machado de Assis, que mais recentemente descobriu-se ser um dos autores prediletos de Woody Allen.



A figuração do "autor realista" ocupa o quarto e último capítulo, que se inicia com uma espécie de genealogia que aponta para Lúcia Miguel Pereira e ganha densidade crítica em Raymundo Faoro, abrindo-se para as reflexões de Roberto Schwarz e John Gledson, cuja atenção ao tecido social entranhado no texto - seja como forma em sentido lukacsiano, no caso do primeiro, seja como alegoria histórica, no caso do segundo - lhes permite superar a noção mecanicista da literatura como reflexo, que estava no marxismo mais duro de Astrojildo Pereira. Já em Alfredo Bosi, o intencionalismo com que Schwarz e Gledson interpretam a construção dos narradores machadianos encontra um limite importante, que se explica no jogo de afastamento e aproximação que marcaria a mirada às vezes cruel, às vezes empática de personagens que resistiriam à tipificação a que tendem, nas análises de cunho mais estritamente histórico ou sociológico.

A figuração de um Machado "realista" é esmiuçada por Hélio Guimarães, que explicita o caráter político do projeto crítico de Schwarz anterior a 1964, que tem na denúncia do ponto de vista execrável dos narradores machadianos o seu ponto forte e talvez mais problemático, se dermos ouvidos às críticas que lhe endereça Bosi. Já Gledson ocupa lugar não menos importante no debate, ao atentar para a fatura da voz narrativa, sobretudo nos romances maduros. É uma pena que o panorama dessa figuração "realista" perca de vista, em especial quando se detém sobre a complexa questão da voz narrativa nas crônicas, as reflexões de Sidney Chalhoub, que parece escondido numa nota de rodapé. Mas a questão talvez mais importante está na relativa fixidez do ponto de vista daqueles que detectam, em Machado de Assis, a denúncia inapelável do patriarcalismo e do paternalismo brasileiros. A essa fixidez, Hélio Guimarães parece querer contrapor um ponto de vista mais fluido, erradio e indeterminado. Daí que a voz contrastante de Bosi ocupe um lugar ao mesmo tempo discreto e central no panorama. Aí se entende, também, que Abel Barros Baptista e Michael Wood apareçam como uma espécie de antídoto, não de todo nomeado, ao ponto de vista que quer encerrar o universo da significação em sentidos estáveis e inalteráveis. Entretanto, o próprio Gledson não é prontamente associado àquela fixidez, já que haveria algo de tridimensional em sua compreensão dos personagens, mas também dos leitores de Machado de Assis. Seja como for, esse livro mostra que o empenho hermenêutico que marcou a figuração de um Machado nacional e brasileiro, na década de 1930, segue firme e forte, embora encontre nas visões de Wood e de Barros Baptista um obstáculo, talvez mesmo um trampolim em que poderíamos nos sentir "no ar, antes de mergulhar", segundo o belo verso do cancioneiro popular, evocado à p.256.

Por fim, não resta dúvida de que este é um estudo fundamental. Pela sua clareza, mas também pelo equilíbrio com que acompanha a leitura da obra machadiana em seu movimento pela história, Machado de Assis, o escritor que nos lê é passo incontornável para compreender que o valor atribuído aos grandes autores é também uma invenção compartilhada.

Há um único detalhe, neste livro, que me põe a pensar no que talvez lhe falte. Acontece que, nele, o próprio Hélio Guimarães se encontra por vezes um tanto escondido, tímido talvez, como um narrador discreto que evita imiscuir-se à cena. Os leitores de Machado de Assis, o escritor que nos lê talvez deixem o livro, tão rico e cheio de novidades, com vontade de entender melhor onde está o próprio crítico que acabaram de ler: em quais redes se insere, como avança na leitura de sua própria geração e de seu próprio trabalho, onde se apoia, quando duvida e onde ousa escarnecer. Nem sempre vemos com clareza os seus caninos, com exceção, porventura, do terceiro capítulo e da crítica subliminar e diplomática à matriz determinista na interpretação de Machado, no quarto capítulo. É como se, ao evitar a mordida, ele inadvertidamente revelasse seu próprio tédio diante do embate rijo. Se correta essa minha suposição, trata-se de algo bastante curioso, já que a graça e o sabor da recepção da obra de Machado de Assis estão muitas vezes na defesa apaixonada das posições, como aliás este livro revela em abundância.

Mas afastar-se do bulício da crítica não será, no fim das contas, um derradeiro gesto machadiano, como se o único desejo fosse observar com calma o espetáculo das paixões, sem o qual nada neste mundo faz mesmo muito sentido?

NOTAS
1Como se lê numa resenha recente: "Sempre me impressionou a frequência com que Machado de Assis é chamado de ‘esfinge’. Imagino o gracioso bigode, sob o familiar pincenê, estampado na face da grande Esfinge a perscrutar o deserto. [...] Ao ler os intérpretes de Machado, tomamos emprestado o pincenê do mestre para sorrateiramente observar os mundos que eles habitam. A crítica literária imita a lenda: a resposta ao enigma da esfinge, quando vier, não será uma verdade do outro mundo, mas, sim, o próprio homem" (Flora Thomson-DeVeaux, Lendo a nós mesmos no reflexo de Machado, Quatro Cinco Um, maio 2017, p.24).

REFERÊNCIA
GUIMARÃES, H. de S. Machado de Assis, o escritor que nos lê. São Paulo: Editora Unesp, 2017.
Revista Estudos Avançados

Nós que amávamos tanto, O Capital: leituras de Marx no Brasil



Às voltas com o marxismo universitário paulista


Deni Alfaro RubboI
IFaculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, São Paulo, Brasil.

SCHWARZ, R.. Nós que amávamos tanto, O Capital: leituras de Marx no Brasil. São Paulo: Boitempo, 2017.

A passagem da teoria de Marx para uma doutrina marxista tem sido um processo gerador de impasses teóricos e metodológicos. Sobre a base de (certos) textos de Marx, e em nome de uma leitura "correta", emerge um sistema teórico aberto e inacabado, que é apropriado, recriado e enriquecido por diversos sujeitos e movimentos sociais em escala planetária. A grande quantidade de correntes políticas e intelectuais surgidas no século XX em prol da "doutrina marxista" é exemplo de uma diversidade flagrante, como a imagem de um rio intempestivo de correntezas heterogêneas que ora se juntam e se complementam, ora seguem rotas diferentes e, até mesmo, contrapostas.

Com efeito, nesse campo problemático, existe também uma distinção fundamental, assinalada pelo historiador francês Georges Haupt (1983), entre o que se entende, de um lado, por recepção de Marx, enquanto um corpo de ideias e uma teoria crítica da sociedade; e, de outro, uma "doutrina", modo pelo qual um indivíduo e/ou movimento social apropria-se de tal teoria crítica e a socializa.

No Brasil, durante o final da década de 1950 e na década seguinte, um capítulo da recepção e circulação transnacional das ideias de Marx começava a ser escrito. Pela primeira vez no país, as ideias encontraram abrigo no espaço da instituição acadêmica. Evidentemente, o pensamento de Marx circulava nos espaços externos às salas de aulas da universidade (partidos políticos, organizações, corredores, revistas, cafés etc.). Porém, por meio da iniciativa de jovens professores da Universidade de São Paulo e discípulos ávidos, estabeleceu-se um núcleo de estudos que se tornou o cultuado, estudado e prestigiado "Seminário d’O Capital". Cumpre ressaltar que a "vocação científica do grupo", para usar termo de um de seus participantes, marcada pela leitura estruturalista, rigorosamente interna, academicamente "correta", importada da França, era uma maneira de diferenciar-se das ideias marxistas em voga no Brasil e criticá-las, hegemonizadas pelo stalinismo dos esquemas etapistas e do eurocentrismo. E nisso, é bom dizer, tiveram êxito.

Aos poucos se formava um instigante capítulo da história do marxismo brasileiro: personagens (principais e secundários), roteiro de estudo, organização de leituras, confronto de interpretações, histórias de convivência, projeções de carreira, competições e concorrência entre participantes. Um livro, uma forma de leitura e leitores de todas as áreas.1

Nesse contexto, publica-se em boa hora um livro com quatro depoimentos de pensadores ativos no cenário intelectual e político brasileiro, os quais foram personagens dessa trama do marxismo acadêmico paulista. Trata-se das intervenções da mesa "Sobre os estudos d’O Capital" do Seminário "Marx: a criação destruidora" (realizado pela Boitempo Editorial, Sesc-SP, Programa de Pós-Graduação da FAU-USP e Fundações Laura Campos e Rosa Luxemburg em março de 2013), reunidas sob o título Nós que amávamos tanto O Capital. Os participantes foram Roberto Schwarz, José Arthur Gianotti, João Quartim de Moraes e Emir Sader, com mediação de Sofia Manzano. De perfis completamente distintos, tanto do ponto de vista intelectual quanto do político, e transcorridos mais de cinquenta anos da experiência do Seminário, os veteranos universitários retornam a Marx.

Roberto Schwarz ("Sobre a leitura de Marx no Brasil"), participante das primeira e segunda gerações, optou por realizar um balanço crítico da experiência da leitura de Marx, não sem astúcia e fina ironia, marcas inconfundíveis do crítico literário, e também por apresentar o caldo fervilhante da cultura política de esquerda da época. Ressalta de vários modos aquilo que considera o maior trunfo do grupo: a produção de um marxismo plasmado nas realidades locais, sem decalque nem cópia, e que articula criativamente a simultaneidade dos tempos discordantes do capitalismo periférico de extração colonial. Por seu turno, José Artur Gianotti ("Considerações sobre O Capital") mergulha "internamente" no texto d’O Capital, mostrando os embates de Marx com Ricardo, o valor como essência e as influências hegelianas. Curiosamente, mantém a mesma metodologia que rendeu fama ao Seminário: Marx alçado à condição de filósofo, leitura talmúdica das escrituras e explicitação da força e do movimento interno dos conceitos. Parte da segunda geração de leitores, já em plena ditadura civil-militar, João Quartim de Moraes ("Comunismo e marxismo no Brasil") analisa a história do comunismo brasileiro anterior ao empreendimento acadêmico do Seminário. Essa "bagagem do comunismo" é entendida pelo autor como a trajetória do Partido Comunista Brasileiro (PCB) que, iniciando seu itinerário a partir da década de 1920, tinha como fonte principal a leitura de panfletos e manuais. Por último, Emir Sader ("O Capital, 150 anos depois) procura atualizar O Capital de Marx por meio de uma análise do capitalismo contemporâneo caracterizada pela crise estrutural e pela autonomização do capital financeiro.

