terça-feira, 6 de julho de 2010

O interesse e a regra

Ensaios sobre o multilateralismo: reflexões de um diplomata e acadêmico

Norma Breda dos Santos

POUCAS VEZES o futuro pareceu tão incerto. Portanto, refletir sobre a promoção da estabilidade das relações internacionais tornou-se particularmente relevante. Há bem pouco tempo, para a recorrente menção à "crise do multilateralismo", associada à falta de eficiência, rapidez e racionalidade das organizações internacionais, colocaram-se como alternativa as virtudes que a ação unilateral de uma grande potência poderia prover. Irônica e tristemente, nos últimos meses a palavra crise passou a ser usada para se referir mais à gravidade do cenário econômico e político mundial do que aos problemas dos fóruns multilaterais, cuja atuação está sendo questionada, mas não considerada negligenciável. Pelo contrário, os mecanismos de governança que as organizações internacionais podem prover têm sido notoriamente objeto de atenção e debate. Fala-se em uma profunda reforma no Fundo Monetário Internacional (FMI) para que possa monitorar e gerenciar adequadamente o sistema financeiro mundial. Tem-se, igualmente, chamado a atenção para a função da Organização Mundial do Comércio (OMC) de evitar o aumento do protecionismo comercial que tende a se tornar mais forte em momentos de crise econômica.

Com a densidade e a originalidade que resultam da reflexão combinada à ação, Gelson Fonseca Jr. escreveu O interesse e a regra: ensaios sobre o multilateralismo, que trata "da contribuição das instituições multilaterais para o ajuste entre o individual e o coletivo, a força e a comunidade, o interesse e a regra", como sucintamente Maria Regina Soares de Lima anuncia no prefácio ao livro. Ou seja, o autor parte da premissa de que institutions do matter para refletir sobre a sua experiência na ONU, em Nova York, onde representou o Brasil de 1999 a 2003. Nas palavras do próprio autor, o objetivo de seu trabalho é "sem hesitação, uma defesa do multilateralismo" e buscar "entender o que seria a contribuição específica da ONU para a ordem internacional" (p.16).

O livro de Fonseca Jr. está dividido em duas grandes partes. A primeira delas trata especificamente da ONU e busca responder à indagação: como combinar interesses e regras nas relações entre os Estados? A resposta, segundo o autor, está na construção da "vontade multilateral", que imprime legitimidade à ação coletiva e individual dos Estados. O papel da legitimidade na política internacional, diga-se de passagem, é tema caro ao autor que, dez anos atrás, publicou A legitimidade e outras questões internacionais: poder e ética entre as nações.

Não por acaso, o autor expressa sua afinidade intelectual com John G. Ruggie,1 cujos estudos apontam as dimensões centrais para o funcionamento da lógica multilateralista. Mas Fonseca Jr. assinala que fala a partir de outro lugar, já que a sua perspectiva é sobretudo a do diplomata, daquele que pensa a partir da "necessidade do serviço", daquele que está inserido no processo de formulação de policies.

Segundo Ruggie, para entender o papel e a relevância das organizações internacionais, é necessário percebê-las como instrumentos para a realização dos interesses dos Estados nacionais – interesses muito mais abrangentes do que aqueles definidos pelo realismo –, o que significa que não se pode analisar a eficiência desses foros a partir de um ponto de vista puramente formal, mas sim considerando condicionantes históricas e políticas. Em uma palavra: identificando o que seus membros buscam ao delas participarem. Assim, o multilateral é definido por sua dimensão qualitativa, que explica sua eficiência e duração: um arranjo multilateral é a coordenação de políticas nacionais entre três ou mais Estados, segundo determinados princípios. A dimensão qualitativa tem entre seus corolários a indivisibilidade e a reciprocidade difusa (Robert Keohane),2 ou seja, os custos e os benefícios de um arranjo multilateral devem ser distribuídos entre os seus componentes, que podem antecipar a continuidade da cooperação coletiva ao longo do tempo.

Não se poderia falar da legitimidade, que resultaria da crescente convergência entre interesses e regras interestatais que, concomitantemente, as reforçaria? Fonseca Jr. afirma que, no caso da ONU, as demandas podem "ser da mais variada origem"; mas

quando são projetadas no mundo multilateral, adquirem uma característica comum para que tenham legitimidade, ao se sustentarem ideologicamente em valores universais. Mesmo quando servem a um interesse específico, que seja de uma Superpotência, as demandas mudam de natureza ao serem filtradas pela via multilateral. Estendem-se além do limite nacional, passando a ser, em tese, expressas na linguagem do interesse da comunidade internacional. Os Estados continuarão a ser geradores de legitimidade no sistema internacional e, ainda que se observe, hoje, em várias áreas, graus baixos de consenso, a [ONU] como tal, ainda é referência necessária para ganhos de estabilidade e ordem no sistema internacional. (p.205)

A invasão do Iraque em março 2003 pelos Estados Unidos, com o apoio do Reino Unido e outros países que formaram a Coalition of the Willing, objetivou derrubar o governo de Saddam Hussein e encontrar armas de destruição em massa (ADM), bem como um atalho para capturar Bin Laden. O Conselho de Segurança estabelecera anteriormente mecanismos para monitorar o governo iraquiano e manter a paz e/ou evitar a ameaça à paz na região. Rapidamente a Coalizão conseguiu derrubar o governo de Saddam Hussein. As ADM não foram encontradas. Tampouco Bin Laden. E a lição?

O que George W. Bush trouxe ao chegar à presidência dos Estados Unidos foi a mudança "da própria natureza do jogo" na política internacional.

Os EUA, ao elevarem unilateralmente o valor das fichas, altera[ram] o sentido da reciprocidade. [... Mudou] o jogo multilateral. A visão americana é peculiar, única, compartilhada por poucos, e exige, correspondentemente, ações únicas e respaldo diferente do Conselho de Segurança. A nitidez com que o projeto norte-americano é unilateral elimina a possibilidade de que o mecanismo da reciprocidade difusa opere. [...] Seria impossível imaginar no futuro, uma retribuição americana... (p.107-8)

Poder-se-ia imaginar que, tivessem os Estados Unidos encaminhado suas demandas à ONU e obtido sucesso em filtrá-las pela via multilateral, estendendo-as "além do limite nacional, passando a ser, em tese, expressas na linguagem do interesse da comunidade internacional" (p.205), a estabilidade e a ordem no sistema internacional não teriam sido afetadas tão negativamente.

Sobre a participação do Brasil na ONU, o autor afirma que "é praticamente ativa em todos os temas" de sua agenda, ainda que, vale lembrar, no início de seu funcionamento, a diplomacia brasileira a percebesse como um fórum de exercício de "prestígio multilateral caro", que "[proporciona] ganhos políticos, mas não econômicos". Ou seja, não se considerava que existia uma relação compensatória entre o custo de participação na ONU e a transferência de recursos – recursos financeiros e tecnologia – a fim de garantir o desenvolvimento do país. Ainda assim, é verdade que a diplomacia brasileira sempre teve na organização internacional uma participação constante e cooperativa, centrando sua preocupação na questão do desenvolvimento (Bueno, 1994; Breda dos Santos, 2002).3

Sobre a diplomacia brasileira, Fonseca Jr. cita o interessante exemplo da controvérsia sobre a construção de Itaipu na década de 1970 (p.127). Nesse caso, o Brasil assumiu, em princípio, uma posição defensiva; não querendo perder a vantagem que oferecia sua posição geográfica no Rio Paraná, defendia a tese do "prejuízo sensível", que lhe facultava decidir sobre as eventuais consequências da construção da usina para os países a jusante do rio. Por sua vez, a Argentina entendia que deveria prevalecer o princípio da "consulta prévia", preocupando-se, sobretudo, com a navegabilidade do Rio Paraná e a viabilidade das usinas hidrelétricas que pretendia construir. O governo argentino levou a questão à ONU, onde teve suas posições endossadas. Com a multilateralização da discussão, o Brasil não viu reconhecida sua tese, mas, nem por isso, deixou de ganhar no médio e no longo prazos, assim como todos os países da Bacia do Prata, pois o entendimento sobre os princípios de gerenciamento de recursos naturais compartilhados trouxe benefícios a todos. Saiu-se, assim, de um quadro em que três Estados estavam envolvidos numa controvérsia – Argentina, Brasil e Paraguai. O aspecto numérico ou quantitativo (três Estados) não caracterizava como multilateral a discussão sobre o aproveitamento do Rio Paraná, como diria Ruggie. A multilateralização aconteceu com sua discussão na ONU, que resultou no acerto sobre princípios gerais com relação ao aproveitamento de recursos naturais comuns e, consequentemente, no entendimento formal entre os países da Bacia do Prata no sentido de aceitar aqueles princípios. Lembremos que um arranjo multilateral é a coordenação de políticas nacionais entre três ou mais Estados, segundo determinados princípios. Sobre a importância desse entendimento para o melhor relacionamento e a aproximação política entre os países da região, parece desnecessário insistir.

Instituições importam. Importam tanto que provavelmente a análise de Fonseca Jr. se tornaria mais instigante se o autor tivesse se estendido um pouco mais em observações de caráter crítico sobre a ONU. É o que muitos especialistas em Relações Internacionais têm feito, assim como uma importante corrente crítica de acadêmicos da área do Direito Internacional Público, que consideram que o multilateralismo tornou-se "nossa religião secular". Desafiam a difundida crença de que se melhora o mundo com a expansão da competência e o enforcement power das instituições internacionais. Anne-Marie Slaughter (1997, p.194), das representantes mais eminentes dessa corrente, afirma que as instituições internacionais, incluindo aí as entidades não governamentais, agem, constantemente, de forma unilateral, sob o manto da duvidosa legitimidade que advém do fato de o fazerem em nome de um grupo de Estados ou dos interesses de uma coletividade qualquer. O que, de fato, realizam, segunda a autora, é a defesa da supremacia de um Estado hegemônico ou de um grupo de interesses. Sugere como exemplo alternativo à tradicional diplomacia interestatal a utilização de redes transnacionais de atores domésticos, governamentais e privados, tais como parlamentares e funcionários de bancos centrais, que realizariam mais rapidamente e de modo mais simples aquilo que se espera dos funcionários internacionais.

Enfim, advogam os críticos que nem sempre, ou muito frequentemente, os mecanismos multilaterais não são os mais apropriados para a solução de questões que podem ser de interesse internacional, mas não deixam de ter um conteúdo de forte interesse doméstico. Nesse sentido, apontam como exemplo os casos do Camboja e de Ruanda. Em ambos, passado o período dos genocídios, as autoridades desses países propugnaram a criação de tribunais ou comissões nacionais, aos moldes da Comissão da Verdade criada na África do Sul que, com sucesso, apurou os delitos cometidos sob o apartheid e proporcionou à sociedade sul-africana um profundo debate sobre a sua história recente. Foi vencedora, porém, a ONU, com o decisivo apoio da administração norte-americana, que criou tribunais internacionais especiais, sediados em Haia, e deixou de proporcionar aos cambojanos e ruandenses um autêntico debate nacional sobre as atrocidades que vivenciaram (Alvarez, 2000).

