quarta-feira, 16 de abril de 2014

Transgênicos: bases científicas de sua segurança


A segurança dos transgênicos

Transgênicos: bases científicas de sua segurança | Franco Maria Lajolo e Marília Regini Nutti | Edusp, 200 páginas.

MARCOS DE OLIVEIRA
 
As plantações de alimentos geneticamente modificados (AGM) aumentaram 87 vezes entre 1996 e 2010 e estão presentes em 29 países. No Brasil espera-se um aumento de 20% na safra de 2011/2012. Assim, poderíamos dizer que as culturas transgênicas são um sucesso entre os agricultores. Mas muitas pessoas ainda têm dúvidas ou mesmo rejeitam os alimentos transgênicos porque temem que eles possam ser danosos à saúde humana ou animal. Fazem isso com base em evidências ou faltam informações?

A possibilidade de elucidação do problema para os temerosos e também para quem quer conhecer melhor esse ramo das engenharias genética e de alimentos pode ser encontrada no livro Transgênicos: bases científicas de sua segurança, que tem como autores o professor Franco Maria Lajolo, do Departamento de Alimentos e Nutrição Experimental da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP), e da engenheira de alimentos Marília Regini Nutti, pesquisadora da Embrapa e especialista em segurança de AGM da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) e da Organização Mundial da Saúde (OMS). Eles fazem nessa 2ª edição atualizada (a primeira foi lançada em 2003) um levantamento de centenas de estudos, incluindo documentos de organismos mundiais, e descrevem a metodologia científica, baseada na análise de riscos, usada nos ensaios antes da aprovação dos alimentos transgênicos.

“Recentemente vários estudos têm sido realizados para avaliar a influência dos AGM na alimentação de animais durante várias gerações. Entretanto, em nenhum deles foram observados efeitos adversos.” Os autores mostram resultados como esse ao longo dos 10 capítulos que se iniciam com explicações, em forma didática e de fácil compreeensão, de como é a gênese dos organismos geneticamente modificados. Mostram também que dificilmente, com as metodologias aplicadas, um produto AGM possa apresentar riscos para a população. Muitos quadros explicativos, tabelas e infográficos ajudam a completar as informações e a elucidar o tema transgênicos. 
Revista FAPESP

Roland Barthes – 
Uma biografia intelectual


Roland Barthes: um cético moderno

Roland Barthes – 
Uma biografia intelectual
 | Leda Tenório da Motta | Iluminuras / FAPESP
, 288 páginas.
OLGÁRIA MATOS


 
Roland Barthes – Uma biografia intelectual, de Leda Tenório da Motta, inscreve Barthes na grande tradição das “morais do grande século”, para logo apresentá-lo na figura mais universal do filósofo. Pois, se nos cortesãos de Luís XIV, La Rochefoucauld detectava em cada vício a máscara da virtude, é por romper com a lógica do incontrovertido em que o ser é e o não ser não é. Neste sentido Leda Tenório da Motta escreve: “A Barthes essas práticas de desmonte do logos que estabiliza coisas instáveis sugerem todo um pautário que, passando pelos drogados baudelairianos postos em beatitude, pela lucidez da hiperconsciência de Monsieur Teste e pelos heróis distanciados de Brecht, vai da crise de Gide à postura zen”. (p. 52)

Desfazendo a oposição binária e o princípio de identidade, a autora mostra de que maneira em Barthes a dúvida não é o “pensamento do negativo” das sínteses hegelianas, porque não se trata de contradição, mas do Neutro. Neutro, observa Leda Tenório da Motta, não é Doxa, o discurso dos lugares-comuns e dos estereótipos da cultura contemporânea, que, ao gosto dos críticos da mídia, define sem definir, dizendo “o gosto é o gosto” ou “Racine é Racine”. Neutro, diversamente, é “ne-uter”, nem um nem outro, e um e outro.

Reavendo a tradição do ceticismo antigo e de Pirro, entre a tensão dos opostos e sua conciliação, a epoché é a “suspensão do juízo”, é o direito de calar-se. O que explica, observa Leda T. da Motta, “em plano prático ou de neutralização ética, seu famoso silêncio em relação ao regime maoista; sua decisão de não julgar o Japão moderno e tecnológico, em seu O império dos signos, para só ficar nos minimalismos da cultura nipônica ancestral; sua escapada para o Marrocos logo depois dos acontecimentos de maio de 1968, cuja cultura partisan o aborrece.” Nem ativa nem passiva, a apathia não é desafeto, mas sobrietas e delicadeza. Com o que Barthes, neste livro, afasta-se das injunções dogmáticas e de suas prescrições. O desejo do Neutro é: “Suspensão das ordens, leis, cominações, arrogâncias, terrorismos, ameaças, exigências, querer- cingir”. Nem ativa nem passiva, a indiferença barthesiana, mostra Leda T. da Motta, é distância com respeito ao narcisismo da imagem que se quer oferecer ao Outro, a que Barthes prefere o retiro que subtrai ao olhar, suspendendo as exigências da socialização. A indiferença é aqui tédio com respeito ao status quo do conformismo, é defesa contra o “acertar o passo” generalizado.