Aos nossos olhos, o texto de Schwarz assume importância decisiva, pois explora os alcances teóricos (e inovadores) dos participantes do lendário Seminário. As relações peculiares de uma ex-colônia como o Brasil e a teoria do capitalismo de Marx criavam um descompasso difícil de equacionar. Como, afinal, foi desatado esse nó teórico? "Como era de esperar, iam surgindo as questões de adequação e inadequação dos nomes, diante das quais havia duas saídas óbvias: dispensar o marxismo, porque ele não coincidia com os fatos brasileiros, ou dispensar os fatos, porque eles não coincidiam com o marxismo" (p.24). A solução adotada foi "não fazer nem uma nem outra coisa, mas reter os dois termos", alternativa que o crítico literário chamou de "inteligência dialética". Afinal, como lembrava José Carlos Mariátegui no Peru da década de 1920 - do qual, aliás, muitos membros posteriormente se tornaram leitores -, o marxismo não é um "corpo de consequências rígidas, iguais para todos os climas históricos e todas as latitudes sociais" (Mariátegui, 1988, p.112).

Nessa toada, distanciando-se das ideias dualistas e da teoria da "modernização", que conformava o PCB e a Comissão Econômica para América Latina (Cepal), o grupo contribuiu com um novo diagnóstico sobre o Brasil (exceções feitas a Caio Prado Júnior e aos trotskistas Mário Pedrosa e Lívio Xavier). Nosso atraso, na realidade, estava intimamente conectado com a reprodução da sociedade moderna mundial. A especificidade brasileira redefinia, portanto, teórica e politicamente a condição da burguesia, da nação e da classe operária mediante uma experiência histórica diferente do mundo europeu.

De todo modo, "a leitura não política da obra de Marx", como destaca na apresentação Sofia Manzano, compreendida como teoria do conhecimento, tinha seu aspecto ideológico e impuro. Basta recordar o contexto em que os universitários paulistas estavam: processo de "modernização", industrialização e urbanização do país. Cada qual dos membros fazia suas avaliações políticas do período em curso.

Convém lembrar que o título do livro é uma referência ao excepcional filme italiano Nós que nos amávamos tanto(1974) de Ettore Scola. Como se sabe, Gianni, Nicola e Antonio, personagens do enredo, tornam-se amigos durante a guerra contra o nazismo, compartilhando dificuldades, afetos e utopias. Décadas depois, reencontram-se com perspectivas e em posições sociais distintas: na reconciliação com a ordem, na decepção diante dos próprios ideais outrora cultivados e, surpreendentemente, na manutenção dos ideais antigos, embora custosos. O paralelo é irresistível. Os veteranos catedráticos compartilharam leituras e utopias em torno do grupo e, posteriormente, com suas carreiras intelectuais consolidadas, divergem em suas interpretações sobre os rumos do país após a abertura democrática. Esse aspecto torna-se patente pelo próprio perfil dos textos reunidos. Não se trata apenas de leituras heterogêneas a partir de Marx, mas, sobretudo, de divergências profundas adocicadas, digamos, pela cordialidade e respeito mútuo entre os expositores.

Das intervenções depreendem-se manifestos e posições ora autênticas, ora polêmicas. Na defesa das ortodoxias asfixiantes arquitetadas pela razão burocrática da URSS que sempre expressou publicamente (João Quartim de Moraes); na produção da crítica da cultura via crítica literária sobre as vicissitudes da cultura brasileira num nível de qualidade expressivo, provocador e estimulante, quiçá à custa de um relativo isolamento no campo político (Roberto Schwarz). Os dois restantes, de carreiras tão díspares, assemelham-se por terem sido capturados pelas relações de poder constituídas nos governos do Partido da Social Democracia Brasileira (PSBD) e Partido dos Trabalhadores (PT). Não obstante, com uma diferença: de um lado, no afã de exercer a querela da ciência sem ideologia (José Artur Gianotti); de outro lado, na convicção da produção puramente ideológica sem ciência (Emir Sader).

Dissabores à parte, os depoimentos dos ilustres leitores de Marx encontrados nesse pequeno e instigante livro têm evidentemente uma validade documental inestimável para uma história da recepção transnacional das ideias de Marx no Brasil. Uma outra história do marxismo está por ser feita.

NOTAS

1Para um trabalho fundamental sobre a história intelectual do Seminário, ver o interessante trabalho de Rodrigues (2012).

REFERÊNCIAS

HAUPT, G. Marx e o marxismo. In: HOBSBAWM, E. J. (Org.) História do marxismo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983. v.1, p.347-75. [ Links ]

MARIÁTEGUI, J. C. Ideología y política. Lima: Amauta, 1988. [ Links ]

RODRIGUES, L. S. A produção social do marxismo universitário em São Paulo: mestres, discípulos e "um seminário" (1958-1978). São Paulo, 2012. Tese (Doutorado em História Social) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo. São Paulo, 2012. [ Links ]

SCHWARZ, R. et al. Nós que amávamos tanto O Capital: leituras de Marx no Brasil. São Paulo, Boitempo, 2017. [ Links ]

FILME

Nós que nos amávamos tanto. Itália. Dir: Ettore Scola, 1974.
Revista Estudos Avançados

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Honoráveis bandidos: um retrato do Brasil na era Sarney


Editora: Geração Editorial



“A filha Roseana Sarney, senadora pelo Maranhão, do Partido do Movimento Democrático Brasileiro, o mesmo PMDB do pai, caminhava pelo plenário, muito nervosa. Estava em lágrimas quando o pai encerrou sua fala. Os oitenta pares o aplaudiram protocolarmente, mas um deles, de um salto pôs-se de pé e bateu palmas efusivas, acompanhadas do revoar de suas melenas. Tratava-se de Wellington Salgado, do PMDB mineiro, conhecido como Pedro de Lara ou Sansão.

Onde se encontravam os jornalistas de política nesse momento, que não registraram tal despautério? Pedro de Lara é aquela figura histriônica que roubava a cena no programa Silvio Santos como jurado ranzinza, debochado e falso moralista. E Sansão, o personagem bíblico que perdeu o vigor quando Dalila o traiu cortando-lhe a cabeleira.

Esta figura caricata pareceria um estranho no ninho em qualquer parlamento do mundo. Nascido no Rio, é dono da Universidade Oliveira Salgado, no município de São Gonçalo, e responde a processo por sonegação de impostos no Supremo Tribunal Federal. Conseguiu um domicílio eleitoral fajuto em Araguari, Minas Gerais, e praticamente comprou um mandato de senador ao financiar de seu próprio bolso, com 500 mil reais, uma parte da milionária campanha para o Senado de Hélio Costa, o eterno repórter do Fantástico da Rede Globo em Nova York.

Com a ida de Hélio para o Ministério das Comunicações de Lula, seu suplente Wellington então ganhou uma cadeira no Senado Federal, presente que ele paga com gratidão tão desmesurada, que separa da verba de seu gabinete todo santo mês os 7 mil reais da secretária particular do ministro. Nesse tipo de malandragem, fez como seu ídolo, colega de Senado Renan Calheiros, que vinha pagando quase 5 mil mensais para a sogra de seu assessor de imprensa ficar em casa sem fazer nada.

Mas o cabeludo senador chegou à ribalta em 2007, justamente como aguerrido integrante da tropa de choque que salvou o mandato de Renan Calheiros, então presidente do Senado e estrela principal do episódio mais indecoroso daquele ano, com amante pelada na capa da Playboy, bois voadores e fazendas-fantasma. O alagoano Renan, com uma filha fora do casamento, que teve com a apresentadora de tevê Mônica Veloso, bancava a moça com mesada paga por Cláudio Gontijo, diretor da construtora Mendes Júnior. Ao tentar explicar-se, Renan enredou-se em notas frias, rebanho superfaturado, rede de emissoras de rádio em nome de laranjas, enquanto Mônica mostrava aos leitores da revista masculina da Editora Abril a borboleta tatuada na nádega.”

*

“Memorável dia 2 de fevereiro (de 2009). Surpreendentes seriam as fotografias nos jornais do dia seguinte. Sarney de óculos escuros como os ditadores latino-americanos do passado, amparado pelo colega de PMDB Michel Temer, eleito presidente da Câmara, igualmente pela terceira vez. Barba e bigode. Este Michel Temer, com seu talhe de mordomo de filme de terror, merece umas pinceladas.

Michel Miguel Elias Temer Lulia, paulista de Tietê, nascido em 1940, é advogado, pai de três filhos. Casou em segundas núpcias em 2003 com uma jovem 42 outonos mais nova, “aspirante a Miss Paulínia”, de 20 anos.

Temer desponta no mundo político no começo da década de 1980. Filiado ao PMDB desde 1981, elegeu-se deputado federal em 1986. Foi secretário de Segurança no governo de Franco Montoro. Professor universitário de direito. Jeito cerimonioso, formal e educado.