A segunda parte de O interesse e a regra contém cinco textos. O primeiro deles foi escrito com Benoni Belli, e seu tema, a governabilidade democrática, articula-se particularmente à primeira parte do livro. Nesse capítulo, os autores problematizam as instituições internacionais, ainda que com clara afiliação a uma matriz de pensamento que confere às instituições papel fundamental para a construção da ordem internacional. Os dois textos que seguem têm caráter ensaístico e tratam de temas regionais. Um deles estuda as relações entre a Europa e a América Latina no âmbito da ONU. Aborda duas questões essenciais para todo arranjo coletivo delimitado por vínculos particulares, a exemplo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP): como reforçar as relações internas do grupo e inseri-las em instituições multilaterais de escopo universal, como a ONU. O quarto texto volta-se novamente para questões mais abrangentes e que, por isso mesmo, exigem maior ousadia analítica: "discute de que maneira uma eventual multipolarização afetaria as tendências do multilateralismo" (p.18). Finalmente, o último texto é a apresentação que o autor fez ao volume da Coleção "Clássicos IPRI" dedicado aos escritos de Jean-Jacques Rousseau sobre relações internacionais. A apresentação situa a obra de Rousseau em seu tempo e no conjunto dos clássicos pensadores sobre relações internacionais reunidos.

Devem-se ressaltar ao menos alguns aspectos da trajetória intelectual de Gelson Fonseca Jr., que dão uma ideia do valor de sua contribuição à área de Relações Internacionais no Brasil. O autor faz parte de uma geração que a partir de meados dos anos 1970 começou a produzir trabalhos sobre política externa brasileira e sobre política internacional munida de ferramentas acadêmicas. Dessa geração fazem parte também Celso Furtado, Celso Lafer, Alexandre Barros, Octavio Ianni, Carlos Estêvão Martins, Moniz Bandeira, Roberto Gambini, Hélio Jaguaribe, Gerson Moura, Maria Regina Soares de Lima e Hélio Jaguaribe. São intelectuais que trabalhavam num terreno caracterizado à época pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) como "de abandono". Na verdade, tratava-se mais propriamente da inexistência de estudos brasileiros com instrumentos analíticos acadêmicos, que esses pesquisadores tratavam começar a suprir, ainda que se afirmasse que "o interesse por esta área tend[ia] a ser maior em países que desempenham um papel muito ativo no sistema internacional, que não tem sido, historicamente, o caso brasileiro" e que a "excelência do corpo diplomático brasileiro" tornava seu estudo praticamente desnecessário, já que a política externa brasileira era conduzida com competência pelo Itamaraty, afastado da universidade" (Brasil, 1977). Portanto, além de resultar da experiência de um diplomata, o livro de Gelson Fonseca Jr. apresenta reflexões de alguém que, com um grupo de parceiros ilustres, começou a pensar sobre teoria das relações internacionais, política internacional e política externa brasileira quando, no Brasil, a comunidade acadêmica, de maneira geral, não sabia muito bem para o que servia estudar Relações Internacionais.

Um novo título publicado por Gelson Fonseca Jr. é mais do que suficiente para instigar sua leitura. Ainda assim, pretendeu-se nesta resenha chamar a atenção para temas tratados pelo autor que fazem parte de um debate tão amplo quanto essencial da área de Relações Internacionais, área em que o mainstream, embora não monolítico, é norte-americano. Perspectivas que agregam diversidade fortalecem a construção de quadros teóricos mais profícuos à compreensão da atuação de atores – no caso, notadamente os Estados – não hegemônicos.

Espera-se que, menos jovem e provavelmente com mais tempo para escrever, Gelson Fonseca Jr. brinde também seus leitores com a publicação de reflexões especificamente voltadas para a atuação multilateral brasileira, para a qual contribuiu com reconhecido talento. Como não se perguntar sobre o processo de formulação das posições brasileiras na ONU no período em que o autor esteve em Nova York? Difícil não alimentar a expectativa de ler sua narrativa e ver enriquecido o conjunto, ainda numericamente muito modesto, de memórias escritas por nossos diplomatas. Os historiadores, em particular, esperam a publicação de novos trabalhos que os auxiliem a compreender os posicionamentos da política externa brasileira no fórum em que todos os temas candentes da política internacional são discutidos.

Nesse caso, resta a questão: escreverá o autor como diplomata que enxerga o mundo com lentes de acadêmico, ou como o acadêmico que porta as lentes de um diplomata?

Notas

1 Ver, em especial, o item IV de O interesse e a regra, cujo título é "A lógica do multilateralismo: a concepção de John Ruggie". Ruggie foi assessor de Kofi Annan, secretário-geral da ONU de 1997 a 2007. Na academia, antecipou a crítica que a perspectiva construtivista faria ao estudo de matriz racionalista das instituições internacionais, chamando a atenção para o papel da intersubjetividade no estudo dos regimes internacionais. Das publicações de Ruggie, Fonseca Jr. utiliza-se especialmente "Multilateralism: the anatomy of an institution", artigo publicado em 1992.

2 Robert Keohane desenvolve o conceito de reciprocidade difusa sobretudo em seu artigo seminal, publicado em 1986, com o título "Reciprocity in international relations".

3 Celso Lafer publicou em 1967 um importante artigo no qual analisa a política exterior brasileira do Império até o fim do governo Castelo Branco. Nele, afirma que o momento mais importante das primeiras décadas da República viria com a indicação do barão do Rio Branco para chefiar o Itamaraty (1902-1912). Perspicaz e consciente do inescapável e crescente poder norte-americano, Rio Branco, segundo Lafer, buscou relações especiais com os Estados Unidos e, em vez de opor-se à Doutrina Monroe, reinterpretou-a e a "multilateralizou". Esse importante deslocamento conceitual coloca a defesa do continente americano nas mãos de todos os países do continente, o que, até então, era unicamente visto como fonte da ingerência unilateral norte-americana. Rubens Ricupero (1995) dá uma interpretação similar à de Lafer em seu trabalho sobre a vida do barão do Rio Branco.

Referências bibliográficas

ALVAREZ, J. E. Multilateralism and its discontents. European Journal of International Law, v.11, n.2, p.393-411, 2000.
BREDA DOS SANTOS, N. A dimensão multilateral da política externa brasileira: perfil da produção bibliográfica. Revista Brasileira de Política Internacional, v.52, n.2, p.25-45, 2002.
BUENO, C. A política multilateral brasileira. In: CERVO, L . A. (Org.) O desafio internacional. Brasília: Editora da UnB, 1994. p.9-58.
BRASIL. Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Avaliação e Perspectivas – Ciência Política. Brasília, 1977.
FONSECA JR., G. A legitimidade e outras questões internacionais: poder e ética entre as nações. São Paulo: Paz e Terra, 1998.
KEOHANE, R. Reciprocity in international relations. International Organisation, v.40, n.1, 1986.

LAFER, C. Uma interpretação do sistema das relações internacionais do Brasil. Revista Brasileira de Política Internacional, v.10, n.39-40, p.81-100, 1967.

RICUPERO. R. José Maria da Silva Paranhos, Barão do Rio Branco: uma biografia fotográfica, 1984-1995. Brasília, Rio de Janeiro: Funag, 1995.

RUGGIE, J. Multilateralism: the Anatomy of an Institution. International Organization, v.46, n.6, p.561-74, 1992.

SLAUGHTER, A.-M. The Real New World Order. Foreign Affairs, v.76, n.5, p.183-97, 1997.

Norma Breda dos Santos é professora adjunta do Instituto de Relações Internacionais (Irel), da Universidade de Brasília (UnB). @ – normabs@gmail.com

Revista Estudos Avançados

CLAUDIO MAGRIS - O senhor vai entender


Orfeu refletido ou a negação do mito

Michele Gialdroni

HÁ ALGO DE sombrio e anódino nos mitologemas que resistem ao tempo. Um excesso ou uma ausência de personalidade que tornam inconsistentes as fábulas do passado. A releitura contemporânea do mito atormenta a psicologia das personagens, por trazer algo de mais incerto e contraditório, mais próximo a nós. O preço pago pelas banalização dos arquétipos das pulsões humanas é a perda de seu fascínio. O mito torna-se estória, historieta, anedota. A troca das polaridades, por si elemento constitutivo do mito, torna-se estratégia de vulgarização. A narrativa O senhor vai entender, de Claudio Magris, enunciada como um monólogo teatral de uma Eurídice moderna, é uma obra-prima de coerência nesse sentido. Mesmo atendo-se estritamente ao mitologema fundamental do amor perdido de Orfeu, não faz uma releitura do mito, não fornece uma nova chave de leitura universal. Consegue muito mais sujeitar o mito – reconhecibilíssimo, intacto – às exigências de uma estória particular, única, irrepetível, a estória do homem que escreveu essa narrativa.

O Orfeu de Magris é um artista inseguro e atrapalhado, que aprendeu com a amada Eurídice a viver no mundo, a dar o nó na gravata e a dizer as coisas certas na hora certa. E, naturalmente, as alegrias do sexo, pois, no jogo das polaridades, a Eurídice de O senhor vai entender representa a concretude da vida, pelo menos aos olhos de Orfeu. Desde o início da narrativa, contudo, a voz que narra dirige seu memorial a um espectral "senhor Presidente", e encontra-se em um lugar, "a Casa", imerso na penumbra, no qual mal se distinguem os contornos das coisas e das pessoas. Revelar a essência desse além tão incerto e indeterminado, no qual não são claras nem regras, nem estruturas e hierarquias significaria abandonar Orfeu ao desalento. De fato, o poeta, o cantor, afronta obstinadamente uma fatigante via-crúcis burocrática, irônica e dessacralizante, a fim de recuperar o equilíbrio da própria personalidade, que na ausência da companheira está destinada a desorientar-se, a perder-se em estórias inúteis, em gracejos vazios, no esquecimento de si mesmo de quem necessita do outro para reconhecer-se. A terrível revelação da falta de verdades absolutas, que perturbaria Orfeu para sempre e lhe secaria a veia artística, induz Eurídice a chamar o amado antes de sair ao ar livre, transgredindo as condições combinadas, e a decretar a separação definitiva.

Orfeu é o artista que precisa acreditar em algo certo, não só para criar, pela arte, mas para viver. Eurídice preocupa-se com o homem, o artista lhe é quase indiferente. O senhor vai entender não quer fornecer explicações sobre a relação de Orfeu e Eurídice como metáfora da criação artística: a atenção dada pelo século XX ao olhar de Orfeu, a atenção de Rilke e Blanchot, vem despistada. Desvanecem no nada do arbítrio as mil interpretações do gesto de Orfeu, do instante da separação da coisa amada, ao mesmo tempo inelutável e condenável, como experiência estética e fonte de inspiração. Desvanecem-se porque Orfeu olha para trás não por impaciência, temor ou curiosidade. Ou por sua firme vontade, como nas narrativas L'inconsolabile de Cesare Pavese (em Dialoghi con Leucò, 1947) ou Il ritorno di Euridice de Gesualdo Bufalino (em L'uomo invaso, 1986). É Eurídice que chama, é a voz firme e consciente de quem antes era sem rosto.