Da poética à literatura, de Rimbaud a Camus, da semiologia ao estruturalismo, do marxismo à indústria cultural, do mito à astrologia, o Neutro barthesiano é a indiferença que reúne a deriva suave à delicadeza, o discreto à nuance. E, como o punctum fotográfico, o Neutro é o pungente que se opõe ao studium, ao “estudado” para “comover”. Acompanhando os sentidos do Neutro, Leda nos mostra que, nesse “cético moderno”, à independência do juízo é também “direito ao cansaço” “no meio do caminho desta vida”, momento disruptivo, punctum final da preparação do romance do último curso de Barthes no Collège de France, de um romance que não será escrito: “Nessas condições”, conclui Leda Tenório da Motta, “como poderia o poeta definir a literatura senão como o grau zero da escritura […], a forma do escritor sem literatura?” (p. 270)

Com extremo rigor e máxima liberdade, Leda Tenório da Motta faz ver no Neutro barthesiano a metafísica da impermanência, a lei do efêmero, a vanidade das coisas e a grandeza do instante. Instante da “vita nova”, ou “a morte do autor”, a vita nova é a morte do autor.

Olgária Matos é professora titular do Departamento de Filosofia 
da Universidade de São Paulo e professora visitante do curso de Filosofia da Universidade Federal de São Paulo.
Revista FAPESP

Crônicas subversivas 
de um cientista


Memórias de um cientista subversivo

Crônicas subversivas 
de um cientista | Luiz Hildebrando 
Pereira da Silva
 | Editora Vieira & Lent, 477 páginas.

MARILUCE MOURA

 
Todas as agruras a que o processo político brasileiro submeteu ciência e cientistas no país, no período da ditadura inaugurada em 1964, ganham cor e vibração extraordinárias no recém-lançado Crônicas subversivas de um cientista, de Luiz Hildebrando Pereira da Silva. Mas, em paralelo, também ganham uma transcrição literária poderosa a avassaladora emoção e o prazer que podem irromper de uma descoberta científica a que se chega após longo tempo de buscas extenuantes, mesmo tediosas. E nesse exato instante fica muito longe a identidade de cientista no exílio para impor-se a do cientista apaixonado em qualquer latitude. “Tarde da noite, quando terminamos e incubamos tudo aquilo na estufa, estávamos esgotados. E, no entanto, bem gostaríamos de poder ficar lá, ao lado, esperando o resultado. Mas é contra as regras da ética. Os cientistas devem mostrar-se frios e indiferentes. Toda demonstração afetiva por seu trabalho ou por sua obra é malvista. Assim fomos dormir segundo as normas da profissão.” O que ele narra é o parto do gene CRO (Control of Regulator and Others). “No dia seguinte, cedinho, depois de uma noite mal dormida, chegamos ao laboratório. Diretamente à estufa. Tiramos as placas todas do interior e as depositamos sobre a bancada. É o grande momento. Um suor frio nos escorre das têmporas (…).” Nesse mesmo diapasão ele segue contando o nascimento, a comemoração com champanhe no Instituto Pausteur, em Paris, os comentários abobados de pais recentes, o registro do recém-nascido. (p. 241)

Algumas páginas antes, numa outra crônica, Hildebrando já se referira a esse filho dileto de seu trabalho científico que é dado à luz depois de ele e outros companheiros de jornada pingarem “milhares de gotas”, esfregarem “milhares de placas” e contarem “milhões de buraquinhos”. “Um dia… Uma nova bela colina se revelou a nossos olhos. A colina do gene CRO. A colina de Harvey Eisen, Pereira da Silva e François Jacob. Control of the Repressor and Others. Uma bela colina!” (p. 217)

Neste livro que inclui duas obras já publicadas, O fio da meada e Crônicas de nossa época, o talento narrativo do cientista, atuante aos 83 anos, se revela em toda a sua força também nos textos que trazem à cena retalhos preciosos da história do Brasil vista desde o campo da esquerda militante, e do Partido Comunista (PCB) em particular. Seja do exílio europeu, seja de dentro do navio Raul Soares, onde ele e tantos ficaram presos após o golpe de 1964, Hildebrando apresenta ao leitor personagens grandiosos e outros um tanto ridículos, cenas hilárias, tratadas com penetrante ironia, e outras dolorosas, perpassadas por infinita tristeza. É assim que ele conta, por exemplo, a última recepção a Roberto Morena, militante comunista em perpétua peregrinação. “Vejo sair do avião primeiro os turistas e os homens de negócios, depois Benedito Cerqueira, seu camarada na FSM, que o traz nas mãos. Ele me passa Morena e eu o tomo em meus braços com ternura. Ele não pesa muito. Apenas um quilinho. Um quilinho de cinzas.” (p. 282)

Chama atenção a capacidade de Hildebrando de fugir a toda tentação maniqueísta e, por isso, poder flagrar, de repente, no olhar de um político como o ex-governador paulista Adhemar de Barros, naturalmente um adversário, um lampejo de pura dignidade e determinação, e não se furtar a revelá-lo. E impõe-se por fim ao meu olhar o quanto é povoado quase que só por homens o universo por ele narrado. É um código masculino da amizade que apreendemos quando ele diz: “No momento da despedida, o fiscal de rendas me estendeu a mão, que apertei com cordialidade. Ao balançar a minha, com uma pressão em que eu reconhecia ternura de um novo companheiro, ele me disse: (…) se eu for preso outra vez não será mais por corrupção… Será por subversão!” 
Revista FAPESP

O capital e suas metamorfoses


Vencedores e perdedores

O capital e suas metamorfoses | Luiz Gonzaga Belluzzo | Editora Unesp, 192 páginas, ANTONIO CORREA DE LACERDA



No mundo em que mandam os mercados…. os cidadãos estão divididos entre vencedores e perdedores. Os primeiros, ao acumular capital financeiro, gozam do “tempo livre” e do “consumo de luxo”. Os demais se tornam dependentes crônicos da obsessão consumista e do endividamento, permanentemente ameaçados pelo desemprego e, portanto, obrigados a competir desesperadamente pela sobrevivência
 
LUIZ GONZAGA BELLUZZZO

O que as crises do capitalismo têm a ver com a financeirização em curso na economia mundial? Como a hegemonia da corrente principal do pensamento econômico tem influenciado as decisões no âmbito da política econômica, a concentração do capital, e a exploração do trabalho?