Em 1990, Luís Antônio Fleury Filho se elege governador de São Paulo, numa eleição difícil bancada pelo governo Orestes Quércia – “quebrei o Banespa, mas elegi meu sucessor”, a frase de Quércia entrou para os anais da política desta Era Sarney. Pouco depois do massacre do Carandiru, em outubro de 1992, Fleury Filho indica Michel para a Segurança Pública. Ele organizou a Secretaria, criou condições de trabalho, deu recursos técnicos e operacionais.

Os admiradores e eleitores sabem que, paradoxalmente, ao mesmo tempo em que conteve o crime organizado, foi a época de melhor coexistência pacífica entre jogo do bicho e cassinos clandestinos de um lado, e de outro lado o alto comando da polícia. Não se sabe de escândalo em sua gestão, mas não há quem não saiba em São Paulo que o comando da jogatina organizada e o impoluto jurista encarregado de reprimi-la se davam às mil maravilhas.

Michel talvez seja um dos políticos mais dissimulados do país. Não tem a arrogância de ACM, o sentimento oligárquico e o provincianismo de Sarney, o pavio curto de Ciro Gomes, os ademanes gatunos de Renan Calheiros. Usa abotoaduras de Saville Road, o templo londrino dos elegantes, ou as compra em Roma, quando vai dar aulas de direito como professor convidado. As meias são as mesmas de outro elegante, o ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos, de seda pura. A coleção de gravatas concorre com as 4 mil deixadas na mansão do Cosme Velho por Roberto Marinho, o general civil da ditadura militar. O cabelo, tingido, não chega a ser ridículo como o negro asa-de-graúna do presidente do Senado, que aparece ao seu lado nos jornais do dia seguinte ao indigitado 2 de fevereiro de 2009. A voz é do tipo frequência modulada, imperturbável e serena. Não há testemunho de uma grosseria, um ato tosco, um palavrão, um agravo que tenha partido de sua figura bem-posta.

No romance do cubano Alejo Carpentier, O Recurso do Método, o refinado e culto governante de uma nação caribenha é, ao mesmo tempo sanguinário ditador. O jurista Michel Temer, poderoso presidente da Câmara dos Deputados na década de 1990, foi ao mesmo tempo dono de um pedaço suculento da administração pública. Foi o padrinho, o chefe, o protetor de quem operou o maior esquema de corrupção da história das docas de Santos, maior porto comercial da América Latina.

Por lá passam 25% do que o Brasil importa ou exporta, e lá reinava um homem seu, um apadrinhado seu. Atende pelo nome de Wagner Rossi. Político de Ribeirão Preto, intimamente ligado ao quercismo, mas também a qualquer governo que possa lhe dar algo em troca. Na superintendência do porto de Santos, onde 8 mil estivadores pegam no pesado e 40 navios estão em operação num dia comum, Wagner Rossi criou um estilo debochado e extrovertido para não fazer nada pelo resto da vida, ele e os descendentes. Recebia empresários e fornecedores com um procedimento que marcou sua administração e traumatizou a maior parte de suas vítimas. Precavido, tinha no gabinete um aparelho de som potente, sintonizado nas mais inesperadas emissoras de Santos. E ao som de baladas brejeiras ou rock pauleira, tocados em altos decibéis, atendia os interessados. Assim evitava gravações. Falava quase no ouvido das pessoas, sussurrando uma cantilena de administrador ímprobo. Como se fosse o mímico Ricardo “Marcel Marceau” Bandeira das docas santistas, na calada do gabinete fechava os acordos mais espúrios com uma gesticulação que enojava ou divertia os empresários importadores ou exportadores. Sorridente, arregalava os olhos, levantava as mãos e esfregava freneticamente indicadores e polegares, sinal de dinheiro desde que o dinheiro existe. Se todo o empresariado brasileiro sabe disso, se toda a classe política sabe, se toda a imprensa nacional sempre soube, e agora você também já ficou sabendo, como Michel Temer não haveria de saber?

Este era o novo presidente da Câmara, que aparecia nas fotos praticamente amparando o novo presidente do Senado, Casas que entrariam numa fase de escândalos dia sim dia não, um deles carimbado pela mídia como “farra das passagens”.

Pois não é que Michel Temer logo usaria o agora famoso ato secreto para absolver um colega que “farreou”? O presidente da Câmara perdoaria o deputado potiguar Fábio Faria (PNM-RN), e por extensão a outros parlamentares que usam nosso dinheiro para a tal “farra das passagens". Em dezembro de 2007, Fábio Faria levou, para animar seu camarote de “carnaval fora de época” em Natal, artistas e a apresentadora de televisão Adriane Galisteu, a quem atribuiu o status de “namorada”.

Michel arquivaria o caso em 3 de junho de 2009. Respaldou a decisão em pareceres técnicos, pelos quais o erário pagou R$ 150 mil. A “análise ética”, que custou R$ 70 mil, foi do professor da Universidade de São Paulo Clóvis de Barros Filho, que ao jornal O Estado de S. Paulo declarou, em 24 de junho:

“Meu parecer é um pouco broxante, enigmático, porque não oferece uma condenação apressada nem uma absolvição ingênua. Não tenho elementos para condenar ou absolver.”

Trata-se, como se vê, de uma versão caríssima do que teria dito, de graça, o político mineiro Benedito Valadares (1892-1973), aquele que ficava “rouco de tanto ouvir”. Valadares simplificaria a questão, dizendo o seguinte:

“Deputado levar com dinheiro público acompanhante de luxo para evento carnavalesco, não sou contra nem a favor, muito pelo contrário.”



Já o parecer “jurídico” foi de Manoel Gonçalves Ferreira Filho. Ao Estadão, este homem da lei disse sobre a ajuda de custo para comprar passagens de avião:

“Consiste na alocação de uma verba ao parlamentar para que este se transfira, com sua família, com suas amizades mais íntimas, seus empregados, animais de estimação etc., bem como os pertences de sua conveniência para a referida sede.”

Portanto, opina o jurista, ninguém tem nada com isso, se o parlamentar leva até a cadela para passear de avião. É, segundo Manoel Gonçalves Ferreira Filho, questão “de foro íntimo”. Seu parecer nos custou mais caro: R$ 80 mil. Parece que, com tão doutos pareceres encomendados pelo presidente da Câmara, a farra das passagens está doravante autorizada.”

*

“Pobre do congressista que viesse com conversa de moralidade naquele 2 de fevereiro de 2009. Todo o mundo sabia que na plataforma do rival de Sarney, o petista acreano Tião Viana, uma das primeiras providências era afastar o diretor-geral do Senado, Agaciel Maia. Quem em Brasília não sabia de sua casa de 5 milhões, às margens do Lago Paranoá, com quase mil metros quadrados, três andares, cinco suítes, campo de futebol, piscina em forma de taça e píer para barcos e lanchas, escamoteada em nome do irmão? Casa que o irmão, deputado João Maia (PR-RN), escondeu da Receita Federal e da Justiça Eleitoral, e para justificar tal fato, Agaciel usou o cândido argumento de que não podia pôr a casa em seu nome porque estava com os bens indisponíveis devido a outro rolo, conhecido como escândalo da gráfica do Senado – no ano eleitoral de 1994, candidatos imprimiam à custa do dinheiro público material de propaganda eleitoral. Adivinhe quem se beneficiou dessa falcatrua? Acredite se quiser: entre outros, a filha de Sarney, Roseana, então deputada e candidata vencedora ao governo do Maranhão, numa eleição que ela ganhou na mão grande.”

*

“José Sarney começa sem identidade própria. É apenas o “Zé do Sarney”, por sua vez com tal nome registrado porque o avô do nosso herói, diz a história, quis homenagear um inglês ilustre que aportou a serviço no Maranhão e a quem todos chamavam de Sir Ney.”

*

“Aderson Lago, de tradicional estirpe política, chefe da Casa Civil do governador maranhense Jackson Lago em 2009, é uma memória viva daqueles tempos:

“Sarney nasceu, cresceu e criou dentes dentro do Tribunal. O pai não era um fazendeiro abastado, empresário, não era porra nenhuma. Nunca tiveram nada. Nunca acertaram nem no jogo do bicho. Sarney não tem como explicar a fortuna que tem. Ele mesmo contou, quando presidente da República, na inauguração do Fórum Sarney Costa, que o pai teve que vender sua máquina de escrever para mantê-lo por uns tempos”.”

*

“Aderson Lago narra a história de certo engenheiro italiano que havia construído a fortaleza de Dien Bien Phu, no Vietnã, e para cá veio tocar a construção do porto de Itaqui, perto de São Luís – por onde meio século depois sairia o minério de Carajás e outras mil riquezas do Brasil. Surgiu uma demanda judicial contra a empresa do italiano. No último julgamento, que a empresa perderia e, por isso, quebraria, descendo a escadaria do Tribunal, o italiano, referindo-se a Sarney, comentou com seus advogados:

“Se Al Capone estivesse vivo e aqui estivesse, diante desse rapaz de bigodinho seria um mero aprendiz”.”

*

“Insondáveis são as razões do coração, realmente. Quando nos debruçamos sobre a folha corrida dos três pimpolhos do velho coronel Sarney, encontramos mais razões para um pai corar de vergonha do que para orgulhar-se. No entanto, o senador sempre demonstrou verdadeira devoção paterna por seus meninos, com indisfarçável xodó pela menina, a mimada mais velha dos três.

Roseana deu os primeiros passos na política em pleno Palácio do Planalto, no Gabinete Civil da Presidência da República, aos 32 anos, formada em ciências sociais, um vernizinho de esquerdista, um violão mal tocado, o apelido de Princesinha do Calhau – menção à mansão colonial na praia do Calhau, que ocupa um quarteirão inteiro de 20.000 metros quadrados, cercada por coqueiros de babaçu e um muro alto, em frente da Baía de São Marcos, em São Luís. Era onde se decidia a vida política do Maranhão. Ali pai e filha montaram suas mansões, vizinhas.