O primeiro a fazer Eurídice falar com extraordinária e afetada intensidade, no final do Oitocentos, foi um poeta consagrado, Robert Browning, que após longa e proveitosa estada na Itália, ao retornar à Inglaterra publicou os monólogos líricos de Dramatis Personae (1864). Nesta coletânea encontra-se a memorável alocução Eurydice to Orpheus, na qual Browning inverte os papéis mas não os conteúdos da relação e faz de Eurídice a amante apaixonada e impaciente até a inconsciência de si do grito final: "No past is mine, no future: look at me!". Contudo, só no início do Novecentos Eurídice encontra coragem para afirmar definitivamente sua presença e articular seu pensamento, um ponto de vista original seu, pelos versos de algumas poetisas anglo-saxônicas, a começar por uma protagonista da vanguarda literária dos primeiros decênios do século, Hilda Doolittle, a mítica H. D., pupila de Ezra Pound, que desde 1917, num estilo imagista despojado, faz que Eurídice denuncie, em primeira pessoa e com extraordinária clareza, o cego egoísmo de Orfeu: "So for your arrogance / and your ruthlessness / I have lost the earth". Uma tradição que continua no segundo pós-guerra, com versos postos na boca de Eurídice por poetisas como a excêntrica aristocrata britânica Edith Sitwell, a escritora canadense Margaret Atwood, ativista dos direitos humanos, ou a norte-americana Jorie Graham, cujos poemas líricos são plenos de sugestões clássicas colhidas nos anos de juventude passados em Roma.

Considerando melhor, todavia, as razões do amor de Eurídice não podem ser as razões do amor de Orfeu. Se os efeitos da separação são os mesmos, dado que em definitivo a veia criativa de Orfeu está salva, é a inversão do ponto de vista que conta: o amor de Eurídice é todo terreno, carnal, e mal suporta a translação metafórica, a alegoria da impossibilidade de possuir o amado. Com frequência, a Eurídice novecentista permanece conscientemente no reino dos mortos, a Eurídice corrupta e corruptora do Orfeu rei de Victor Segalen (1917), que Claude Debussy antes encomendara e depois evitou musicar, a sanguinária de Orfeu e Eurídice que o pintor Oskar Kokoschka escreveu em 1915, ferido no front galiciano, ou a triste e resignada do erótico Poema a Fumetti de Dino Buzzati de 1967: personagem já ligada ao Ínfero, que encontrou sua dimensão extraterrena, expressionisticamente glamorosa ou tristemente espectral. A voz que narra em O senhor vai entender é, ao contrário, extraordinariamente livre na sua escolha. Não é afeiçoada à Casa, esse infinito asilo extraterreno no qual se consome em vã espera de encontros e acontecimentos decisivos, é somente por amor ao Orfeu cartorial que renuncia a voltar ao seu lado. Comportando-se assim não faz outra coisa senão renunciar ao mito, porque no mito não existe liberdade. Existem variações, talvez infinitas, mas não liberdade.

E Orfeu, afinal, o atrapalhado Orfeu de Magris? Deverá resignar-se à perda da amada, mas não terá nada de que se culpar. Aliás, saberá para sempre que a vida é outra coisa.

Mesmo em outro texto recente de Magris, o ambicioso romance Alla cieca (2005), são muitas as referências ao mito, que nesse caso permanece como tal. Eurídice assume traços bem mais estáticos, uma carranca de olhos esbugalhados que perscrutam o horizonte marinho, pressagiosos das futuras desgraças. Também Alla cieca se apresenta como um longo monólogo, complexo no entretecer de diferentes personalidades na voz do narrador, o velho comunista Salvatore Cippico, vítima de todas as desgraças das derivas ideológicas novecentistas e internado, não por nada, em um Centro de Saúde Mental. Mas logicamente a personalidade mais próxima a Orfeu não é a do pobre Cippico, tampouco a de um verdadeiro artista, mas antes a de um aventureiro com veleidades de escritor, o extraordinário personagem histórico Jorgen Jorgensen, marinheiro dinamarquês que ajudou a fundar a capital da Tasmânia, foi rei da Islândia por três semanas e terminou seus dias, entre prisão e miséria, na cidade que ele mesmo fundara. Portanto, também no romance está presente a intuição de uma Eurídice que sabe e de um Orfeu incompleto, inadequado, que a admira e a chama para conhecer verdades a ele vedadas. Mas em Alla cieca, em sintonia com a inspiração épica dessa narrativa coletiva confiada às vozes de sonhadores irredutíveis, fracassados e marginalizados pela história, o mito permanece intacto, permanece símbolo da aspiração humana ao melhor, do impulso criador que se torna biografia fantástica: Orfeu e Eurídice são chamados pelo nome. Aqui o ponto de vista é o do homem, mesmo nas cenas eróticas à beira-mar, tão semelhantes ao monólogo teatral no feminino. Eurídice é o nome de uma carranca muda e Jorgen Jorgensen pode afirmar: "Eu, abraçando-me a ela, me salvei". Em O senhor vai entender, texto definitivo na sua depurada simplicidade, os nomes não comparecem jamais e o mito se desnuda do poder associativo, da sua função geradora, ficando somente uma referência, ao contrário de tanta literatura contemporânea que faz da condição de Eurídice a catalisadora de casos extraordinários, talvez de revelações cosmogônicas como nas Cosmicômicas de Italo Calvino (1965) e em A terra sob seus pés de Salman Rushdie (1999).

Essa voz que monologa é bem mais surpreendente por remeter ao teatro, ao percurso que tornou Eurídice sempre mais protagonista do palco, mas também sempre mais distante de Orfeu. Se se quiser prescindir das reconstruções puramente líricas da relação, é importante considerar a sequência de transposições do mito em ambientação contemporânea, como as desoladas estações de periferia de Euridice de Jean Anouilh (1941) ou o profundo sul intolerante dos Estados Unidos em Orpheus descending de Tennessee Williams (1957). Comum a esse tipo de texto é o sentido de trágica inelutabilidade do destino. Outra tradição forte é a da comédia, da estória recontada numa vertigem de encontros surreais e reviravoltas. Da ópera bufa de Orfeu no inferno de Jacques Offenbach (1858), que joga com a traição de Eurídice (quase uma tópica novecentista) até a poesia surreal de Cocteau, que dedicará à figura uma peça de sucesso, Orfeu, de 1926, e boa parte de sua produção cinematográfica. É exatamente na tradição satírica e grotesca que no curso dos séculos a personagem de Eurídice assumiu maior importância. Se excluirmos as exegeses medievais de Boécio e de seu Orfeu cristianizado do terceiro livro de De consolatione philosophiae, que vê em Eurídice a personificação da tentação terrena e do mal, é nos textos parodísticos do barroco espanhol que encontramos pela primeira vez uma Eurídice que chama voluntariamente Orfeu para que a missão dele falhe e ela não volte a ser explorada por um marido opressor e aborrecido. As polêmicas suscitadas pelo rebuscado poema gongórico Orfeu, do sevilhano Juan de Jáuregui, de 1624, deram origem a uma intensa produção satírica em que Eurídice se torna uma sagaz moça do povo, capaz de recusar com firmeza a intervenção do pedante poeta: "Pues si contigo ha de ser / Yo me resuelvo a quedarme". A inversão de papéis é dessacralização grotesca, mas também inversão surreal e, no Orfeu cinematográfico de Jean Cocteau, de 1949, é Eurídice quem primeiro olha o poeta e espera ser correspondida. Olha pelo espelhinho retrovisor do mesmo Rolls Royce no qual Orfeu ouve pelo rádio misteriosas ordens em forma de livre associação poética, ordens de morte que o fascinam a ponto de confundir o amor por Eurídice com o encanto da dama de negro. Também o Orfeu de Cocteau não é senhor da situação, e na verdade não o é nem mesmo Eurídice.

Numa peça contemporânea, a brilhante Euridice da jovem dramaturga norte-americana Sarah Ruhl (2003), a mulher é definitivamente protagonista do mito e reverte as conotações semânticas, passando de metáfora da paixão erótica para apologia do amor filial. A Eurídice de Ruhl é extraordinariamente vital e o além que ela afronta é cheio de surpresas: chove nos elevadores e se sofre de repentinas desmemórias. A linguagem é seca, o espaço do não dito beckettiano é ocupado pela ironia da abordagem pós-moderna, da citação pop. Quando essa Eurídice decide permanecer no além para fazer companhia ao pai, quem sofre as consequências é Orfeu, personagem reduzido a seu papel de amante unidimensional segundo uma inversão perfeita da relevância da individualidade. Deslocando o foco de Orfeu para Eurídice, o enredo do drama passa da relação da morte com a arte e com a paixão amorosa para a dificuldade de viver uma condição recordando outra: aceitar sua nova vida significaria para Eurídice imergir no rio e esquecer definitivamente os sentimentos do passado. A Eurídice de Magris, ao contrário, mesmo ocupando todo o espaço do palco com a extraordinária força de sua voz e de sua carnalidade, o faz para falar-nos do outro, para falar-nos de Orfeu, que se torna personagem complexo e carismático, verossímil na sua incompletude. Semelhante ao próprio escritor que o criou ou, mais ainda, à sua caricatura. Na Itália, outros autores tentaram levar à cena um Orfeu novecentista, burguês como no drama policialesco Lamento de Orfeu de Valentino Bompiani (1961), ou ironicamente inepto como na ópera em um ato Orfeu viúvo de Alberto Saviano (1950). Nenhum deles, porém, tivera o despudor de colocar-se na pele de Orfeu, coisa possível somente a Magris no jogo irônico da ridicularização amorosa e desdenhosa do seu papel, por obra de sua parte mais sã e vital, a parte de si que é interpretada por Eurídice.

O além de O senhor vai entender, essa imensa Casa de Repouso, é descrito através dos grossos óculos de um Ernesto Sabato, percorrido com o passo incerto de um interno saído das páginas de Robert Walser, com o risco de perder pouco a pouco a consciência de si, de morrer congelado sem nem ao menos se aperceber disso, como aconteceu ao próprio escritor suíço na noite de Natal de 1956, durante uma caminhada pelos arredores do sanatório no qual se recuperava havia mais de vinte anos. A Casa da narrativa pretende ser um espaço real, mesmo que diferente do mundo dos ruídos, da política cultural e das pessoas. Assemelha-se de algum modo ao mundo ctônico no qual Calvino faz andar o seu Qfwfq, alter ego de Orfeu, antes que uma erupção do Vesúvio o impeça de ganhar a odiosa superfície terrestre para se confrontar com as cores, os ruídos e a confusão do mundo. O próprio Magris, comentando suas fontes de inspiração, fala de uma perturbadora "experiência do limiar", sentida ao entrar numa peculiar casa de repouso triestina, na qual fora encontrar uma velha conhecida de seus leitores, a vitalíssima, cáustica e desordenada vovóAnka, que acompanha o narrador de Danúbio (1989) em seu giro entre a Sérvia e a Romênia, do Banato à Transilvânia, até as fronteiras da Bucovinia. E falando precisamente da antiga capital da Bucovinia, Czernowitz, Magris se detém no mais conhecido de seus filhos, aquele que considera o último grande poeta órfico, Paul Celan, sempre em busca da palavra mágica e secreta, do verdadeiro nome das coisas, para além das redes de convenções da comunicação. Celan, contudo, não foi poupado pela terrificante vacuidade da verdade última das coisas, a insuportável revelação do nada, exatamente o desprazer que a voz de O senhor vai entender quer poupar ao seu desgraçado companheiro.