A partir de indagações como essas Belluzzo nos oferece importante reflexão utilizando-se do método e da interpretação próprios da economia política, recorrendo às ideias econômicas de Marx e Keynes, mas indo além na sua análise interdisciplinar incorporando visões, entre outros, de filósofos como Berman e Marcuse.

No primeiro dos cinco ensaios, “Introdução à democracia radical de Marx, pensador da modernidade”, o autor faz uma análise crítica do capitalismo, principalmente a partir da inspiração marxista e keynesiana, revelando sua contemporaneidade para a compreensão da economia capitalista, suas nuances e peculiaridades.

Em “O capital e a ontologia do ser social”, segundo ensaio, pode-se apreender uma reflexão da economia política, ainda em Marx, agregando Lukács. Evidencia-se aqui um contraponto essencial na relação poupança e investimento da visão ortodoxa, lembrando que “para Marx, como para Keynes, a acumulação de capital, o investimento, gera poupança e não ao revés, como pretendem as teorias convencionais” (p. 84). Isso faz muita diferença, pois, no diagnóstico da ortodoxia, é preciso abrir mão do consumo presente para gerar poupança e daí o investimento. Na visão da economia política ali desenvolvida, o processo é justamente o contrário. O investimento é incentivado via crédito e a atividade daí gerada é que proporcionará, como um resultado do processo, a poupança.

Por sua vez, o terceiro ensaio “Concorrência, crédito e crise: considerações a partir de Marx”, há uma interessante análise da financeirização da economia e um contraponto ao que considera uma visão equivocada de parte relevante de analistas de esquerda, que tende a separar capital produtivo e financeiro. “O capital a juros, como forma de existência do capital, realiza a necessidade de perpétua expansão e valorização do capital para além dos limites de seu processo mais geral e ‘elementar’ de circulação da produção” (p. 88). O processo descrito, destaca, é a única forma de o capital manter-se reproduzindo-se aliando a renovação tecnológica e a concentração. Não há, portanto, para Belluzzo, dois mundos distintos, um no campo produtivo, outro financeiro, mas ao contrário um único que se autossustenta, se mantém e se reproduz.

Interligando este ensaio com o anterior, “A transfiguração neoliberal e a construção da crise de 2008”, o autor aprofunda a análise da crise norte-americana de 2008, suas causas e efeitos.
Ultimando a reflexão, no quinto ensaio, “Do Estado de bem-estar às portas da barbárie”, Belluzzo discute a ausência de uma ordem econômica no pós-guerra que crie as condições para um desenvolvimento. É a partir dessas análises que o autor vai buscar elementos para uma reflexão sobre o indivíduo e a sociedade. A grande transformação em curso limita as escolhas e a essência da individualidade. Isso vale tanto para o seu papel de trabalhador quanto para o de consumidor. O trabalhador, agora muitas vezes conectado 24 horas e a “flexibilização” do horário móvel ou do “trabalho em casa”.

O consumidor, assediado pela propaganda fomentadora da “mimetização dos padrões de consumo”, na expressão de Celso Furtado – uma infindável sensação de necessidades não satisfeitas e um incentivo ao endividamento. É uma armadilha em que a visão de bem-estar está excessivamente dependente da posse, ou “acesso” a mais bens e serviços, o que é, obviamente, inviável para a grande maioria das pessoas. Não obstante, impelidas a tal, sob pena de se sentirem, elas próprias, obsoletas em um mundo de aparência, imediatismo e frugalidade.

Antonio Corrêa de Lacerda, professor-doutor e coordenador do Programa de Estudos Pós-graduados em Economia Política da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), é doutor pelo Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Revista PAPESP

terça-feira, 15 de abril de 2014

Em busca de Gabrielle

 


Em busca de Gabrielle
A historiadora Stella Maris resenha o livro 'Em busca de Gabrielle' de Vavy Borges

Stella Maris

Em busca de Gabrielle se encontra no cruzamento que envolve a recuperação das biografias e a história de gênero. A biografada alcançou alguma notoriedade no círculo das elites carioca e paulistana, mas não exerceu atividades de grande impacto público. Gabrielle Leuzinger Masset (1874-1940) era descendente de suíços e franceses, casou-se duas vezes, sendo o primeiro marido um riquíssimo capitalista alemão. Milionária pela sua herança, sem possuir herdeiros naturais, uma vez viúva viajou por vários países, lutando com denodo para preservar a fortuna que quiseram lhe tirar. Esta luta rendeu-lhe os estigmas de excêntrica e demente.

Quem biografar

O livro prende o leitor, e não se trata de uma biografia dessas que ressaltam apenas os fatos pitorescos como chamariz para a leitura. Ao biógrafo convencional talvez seja suficiente eleger uma vida que apresente alguns aspectos “picantes” e desperte empatia. Para um historiador que se aventura nesta empreitada, uma infinidade de dúvidas se colocam de antemão: quem biografar? Por quê? Qual a relevância histórica da personagem?