Quem entra na mansão de Sarney imagina tudo, menos uma residência. Com mania de colecionar anjinhos barrocos e outras antiguidades, chegou a retirar o portão de ferro fundido do cemitério de Alcântara, ilha tombada pelo Patrimônio Histórico, e levar para casa como peça de decoração. Quando o visitou, o ex-presidente socialista de Portugal, Mário Soares, levado à mansão, depois de algum tempo de espera, perguntou a Fernando, filho caçula do senador:

“Agora vamos à casa do presidente Sarney?”

Pensou que estava num museu.”

*

“Vizinha do pai na Praia do Calhau, vizinha do pai no Planalto: Roseana tinha gabinete montado pertinho do gabinete do pai presidente. Comportava-se como se estivesse na própria casa.

Bocuda. E desbocada. Mal chegando às bordas do poder federal, ela presenciou o encontro em que o deputado Cid Carvalho, seu conterrâneo, pediu a Sarney apoio para o PMDB nas eleições de 1985. Cid foi enfático:

“Presidente, ao senhor interessa o PMDB erecto!”

Cid voltou ao Planalto semanas depois desenxabido com o fracasso de seu candidato, que não passou do quarto lugar, com apenas dez mil votos. Roseana levantou o braço de punho fechado em posição fálica:

“Então, Cid? Cadê o PMDB erecto?”

Baixou o cotovelo e o balançou em gesto obsceno:

“Broxou?”

Ali ela já era funcionária do Senado, graças a um truque inacessível a nós mortais comuns. Consultemos a reportagem publicada na Folha Online de 25 de marco de 2009. Diz o título: “Sarney ACM e Renan criaram 4.000 vagas no Senado”. Um trecho da reportagem:

Trem da alegria – Entre os servidores efetivos, nem todos são concursados. Estes somam cerca de 1.200. Entre 1971 e 1984, os senadores aproveitaram para efetivar servidores por meio de atos administrativos, embora isso fosse vedado pela Constituição. A atual líder do governo no Senado, Roseana Sarney (PMDB-MA), é servidora do Senado graças a um trem da alegria de 1982, assinado pelo então senador Jarbas Passarinho.

O coronel Jarbas Passarinho prestou grandes desserviços à nação, seja como ministro da Educação da ditadura militar quando reprimiu e perseguiu estudantes e professores, seja como incentivador do Ato Institucional 5, o AI-5, diante de cuja truculência mandou “às favas os escrúpulos” e apoiou com entusiasmo. No finalzinho da ditadura, serviu aos apaniguados com o ato que beneficiou a filha dileta de seu amigo José Sarney, antecipando o legítimo Trem da Alegria de 1984, do senador do PDS capixaba Moacyr Dalla, que embarcou 780 felizardos na gráfica do Senado e outros 600 nos gabinetes da Casa, entre eles a mesma Roseana, que nem morava em Brasília, mas no Rio.

“Essa moça é muito raivosa. E só tem duas amigas: a rainha de copas e a Viúva Clicquot”, disse um dia o ex-governador Epitácio Cafeteira, da família dos Bules, como brincava o jornalista Stanislaw Ponte Preta.

Rainha de copas refere-se a um dos vícios, segundo Cafeteira; e Viúva Clicquot se refere a outro: é meia tradução do nome do champanha francês Veuve Clicquot.

Cafeteira, mais tarde um aliado, era então o mais popular dos adversários políticos e inimigos dos Sarney. Foi ele que em 1994, por apenas um por cento dos votos, perdeu para Roseana o governo do Estado. Ganhou folgado o primeiro turno e no segundo foi derrotado por um triz graças, segundo denúncias documentadas, a uma fraude grosseira nas apurações. O que se sabe com certeza é que papai Sarney instalou-se pessoalmente dentro do Tribunal Regional Eleitoral, o TRE, e de lá só saiu quando os votos para a vitória da filha estavam assegurados.”

*

“‘Roseana é muito inteligente, mas não tem bom coração. Zequinha tem bom coração mas não tem inteligência. Fernando não tem nenhum dos dois’, define João Castelo, outro ex-aliado que virou adversário e, até 2009, quando era prefeito de São Luís, não havia se reconciliado.”

*

“Tal era a confiança de Sarney em Tauser Quinderé – nascido em Codó e ex-dono da Companhia Maranhense de Mineração –, que o usou como pombo-correio. Por mais de 20 anos, de tempos em tempos Tauser ia pessoalmente à Suíça levar a mala com as “economias” de Sarney. Certo começo de tarde, instalado numa mesa do Bar da Onça, no térreo do edifício Copan, em São Paulo, Helito, bisneto do Barão de Amparo, conta entre talagadas de uísque:

“Na ditadura, não tinha esse problema, na Suíça entra tudo, então ia com a mala. Não tinha negócio de doleiro não, economizava os quatro por cento do doleiro. E, numa dessas viagens, em Genebra, o Tauser teve um ataque fulminante do coração e morreu, no saguão do aeroporto. Atenderam o Tauser e levaram a mala. O Sarney ainda não era o bilionário que é hoje, mas já era um homem rico. Tinha sido governador, era senador, já tinha os diretorezinhos e o próprio Fernando Sarney na Eletronorte, o Astrogildo Quental levantando dinheiro pra ele, que estava começando a argamassar a fortuna. E nessa mala tinha muito, era uma mala de viagem lotada de dinheiro, e o Tauser morre com ela. Como o Sarney é sabidamente sovina, o Tauser viajava sozinho, de classe econômica, aquelas coisas, sem acompanhante, nada. Pegaram o corpo do Tauser e a grana não apareceu até hoje. Tem mais um rico no mundo.”

Depois de dois belos goles de uísque, com o copo longo envolto por um guardanapo de papel, a aristocrática figura do ex-subchefe da Casa Civil de Maluf retoma o fio da história:

“Ao saber da notícia de que perdeu o fiel escudeiro – e também a mala – o coração de Sarney fraquejou. Impactado por ambas as perdas, deixou Brasília em direção aos cardiologistas de São Paulo. No learjet do dono do cimento Cauê, o mineiro Juventino Dias, dona Marly acompanhou o marido enfartado com o rosário nas mãos”.”

*

“O novo golpe de mestre de Fernando Sarney se dará então na nova transição de governo. Fernando Collor, que havia acabado de vencer Lula no segundo turno, nas eleições de 15 de novembro de 1989, chamou José Sarney para uma conversa reservada poucos dias antes de tomar posse. Conversa entre presidente que sai e presidente que entra. Collor ia tomar posse dia 15 de março de 1990, uma quinta. Ele pediu a Sarney que decretasse feriado bancário, a fim de facilitar a tomada de medidas econômicas do novo governo.

Só quem viveu aqueles dias sabe a hecatombe que aconteceu. Não só os 31 milhões de brasileiros que votaram em Lula, mas também os 35 milhões que votaram em Collor caíram das nuvens naquele início de novo governo. Collor confiscou por 18 meses as contas bancárias acima de 50 mil cruzados de todos os cidadãos e empresas – muitas delas pela primeira vez em sua história deixaram de pagar os funcionários em dia. Houve gente que havia poupado durante anos e anos e só contava com aquela soma para tocar a vida, gente que tinha acabado de vender a casa para construir outra, gente que se suicidou, e toda sorte de atropelo para milhões de brasileiros. Não se sabe até que ponto Collor informou Sarney, mas com certeza o clã ficou sabendo que haveria confisco.

Um passarinho contou a Fernando Sarney, ou terá sido um bumba-meu-boi. Usando suas prerrogativas de filho do presidente da República, Fernandinho sorrateiramente dirigiu-se à agência do extinto BBC, Banco Brasileiro Comercial, de propriedade do ex-governador goiano e ex-senador Irapuã Costa Júnior, para combinar o resgate de dezenas de certificados de depósitos bancários (CDBs) ao portador. Não era pouco. Foi preciso fretar um carro blindado, como um daqueles da Brink's, para retirar a dinheirama, que saiu do subsolo do BBC no Setor Comercial Sul da capital federal. Fernando Sarney comandou a operação pessoalmente.

A capacidade dessa gente de escapar das maiores safadezas de que se tem notícia neste país é de dar um friozinho na barriga, ao imaginar que nem uma Operação Mãos Limpas poria esses colarinhos sujos atrás das grades. Ora veja que, em 2001, sequer uma Comissão Parlamentar de Inquérito relou num dedinho deles. Foi a CPI da CBF-Nike, e quem tentou mexer com eles foi quem se estrepou: a editora Casa Amarela, que publicava a revista Caros Amigos, produziu um livro-reportagem sobre a maracutaia e amargou o prejuízo de ver o trabalho impedido de sair pela Justiça. O presidente da Confederação Brasileira de Futebol, Ricardo Teixeira, se safou mais uma vez. Ele e seu vice predileto, Fernando Sarney.”

*

“Fernando, um dos vice-presidentes da CBF, antes da Operação Boi-Barrica tinha vasta pretensão: chegar a presidente da entidade-mor do futebol brasileiro, sob a bênção de Ricardo Teixeira. Todo o mundo sabe da grande amizade entre os dois. Ricardo sempre foi presença certa nas comemorações da família Sarney. Imagine o que a dupla vinha maquinando para faturar na Copa de 2014. Construção ou reforma de estádios? Muito pouco. Era sintomático que Ricardo Teixeira viesse se batendo pela privatização da Infraero, que toma conta dos aeroportos. Dizia que o país só poderia ser sede de uma Copa de padrão de primeiro mundo com aeroportos modernizados. A ideia geral era deixar Carlos Arthur Nuzman, presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, envergonhado com a mixaria que a turma dele faturou no Pan-Americano do Rio em 2007.

Ricardo Teixeira e Fernando Sarney iriam provar, na Copa de 2014, que dinheiro pode dar em árvore, sim.”