Cada vez que entrava no asilo triestino em que vovó Anka estava internada, Magris era tomado da sensação de que o tempo se dilatava, de que hierarquias e afetos seguiam lógicas outras, desconhecidas. Mesmo a noção de espaço devia ser reformulada naquela casa de repouso, espécie de universo paralelo no interior do nosso mundo, no qual era possível imaginar novas noções de dentro e de fora. Tanto que, em O senhor vai entender, no mesmo espaço da Casa, em seu interior, sem que se volte a viver no mundo, existem ruas povoadas de sombras, cursos d'água e paredes rochosas: toda uma desfocada cenografia infernal, quase como se fosse o nobre castelo dantesco, tendo no seu interior espaços arquitetônicos e espaços naturais que permitem aos grandes espíritos, entre eles Orfeu, mover-se livremente. Um nobre castelo degradado a sanatório kafkiano por espíritos evanescentes, não mais concebível em sua totalidade. E é surpreendente que ao descrever esse ambiente fantástico o escritor faça mais referência a uma experiência vivida – mesmo se num certo sentido se trate de fato da experiência da impossibilidade de vivenciar concretamente – do que a sugestões literárias e culturais. Referências que condicionam a experiência psicológica e cognitiva do limiar e só indiretamente uma representação que se quer especialmente autêntica das vazias arquiteturas extraterrenas.

Magris, portanto, não reelabora nem reescreve o mito ou faz uma releitura: é a sua negação. Uma estória individual e irrepetível, pois baseada em decisões autônomas e livres dos protagonistas, que preserva o mitologema mas o impede de articular-se em mito de valor universal. A inversão do ponto de vista está no sacrifício amoroso da protagonista, que se condena à morte eterna por não revelar ao poeta a verdade última de uma vasta e vã incerteza. Não é a Eurídice vingadora, amada pelas escritas femininas do Novecentos, a que, reconhecido o egoísmo de Orfeu, recusa superar o limiar para ser apenas coadjuvante. A Eurídice de Magris dessacraliza e desmonta o mito, encontrado quase ao acaso na tentativa de dar voz a uma experiência concreta, ela não se submete às suas regras e exorciza seu impulso criador. A mulher declara desesperadamente seu amor, mas afirma também a vontade de ficar sozinha, de ser ela mesma na solidão, até mesmo no diálogo com o destinatário de suas palavras, aquele Presidente inacessível, imperscrutável, embora onipresente, tão próximo a Deus. Então as palavras de Eurídice, mesmo aquelas em que sente mais forte a nostalgia da carne, tornam-se sintomas incompreendidos do erotismo místico de uma mulher que substituiu a devoção do êxtase pela simples ataraxia, e sente que deve prestar contas ao próprio Deus, que poderia não compreender sua frieza. Talvez o leitor não deva acreditar inteiramente nas palavras de Eurídice, pronunciadas em alta voz em um teatral monólogo. Talvez os seus motivos estejam em outro lugar, em um espaço de pulsões de difícil intuição, uma rebelião não dita difícil de conciliar com a estrutura antropológica arquetípica da fantasia que costumamos atribuir à essência do mito. O desejo de não ser envolvido é um impulso à recusa do mito. Eurídice não se decide por este ou aquele lado. A experiência da Casa despertou o desejo, a necessidade de solidão que distancia Eurídice da paixão de Orfeu, da matriz dionisíaca do rito de amor que é tradicionalmente ligada ao nascimento da poesia. Falando da ilha que foi cenário dos momentos mais intensos da paixão deles, termina dizendo: "Mesmo sozinha, mesmo sem ele, ficaria feliz em dar uma caminhada por aqueles lados". Mesmo amando o poeta, Eurídice, em definitivo, tem nostalgia do mundo, não de Orfeu e das pressões a que ele a sujeitaria, uma vez novamente juntos. Entre sacrifício de amor, rebelião individual e desejo de solidão, essa Eurídice se aventurou numa terra incógnita, mais longínqua dos originários montes da Trácia que o próprio reino de Perséfone.

Tradução de Naoju Kimura.

Michele Gialdroni é doutor em Literatura Italiana e adido cultural da Itália em Stuttgart, Alemanha. Estudou línguas e literaturas modernas na Itália e na Alemanha. Ensinou literatura e italiano nas universidades de Tübingen, Stuttgart, Roma, Tre e Passau. É coautor do livro Lipari 1929. Fuga dal confino (Laterza, 2009). O autor agradece de coração ao escritor pelas luminosas indicações fornecidas em relação ao seu Lei dunque capirà. @ – gialdroni@virgilio.it.

Revista Estudos Avançados

Por um novo reformismo


As "ideias italianas" no Brasil

Luiz Sérgio Henriques

PRESIDENTE da Fundação Instituto Gramsci, em Roma, e ensaísta de mérito reconhecido internacionalmente, Giuseppe Vacca reaparece entre nós com um novo título que é quase uma provocação, no melhor sentido da palavra. Retirando do limbo uma expressão que entre os marxistas teve historicamente o sentido de uma "capitulação de classe" ou coisa pior, Vacca defende explicitamente, para as esquerdas, a atualidade de uma estratégia reformista não só para o seu país, como também, é de presumir, para a generalidade dos países em que se trava a luta política em termos efetivamente contemporâneos. A marca desse novo reformismo é a explícita assimilação das tarefas de governo e das responsabilidades a elas inerentes: e, segundo o paradigma que abraça, cujos antepassados mais distintos remontam aos anos 30 do século passado, classe e nação não se põem como termos antagônicos, mas aparecem reconciliados: partidos e movimentos que interpretam o antagonismo social estão desafiados a atuar no plano no interesse nacional, dando respostas positivas – no quadro do Estado Democrático de Direito – aos problemas de toda a sociedade.

O novo reformismo de que fala Vacca afasta-se assim de qualquer veleidade maximalista e, muito consequentemente, deve afirmar-se doravante mais ou menos polemicamente contra uma esquerda dita alternativa ou radical, mas sem capacidade de governo e de síntese política própria das funções dirigentes. Fornece, mais amplamente, alguns critérios para avaliar a história do século XX, que não deve ser vista como um mero terreno de contraposição entre capitalismo e socialismo, entendidos como "campos" que combateram mortalmente guerras abertas ou "frias", com a vitória final de um deles. De resto, o reformismo que interessa ao autor tem seu ato de nascimento, nos anos 1930, como uma alternativa à "guerra civil europeia" entre nazistas e bolcheviques, quando a experiência comunista das frentes populares – retirado o caráter instrumental que tal política teve quase sempre sob a política stalinista – pôde colaborar, em alguns momentos decisivos, com socialistas, tal como aconteceu na Itália e, sobretudo, na França. E é à luz desse projeto que o autor reinterpreta contribuições vitais, como os Cadernos do cárcere, de Antonio Gramsci, ou um texto comparativamente de menor alcance, mas nem por isso menos importante do ponto de vista político, como as togliattianas Lições sobre o fascismo, de 1935.

O autor, porém, pretende ainda sair do âmbito restrito da tradição comunista e, num movimento que dá fôlego ao seu pensamento, alude explicitamente ao "universalismo rooseveltiano": à visão da luta contra o fascismo de que era portadora a elite política americana e, também, à visão dessa mesma elite sobre as relações internacionais que deveriam se seguir à derrota do fascismo. Não é aqui diminuída a importância da URSS no combate ao fascismo: "apenas" se reconhece, realisticamente, que aquele modelo político, nascido sob o particular signo da "revolução passiva" staliniana, só pela força poderia se expandir aos países do entorno soviético, sem dispor de nenhuma força de atração sobre os países ocidentais. Mas não só isso. O autor alude a experiências concretas da social-democracia e do trabalhismo no período entre as duas guerras, muito especialmente no caso da Inglaterra, da Bélgica e da Suécia. Bem antes do modelo keynesiano que se generalizaria nos "anos dourados" do capitalismo do segundo pós-guerra, os reformistas desses países lançaram as sementes do reformismo moderno, ao distinguirem as possibilidades de uma nova regulação do mundo da economia, até então estruturado segundo os procedimentos do liberalismo e as regras "espontâneas" do mercado.

É nesse quadro que se insere uma das teses mais significativas do livro. Vacca propõe-se a ir além do "finalismo socialista" e da filosofia da história determinista que lhe é inevitavelmente conexa. A experiência daquelas três social-democracias e, mais em geral, as diversas tentativas de domar o mercado capitalista em crise fizeram nascer a ideia de que

capitalismo e socialismo referem-se a dois planos diversos da realidade e não são comparáveis: o capitalismo é um modo de produção, o socialismo é um critério de regulação do sistema econômico, que, portanto, não se contrapõe ao primeiro, mas propõe-se orientá-lo. Para superar este falso dilema, foi necessário elaborar o conceito de regulação, e, naturalmente, não estamos falando de elaboração puramente intelectual, mas de experiência histórica concreta. Aproximamo-nos, assim, do ato de nascimento do reformismo: a crise dos anos trinta e a invenção de um "modo de regulação" do desenvolvimento alternativo ao do velho liberalismo, que entra em colapso. (p.191)

Se de regulação se trata – e regulação capaz de expressar e induzir níveis sempre mais altos de produção material da vida e de sociabilidade humana –, os defensores da estratégia reformista devem ter a percepção de que uma teoria geral das crises é possível e não deriva de, ou desemboca em, uma visão rupturista ou catastrófica da política e da economia. Essa teoria geral, segundo o autor, está presente nos escritos de Antonio Gramsci, especialmente quando focalizam a Primeira Grande Guerra e os anos que se seguem como um período de crise continuada, cuja raiz última reside no contraste entre o caráter cada vez mais internacional da economia e as soluções políticas mesquinhamente nacionais que se implementaram, e muitas vezes hoje ainda se implementam, na tentativa de sanar os desequilíbrios globais.

A esquerda italiana – pelo menos aquela parte da esquerda em nome da qual quer falar o autor – tentou continuadamente sair do âmbito do reformismo comunista nacional, encarnado pelo velho PCI, e adotar a Europa como cenário das suas ações e iniciativas. Falhas e deficiências à parte, esse ainda é o horizonte mais plausível para uma nova regulação democrática dos fatos econômicos, bem como uma fonte de inspiração para a esquerda de outros quadrantes: sem abdicar do interesse nacional e das iniciativas que se devem tomar imediatamente no âmbito do Estado-nação, a busca de uma perspectiva cosmopolita, supranacional, é parte constitutiva da nova investigação em curso. E achar em cada caso a melhor combinação entre interesse nacional e forças que se movimentam externamente é um elemento da regulação democrática que deve ser conscientemente assumido, tendo em vista o cenário de desastre que conclui esses anos de (des)regulação neo-liberal dos mercados e supremacia dos "espíritos animais" do capitalismo.

A insistência no termo "democracia" aqui não é casual. O último grande impacto das "ideias italianas" entre nós foi por ocasião do eurocomunismo de Berlinguer e do Gramsci filtrado pela tradição togliattiana, e isso nos já distantes anos 1970. Foi quando, por exemplo, circulou amplamente nos círculos da esquerda, muito especialmente do então PCB, a expressão berlingueriana da "democracia (política, não 'burguesa') como valor universal". Certa ou erradamente, para o bem ou para o mal, a cultura política do novo partido em ascensão na esquerda guardava muito pouca relação com aquele conjunto de ideias, que propunha uma reforma democrática do caráter "prussiano" do capitalismo e da sociedade brasileira como a estratégia mais plausível de superação dos muitos elementos de atraso mantidos na peculiar modernização conservadora que atravessa a nossa história, e que, não por acaso, se viu reforçada com o regime de 1964.

Acredito que o livro de Vacca dá um alento renovado àquelas ideias e reata o fio um tanto perdido nestes tempos de desorientação. Refiro-me especialmente aos muitos momentos em que assinala a democracia como o único terreno político no qual todos os atores – de direita, centro ou de esquerda – devem se mover, ou até devem ser levados por força das coisas a se mover, no caso de as suas culturas e valores carregarem vestígios mais ou menos fortes de concepções autoritárias da política, o que está longe de ser incomum na esquerda.