O fato é que para o “historiador-biógrafo”, uma vida não basta, sendo

necessário analisar os diferentes acontecimentos e as visões sobre ela por intermédio das fontes. Este traço permeia todo o livro de Vavy Pacheco, que se utiliza de grande variedade de documentos, como fotos, jornais, crônicas de costumes, relatos de viagem, laudos médicos, processos e veredictos judiciais, testamentos, diários, cartas e bilhetes. Trata-se, aliás, de trabalho exemplar quanto ao uso dos arquivos privados.

A simpatia pessoal da autora em relação à biografada é contida pelo dever do ofício, mas isso não implica neutralidade. Depois de dar a conhecer tantas Gabrielles quantas os documentos foram capazes de mostrar, termina o livro com apreciações particulares e intitula seu último capítulo como “Minha Gabrielle”. Ainda assim, o hábito do ofício persiste e além de não resvalar em considerações subjetivistas, segue usando as fontes, neste caso os laudos psiquiátricos e veredictos judiciais, que lhe permitem uma discussão interessante sobre os limites entre a loucura e a razão, tema que costura todo o livro. Volta e meia mostra como a memória de Gabrielle foi forjada em torno da questão da loucura, fato não raro entre as mulheres ricas acusadas de “desvios de comportamento”.

O fato de ser uma biografia que emprega procedimentos metodológicos específicos da pesquisa histórica acadêmica não torna o texto pesado e sem surpresas. Colabora para isso a arte do bem narrar. Somos levados a espontâneas interjeições de espanto diante de episódios da vida de Gabrielle, a quem vemos desfilar por lugares cujas fisionomias foram alteradas com o tempo, mas que conseguimos visualizar e revisitar como que numa viagem ao passado.

Em primeira pessoa

A visão sobre Gabrielle aqui é diferente daquela que a julga como “a louca, rica e lendária tia da família”, pois a autora fala a partir de um lugar cujo alcance pressupõe uma trajetória de anos de estudos críticos sobre biografias e reflexões sobre as “escritas de si”; lugar de quem conquista autoridade para falar, e com critério fala apenas o que pode. Se o critério, a busca da justa medida e o esforço investigativo tendem a encobrir as percepções pessoais da biógrafa em relação à biografada trata-se, por outro lado, de um livro que tem por marca a pessoalidade: é escrito em primeira pessoa; personagens de sua família e de seu marido – como a própria Gabrielle – são lembradas; suas tarefas investigativas são descritas. Dados os tantos momentos em que se faz presente, é uma proeza conseguir retirar de si o destaque para fazer preponderar um senso de objetividade garantido pela pesquisa.

A despeito da pessoalidade, é a “historiadora” quem fala/escreve e, apesar disso, o leitor comum se sentirá tão à vontade como o acadêmico. Para isso corroboram a presença de um tom didático e da leveza na narrativa. A nada fácil tarefa de tratar de temas complexos de maneira simples é marca mais antiga em sua trajetória: em 1980 publicou O que é história, da conhecida “Coleção Primeiros Passos” (Brasiliense). Em outros trabalhos acadêmicos, dedicou-se à história paulista na passagem da Primeira República para o Estado Novo, sob o enfoque da história política.

A trajetória de uma produção que passa da ênfase na história política stricto senso aos enfoques da biografia e de gênero, às reflexões sobre o indivíduo e o âmbito privado, à fronteira com a psicanálise, à construção da memória e às escritas de si nos leva a pensar numa mudança. Talvez seja por isso que ela própria afirme ter demorado a realizar o trabalho sobre a “tia Gabriela”. Ficamos com a impressão de que a autora descobriu “a tempo” a possibilidade de fazer esta pesquisa e dar o tratamento escolhido.

Não só “a tempo” de que a imagem da biografada não se perdesse no tempo, mas de incorporar uma perspectiva diferente da até então adotada. Entretanto, nem tudo são mudanças, e não parece ser fruto do acaso sua preocupação em explorar os interesses da biografada pela política, manifestados – explica - “em seu sentido mais amplo (não o político-partidário)”.

Este e outros lados de Gabrielle são examinados nesta biografia. Ciente e partícipe das discussões sobre os novos desafios na realização de biografias, a autora não concebe a vida como uma trajetória unilinear onde as contradições e ambiguidades aparecem como desvios em um destino pré-concebido. São diversas as Gabrielles que estão em jogo: a forjada pela própria biografada, que adotou diferentes nomes; a projetada pelos familiares, que construíram sua memória como louca; a analisada pela autora, que mostrou suas várias facetas.

História complexa e desdobrada, mas tecida com impecável rigor. Sem pisar em falso, não faz afirmações gratuitas nem resvala para o anedotário familiar. E não seria difícil, pelo tema e material que tinha em mãos, construir uma colcha de picuinhas e curiosidades.

 Revista de História da Biblioteca Nacional

O jogo da Amarelinha

Previsível e datado
Júlio Cortázar foi um dos autores extraordinários esquecidos pela Academia Sueca de Literatura. A crítica o considerava dotado de uma fórmula narrativa pouco notável

Nashla Dahás
 
Não havia lido uma linha sequer escrita por Julio Cortázar até bem pouco antes desta resenha. Hoje, conheço Octaedro (1974), Os Prêmios (1960)e O jogo da Amarelinha (1963); apenas três das muitas publicações de maior e menor sucesso do autor. Minha primeira impressão foi a de uma frieza mental capaz de calcular o grau de asfixia intencionalmente provocada no leitor ao longo de uma trama cujas dimensões incluem a estética literária, a viagem metafísica e a história, essas “formas superiores de boato”.