*

“Vanitas vanitatum, vaidade das vaidades, tudo é vaidade. Está no Eclesiastes, livro da Bíblia sagrada que todo velho pecador teme ao abrir. A vaidade não se dá jamais por vencida; desmesurada, vai contra a lei dos homens – e até de Deus, se você crê. Como a esperteza, como dizem os mineiros, quando é demais engole o dono. O neocoronel segue como purpurado em cortejo sem ouvir a criança na calçada gritar que ele está é nu, pelado, peladinho.

Corre o mundo virtual o anedotário. Num blog, Veridiana Serpa, que se apresenta como bacharel em Turismo, se estarrece com o que descobriu. Em meados de 2009, ela postou na internet que, em São Luís e outras cidades do Maranhão, pode-se:

• Nascer na Maternidade Marly Sarney.

• Morar numa dessas vilas: Sarney, Sarney Filho, Kyola Sarney ou Roseana Sarney.

• Estudar nas escolas: Municipal Rural Roseana Sarney (Povoado Santa Cruz, BR-135, Capinzal do Norte); Marly Sarney (Imperatriz); José Sarney (Coelho Neto).

• Pesquisar na Biblioteca José Sarney.

• Informar-se pelo jornal Estado do Maranhão, TV Mirante, Rádios Mirante AM e FM, todos de Sarney; no interior, por uma de suas 35 emissoras de rádio ou 13 repetidoras da TV Mirante.

• Saber das contas públicas no Tribunal de Contas Roseana Murad Sarney.

• Entrar de ônibus na capital pela Ponte José Sarney, seguir pela Avenida Presidente José Sarney, descer na Rodoviária Kyola Sarney.

• Reclamar? No Fórum José Sarney de Araújo Costa, na Sala de Imprensa Marly Sarney, e dirigir-se à Sala da Defensoria Pública Kyola Sarney.

Veridiana encontrou mais estas:

• Travessa José Sarney, Anil, São Luís, Rua José Sarney, Tirirical, São Luís.

• Rua Marly Sarney, Açailândia.

• Rua Fernando Sarney, Santa Inês.

• Travessa Roseana Sarney, São Francisco, São Luís.

• Avenida Governadora Roseana Sarney, Barra da Corda.

• Avenida José Sarney, Chapadinha.

• Travessa José Sarney, Caxias.

• Avenida Sarney Filho, Vila Embratel, São Luís.

• Avenida Senador José Sarney, São Luís.

Divirta-se! O Google está aí para isso. Procure que você acha mais. Nem Tiradentes, mártir da Inconfidência e Herói Nacional, recebe tanta honraria. E está morto. Eles estão muito vivos.”

*

“O deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ), tal como aquele ministro que ditou nossa política econômica nos “anos de chumbo”, seu negócio é números. Trabalhou na Xerox e na auditoria Arthur Andersen, então entrou para a política. E passou a inscrever no currículo inumeráveis suspeições.

Em 2000, a Receita Federal acusou “incompatibilidade entre sua movimentação financeira e o montante declarado ao Imposto de Renda”. Três anos depois, segundo denúncia que chegou ao presidente da Câmara, Aldo Rebelo, do PCdoB paulista, Eduardo Cunha e dois colegas deputados estavam tomando dinheiro de empresários do setor de combustíveis. Usavam a Comissão de Fiscalização e Controle para os convocar e, se quisessem livrar-se da convocação, pagavam “pedágio”. A denúncia não deu em nada.

A deputada estadual Cidinha Campos, do PDT do Rio de Janeiro, mais tarde acusou Eduardo de esquisita transação com o traficante colombiano Juan Carlos Abadia, preso em agosto de 2007 num condomínio de alto luxo em São Paulo. Cidinha afirmou em discurso na Assembleia que Eduardo vendeu para Juan Carlos uma casa no litoral fluminense por 800 mil dólares. Casa recomprada, em seguida, por 100 mil dólares a menos. Negócio feito por meio de laranjas, segundo Cidinha. Eduardo nega.

Eduardo tem afinidades com o clã Sarney – adora, por exemplo, lidar com energia. E fundos de pensão. Contra a posição da ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, e usando artifícios regimentais da Câmara que lhe permitiam chantagear, pôs na presidência de Furnas Centrais Elétricas o ex-prefeito carioca Luiz Paulo Conde. Após 14 meses no cargo, Conde ficou doente e se afastou, depois de lutar para pôr a mão no fundo de pensão Real Grandeza, dos funcionários de Furnas, que detém mais de RS 6 bilhões em caixa (lutando por seu próprio futuro, os funcionários de Furnas chegaram a entrar em greve tendo como pauta somente a não aceitação da nomeação de um apaniguado de Eduardo Cunha para seu fundo de pensão).

Entre 2003 e 2006, outro fundo de pensão, o Prece, da companhia de saneamento do Rio, gerido por gente que Eduardo indicou, deu prejuízo de mais de R$ 300 milhões, segundo apurou a CPI dos Correios. Parte do dinheiro regou o “valerioduto”, esquema de desvio de verbas públicas para comprar apoio de parlamentares – o chamado Mensalão.

Quem o pôs na política foi o tesoureiro do ex-presidente Fernando Collor, de trágica memória, Paulo César Farias, o PC. Com menos de 30 anos, Eduardo era figura importante na campanha de Collor no Rio. Virou presidente da Telerj, companhia de telecomunicações fluminense. Aliou-se a Anthony Garotinho e à mulher dele, Rosinha. Evangélico, em 2000 elegeu-se deputado estadual pelo PPB de Paulo Maluf.

Deputado federal, reeleito em 2006, tornou-se especialista em energia. Então, em 25 de março de 2009, incluiu uma mudança na regra das licitações, abrindo a possibilidade de a Eletrobrás comprar bens e contratar serviços por meio de um “procedimento licitatório simplificado”. Em seu blog, o preparado jornalista de economia Luis Nassif chamou Eduardo pelo eufemismo de “operador”. Ou seja: Eduardo Cunha operou, e doravante a turma do Sarney e do Lobão pode fechar negócio com quem quiser, como quiser. Comentário do mesmo Luis Nassif sobre a nova regra:

“Sempre existe o risco de deixar a raposa solta no galinheiro”.”

*

“O Maranhão, depois de 40 anos de predação promovida pelo clã dos Sarney, tornou-se o maior exportador de gente do país. Na primeira década do século 21, você encontraria maranhense nos lugares mais improváveis, nos garimpos da fronteira com a Venezuela, no corte de cana do interior paulista, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, na lavoura do Tocantins, no Amapá, nas Guianas, até em Florianópolis – que jamais havia visto um maranhense ao vivo, salvo turista.

A maioria dos passageiros que, partindo de São Luís, seguia no trem da ferrovia Carajás em direção ao Pará, era de maranhenses que possivelmente nunca mais voltariam. Espalhavam-se pela Amazônia como formiguinhas sem rumo em busca de migalhas. No sul do Pará, um em cada quatro habitantes já era maranhense. Dos 19 sem-terra assassinados em 1996 pela PM do Pará em Eldorado dos Carajás, 11 tinham vindo do Maranhão. Mas a que se deve tanta desgraça?”

*

“Só agora, conversando naquela tarde paulistana com o governador maranhense Jackson Lago, descubro que por trás da tragédia de Manoel da Conceição, e de um milhão de maranhenses enxotados de sua terra, também está o clã dos Sarney. (...) Podemos, sem culpa alguma na consciência, pôr na conta de quase meio século de domínio absoluto da família Sarney sobre o Maranhão:

• média de escolaridade em anos de estudo: 3,6 – a menor do país;

• das 100 cidades brasileiras com menor renda per capita, 83 são maranhenses;

• mortalidade infantil, taxa por mil crianças nascidas vivas, em 2004, era de 43,6 – vice-campeão, perdia apenas para Alagoas.

Jackson também não disse, mas terra é pouco para Sarney. O autor de O Dono do Mar é também... o dono do mar. Parece outro episódio de realismo fantástico. A ilha de Curupu, nome que quer dizer Cacique Cabelo de Velha, no município de Raposa, perto de São Luís, aonde só se chega de barco ou avião, tem uma cidade linda e 15 praias maravilhosas, tudo terreno da Marinha. Poderia ser um polo turístico extraordinário, mas quem é que se arrisca a pleitear a abertura de qualquer negócio nas praias do neocoronel? Na sua reserva ambiental privada, que ele afirma que recebeu como herança?

Todas as 15 praias de Curupu, não por coincidência, ficam nos 38 por cento que Sarney detém em Raposa, cerca de 2.500 hectares, maior que a ilha de Skorpios do bilionário Aristóteles Onassis, na Grécia, ou a do cirurgião plástico Ivo Pitanguy, em Angra dos Reis. Seus 25 mil outros viventes que dividam entre si os 62 por cento restantes, de preferência sem vista para o mar. O Ministério do Turismo sabe de tudo isso, mas se faz de joão-sem-braço. Enquanto isso, a raposa de Raposa diz que fez em Curupu uma casa à sua imagem e semelhança, bem simples, adequada a um intelectual de hábitos espartanos. Na verdade é uma mansão, à qual se junta outra luxuosa mesmo, projeto do arquiteto Sérgio Bernardes para o casal Roseana-Jorge Murad. Coisa para acabar de uma vez por todas com aquela história de que, no Maranhão, a família Sarney só não era dona do mar. Terra, para Sarney, é pouco. Aliás, não se conhece outro caso de ex-presidente dono de ilha. Nem ex-presidente dono de castelo medieval.”

*

“Das heranças malditas da ditadura, a mais pervertida delas está nas concessões de rádio e televisão. A partir da segunda metade da década de 1960, os militares passaram a cassar concessões de grupos de empresários nacionalistas e progressistas – a TV Excelsior foi um exemplo, pertencia à família Simonsen, que também perdeu a companhia aérea Panair do Brasil, celebrizada em versos de Milton Nascimento e Fernando Brant:

“Descobri que minha arma é o que a memória guarda dos tempos da Panair.”