O Estado Democrático de Direito surge assim como uma forma alta de convivência, não como reflexo ilusório da dominação burguesa ou do "indivíduo abstrato" próprio da sua sociabilidade. Produto de duríssimas lutas históricas, esse tipo de Estado, na visão de Vacca, desconhece "classes gerais" e refuta a apropriação da máquina do Estado por uma classe ou um partido que supostamente represente uma classe ou bloco de classes portadoras do "sentido último" da história. Só reconhece partidos, associações e outras formas de subjetividade constitucionalmente definidas, estimulando classes e grupos sociais que neles legitimamente se reconheçam a elaborarem visões diferentes do bem-comum, cuja disputa privilegie o elemento consensual e hegemônico, em detrimento do elemento força ou violência. Assume-se sempre e tão só o governo, incide-se inevitavelmente sobre relações de força na sociedade, mas não se busca um abstrato "poder" a partir do qual se reorganize arbitrariamente o mundo, extremando autoritariamente o político. Mudanças constitucionais são possíveis, mas na forma democrática do Estado não se toca. Consenso e liberdades, hegemonia e pluralismo democrático são termos incontornáveis da moderna disputa política e da investigação teórica mais avançada, a não ser que se opte anacronicamente por autoritarismos mais ou menos disfarçados.

Todo esse novo reformismo de Vacca, ao apresentar cristalinamente as razões mais seguras de uma esquerda democrática, passa a impressão de que não fala apenas da Itália ou da Europa e seus problemas. Fala também, e ao mesmo tempo, da nossa história presente de brasileiros e sul-americanos.

Luiz Sérgio Henriques é editor do site Gramsci e o Brasil (www.gramsci.org). @ – sergio.henriques@acessa.com
Revista Estudos Avançados

Mundialisation et compétition


Globalização e competição

Pierre Salama

HÁ NÃO MUITO tempo, a maioria dos economistas considerava que as economias latino-americanas tinham ingressado numa nova fase: mais crescimento do que no passado, menos volatilidade, uma diminuição das desigualdades, um aumento na potência das bolsas de valores caracterizadas como emergentes e, por fim, menos vulnerabilidade aos choques externos. Quando a crise financeira surgiu com a brutalidade conhecida nos países desenvolvidos, esses mesmos economistas pensaram que essas economias seriam pouco afetadas, que suas conjunturas ficariam "desatreladas" daquela dos países industrializados, e para alguns – os mais audaciosos em termos de otimismo cego –, que elas poderiam facilitar a retomada das economias industrializadas graças ao seu crescimento constante. E então, no último trimestre de 2008 e durante todos os três primeiros meses de 2009, foi preciso abaixar o tom. A queda dos mercados financeiros emergentes foi severa em 2008, o crescimento em geral despencou e o crescimento industrial tornou-se francamente negativo e as moedas sofreram depreciações expressivas em relação ao dólar.

Esses mesmos economistas declararam que ninguém havia previsto essa crise (?) e explicaram a seu respeito que, uma vez em andamento, era lógica, inevitável, provocada pelos laços mais próximos destas economias com as outras em decorrência do processo rápido de globalização financeira e comercial, seguindo nisso as últimas publicações – aliás, muito instrutivas – do Fundo Monetário Internacional (FMI) (cf. Crisis and recovery, 2009). Logo em seguida, alguns desses economistas, ah quão temerários, e alguns políticos decididamente otimistas além do razoável, entreveem o fim do túnel no qual se engolfaram essas economias com a recuperação das bolsas, a retomada dos fluxos das matérias-primas, a valorização das moedas em relação ao dólar e o desempenho positivo dos saldos das balanças comerciais tanto no Brasil como na Argentina, declarando que "o mais difícil" já havia passado, e que o futuro anunciava-se róseo novamente.

É verdade que a situação havia melhorado desde o início dos anos 2000 nos três principais países latino-americanos: Brasil, México e Argentina. Em certa medida, essas economias não funcionam mais tanto como "economia cassino" como durante os anos 1990, e portanto conseguem reduzir a dependência do fechamento de suas contas externas da manipulação de suas taxas de juros, graças a uma melhora, às vezes sensível, exceto no México, de suas posições externas. Mas essa melhora é superficial e não atinge o essencial. Na realidade, com a abertura acentuada à economia mundial as fraquezas dessas economias apareceram com mais nitidez e seus efeitos se fazem sentir mais duramente com o contágio financeiro internacional. Essas economias estão numa situação preocupante neste início de milênio, sobretudo se as compararmos com as dos países asiáticos. Não se trata somente de uma questão de taxas de crescimento, bem mais elevadas na Ásia (com a exceção notável da Argentina) do que na América Latina, mas da qualidade do crescimento. As economias latino-americanas estão defasadas tanto na indústria quanto nos serviços. A História – com um grande H – acontece em outro lugar: na Ásia. As economias latino-americanas são vulneráveis porque não exportam tantos bens sofisticados, e são mais sensíveis à conjuntura internacional porque se abriram mais. Mais precisamente, no conjunto, a América Latina está ficando atrasada em relação a outros países, especialmente os asiáticos. De fato, podemos afirmar que, com a exceção de alguns setores, esses países não souberam se adaptar às transformações experimentadas pela economia mundial nestes últimos 25 anos (grandes inovações tecnológicas na informática e nas telecomunicações, importantes inovações financeiras). Suas vantagens comparativas reveladas mostram-se inferiores a 1, tanto na indústria quanto nos serviços, enquanto na China elas situam-se bem além de 1 para a indústria. É o que explica que as exportações da China, em relação às exportações mundiais, tenham passado de 1% para quase 8% em 2007, enquanto as do Brasil aumentem muito levemente e situem-se sempre em torno de 1% como em... 1979. Os países asiáticos souberam adaptar-se às inovações tecnológicas e beneficiar-se de vários deslocamentos da produção industrial. Ao efetivar esforços de pesquisa desenvolvimentista e em geral impor encadeamentos para trás (os "backward linkage effects" caros a Hirschman e a Perroux), eles conseguiram integrar suas produções ao mesmo tempo em que se abriam mais ao exterior e também flexibilizar seu aparato industrial na direção de produtos de tecnologia mais avançada e de valor agregado mais alto, com grande elasticidade da demanda em relação ao lucro. Não é o caso dos principais países latino-americanos. O esforço para a pesquisa não esteve à altura dos investimentos assim como suas políticas industriais. Mais que ao aumento de suas receitas de exportação provenientes do maior fluxo de matérias-primas e do crescimento dos volumes desses produtos, o surgimento de saldos positivos da balança comercial se deve a uma maior competitividade dos produtos de média e baixa tecnologias, com a exceção de alguns setores como a aeronáutica para o Brasil. Isso equivale a dizer que, ao contrário dos países asiáticos, especialmente os dragões hoje e a China amanhã, a competitividade assenta-se mais na elasticidade dos preços do que sobre o lucro. Seu potencial fica, portanto, mais limitado do que se fosse direcionado para produtos tecnologicamente sofisticados e muito requisitados no âmbito mundial.

É desses problemas que trata o livro de Bresser-Pereira publicado na França. Ele é composto de seis capítulos. O primeiro trata do Estado-nação na globalização; o segundo, da estratégia nacional de desenvolvimento; o terceiro, do novo desenvolvimentismo versus a ortodoxia convencional; o quarto, da tendência à valorização das moedas nacionais na América Latina ao contrário do que é observado na China; o quinto, da "Dutch Disease"; e, finalmente, o último, da crítica do crescimento com poupança externa. Um leitor familiarizado com os trabalhos de Bresser-Pereira reconhecerá seus temas prediletos, pois cada um desses capítulos está fortemente inspirado em artigos já publicados, o último deles em parceria com Paulo Gala. Mas não se trata de uma compilação de artigos, reunidos tais quais, com as repetições implícitas a esse tipo de exercício. Os artigos foram reelaborados, o que já estava desenvolvido em um foi suprimido no outro, algumas partes foram desenvolvidas, outras reduzidas; enfim, o conjunto foi atualizado à luz da mais recente atualidade. É, portanto, um trabalho original que nos é oferecido por Bresser-Pereira.

Como todos sabem, Bresser-Pereira tem uma tripla experiência: a de um executivo – ele foi um dos diretores de uma grande rede de supermercados –, a de um dirigente político que exerceu funções da maior responsabilidade em momentos particularmente difíceis no Brasil, e, finalmente, a de um teórico da economia. A originalidade de Bresser-Pereira é dupla: ele nunca abandonou o terreno acadêmico e sempre prestou contas de suas atividades de empresário e de político quando procurava compreender e teorizar. É essa múltipla originalidade que se destaca em seu último livro. Bresser-Pereira sabe "do que fala" quando evoca o que faz e o que poderia fazer um empresário: por experiência, ele conhece as dificuldades da tomada de decisão quando o contexto global é pouco favorável e sabe quão decisivas podem ser certas escolhas. Talvez seja graças a ter usado "três chapéus" que Bresser-Pereira não se encerre em modelos matemáticos, em geral distantes da realidade a tal ponto que seus criadores esquecem as hipóteses simplificadoras a partir das quais foram elaborados. É por esse motivo que Bresser-Pereira prefere em seu livro remeter-se aos grandes pensadores da economia e confrontar seus métodos de abordagem mesmo tendo que se valer dos filósofos e dos historiadores. Sem ser iludido por esses modelos, como acontece frequentemente com vários economistas, Bresser-Pereira move-se com destreza entre várias disciplinas, permanecendo essencialmente um economista. Ele exerce assim com felicidade a interdisciplinaridade, como se pode constatar no primeiro capítulo de seu livro, com uma exceção, porém: a abordagem sociológica é praticamente ignorada. Talvez seja por essa omissão que o trabalho, as condições de trabalho e o emprego sejam evocados apenas acessoriamente ao longo dos capítulos. Talvez seja uma crítica inapropriada a esse livro, pois, afinal de contas, escrever é escolher, e Bresser-Pereira desejou, sem dúvida, enfatizar nesse livro os temas que lhe parecem os mais importantes para compreender o crescimento débil, como os efeitos perniciosos do Consenso de Washington, os efeitos perversos da alta da taxa de juros, da valorização da taxa de câmbio, a maldição proveniente da exploração das matérias-primas – a famosa "Dutch Disease" – , o sonho tornando-se pesadelo da poupança externa. Mas, seja como for, não podemos deixar de lamentar a ausência de um capítulo em torno das relações entre as finanças, a distribuição de renda, as fracas taxas de investimento produtivo e, em consequência, o crescimento medíocre.

As relações finanças-distribuição de renda são úteis de analisar por três motivos: o primeiro é que a partir delas podemos compreender por que os salários reais se desconectaram da evolução da produtividade do trabalho. Dessa desconexão decorrem duas consequências interligadas: os investimentos dirigidos ao mercado interno não são bastante atraentes em razão das desigualdades de rendimentos muito altos e dos rendimentos muito baixos de mais da metade da população e a aposta de substituir a dinâmica do mercado externo enfraquecido pela do mercado interno, com a ajuda de crédito facilitado às categorias de rendimentos mais baixos, para lutar contra a crise, é difícil de ganhar sem reformas mais amplas no plano fiscal. O segundo é que, com a "financeirização", é mais rentável investir nesse setor do que no produtivo, por um lado; e por outro, no balanço das sociedades, a parcela consumida pela remuneração dos passivos financeiros é constituída em detrimento daquela destinada ao investimento. O terceiro motivo, finalmente, é que é raro encontrar economistas que estejam procurando estabelecer esse tipo de relação: os financistas se ocupam das finanças; os economistas, do trabalho, do emprego e dos salários. Poucos são aqueles que buscam demonstrar as relações entre esses dois polos: finanças e distribuição. Era, portanto, uma oportunidade a ser aproveitada.