De acordo com parte importante do establishment da crítica literária argentina, Cortázar cometeu um erro imperdoável, razão pela qual ocuparia hoje apenas prateleiras secundárias nas boas livrarias. Ao escrever demais, permitiu que fosse mapeado, fez notar sua “fórmula” narrativa, quase como um homem que se torna tanto menos atraente, quanto mais se descobre. O roteiro incluiria sempre um personagem masculino que se choca com o imprevisível, o lá-fora, o desconhecido. A batida produz no sujeito uma inquietação, a intranquilidade, o trauma que o transposta a uma outra dimensão do mundo e de si mesmo. Ao fim, realidades e sujeitos transformados coexistem dentro de um mesmo contexto ou personagem, enquanto o leitor sente algo como identidade ou verossimilhança na catarse descrita.

No conto Os passos no rastro, Fraga, o professor universitário pensa: “Mas essa imagem é bastante clara para mim? As afinidades entre Romero [o poeta a ser biografado] e eu, isso que torna fatal a escolha do assunto por parte do biógrafo, não me farão cair mais uma vez numa autobiografia disfarçada?”. Não. “... Bastaria uma atitude alerta, uma vigília dedicada à submersão na obra do poeta, para evitar qualquer transfusão indevida...”. Seguem-se pesquisa, entrevistas, leituras intermináveis, publicação, sucesso, convites, prêmios.

Até o momento da invasão, “se fosse preciso chamá-la dessa maneira, foi como algo que varreu todo seu sentido”. “O peso confuso, o vento negro se transformaram numa certeza: A Vida [biografia de Romero publicada por Fraga] era falsa, a história nada tinha a ver com o que escrevera. Sem razões, sem provas, tudo era falso. E ainda, arrastava-se a certeza que conhecera desde o primeiro momento. (...) Inútil acender outro cigarro, alegar que a excessiva dedicação a seu herói podia provocar aquela alucinação momentânea, aquela rejeição por excesso de entrega...”.

“Jamais compreenderia por que não tinha sabido antes que tudo era sabido. (...) Não quis me dar conta, não quis mostrar a verdade porque então, Romero não teria sido o personagem que me fazia falta como fizera falta a ele armar a lenda... (...) Irmãos na farsa, na mentira esperançada de uma ascensão fulgurante, irmãos na brutal queda que os fulminava e destruía. (...) Tinha escrito sua autobiografia dissimulada. Teve vontade de rir, e ao mesmo tempo pensou na pistola que guardava na escrivaninha”.

A “fórmula” bate, não só neste como em muitos outros contos, nos quais – acredito - a consciência da forma não impede o prazer do conteúdo. Não que tais elementos se prestem à separação, mas, talvez, não seja a ausência de surpresa que desanima o crítico de Cortázar, mas a dificuldade de lidar com outros parâmetros do que se entende por prazer. Neste caso, o raciocínio proposto por Slavoj Zizek a respeito dos ovos Kinder Surprise pode ajudar. O filósofo afirma que “a maioria das crianças compra ovos Kinder pela surpresa. Eles nem sempre se dão o tempo de comer o chocolate. Trata-se de uma lógica do desejo e não do consumo. Os ovos Kinder são o modelo de todos esses produtos que nos prometem alguma coisa “a mais” do que aquilo que poderíamos consumir”. E adverte: “É preciso, pois, resguardar-se ante uma mitologia que oporia nossos “verdadeiros” desejos e uma sociedade de consumo toda ocupada em aliená-los”.

Homem de quases

Desvendada a estética do escritor, quebra-se o primeiro encanto do objeto de desejo. A seguir, o que ocorre é que o leitor contemporâneo frequentemente não se permite o tempo mais longo de um deleite menos efêmero. Acostumado ao que Zizek explica como um modus operandi da sociedade atual - a corrida desenfreada pelo gozo, em que o superego deseja sempre mais -, vê em Cortázar apenas o fracasso de quem parece não se importar em ser um homem-personagens de “quases”. Ao escritor, não incomodava que o prazer durasse pouco, “a transição da felicidade para o hábito é uma das melhores armas da morte”, dizia. Alguns reclamam que deveria ter recebido o Nobel, mas não ganhou, tornou-se conhecido internacionalmente, mas nunca alcançou o patamar de Jorge Luís Borges, fez política, com a certeza, entretanto, de que “não todo homem tem nascido para ser soldado duma revolução. Pode ser um homem duma vida interior, duma timidez de caráter, que o leva a escrever exclusivamente uma obra que canta à revolução”.

 
“Não sirvo para ir mais longe, tentar qualquer dos caminhos que outros seguem à procura de seus mortos. A fé, ou os cogumelos, ou as metafísicas”. Trechos como esses nos levam pela boca dos seus personagens, às frustrações de homens comuns – com o que possuem de bom e mau -, jogados pelo acaso no mundo dos questionamentos, dos prazeres ilícitos, dos jogos cotidianos em que se exercita o prazer de gozar, mas também o de apenas prolongar a sensação de estar vivo. Em Manuscrito achado num bolso, por exemplo, não há gênios, tragédias ou grandes mistérios, apenas um sujeito comum, de existência pacata, que reclama tensões um pouco mais fortes, dessas armadilhas que diariamente construímos em conluio com o acaso: “Minha regra do jogo era simples, era bela, estúpida e tirânica, se eu gostava de uma mulher sentada à minha frente, se seu reflexo na janela cruzava o olhar com meu reflexo na janela... então havia jogo, dava exatamente na mesma que o sorriso fosse aceito ou respondido ou ignorado, o primeiro tempo da cerimonia não ia além disso”. “Talvez Margrit teria respondido a meu sorriso na vidraça se não houvesse de permeio tantas ideias preconcebidas, tantos não deves responder se te falarem na rua, ou te oferecem balas, e quiserem te levar ao cinema”. Mas, ao saber do jogo, Margrit não pôde “lutar contra uma máquina montada por toda uma vida a contrapelo de si mesma, da cidade, e suas palavras de ordem”.