A Panair morreu para a Varig tomar conta do mercado aéreo. A Excelsior morreu para a Globo se tornar a campeã de audiência. A distribuição de concessões inaugurada pela ditadura chegou ao paroxismo quando Sarney se viu aboletado na cadeira de presidente da República. Para garantir cinco anos de mandato, e não quatro como estava “combinado” ele se mancomunou com Antonio Carlos Magalhães, seu ministro das Comunicações, e a dupla distribuiu nada menos que 1.091 concessões de rádio e televisão. Destas, 165 “compraram” parlamentares; e 257 eles distribuíram na reta final da aprovação da Constituição de 1988. Não é exagero dizer que ali os coronéis plantaram seara para colher frutos por décadas a fio.

Nem é exagero debitar na conta da dupla de coronéis a programação idiota e fabricante de idiotas que temos neste país, dado o nível de “políticos” que ganharam concessões – dispostos à imoralidade de trocar rádio e tevê por apoio a mais um ano de Sarney. São todos do mesmo saco, os grandes responsáveis pela “máquina de fazer doido”, o jornalismo emasculado e engomadinho, a picaretagem em nome de Cristo, a cafetinagem do Filho de Deus – “esta televisão” escreveu João Antônio, “que vai transformando ignorantes em idiotas”.

O historiador Wagner Cabral da Costa localiza o momento exato em que Sarney dá o pulo-do-gato na onça:

“Em 1991, Edison Lobão ganha a eleição para o governo e logo faz o acordo para comprar a TV Difusora com sobras de campanha. E o que eles devem ter arrecadado no segundo turno para ganhar as eleições deve ter sido extraordinário. Lobão 'perde' a concessão da Globo, fica tranquilo com o SBT, que era de Sarney. Assim se consuma um troca-troca, pois a TV Mirante do Sarney passa a retransmitir a Rede Globo.”

Lobão e Sarney passariam a dominar, com o SBT e a Globo, todas as telinhas do Maranhão. Através dos anos, Sarney se gabaria de que tal concessão lhe foi concedida depois que ele saiu da Presidência da República. O fato é que, a partir dali, quem decidiria o que o maranhense iria ver todo dia na televisão seriam dois “netinhos da ditadura”: Fernando Sarney, chefe de uma quadrilha segundo a Polícia Federal; e Edison Lobão Filho, o Edinho Trinta, “por causa das taxas que cobrava para realizar transações do governo do pai dele para liberar pagamentos, etc. e tal”, como diz o historiador Wagner.”

*

“Ex-jornalista, ministro aos 72 anos, natural da cidade maranhense de Mirador, Edson Lobão formou-se em Direito. Na imprensa, chegou ao auge quando assumiu a sucursal da Globo em Brasília. Foi colega de jornalistas respeitados como Tarcísio e Haroldo Holanda, João Emílio Falcão, Ari Cunha e Gilberto Amaral no Correio Braziliense. Quando precisavam de alguém para fazer um “trabalho sujo”, rejeitado por qualquer jornalista que merecesse este nome, o superintendente dos Diários e Emissoras Associadas em Brasília, Edilson Cid Varela, gritava:

“Manda pro Lobão!”

Um publicitário superinformado define:

“Se Don Corleone, na interpretação magnífica de Marlon Brando, tivesse conhecido o Lobão, faria dele seu lugar-tenente. O Lobão é de uma frieza glacial. Vai ser fiel ao Sarney até o velório. Mas, antes da missa do sétimo dia, já toma o poder dos meninos, o que não é difícil. Além disso, o Edinho odeia o Jorginho Murad, pois concorrem na mesma faixa, digamos, o mercado do percentual.”

Corajoso, atrevido, tornou-se ministro peitando Dilma Rousseff, a poderosa ministra, chefe da Casa Civil e menina dos olhos do presidente Lula como candidata à sua sucessão, e apesar de ainda outro dia estar filiado ao seu PFL velho de guerra, do qual se desfez para entrar no PMDB e se credenciar ao cargo, sempre pelas mãos do padrinho Sarney.

Quando foi nomeado ministro, o filho – seu suplente – demorou a assumir o lugar no Senado: estava esquiando em Aspen, o “paraíso gelado” nos Estados Unidos. Com seu rosto talhado em pedra. Lobão se manteve calado em meio ao tiroteio que apontava as maracutaias do filho. Não abriu a boca. Afinal, era o ápice de sua carreira.

Edinho Trinta, menino mimado de dona Nice, herdou dos pais, entre outros negócios, a representação da cervejaria Schincariol no Maranhão, que ele botou no nome de uma doméstica-laranja quando o Fisco bateu com punhos de ferro em sua porta. Por falar em Nice, deputada federal pelo ex-PFL, um amigo do casal fala duas coisas:

“A Nice é cem vezes melhor que o Lobão. O poder e a fortuna não tiraram a humanidade dela. Foi secretária de Ação Social no governo dele. Nunca votou contra aposentados e trabalhadores. Já o Lobão topa qualquer parada. Ele é inabalável, frio. Se acertar na loteria e ganhar um milhão de dólares, se ficar com ódio, se for beijado por um neto querido, mantém a expressão inalterada, a mesma expressão facial. É um homem despido de qualquer emoção.”



Edson Lobão carregará também para sempre a fama de delator e de cão fiel dos mandachuvas da ditadura.”

*

“A união com Murad, iniciada em 1976, quando Roseana Sarney era uma gatinha de 22 anos, ia mal. Os comentários, tanto sobre incursões do marido no mundo dos negócios como sobre desavenças conjugais, eram cada vez mais frequentes. (...)

Logo após, quando o governo do sogro já fazia água e os sucessivos pacotes econômicos afundavam um a um, Roseana resolveu partir. Na verdade, a saúde não estava boa, o casamento tinha acabado e ela havia reencontrado um grande amor da adolescência. Embora mais tarde, de todas as maneiras, seus assessores e companheiros de lides políticas tentassem omitir, Roseana viveu com Carlos Henrique Abreu Mendes.

Essa separação de Roseana e Jorginho também foi bancada com dinheiro público. Quer ver como?

O empresário Ornar Fontana, dono da Transbrasil, cercado por um bando de picaretas conhecidos do mercado do lobby em Brasília, alguns ligados ao PFL, pleiteava colossal empréstimo, coisa de 40 milhões de dólares, no Banco do Brasil. Inadimplente histórico, o velho e legendário comandante encontrou todas as travas possíveis para a concessão de tal crédito. Aí seus lobistas tiveram a ideia de levar o pedido a Jorge Murad.

Em Brasília, não é segredo: a assinatura de um desquite amigável, sem escândalos, bem como a aceitação tácita de uma relação que já existia entre a ainda esposa Roseana e o secretário de Moreira Franco, Carlos Henrique Abreu Mendes, ficaram condicionados à liberação do crédito a uma empresa tecnicamente falida, como era o caso da Transbrasil. O empréstimo saiu. O que terá dado Fontana a Murad em troca de tão decisivo apoio? Comenta-se que algo em torno de 10 por cento de simpatia, amizade e gratidão.”

É DURA A VIDA

DE UM SEM-TOGA

O clã começou a puxar o tapete sob os pés de Jackson Lago tão logo as urnas se abriram no fim de outubro de 2006, dando-lhe a vitória. A gente não pode esquecer que Jackson, três vezes prefeito de São Luís, que concentra um terço do eleitorado maranhense, teve ali 66% dos votos na eleição de 2006. Em Imperatriz, região tocantina, ele recebeu nada menos que 76%, três quartos do eleitorado. Nesses dois lugares a eleição teve sabor plebiscitário: o povo queria mesmo se livrar da sarna Sarney.

Imediatamente, os derrotados chamaram seus advogados e entraram com processo de cassação do vencedor, por “abuso do poder”, tal como “beneficiar-se de convênios do Estado com prefeituras durante o período eleitoral” e “comprar votos”.

O Sistema Mirante não deu sossego a Jackson um só dia, durante os dois anos seguintes à sua posse em 1º de janeiro de 2007. Um bombardeio, uma campanha de intimidação e de preparação do povo para a volta “inevitável” de Roseana, como explica o historiador Wagner Cabral da Costa:

“Desde janeiro de 2007, sistematicamente os meios de comunicação da família diziam ‘cuidado, o processo dele está sendo julgado pelo Supremo’. Ou seja, a imagem de Sarney no Maranhão é a do homem que precisa ser temido. É um grande fantasma. Alguns colegas meus diziam na época da campanha que as pessoas não votavam em outros candidatos por medo. A imagem do medo estava colocada.”

O grupo dos vencedores festejava com Jackson “o fim da oligarquia” sem atentar para um detalhe fundamental: diante dos Sarney, eles não passavam de uns pobres-diabos, um grupo de sem-toga.

Falta uma semana para o Natal de 2008. Os juízes do Tribunal Superior Eleitoral, TSE, votam pela segunda vez a cassação de Jackson Lago. A turma de Roseana se reúne nos jardins da mansão de Sarney na Praia do Calhau. A decisão é considerada o “presente de Natal” de Roseana. Começa a votação, e o ministro Eros Grau, relator do processo, pronuncia-se a favor da cassação de Jackson. Ouve-se um grito nos jardins:

“Essa toga é nossa!”

Rojões espoucam. Perto da aposentadoria, Eros Grau sonha naquele momento com uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, como lhe prometeu José Sarney. Serve também uma vaga na Corte de Haia. Poderá então morar no apartamento que tem em Paris, decorado logo no vestíbulo com uma escultura em tamanho natural que representa ele e a mulher caracterizados como Adão e Eva no paraíso.