Feitas essas observações, as análises de Bresser-Pereira ao longo desse livro sempre conduzem a medidas concretas. Exemplifiquemos: a taxa de câmbio estando valorizada, as consequências são baixo valor agregado, dificuldade de produzir bens de alta tecnologia e diminuição de rendimento do capital. Medidas que devem ser tomadas: controle de capitais, financiamento do crescimento pela poupança interna (e sobretudo não pela externa), taxas de juros mais baixas e administração da taxa de câmbio.

Trata-se de um livro importante, podemos não estar de acordo com este ou aquele ponto, mas isso não é o que importa. O mais importante é que ele rompe com o mainstream – a ortodoxia convencional segundo Bresser-Pereira – e propõe um novo desenvolvimentismo que não seja a cópia pálida do antigo, com um objetivo: que a América Latina não acentue o atraso já assumido ontem em relação aos tigres asiáticos; anteontem, aos dragões asiáticos; hoje, à China; e já amanhã, à Índia. Um livro a ser lido.

Tradução de René Lenard.

Pierre Salama é doutor em Economia pela Universidade Paris-Sorbonne, professor da Universidade Paris XIII, membro do Conselho Científico e do Conselho de Relações Internacionais da mesma universidade. É autor de vários livros, entre eles, no Brasil: Pobreza e exploração do trabalho na América Latina (Boitempo, 2002). @ – salama@univ-paris13.fr

Revista Estudos Avançados

MACHADO DE ASSIS - O romance com pessoas


A "dimensão moral" do romance de Machado de Assis

Pedro Meira Monteiro

NÃO SERÁ de todo exagerado imaginar que os estudos sobre Machado de Assis conformam um grande cenário em que as principais tendências da crítica literária brasileira, tomada amplamente, se desenrolam e se dramatizam. Como se, nos debates que hoje envolvem os nomes mais notáveis da crítica machadiana, se atualizasse muito daquela efervescência que marcou a recepção coeva da obra madura de Machado, e que se estampa tão bem nas divergências entre Sílvio Romero e José Veríssimo. Para além do juízo negativo ou positivo, ou do suposto "erro crítico" de Romero, o que estava (e talvez ainda esteja) em questão são as relações do autor com o seu tempo, e a opção por compreendê-lo a partir de elementos que apontam para o entorno social, para as especificidades "brasileiras" de sua obra, ou, diferentemente, para as suas inspirações literárias mais remotas que, tomadas isoladamente, terminariam por afastá-lo do Brasil, convertendo-o, na nossa imaginação, em um autor mais "universal".

Tais categorias (um Machado universal versus um Machado local) são evidentemente insuficientes, se não simplesmente falsas. Mas talvez valha a pena observar com mais cuidado, ou mesmo com alguma simpatia, o sentido profundo dessa contraposição tão simples, que a nossa boa consciência crítica manda relativizar, ou então recusar. Talvez aí, na tensão inaugurada por seus contemporâneos, estejam traçados muitos dos rumos que todavia hoje os estudiosos de Machado de Assis seguimos, ainda quando procuramos refutar os artifícios da dualidade.

O livro de José Luiz Passos, Machado de Assis: o romance com pessoas, vem em muito boa hora, e se instala, repleto de questões e provocações, no seio da crítica machadiana. Há o que celebrar, seja pela qualidade da escrita, seja pela novidade da abordagem, e pela maneira como ele reflete várias tendências críticas.

Não se trata, contudo, de novidade absoluta ou momentosa. O livro é antes o resultado de uma escuta paciente e demorada da voz dos grandes leitores de Machado, num diálogo muitas vezes implícito, embora frontal, com as matrizes que nos ajudam a compreendê-lo. Mas é também verdade que, ao mergulhar na constituição da "pessoa moral" no romance machadiano, José Luiz Passos está, em certo grau, dando novas formas a argumentos que estão em Augusto Meyer e, mais recentemente, em Alfredo Bosi. Argumentos que reclamam, enfim, uma atenção especial e um investimento crítico forte naquilo exatamente que tornaria Machado "nosso contemporâneo", não, aliás, por conta de alguma qualidade extraordinária que o faça pairar além de seu tempo e seu espaço, mas simplesmente pelo "tratamento que deu às motivações humanas, pela minuciosa composição de heróis que refazem suas próprias histórias na medida em que são alvo da mirada alheia" (p.24).

Sabe-se que a discussão das "máscaras" em Machado aponta, já na crítica de Meyer, mas sobretudo em Bosi, para uma série ilustre de fontes em que se destaca a matriz moralista: do Eclesiastes aos grandes pessimistas do século XIX, passando pelos primeiros pensadores modernos da política e da economia, e especialmente pelos moralistas franceses dos séculos XVII e XVIII. Tal discussão, que contempla o espaço muitas vezes abismal que separa o ser do parecer, e que no plano social distingue a intenção declarada da ação dos seus reais efeitos, ganha em Passos um desenvolvimento atento à formação do "juízo moral", o que o faz empreender uma análise detalhada dos intermináveis labirintos que compõem a "pessoa" nos textos de ficção. Conquanto as fontes buscadas para explicar tal composição moral dos personagens possam ser diversas, a questão é ainda e sempre o espaço que medeia entre o que o sujeito declara e o que dissimula.

Reduzindo brutalmente seu argumento, a hipótese que fornece eixo a esse livro programadamente fragmentário (que aliás flerta com a forma de um tratado de moral) é a ideia de que os personagens machadianos possuem uma verdadeira "dimensão moral", isto é, uma densidade propriamente humana, que não se encontraria nem no andamento romântico dos romances de Alencar, nem na composição dos personagens no romance naturalista, ambos – os personagens românticos e os naturalistas – guiados quase completamente por algo que está fora deles mesmos, seja o projeto moralizador do escritor, que os torna portadores de virtudes e vícios inequívocos em diversos romances de Alencar, seja o peso do meio que inelutavelmente determina a ação do indivíduo, como no drama naturalista estampado nos romances de Aluísio Azevedo.

Tal dimensão moral, que explicaria a grande novidade de Machado de Assis na literatura brasileira e latino-americana no século XIX, abre a cortina ao problema da representação, levando o crítico a sondar e compreender os mecanismos e os debates que terão permitido a Machado construir personagens que até hoje nos parecem reais, dotados de uma autonomia e de uma graça própria, isto é, sujeitos que se movem moralmente, que aprendem diante da ação e da mirada dos outros, e que portanto podem nos surpreender, exatamente porque se alteram ao longo da narrativa, tornando-se, a rigor, diferentes do que foram; no limite, tornando-se diferentes de si mesmos. Mas o que os move estará sempre dentro, não fora do sujeito.

Há ação e há sentido da ação nos personagens machadianos, o que aliás explica a inspiração weberiana que desponta em certas passagens da análise de José Luiz Passos. Há também uma densidade crescente nesses personagens (das mulheres mais ou menos dissimuladas dos primeiros romances aos narradores pouco confiáveis dos romances posteriores), o que traz à tona o tema da memória e dos fantasmas que compõem a subjetividade, detectáveis por meio de um tom confessional cujas origens mais profundas remontam a Santo Agostinho, um autor fundamental para Machado e para Passos. Em suma, trata-se, no caso do personagem machadiano, de um sujeito cuja ação se converte em enigma, o que era um problema completamente atual: "A psicanálise, a sociologia e o romance realista e naturalista comungam da mesma fascinação pela questão que a partir daquele momento entrava em voga: como e por que as pessoas agem da maneira que agem?" (p.65).

Os desvãos que habitam o sujeito (a diferença entre o sujeito e ele mesmo, que se perfaz no tempo da narrativa) não poucas vezes fariam o indivíduo lançar-se a um projeto "reparador", que se expressa ora no esforço ingente dos personagens por parecerem ser o que não são, ora no esforço dos narradores por dar sentido à rede de desconfiança com que o seu olhar apanha a ação do Outro. Em ambos os casos, a máscara é ainda e sempre o elemento por meio do qual Machado opera a sua ficção. Os seus personagens ganhariam teor e densidade exatamente por conta desse desencontro que se entranha no eu, e que Passos compreende por meio de uma mirada abrangente, que contempla tanto a literatura europeia contemporânea a Machado (literatura que encontraria nele o seu tradutor, algumas vezes literalmente) quanto os modelos brasileiros (e portugueses) que ele refuta ou modifica.

O espectro da análise é amplo, e se justifica num livro cheio de idas e vindas, de diálogos entrecruzados que não cabem todos, nem mesmo simplesmente listados, numa resenha. Mas convém, de toda forma, lembrar que a questão das máscaras e da economia dramática que converte os personagens em pessoas verossímeis leva o crítico a privilegiar o teatro na formação de um senso machadiano do drama. Não é tanto o teatro do próprio Machado que estará então em pauta, mas sim a crítica teatral e a influência que sofreu da intensa atividade dramatúrgica no Rio de Janeiro do século XIX, em especial o Otelo que João Caetano levaria ao palco a partir da leitura de Jean-François Ducis, adicionando-lhe, entretanto, um "tenso gestual romântico" (p.197) que devolvia a Shakespeare algo que a leitura neoclássica francesa havia atenuado. Teria sido sobretudo a partir dos embates entre o teatro romântico de João Caetano e a dramaturgia realista do Teatro Ginásio Dramático que Machado "educou-se esteticamente" (p.200).

A centralidade de Shakespeare para a obra machadiana, e a fixação pelo Otelo, explicar-se-ia em grande parte pela importância da "malícia" de Iago, que é também central para a análise de Passos, que não apenas dialoga com uma larga tradição da crítica, como amplia significativamente a compreensão do que parece fundamental no autor do Dom Casmurro: o "tratamento da faculdade do engano". Esse é um momento crucial em Machado de Assis: o romance com pessoas, já que Shakespeare é sua mais forte referência, o que aliás explica o utilíssimo Apêndice que traz uma "Cronologia da presença de Shakespeare em Machado de Assis" (p.253-84).

Num livro que em certo sentido recusa um único centro, é sem dúvida arriscado buscar um ponto nervoso em que se expressaria o principal de sua tese. Arrisco, no entanto, supor que é mesmo Shakespeare quem, da perspectiva de José Luiz Passos, fornece a Machado sua educação literária, mediada, é claro, pela "recepção do drama europeu no Rio de Janeiro", o que abre à crítica um verdadeiro universo de referências que atravessam o século XIX:

É nesse contexto que, entre 1855 e 1878, referências a Shakespeare estiveram presentes ao longo da reflexão machadiana sobre a arte: inicialmente como aliado romântico a Victor Hugo na batalha contra as versões neoclássicas das tragédias shakespearianas de Ducis; em seguida como aliado realista na rejeição do gestual, das motivações e do vocabulário romântico de José de Alencar e de João Caetano; finalmente, Shakespeare surge como sinônimo do potencial humanista da arte no ataque de Machado ao Naturalismo de Émile Zola, realizado em sua resenha de O Primo Basílio de Eça de Queirós. (p.204)

O contexto a que Passos se refere diz respeito às teses que culminariam na defesa de uma "análise de paixões e caracteres", no célebre "Notícia da atual literatura brasileira: instinto de nacionalidade", de 1873.