Foi a respeitadíssima escritora argentina Beatriz Sarlo quem definiu Cortázar como autor de uma obra que não resistiu ao tempo. Em princípio, me pareceu uma crítica dura, impregnada de uma modernidade que não permite não gozar, para usar os termos de Zizek, ansiosa pela sofisticação do pensamento que rapidamente se renova. Mas, cientes de que o tempo não é linear, nem progressivo, nos damos conta de que, com seus quase dois metros de altura, o escritor argentino, nascido em Bruxelas, foi extensamente lido até meados da década de 1980. Nesse momento, palavras como “repressão”, “transgressão”, ou “interdito”, começaram a perder potência, diante das transições latino americanas de regimes ditatoriais para a “interiorização das regras”. Nos anos 90, as democracias competitivas e permissivas já se alimentam da autocensura, enquanto Cortázar começa a parecer uma obra para adolescentes. Seus jogos intelectuais estão supostamente mapeados e aquelas “coisas que apenas pensadas de repente nos entopem a garganta” já podem ser ditas livremente, justamente porque, neste caso, a liberdade tomou a aparência da banalidade, e sobre esta, vale à pena pensar?

Ao reconhecer que já sabia que a biografia que escrevera sobre Romero era uma farsa, Fraga, o personagem de Julio Cortázar comenta: “Romero continua sendo o autor dos melhores poemas dos anos vinte. Mas os ídolos não podem ter pés de barro, e com a mesma vulgaridade meus queridos colegas vão me dizer isso amanhã”. Talvez o escritor também soubesse antes do que hoje é sabido.
 Revista de História da Biblioteca Nacional

segunda-feira, 24 de março de 2014

A educação espontânea: quando os adolescentes se formam por si próprios


Diogo Acioli Lima; Ivar César Oliveira de Vasconcelos; Candido Alberto Gomes
Pesquisadores da Cátedra Unesco de Juventude, Educação e Sociedade da Universidade Católica de Brasília. aciolidiogo@gmail.com; ivcov@hotmail.com; clgomes@terra.com.br

Anne Barrère. [L'Éducation buissonnière: quand les adolescents se forment par euxmêmes] PARIS: ARMAND COLIN, 2011. 228 p.

Embora alunos, crianças e adolescentes ainda conseguem ter o seu próprio tempo, em que desenvolvem atividades da sua escolha. São atividades como esportes e outras formas de lazer organizado; inserção em atividades da cultura de massa; uso de tecnologias para fins relacionais; a convivência com colegas e outras atividades que Barrère comparou às "provas" rituais da Paideia grega, que formavam o caráter (neste caso, para o "bem" socialmente definido). Caberia acrescentar outras "provas", como a separação dos pais e as recomposições familiares, além dos ordálios cada vez mais temíveis do ingresso no trabalho. Com efeito, essa socióloga, a partir do contato com os filhos e seus amigos adolescentes, desenvolveu sofisticada pesquisa qualitativa sobre a autoformação desse grupo etário e sociocultural.

Verificamos, mais uma vez, que, para ser aluno, é preciso dominar o currículo da sala de aula, ao passo que, para ser adolescente e jovem, cabe transitar pelos meandros dos currículos da rua, que podem irradiar-se pelos pátios e arredores escolares, onde se exercitam as sociabilidades e protagonismos adolescentes e até infantis. As provas e ritos integradores se desenvolvem tanto na escola, em particular por meio das avaliações (cognitivas, afetivas, sociais, morais), para o papel de aluno, e, fora dela e da família, para o papel de jovem. Os currículos da rua são complexos: é preciso saber habitar a pele de uma multiplicidade de outros; captar, interpretar, satisfazer e contrariar expectativas de comportamento; usar diversas máscaras, sem confundir nenhuma delas com o próprio rosto; ser sem parecer e parecer sem ser; mostrar ou ocultar tristezas e alegrias, realizações e frustrações; liderar e ser liderado; concordar e discordar; negociar entre autonomia e heteronomia, tanto a da família quanto a dos grupos de pertencimento; estabelecer limites para a sua autonomia e os status nos grupos; nadar conforme as correntes, escapando sutilmente para as margens em determinadas circunstâncias; ser confiável, mantendo fidelidade aos códigos grupais; participar de certos gostos e padrões de consumo; apresentar certas aparências, conforme o tempo e o espaço; demonstrar autonomia e desenvolver outras características que, inegavelmente, formam o caráter, construindo e misturando os paradoxos pós-modernos com a dualidade dos antigos em meio a uma tragédia grega encenada com máscaras.

Certos educadores superestimam as relações antípodas entre as culturas escolares e adolescentes. Umas não são o avesso das outras, mas a tensão é maior para os alunos socialmente menos aquinhoados, distantes do capital cultural. Essa oposição e os consequentes tédio e revolta contra a escola não são exclusividade deles. Culturas adolescentes e juvenis também não conduzem necessariamente a comportamentos antissociais, ainda que o teste de limites, a transgressão "lúdica", o ingresso nas terras de aventuras e a aceitação de desafios sejam riscos. Porém, de fato, certas culturas etárias podem ser enredadas tanto pelo crime organizado global, como por diferentes tipos de cultura de massa.