O presente de Natal acabou adiado porque um juiz pediu vistas do processo. Então, no meio de março de 2009, enquanto Jackson e seus correligionários sofriam um suspense com a votação final que se aproximava, o pai de Roseana rumava para o Amapá, a propósito das comemorações do 19 de março, dia do padroeiro do Estado, São José. E a pessoa com quem Sarney ia encontrar-se em Macapá para um amigável café-da-manhã, lá no meio do planeta, nem em sonho toparia manter um encontro com Jackson Lago.

Tratava-se do presidente do Supremo Tribunal Federal, o empresário Gilmar Mendes, um dos três donos do Instituto Brasiliense de Direito Público, IDP. Os outros dois sócios eram Paulo Gustavo Gonet Branco, procurador regional da República, e Inocêncio Mártires Coelho, último procurador-geral da República da ditadura, nomeado pelo general João Baptista Figueiredo. Faziam parte da turma de professores do IDP vários colegas de Gilmar no Supremo, entre eles Carlos Alberto Direito, Carlos Ayres Brito, Eros Grau, Marco Aurélio Mello, Carmem Lúcia Rocha.

Na política nacional, difícil é a vida de um sem-toga. Jackson Lago, enfim seria vítima do golpe judiciário, esbulho consumado em 15 de abril de 2009. Essa expressão – golpe judiciário – usada pelo advogado Francisco Rezek durante toda a defesa de Lago, deixou Sarney espumando. Depois do julgamento, o velho coronel mandou uma carta irada ao ex-presidente do TSE. Dizia que o advogado lhe “devia” a indicação para o Supremo, aos 39 anos, durante o governo de João Figueiredo, usando a condição de presidente do PDS, e que não admitia “tamanho insulto”. Rezek respondeu que nada lhe devia e que isso não era verdade.

Este é um capítulo rosa-choque, mas cabe aqui abrir parênteses e falar de um “cabra macho”.

CORONEL CHICO

NÃO LHE CHEGARIA AOS PÉS

A carta enviada a Rezek revela que Sarney guarda ranços do coronelismo dos tempos de Chico Heráclio. A partir de Limoeiro, Chico Heráclio fez valer sua influência em Pernambuco, e também na Paraíba, nas décadas de 1950 e 60. O coronel pernambucano pelo menos era ostensivo. Costumava dizer que “oposição e sapato branco só é bonito nos outros”. Quando comparecia aos julgamentos, juiz e jurados ficavam de olho na gravata dele. Se vermelha, tinham de condenar o réu. Se verde, o sujeito estava absolvido. Mas, e se fosse amarela a gravata? Aí, tudo bem, julgassem como quisessem: o coronel só estava ali a passeio. Pode ser lenda, pode não ser. Sarney tem saudade daqueles tempos. Não precisava ter. Ele vai além, ele é pós-Chico Heráclio.

Francisco Rezek também ironizou, durante o julgamento de Jackson Lago, a celeridade incomum do processo. O vice-procurador eleitoral Francisco Xavier Filho mereceria o epíteto de The Flash: leu os volumes com 15 mil páginas em apenas 16 dias. Dá coisa de uma página por minuto, isso se não dormisse, não comesse, sequer fosse ao banheiro. E encampou a tese da acusação. Num parecer de 15 páginas, recomendou a cassação do governador e do vice, e a posse de Roseana e João Alberto de Souza, o Carcará.

Entrementes, Sarney livrou-se de um processo que pedia a cassação dele e do governador do Amapá, Waldez Góes. A decisão do ministro Fernando Gonçalves, do mesmo TSE, entrou para a história. Fernando Gonçalves sustou o processo, por conta própria, por falta de custas para extração de fotocópias. Leia o despacho, se duvidar, no Diário da Justiça de 6 de abril de 2009.

Chico Heráclio tinha era muito a aprender com o pai de Roseana.

ELEONORA GOSTA

QUE SE ENROSCA

Tão difícil quanto a vida de um sem-toga é a vida de um sem-mídia. Quando Jackson Lago entrou com recurso no Supremo Tribunal Federal e afirmou que aguardaria a decisão da Corte em palácio, de onde só sairia “arrastado”, O Globo o acusou de promover “uma quartelada” – transformando o golpeado em golpista. O mesmo O Globo em que, paradoxalmente a colunista Miriam Leitão chamou de “grotesca” a decisão da Justiça Eleitoral de cassar o vencedor e, em vez de dar posse ao vice, entregar o cargo à perdedora Roseana – Miriam comparou a situação com o impeachment de Fernando Collor em 1992: quem assumiu foi seu vice Itamar Franco, e não o perdedor Luiz Inácio Lula da Silva.

A Folha de S. Paulo já tinha feito melhor por Roseana. No dia 7 de dezembro de 2008, a edição de domingo publicou uma chamada no ponto mais nobre da primeira página – o canto esquerdo no alto. “Uma bomba na cabeça” dizia o título. O textinho acrescentava:

“A senadora Roseana Sarney, 55, fala sobre o diagnóstico de aneurisma cerebral e se prepara para sua 21ª cirurgia.”

Para disfarçar o objetivo político ali embutido, a editora-executiva Eleonora de Lucena jogou o material para a seção Saúde, onde Roseana posa sorridente em foto que toma a página de alto a baixo. A “reportagem”, de Amarílis Lage, levanta a bola de Roseana, mostrada como “corajosa”.

Mas é o caso de perguntar: como pode alguém que está com “uma bomba na cabeça” esbaldar-se no carnaval? Pois foi no camarote do governo fluminense que Roseana sambou madrugada afora, ao lado do irmão Fernando, o procurado pela Polícia, causando – segundo notas nos jornais – constrangimento ao presidente Lula, que ali estava como convidado do governador.

Eleonora de Lucena tem um quê pela família de José Sarney, prata da casa, dono da coluna da página 2 da Folha às sextas-feiras. Em 2002, quando crescia a candidatura de Roseana a presidente da República, a editora-executiva vetou reportagem feita por um enviado especial ao Maranhão. Contava em detalhes o episódio, aqui neste capítulo narrado, em que Jorge Murad, depositário infiel, acabou preso.

“Isso é machismo”, justificou a jornalista.

Eleonora pôde mostrar seus préstimos novamente quando a barra ficou pesada para o clã, com a divulgação dos crimes de Fernando Sarney, descobertos pela Polícia Federal na Operação Boi-Barrica, em outubro de 2008. O jornal até publicou a transcrição das fitas que a Polícia gravou e o conteúdo da investigação. Mas a reportagem que aprofundava o impacto da operação policial no seio do clã, escrita pela enviada especial Elvira Lobato, Eleonora enfiou numa gaveta e lá a esqueceu.

Graças a Eleonora, o pai de Roseana ganhou um palco inestimável em 26 de agosto de 2008. Eleonora tem faro para o timing. A Polícia Federal fechava o cerco a Fernando Sarney e podia meter-lhe as algemas a qualquer momento. Para o pai, com a autoestima abalada, não podia vir em melhor momento a Sabatina Folha, tendo como atração “o senador José Sarney”, no sofisticado Pátio Higienópolis, sob a escolta de recepcionistas selecionadas com esmero. Na sua insaciável busca de limpeza da própria biografia, Sarney teve um refresco naquela manhã.”

*

“O governo Sarney (1985-1990) tentou salvar-se do naufrágio segurando-se no Plano Cruzado (o Cruzado substituiu o Cruzeiro). É um plano eleitoreiro de impacto com base na inflação zero, baixado em fevereiro de 1986. Surgiram os “fiscais do Sarney”, figuras do povo que acreditavam no tabelamento de preços imposto pelo governo trapalhão. Eles saíam pelos estabelecimentos com o broche de identificação, “Sou fiscal do Sarney”, a denunciar diante das câmeras de tevê quem aumentava preços. E afundou-se o governicho de vez no Plano Cruzado II, seis dias depois de o governo faturar a maior vitória eleitoral da história da República, em 15 de novembro: elegeu 21 de 23 governadores. Com salários congelados durante nove meses, o povo foi obrigado a arcar com os seguintes aumentos num só dia:

• 60% na gasolina;

• 120% nos telefones e energia;

• 100% nas bebidas;

• 80% nos automóveis;

• 45% a 100% nos cigarros;

Veio reação. Com o Plano Cruzado II, em 21 de novembro de 1986, explode manifestação em Brasília, o Badernaço. No dia 27 houve saques, depredações e incêndios. Atônito, Sarney mandou os tanques Urutus para as ruas. Acuado, recorreu ao Exército para fazer o trajeto entre o Palácio do Planalto e a Catedral. Ajoelhou, tinha que rezar.

As manifestações contra o velho coronel começaram desde a decretação do chamado Cruzadinho, em fins de julho de 1986, quando houve aumento de preços de carros e combustíveis em 30%, enquanto o governo alardeava a tal inflação zero. Também se pode dizer que o governo Sarney acabou em 25 de junho de 1987, quando uma multidão enfurecida abordou o ônibus do presidente no Paço Imperial, na Praça XV, centro do Rio, gritando:

“Sarney, salafrário, está roubando o meu salário!”

“Sarney, ladrão, Pinochet do Maranhão.”

Arrebentaram a janela do lado em que se encontrava Sarney, ferindo-o levemente na mão. O governo federal passou a acusar o ex-governador do Rio, Leonel Brizola, pelo “atentado”. O partido de Brizola, PDT, junto com o PT e a CUT, Central Única dos Trabalhadores, tinham organizado a manifestação.

Logo, o “entulho autoritário” da ditadura em peso foi desenterrado. Sarney, com apoio do PMDB, valeu-se da Lei de Segurança Nacional para invadir residências e prender gente sem mandado judicial. A Rede Globo responsabilizou Brizola pelo episódio em editorial do jornal Nacional. O Globo aproveitou para pedir a cassação do ex-governador do Rio de Janeiro em editorial no alto da primeira página intitulado A Opção pelo Crime.