Uma contribuição a meu ver fundamental é ainda o estudo da maneira como aquele exercício de adensamento dos personagens, que marcaria a novidade e a modernidade precoce de Machado, estaria já presente, como num laboratório, nos romances da chamada "primeira fase". Assim, a crítica de Passos colabora decisivamente em questionar a forma muitas vezes mecânica por que se conclui que os romances anteriores às Memórias póstumas de Brás Cubas seriam menores, ainda recendendo a um romantismo que o autor finalmente bateria em sua fase "madura". Se é verdade que o par amoroso e a formação da família fornecem ainda lenha para a fogueira da primeira ficção machadiana, não menos verdade seria que

mesmo dentro desse contexto, os seus protagonistas são acometidos por uma falta original, por uma sensação de culpa, ou por um desejo espúrio que os distancia pouco a pouco dos personagens românticos. Eles procuram com insistência superar um estado primordial de humilhação por meio de uma trajetória calculada e ascendente socialmente. Assim, a formação da nova família em Machado está vinculada à capacidade particular que seus protagonistas possuem de dissimular, mascarando suas motivações e origens. (p.53)

Essa percepção aguda, entretanto, tem talvez um preço, que é a manutenção de Alencar como o Outro de Machado de Assis, essa espécie de sparring partner que desempenha o papel incômodo de ser, na nossa imaginação, tudo aquilo que Machado viria a superar. O estudo de José Luiz Passos não chega a tal extremo de desqualificação de Alencar, mas tampouco se afasta muito desse ponto. Suponho haver aí terreno fértil para debate. De toda forma, permanece a tese forte da diferença machadiana, que leva o crítico, num momento feliz de síntese, a concluir que o "romantismo havia criado um corpo para o Brasil. Machado lhe daria uma consciência" (p.129).

Há certamente muito mais a encontrar nesse livro, seja lendo-o em sequência, seja abrindo-o ao acaso, já que as hipóteses de leitura vão e vêm, amarradas em diversas frentes, com as quais o leitor sempre apanhará uma nova nuança, um detalhe esclarecedor ou uma provocação inesperada. Destaco ainda a percepção das fontes da melancolia machadiana, que culmina na mirada do conselheiro Aires: um olhar fundo cuja desconfiança em relação ao progresso leva o crítico a encontrar uma fina linhagem em que se aproximam Euclides e Nabuco, e em que se encontra ainda o interesse pelo Império em Oliveira Lima e Rio Branco.

Machado de Assis: o romance com pessoas é movido por um desejo de demonstração que pode por vezes causar a impressão de que a retomada sucessiva de hipóteses e análises seria simples repetição no corpo do livro. Mas não é esse o caso. A "repetição" cumpre aí outra função, já que as retomadas são sempre em níveis diversos, e os problemas, mesmo quando se repõem, organizam-se de acordo com uma mirada preocupada com múltiplos aspectos. Nas palavras do crítico,

a meu ver, o que faz falta ao nosso entendimento do romance machadiano são paráfrases mais finas, descrições que sejam capazes de apanhar a sutileza dos motivos desses personagens. Eivados que são de enleio e duplas intenções, saber com clareza quem eles são, como se formaram e do que se compõem não é tarefa vã. E para esclarecer essa arte da insinuação, nossa entrada inconspícua na modernidade literária, o meu modo será o do exemplo e o da indução. (p.47)

Por essas e outras razões, o livro de José Luiz Passos passa a ser indispensável no quadro da crítica machadiana.

Pedro Meira Monteiro é professor de Literatura Brasileira em Princeton University, nos Estados Unidos. @ – pmeira@princeton.edu
Revista Estudos Avançados

Trabalho, Cultura e Bem-Comum


Metáforas do discurso único, metonímias das culturas do trabalho

Roseli Figaro

Enquanto o mundo for mundo
Enquanto o sal for compra-e-venda
Enquanto a vida vier com injeção de éter
Enquanto o poeta tiver
Vetiver cabeça tronco e membro
Os milagres farão chuvas de astros nos sonhos
O amor há de ser tudo e a carícia dos pratos
Além de alimentar despertará prazer...

(O carro da miséria, XII, Mário de Andrade, Poesias completas)

É PRECISO ter ousadia para desfazer as armadilhas que os asseclas do fim da história e da globalização, via o discurso único, disseminaram por todos os continentes. Trabalho, cultura e bem-comum (Leitura crítica internacional) é uma obra que atua nessa direção. Seu autor, Luiz Roberto Alves, mostra como os sinuosos discursos da autoridade de instituições como a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), assessora do G-8, foram construídos para simular a unanimidade e a supremacia do mercado em contraposição ao Estado de Bem-Estar Social e às experiências dos trabalhadores na luta por direitos e dignidade. Tais simulacros discursivos açambarcaram governos e lideranças, jogando-os aos pés do Midas sistema financeiro, responsável pela atual crise internacional.

Nas palavras do autor,1

no processo estudado, entre 1990 e 2005, ocorreu um roubo de linguagens da sociedade ocidental, que vitimou – e vitima – exatamente os valores que poderiam reencaminhar as governanças saídas da guerra fria, isto é, os valores culturais do trabalho decente, dos bens sociais tornados bens comunitários e da diversidade sócio-política no tratamento da economia, das finanças e das políticas sociais.

Como salienta Alves, a linguagem é a arena onde se travam as batalhas sobre as estratégias persuasivas que transformam interesses privados em acordos econômicos e políticos a serem seguidos como manuais de boas condutas em nível internacional. O autor entra nessa seara para esmiuçar as camadas de sentidos que estão subsumidas por uma lógica que se tornou mito: o mais forte é o que sobrevive à concorrência do mercado. Este último, tido como entidade onipresente e onisciente, fator de seleção natural.

Buscar nos textos as lógicas comunicativas reveladoras dos lugares sociais dos quais falam seus enunciadores faz parte de uma tradição intelectual com a qual comunga Luiz Roberto Alves. Este, ao aplicar os referenciais da sociossemiótica aos objetos discursivos da OCDE, reunidos na série "Economic Outlook", mostra-nos como os fundamentalismos econômicos foram arquitetados como castelos de cartas, vazios da experiência coletiva construída no processo político de diversidade de vozes necessárias à civilização humanista.

Ao propor-se o empreendimento de desvendar os sentidos dos discursos da orientação neoliberal, buscou em Roland Barthes os aportes teóricos para demonstrar como o sentido de uma palavra ou de um discurso pode ser esvaziado, tornando-se mito ou mítico. Assim, nos municia de esclarecimentos e nos dá armas certeiras sobre como lutar nessa arena. O signo é uma materialidade das relações sociais e, como tal, diz respeito a condições concretas de enunciação. Um discurso torna-se mítico quando, esvaziado de seu sentido primeiro, simula um outro cujo objetivo é obscurecer ou obliterar as diferentes vozes e pontos de vista que circulam na sociedade.

O autor mostra como o discurso mítico da OCDE dissimula e obscurece as conquistas do Estado de Bem-Estar Social e os direitos dos trabalhadores conquistados por suas entidades representativas em lutas históricas. Sobretudo, ele demonstra como as orientações contidas nos documentos do "Economic Outlook" pretendem debelar as resistências e as vozes que enunciam discursos que se contrapõem à lógica da onisciência do mercado.

O apuro metodológico da análise, realizada por Alves, sustenta-se na abordagem criativa que ele faz das contribuições de Greimas e Jakobson a partir da característica básica da linguagem verbal de se constituir como rede de relações, na melhor tradição da semiologia saussuriana. Se entre os eixos do paradigma e do sintagma de estruturação da linguagem a rede de relações se dá na lógica da semelhança, cuja seleção permite os fundamentos de uma morfologia; e da contiguidade, cuja combinatória possibilita as relações de sentido e a noção de processo, para o autor esses eixos estão dissociados no discurso hegemônico contemporâneo. Tal dissociação se dá à medida que o paradigma se instituiu a partir de fundamentos cuja semelhança é simulada, não permitindo o progresso no sentido do bem-comum; e o sintagma está carente de elos para estabelecer nexos de sentido na sociedade globalizada, pois sua lógica tem os fundamentos falseados, o sentido encontra-se estilhaçado mais do que fragmentado.

O autor lê os discursos da OCDE como paradigma, no qual as metáforas tornam-se falseadas, haja vista o valor metafórico que vocábulos tais como reestruturação, reengenharia, reciclagem adquirem ao estarem no lugar de outros sentidos, simulando uma mudança que realmente não houve. Objetivamente, o sistema econômico hegemônico aprofundou as formas de exploração do mundo do trabalho e não as esvaeceu.

Se as metáforas, que mobíliam o espaço globalizado das transações neoliberais, constituem-se em mito; as metonímias da contiguidade sintagmática, dos discursos das centrais sindicais (CUT, brasileira; CGIL, italiana; e DGB, alemã) e dos discursos do Fórum Social Mundial, embora herdeiros de lutas vigorosas, mostram-se ainda desconectadas, pois os fundamentos dos valores que compuseram seu paradigma precisam ser reconstruídos, visto que as experiências metonímicas carecem tomar volume para enraizarem-se como eixo estruturante.

É do re-encantamento que se precisa, destaca Alves. Re-encantamento das experiências que, embora dispersas no eixo do sintagma, têm potencial para reconectarem as esperanças em torno da palavra de ordem trabalho decente. Expressão de sentido forte, pois cunhada em fóruns coletivos cujas práticas desenvolvem-se em torno da economia solidária, dos orçamentos participativos e dos conselhos comunitários de representação direta. Como conceito-chave, ela sintetiza experiências que têm em comum a presença das vozes dos interessados na enunciação discursiva que dá o status de cidadão àquele que se coloca na arena política.

Se há ou se houve uma avalancha de metáforas que tomaram o interesse privado pelo interesse público, aposta-se nas experiências concretas do movimento social dos trabalhadores, para o re-encantamento do trabalho e daqueles que trabalham. Experiências vivenciadas por gerações, consubstanciadas nas culturas do trabalho e atualizadas na dinâmica que se dá pela relação do passado com o presente.

A possibilidade de vida futura sustentável para os homens e para o planeta está em desconstruir os sentidos do trabalho como mito-monstro e como tripalium, com o qual se torturavam os escravos, para reavê-lo no sentido de atividade humana, aquela que torna o homem um ser genérico, ser de si e para si, cidadão, cuja relação transcende o dualismo ensimesmado para constituir temas e figuras capazes de dialogar com a coletividade na perspectiva da construção do bem-comum.

É desses sentidos que nos fala Luiz Roberto Alves em seu livro. Nas palavras de Adilson Citelli na apresentação "O trabalho em tempo de cólera", o autor realiza "um fino exercício analítico e intelectivo", expondo uma trajetória intelectual voltada à gestão mediadora de expressões comunicativas capazes de ressignificar e atualizar experiências solidárias.