Embora mantendo o monopólio das credenciais, a escola e, em grande parte, a família perderam o monopólio dos conhecimentos e da formação do caráter. Por isso mesmo, Barrère distinguiu cinco provas, similarmente à Paideia. A primeira é a da adesão ao amplo leque de atividades à escolha dos adolescentes. Necessárias à descompressão do tempo escolar e do seu tentáculo doméstico, o dever de casa, as atividades eletivas, por atraentes, levam a uma agenda sobrecarregada. Desse modo, é preciso aprender a gerir o tempo e os custos, como também o grau de dedicação a cada uma delas. Há tempo de singularizar e pluralizar, de concentrar e dispersar, sendo a conquista do autodomínio o desfecho feliz. Nesse sentido, o grupo de colegas é um agente ativo de regulação e, ao mesmo tempo, de apelo a excessos, tateando em busca de limites.

A segunda prova é a da busca de experiências vividas intensamente, que implicam saber aproximar-se e afastar-se ou, mais uma vez, estabelecer limites. Viver plenamente a vida, o delírio, o fascínio e a paixão, é necessário para romper o tédio e a rotina, afirmando a vida e assumindo plenamente a subjetividade e a condição juvenil, como é culturalmente definida. Ao mesmo tempo porém, é preciso aprender a conjugar intensidade e duração das atividades, bem como a evitar as derrapagens das condutas de risco. A escola é lenta, a música e a dança são intensas e dinâmicas, elevam ao êxtase, embora exista o reverso profundo da depressão e do suicídio, deixando os alunos a viver entre Apolo e Dionísio. Da mesma forma que os adolescentes fazem o zapping das atividades, também desenvolvem a sua bolha individual. Como na escola, sucessos mais frequentes que fracassos são fatores de adesão e de abandono de atividades eletivas.

A terceira prova é a da singularidade, ou seja, tornar-se indivíduo, pessoa. O pesado manto da uniformização se faz efetivo tanto pela cultura de massa quanto pelo conformismo grupal, se bem que os processos não são monolíticos. Ao contrário, existe uma sutil dialética entre a padronização e a individualização quando os olhos captam os pormenores. A coerção social cede lugar à necessidade de construir uma personalidade nascente, um sujeito dentro e pelo grupo. Contrapõem-se e se associam desejo de pertencimento e afirmação pessoal, integração ao grupo e subjetivação, comportamentos uniformes e pequenas diferenças de apresentação pessoal, pensamentos e gostos, que constroem a singularização. Claro que há grupos mais ou menos abertos às diferenças, todavia o conformismo total se revela impossível, inclusive porque agir como os outros não evita as críticas. Por outro lado, as normas e padrões grupais são dinâmicos, de modo que é preciso efetuar escolhas.

A quarta e última prova é a de caminhar na dimensão temporal, isto é, de estabelecer os elos entre o presente e o futuro, entre as atividades da adolescência e as projeções da idade adulta. Em vez do imediatismo, favorecido pelo consumo e, ao mesmo tempo, criticado e praticado pelos adultos, é preciso olhar adiante. O adolescente mira o futuro com a ótica do sonho, influenciado pelas mitologias da mídia. Os sonhos não apenas mudam, como se envolvem na névoa indefinida de inviáveis ambições. Entretanto, para converter sonhos em projetos, é preciso um caminho. Este processo de escolhas viáveis, exigido pela escola e pela família, implica não raro a morte do sonho e a superação do respectivo luto. Envolve o planejamento de pequenos e gradativos passos, consistentes, reunindo recursos e superando obstáculos. Essa prova decisiva da vida adulta se entrecruza com as anteriores: é um convite exigente para superar a polarização de uma atividade, mais intensa que duradoura, que, ao mesmo tempo, permite conquistar a singularidade, uma vez que o projeto de futuro é pessoal. O atendimento a essa convocação mobiliza o recurso ao capital social e cultural, muitas vezes a uma modalidade de transmissão ocupacional familiar, inclusive porque o sucesso escolar se torna cada vez menos suficiente.

Já os adolescentes e jovens dos meios populares utilizam outra lógica de inserção, baseada em novas articulações entre sonho, projeto e realidade, que, em grande parte, escapam à órbita da escola e da família. Para as duas populações, mas sobretudo para a menos aquinhoada, a experimentação de alternativas por ensaio e erro tem papel relevante. No entanto, a autora hipotetiza que, com a inflação escolar e o afrouxamento dos laços entre os diplomas e a alocação social dos indivíduos, a escola pode perder importância no futuro. Em contraponto, a prova de caráter do caminhar poderá ter maior pertinência nos próximos anos. Ou, pelo menos, em tempos de crise, traçar o caminho estará mais longe dos sonhos e projetos adolescentes.

As conclusões apontam para certa miopia do pessimismo que caracteriza muitas opiniões de educadores e da sociedade. Nas atividades eletivas os adolescentes participantes da pesquisa enfrentam as provas com lucidez e equilíbrio, se superam, buscam a singularização emancipadora, educam-se numa área livre dos discursos escolares, que, a nosso ver, incluem mais valores proclamados que vividos. A visão da escola para muitos é a de um castelo sitiado pela cultura de massa e pela tirania dos pares, mas também cabe relativizar conclusões de que é impossível educar diante da cultura de massa, em concorrência "cruel" com a cultura escolar. Consideremos, porém, que as coisas são menos simples para os que não contam com o capital cultural para vencer as provas da Paideia. Os meios populares desenvolvem culturas ou subculturas que parecem necessárias à sobrevivência dos que os habitam.