Os fatos soterraram a encenação. No 1° de julho de 1987, uma semana depois do incidente, o centro do Rio virou chamas e restos: 60 ônibus incendiados e 100 com vidraças e carrocerias destruídas. As passagens de ônibus subiram 49%, em pleno congelamento de três meses, decretado 19 dias antes por Sarney, em novo pacote, agora chamado Plano Bresser. Uma massa enfurecida, 30 mil pessoas, fez o estrago. A polícia prendeu cem. No fim da tarde o preço das passagens voltou ao que era antes.”

*

“Dos 56 cargos federais existentes no Maranhão durante os dois mandatos de Luiz Inácio Lula da Silva na Presidência da República, entre 2003 e 2009, 54 pertenciam à “cota” de José Sarney. O partido do presidente da República, Partido dos Trabalhadores, conseguiu nomear apenas dois. Não precisava ser analista político para concluir que Lula era como que refém de Sarney e seus honoráveis. Bastava lembrar o episódio em que a ministra chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, vetou Lobão para o Ministério das Minas e Energia. Sarney anunciou por todos os quadrantes, por todas as mídias, que entrava “em férias”, ao que Roseana declarou que acompanharia papai, ao que toda a base parlamentar obediente a Sarney sinalizou que se tratava de férias coletivas. Ou seja, o parlamento parava, a máquina administrativa emperraria – cairia o sistema, como se diz em informática.

No 2 de fevereiro de 2009, ao chegar ao máximo cargo do Congresso, Sarney controlava também áreas do Ministério dos Transportes, dominava a energia de ponta a ponta, preparava-se para, com ajuda de suas togas, derrubar o governador eleito pelo povo maranhense e pôr no cargo a própria filha, que havia perdido as eleições de 2006 para Jackson Lago.”

*

UM MARANHÃO

PARA CADA UM

O Caso Lunus não era nada, um passeio na floresta encantada, comparado ao impacto devastador do relatório divulgado na imprensa em 4 de outubro de 2008. Só num país como o Brasil Sarney poderia chegar aonde chegou naquele 2 de fevereiro de 2009, agora com um filho metido em falcatruas de toda ordem. A nova investigação começou a partir de uma movimentação “atípica”, de 2 milhões de reais em dinheiro vivo, comunicada ao Ministério Público pelo Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras). A bolada entrou nas contas de seu filho Fernando Sarney e da mulher dele, Teresa Cristina Murad Sarney, às vésperas do segundo turno das eleições de 2006, para o governo do Maranhão. Roseana Sarney, agora no PMDB de papai José Sarney, tentava voltar ao Palácio dos Leões. Acabaria derrotada por Jackson Lago, pedetista histórico, num dos resultados mais espetaculares daquelas eleições.

O clã ficou tão desconcertado, desesperado mesmo, que Edison Lobão, já no segundo mês da gestão Jackson Lago, propôs no Senado um plebiscito no Maranhão para criar o Maranhão do Sul, capital Imperatriz, segunda maior cidade do Estado, onde Roseana também perdeu. A paixão é tanta, que queriam criar dois Maranhões. Da estapafúrdia proposta, nem a Folha de S. Paulo gostou, ela que dá uma coluna semanal ao velho senador.

*

UMA BOQUINHA

PARA O TIO GAGUINHO

Aqueles “atípicos” 2 milhões deveriam turbinar a campanha de Roseana. E a quem as togas cassarão, dois anos depois, por “abuso de poder econômico”? O vencedor das eleições, o módico Jackson Lago. Roseana volta, e com ela personagens que vão e vêm, tal qual nos filmes eternamente repetidos nas sessões da tarde da televisão. Gaguinho é um deles.

No centro histórico de São Luís, dois do povo conversam:

“Qual a pior coisa do Maranhão?”

“A família Sarney.”

“Qual a melhor coisa do Maranhão?”

“Ser da família Sarney.”

*

ÀS FAVAS A

INCONSTITUCIONALIDADE

No centro histórico de São Luís, ergue-se uma edificação do século 17, palco de sermões do Padre Antônio Vieira, um dos maiores oradores em língua portuguesa, autor dos Sermões e de um opúsculo chamado – mais uma vez não se trata de piada pronta –A Arte de Furtar.

Em 1990, o governador Epitácio Cafeteira deixa o cargo para disputar o Senado. Seu vice, João Alberto, assume. E toma a iniciativa que Sarney espera: promove a doação do Convento das Mercês ao ex-presidente, mediante escritura registrada no cartório de um parente da família Sarney. Dez anos depois, a área, com 6.500 metros quadrados, tombada pelo Patrimônio Histórico, por outro tipo de manobra se transforma, de Fundação da Memória República, em Fundação José Sarney. Será futuramente, apregoa o senador, um Memorial da República. A historiadora Maria de Fátima Gonçalves, autora de Reinvenção do Maranhão Dinástico, recorreu ao acervo ali oferecido. Não encontrou referência alguma que a ajudasse.

“Guardam almanaques, folhetos e enciclopédias dos mais variados assuntos”, diz Maria de Fátima, “esoterismo, literatura de autoajuda, livros didáticos dos antigos cursos primários de São Luís.”

E, acredite, lhe passaram também desenhos que os filhos de Sarney faziam quando eram crianças. Do genial Padre Antônio Vieira, você não encontrará nada ali. Em compensação, numa ala do pátio central vai deparar com um busto do “escritor” José Sarney, com um versinho do próprio:

Maranhão

Minha terra

Minha paixão

Ele acha isso tão bacana, que inscreveu na página dos editoriais de seu jornal.

No andar superior, há três salas reservadas a uma exposição sobre o Brasil, os ciclos históricos, e duas salas para objetos, documentos e fotos de momentos protagonizados por Sarney ou parentes dele. A curadoria assina um texto em que exalta o “ilustre maranhense”, como literato criador de personagens “imortais” como Antão Cristório e Saraminda, e como político “destacado em recente pesquisa como um dos melhores presidentes da República em toda sua história já secular”.

Como se vê, a única coisa em comum com um convento é a pobreza franciscana, nos textos e no acervo à disposição dos visitantes.

Na verdade, toda essa prosopopeia camufla a verdadeira natureza da imponente edificação. O Convento das Mercês transformou-se em mais uma mina de dinheiro do clã. Do estacionamento às instalações, o que vier eles aceitam: convenções, aniversários, seminários, casamentos, batizados. Sem contar que os sucessivos governos sarneyzistas sempre contribuíram com quantias generosas, ora a título de reformas, ora certas participações não bem explicadas.

Mas o grande acontecimento é o São João Fora de Época, isto sim é que é um negócio rendoso – patrocinado por empresas do porte da Petrobras, Vale do Rio Doce, Abyara. Não adianta nem pensar em menos de 500 mil por cota de participação.

Estive no Convento depois de uma festa dessas. A beleza que a gente vê nas fotografias não existe. A grama pisada, sujeira, garrafas PET, restos de comida para todo lado. O sinal de religiosidade que avistei foi, num desvão, um engradado de refrigerantes “made in Maranhão”, da famosa marca Jesus.

Em 2005, o deputado estadual Aderson Lago conseguiu aprovar na Assembleia projeto de lei que restituiria o Convento ao Patrimônio Público. O ministro do Supremo Marco Aurélio de Mello, toga indicada por seu primo Fernando Collor de Mello quando presidente no início da década de 1990, nem leu os argumentos que mostravam a inconstitucionalidade da doação do prédio histórico aos Sarney. Mandou tocar em frente.

*

“João e Janete Capiberibe foram igualmente vítimas do golpe judiciário denunciado por Francisco Rezek no caso Jackson Lago. (...) O casal Capiberibe acusa Sarney de ter armado a cassação de seus mandatos no Amapá, ele senador, ela deputada federal. Os dois, eleitos pelo PSB, Partido Socialista Brasileiro, tinham currículo político invejável, forjado na luta contra a ditadura.

Os métodos para derrubar João e Janete foram os habituais. O PMDB entrou com processo no TSE pedindo a cassação do mandato deles no início de 2004, acusando-os de comprar votos. As provas se desvaneceram. Havia duas mulheres, que disseram ter recebido 26 reais e 50 centavos para votar em João e Janete. Elas negaram tudo em depoimento à Polícia Federal e admitiram que tentaram extorquir o casal. Também foram apreendidos 150 mil reais e uma lista com supostos eleitores, mas o casal alegou que era um cadastro de militantes de boca de urna.

Num desdobramento muito parecido com o caso de Jackson, os advogados do casal ainda conseguiram que eles permanecessem no Congresso, apesar de cassados pelo TSE – o Tribunal Regional Eleitoral do Amapá os considerou inocentes; o Ministério Público estadual acompanhou todo o processo e não fez denúncia alguma. Mesmo assim, em 22 de setembro de 2005 o STF arquivou a liminar. E cassou o mandato dos maiores adversários de Sarney no Amapá, Estado tão desgraçado, que tem como maior atração uma linha imaginária, a Linha do Equador, e como líder-mor um coronel infelizmente real.”

*

“Colunista da página 2 da Folha, escrevendo sexta sim, outra também, Sarney vê na primeira fila da plateia Otávio Frias Filho, diretor de redação do jornal, e pensa que com o velho Frias seria mais fácil segurar noticias e manchetes desfavoráveis quando tudo explodir. Faz esforço para parecer seguro diante da plateia, malabarismos retóricos para “provar” que foi o presidente da transição democrática, que abriu caminho para o Plano Real e a estabilidade econômica do país, e mais, sem sua atuação no Planalto um metalúrgico jamais chegaria à Presidência da República. Tudo isso para, no final, na hora de correr para o abraço, ter que ouvir de um aposentado que se ergueu e, com voz firme e sem ironia alguma, a sério, proclamou:

“O senhor foi o melhor presidente que a ‘revolução’ teve!”

Numa frase, o desastrado admirador acabou com um ano de seus esforços de limpeza da biografia.”
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