Nota

1 Texto de divulgação do livro, Blog Alpharrabio: , acesso em 13 maio 2009.

Roseli Figaro é professora doutora na Escola de Comunicações e Artes da USP, coordenadora do Grupo de Pesquisa Comunicação e Trabalho, do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da ECA-USP. @ – figaro@uol.com.br

Revista Estudos Avançados

Historia de los intelectuales em América Latina


No caminho das ideias: historia de los intelectuales en América Latina

Diego A. Molina

À PRIMEIRA VISTA, uma história dos intelectuais na América Latina pode parecer uma tarefa desmesurada, anacrônica ou, simplesmente, pretensiosa. Porém, nenhum desses adjetivos consegue definir o conjunto de ensaios reunidos neste primeiro volume de Historia de los intelectuales en América Latina. O marco espaçotemporal, isto é, os pouco mais de quatrocentos anos que vão da conquista da América, a partir de 1492, até o final do século XIX longo (segundo a periodização hobsbawmsiana, que, inferimos, rege o volume), e o território da América hispânica e lusitana, parece realmente inabordável. De todo modo, o principal problema que o volume enfrenta no conjunto radica muito mais nas concepções múltiplas do intelectual do que no suposto recorte descomunal. Dessa maneira, apesar das duas introduções que - a modo de marcos referenciais - abrem a Historia, a maioria dos 22 ensaios que compõem o volume começa por realizar as definições pertinentes do valor que terá, se usado, o mote intelectual. Como se sabe, o termo intelectual foi cunhado pelo escritor Émile Zola em sua "Carta ao presidente da República (Félix Faure)", publicada no jornal L'Aurore com o emblemático título de "J'accuse". Nessa acusação aos abusos do poder, que é o ponto máximo da autonomia conseguida pelos escritores ao longo do século XIX, está a origem do trabalho intelectual. Na América Latina, o termo foi rapidamente implementado (como nota Carlos Altamirano na introdução), por exemplo, por José Enrique Rodó, que em seu Ariel, de 1900, declarava: "Eu gostaria que esta minha obra fosse ponto de partida de uma campanha de propaganda entre os intelectuais da América". Porém, e em diálogo com a obra de Ángel Rama - que desde o subtítulo do volume ("La ciudad letrada, de la conquista al modernismo") aparece como farol -, o termo intelectual perde força para dar lugar a um caudal de vocábulos, como: letrados, elite letrada, juristas, clérigos, letrados eclesiásticos, publicistas, eruditos, "gente de saber", homens de letras, editores etc. O que, de alguma maneira, responde à pergunta que Jorge Myers propõe como organizadora do volume: "em que consistiu ser um 'intelectual' na América Latina antes do começo do século XIX?".

Então, desde o clero - onde se destacam os jesuítas e suas missões, como nos casos de Bartolomé de Las Casas, José de Acosta, José de Anchieta ou Antônio Vieira -, passando pelos científicos, que, sob os lemas da Ilustração, substituíram os missionários quando o mundo colonial apresentava seu primeiro indício de esgotamento na América Ibérica, até os liberais, revolucionários e políticos que lutaram pela independência, a tarefa dos intelectuais completa o arco total entre o "poder secular" e o "poder espiritual" comtiano. Neste último caso, isto é, após a emancipação dos países do jugo metropolitano ibérico, o papel dos intelectuais terá um itinerário paradoxal, já que, enquanto eles participam do processo que articula e dá forma aos Estados nacionais emergentes, procuram a autonomia que lhes permita realizar sua crítica. As tensões entre as concepções do intelectual marxista como aquele que representa os interesses de uma classe socioeconômica, e o rasto que Karl Mannheim deixou em vários pensadores, entre eles Ángel Rama, sobre a autonomia das elites letradas, atravessam a maioria dos ensaios. Da mesma forma, a figura do "intelectual orgânico", nos termos em que Gramsci o concebeu, aparece, desde leituras retrospectivas, como possível esquema referencial; como é o caso da elite brasileira reunida em torno da figura de dom Pedro II, suas incursões como mecenas e a criação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro em 1838.

Este primeiro volume da Historia de los intelectuales está articulado em cinco partes, ordenadas cronologicamente. Assim, a primeira, "El letrado colonial", aborda o papel da gente de saber nos virreinatos hispano-americanos (Óscar Manzín), analisa o caso específico das elites letradas do Peru virreinal, na chamada "Academia Antártica" (Sonia V. Rose) e dá conta da relação entre literatura e "intelectuais" no período colonial no Brasil (Laura de Mello e Souza). O trio de ensaios traz à tona as diferenças existentes entre Espanha e Portugal em razão da instalação de instituições em território colonial, onde se destaca a criação de universidades na América Hispano-Americana quase do início da conquista (México, 1551, e Lima, 1553) e a falta das "Casas de Altos Estudos" em território lusitano. No entanto, resgatam-se as semelhanças nos processos civilizatórios empreendidos pelos jesuítas em toda a América Ibérica, trabalho paralelo a ponto de a expulsão recair em todos os missionários da América no mesmo momento.

Entre os três ensaios da primeira parte e os sete da segunda, constata-se um salto elíptico considerável. Com o título de "Elites culturales y patriotismo criollo: prensa y sociedades intelectuales", a segunda parte contextualiza a marca iluminista e os rastros da Revolução Francesa na América Latina, no momento de maior esgotamento do regime colonial. O título abre o caminho para a leitura nacional a partir do "patriotismo criollo": o cenário de conflito europeu, a democracia emergente dos Estados Unidos, o uso da imprensa e os novos agentes culturais configuram o lento - às vezes violento, mas sempre firme - processo de emancipação latino-americano. Dessa maneira, o letrado patriota ou "os homens de letras" começam a se posicionar e engajar em suas pátrias no momento de colapso do império espanhol (Jorge Myers), gerando um clima intelectual "à altura das luzes" (Klaus Gallo). O processo secular, posto em marcha desde final do século XVIII, ganha ímpeto entre 1800 e 1850 (Annick Lempérière).

Nesse contexto, alguns ensaios analisam o papel de duas figuras preponderantes: os juristas e sua atuação no "nascimento dos Estados-nação" (Rogelio Pérez Perdomo) e os publicistas, os redatores e o surgimento da "opinião pública" (Paulette Silva Beauregard e Elías J. Palti). O primeiro indício de americanismo, que mais tarde ganhará outras formas e defensores, tanto durante o romantismo e sua procura do gênio local e americano, quanto durante o modernismo e sua oposição ao imperialismo britânico e norte-americano, aparece nos primeiros republicanos ou nos "tradutores da liberdade" (Rafael Rojas).







A terceira parte, "La marcha de las ideas", é composta de alguns dos mais interessantes ensaios do volume, embora a coesão entre eles seja mais difícil de entrever. Um dos ensaios analisa a desconfortável figura do venezuelano Laureano Vallenilla Lanz e seu Cesarismo democrático: "O que fazer, então, com um clássico como este?", pergunta-se o autor, Javier Lasarte Valcárcel. Sobre a construção dos "relatos de origem" na historiografia nacional, Fernando Devoto analisa os casos de Brasil, Argentina e Uruguai, assim como as três figuras determinantes dessa corrente: Varnhagen, Mitre e Bauzá. Uma segunda figura de americanista está dada pelo "erudito colecionador", cujo papel como intelectual híbrido, devido ao entrecruzamento de disciplinas, marcou um período do século XIX (Horacio Crespo). A análise dos intelectuais negros no Brasil do século XIX (Maria Alice Rezende de Carvalho), com suas atuações públicas, suas obras e suas trágicas saídas do mundo (André Rebouças, João da Cruz e Sousa e Afonso Henrique de Lima Barreto), estabelece um interessante diálogo de contrapontos com o ensaio "Tres generaciones y un imperio: José Bonifácio, Porto-Alegre y Joaquim Nabuco", de Lilia Moritz Schwarcz, que abre a quarta parte: "Entre el Estado y la sociedad civil".

Completam a penúltima parte: um instigante estudo sobre os intelectuais e o poder político durante o porfiriato no México, onde se analisa o "ódio aos científicos" (Claudio Limnitz); outra abordagem sobre o "novo espaço de formação e atuação intelectual" composto pela imprensa, pelas associações e pela esfera política (Hilda Sábato); a participação dos intelectuais argentinos exilados no Chile (entre 1840 e 1850) na "construção da esfera pública" (Ana María Stuven); e, atrelado aos estudos de gênero, o papel das "maestras, livres-pensadoras e feministas" na Argentina no começo do século XX (Dora Barrancos). Fecha o volume a quinta parte, intitulada: "Exilios, peregrinajes e nuevas figuras del intelectual", que começa a vislumbrar o mundo intelectual na América Latina até a década de 1920, no final do século XIX longo. Alejandra Laera analisa a figura ambígua do cronista e romancista (jornalista e escritor) no momento em que a imprensa periódica serve como meio de profissionalização. Susana Zanetti realiza um percurso pela obra e pela figura de Rubén Darío, o jovem líder do movimento modernista, aquele que condensa a imagem de "o intelectual artista". É o momento que Manuel Gutiérrez Nájera tinha prefigurado da Europa ao perceber que "Hoje os tempos têm mudado bastante. A literatura é na Europa uma carreira em toda forma, tão disciplinada como a carreira militar [...] Os escritos, como todas as mercadorias, sofrem a lei da oferta e da demanda" (1881), que agora renova a relação dos intelectuais latino-americanos com os espaços e meios de atuação.

Por último, Beatriz Colombi acompanha o itinerário dos escritores hispano-americanos no caminho para "a Meca" que Paris representa, ao menos até o começo da Primeira Guerra Mundial, que modificará para sempre a relação dos intelectuais com o poder e que, de alguma maneira, fecha o volume.

Trabalho pioneiro, Historia de los intelectuales en América Latina enfrenta as dificuldades de realizar uma leitura, não uma tabula rasa, mas um palimpsesto de vozes que ao longo dos séculos pensaram a relação das elites letradas com seus meios de produção e nos próprios contextos de atuação. Devemos destacar que, ainda que o peso esteja distribuído em certas tendências, nas quais prevalecem os enfoques que priorizam Argentina e México, achamos pertinente a inclusão das diversas abordagens do Brasil colonial e imperial. Essa inclusão vem saldar uma dívida como os estudos comparados latino-americanos, que, em geral e com apenas algumas exceções, deixam de lado o Brasil ou colocam-no em relação bilateral com a metrópole, estabelecendo linhas de ruptura ou continuidade entre Brasil-Portugal e desestimam contatos, semelhanças e diferenças com o restante dos países da América Latina.

A pluralidade de critérios para dar conta de uma figura tão complexa como a do intelectual pode suscitar certo ar de falta de unidade ou organização do volume. Mas na "introdução" está feita a aclaração sobre a quantidade de disciplinas que deveriam convergir no momento de realizar uma história dos intelectuais: "a história das ideias, a história da literatura, a história política e a sociologia dos intelectuais" (p.23). Portanto, ficam pautadas as próprias limitações a que se veem sujeitos os organizadores do volume pela enorme quantidade de abordagens que admite a realização do trabalho. Por sua vez, a América Latina, ao não ser recortada ou definida por critérios sociopolíticos, geográficos ou culturais, ganha diversos enfoques e apelativos de acordo com as necessidades expositivas de cada ensaísta, assim como os gentílicos: hispano-americano, ibero-americano, luso-brasileiro, latino-americano, por exemplo. Por isso, o conjunto tem certa independência conceitual, apesar da ordem cronológica, o que enriquece a obra em sua totalidade, embora às vezes, entre um ensaio e outro, possam surgir as contradições às quais/a que todo trabalho crítico está sujeito. De todo modo, dar conta das contradições é, sem dúvida, uma das mais dignas tarefas do intelectual.

Diego A. Molina é bacharel em Letras Modernas pela Universidade de Buenos Aires (UBA) e pós-graduando em Literatura Brasileira pela USP. @ - egujote@yahoo.com
Revista Estudos Avançados