A autora ainda discute a visão da escola sob o prisma das atividades eletivas. Do ponto de vista da socialização, tais atividades também socializam e apresentam certa convergência em face dos valores da escola. Esta última se expande no que ela chama de "pedagogização da sociedade", com tempos, espaços e rituais fixos, muitas (a nosso ver, não todas) atividades eletivas apresentam um currículo assistemático, alternativo e até certo ponto lúdico, que envolve a introdução em conhecimentos e habilidades, além de aperfeiçoamento e obtenção de resultados, inclusive em competições públicas. Não raro os adolescentes encontram instrutores tão duros que os educadores considerariam inaceitáveis nas escolas. É arriscado supervalorizar tal currículo, contudo cabe lembrar que as pessoas desenvolvem aprendizagens e competências não reconhecidas pela escola, que poderiam ter lugar nela e que hoje, ao menos na área profissional, muitos países requerem a sua certificação, pela própria escola, já que ela mantém o monopólio das credenciais (seria um caso em que se nomeia Drácula gestor do banco de sangue?).

Daí brota outra questão. O currículo das atividades eletivas inclui imagens, música, informática e práticas esportivas, num ritmo dinâmico, alheio à cultura escolar. Há anos uma educadora manifestou a sua perplexidade ante o tédio manifestado pelos adolescentes nas pasteurizadas aulas de educação física, em contraste com a sua devoção aos exercícios nas academias. Contrastava o clima morno das aulas de línguas estrangeiras, com o interesse e a efetividade das aulas de "cursos livres", integrantes do tal sistema educacional "sombra". Acrescentaríamos os resultados concretos das aulas de apoio ou de explicadores hábeis no aproveitamento dos alunos, em contraste com as "aulas de recuperação" que até hoje muitas escolas inserem no calendário letivo e que parecem ser úteis apenas para cumprir a letra da lei (diria Anísio, citado por Darcy: Tudo legal e tudo muito ruim).

Por fim, Barrère situa a necessidade de refletir sobre a educação escolar a partir das atividades eletivas. A formação (do caráter) depende menos da escola que as expectativas usuais. Diante da pressão escolar, os participantes da pesquisa buscaram fora da escola a construção pessoal e a descompressão do tempo escolar. A escola foi retratada com um déficit de intensidade e dinamismo, daí o aborrecimento ou o tédio. No código popular: a escola poderia ser menos "chata"?

A escola republicana, ideal da modernidade, inseria-se num projeto político destinado a modelar as novas gerações. Então, indaga a autora, a serviço de que projeto está o rompimento entre a cultura escolar tradicional e as novas formas culturais? Tanto o pânico moral dos adultos em relação aos jovens quanto as atividades eletivas são antigos. De igual modo, criticar o anacronismo das instituições, entre elas a escola, não é novidade. O inédito, constatado pela pesquisa, é o estratagema que leva os adolescentes a provar a sua força de caráter, ideais e sua singularidade em grande parte fora das instituições tradicionais, como a escola. É claro que, no ensaio e erro, ocorrem excessos, adições e dificuldades de encontrar os caminhos e limites, mas o que chama a atenção de Barrère é a capacidade de alguns no sentido de fazer de certas atividades eletivas "verdadeiras tutoras da sua construção pessoal" (p. 207).

Da mesma forma que as flores da primavera desafiam as pedras e o cimento, irrompendo sem licença nos seus interstícios, parece-nos que os adolescentes não se saem tão mal como esperam os pessimistas, nem tão bem como supõem os otimistas. No seio das contradições da sociedade, das angústias e mudanças inesperadas, a capacidade de superação e flexibilização não podem ser subestimadas. Como denominador comum, entre ambos os extremos, fica a conclusão de que os desafios para a escola parecem crescer. Há que definir o que é educação e o que cabe à escola, tão reduzida a conteúdos, testes e diplomas.

A História mostra que os monopólios têm a trajetória de estrelas cadentes. Eles por si sós dificilmente poderão manter-se nesta modernidade caracterizada pela instabilidade estável e a efemeridade do eterno fluxo, conforme Heráclito. A pesquisa de Barrère descerra a delicada tessitura dos interesses do alunado e da incoerência entre estes e os currículos escolares, construídos por adultos numa arena de interesses também adultos, onde se hierarquizam prioridades. Não propomos o populismo educacional, pelo qual a juventude decida o que estudar na escola. É fato, porém, que se torna evidente sua alienação, inclusive dos "herdeiros".

Ao distanciar o foco acadêmico das necessidades e interesses discentes, a escola corre o risco de tornar-se um quisto cultural. Já no início do século XX, Dewey e outros filósofos propunham soluções para a educação escolar ante as mudanças da sociedade urbano-industrial e a construção histórico-social da juventude e da adolescência, cuja identidade se delineava como tímido ensaio. Por isso, entre outros caminhos (agora para os educadores), é preciso estudar e incentivar o engajamento dos alunos na escola, e poder pensar nesse ambiente como a ágora, local de prática da cidadania, construção e troca de conhecimento das mais diversas áreas na polis. Sem a vontade do aluno, que surge, no âmago de cada um, ao mesmo tempo como fator e efeito da dinâmica social, não se efetivam o processo educativo ou a aprendizagem. 
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