Mostrando postagens com marcador Linguística. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Linguística. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Escritores, gatos, teologia



Um ensaísta entusiasmado

Adelia Bezerra de Meneses
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo/São Paulo, Brasil.

TENÓRIO, W.. Escritores, gatos, teologia. 2014. Ateliê Editorial, São Paulo:

[...] os verdadeiros poetas, os criadores das antigas epopeias, não compuseram seus belos poemas como técnicos, porém como inspirados e possuídos [...]. Porque o poeta é um ser alado e sagrado, todo leveza, e somente capaz de compor quando saturado do deus e fora do juízo, e no ponto, até, em que perde de todo o senso. [...] É por inspiração divina, exclusivamente, que cada um faz tão bem o que faz [...]. (Platão, 1980

Essas palavras de Sócrates no Diálogo Ion de Platão poderiam servir de epígrafe a Escritores, gatos e teologia de Waldecy Tenório, coletânea de ensaios em que se articulam literatura e o que ele chama de "teologia". Sim, para o autor, os poetas e ficcionistas - mesmo os mais entranhadamente ateus - seriam, para se usar o termo platônico, "enthousiasmados" (etimologicamente: en + theós: com um deus dentro). Aqui radica um nó, a que eu retornarei mais adiante.

Antes, um elenco sucinto das principais questões afloradas ao longo dos ensaios que compõem a coletânea, como um leitmotiv: a via estética como experiência do sagrado; a arte como lugar epifânico; a ideia da teologia como a pergunta sobre o sentido último das coisas; e, sobretudo, o esforço pungente de aproximar literatura e teologia. E tudo isso numa prosa leve e limpa, uma escrita calorosa, de comunicação sem travas com o leitor, com a dose exata de humor a nos conduzir pelo cipoal de citações, o mesmo humor espontâneo que inventou a "mediação" divertida dos gatos para costurar os vários capítulos do livro - gatos que, como se sabe, desde o Egito Antigo, têm trânsito livre para a transcendência e habitam o imaginário e os telhados de vários escritores famosos.

E provindas de aficionados a gatos, ou não, há citações de autores (do quilate de Octavio Paz, Baudelaire, Fernando Pessoa, Guimarães Rosa, Clarice Lispector etc.), comprobatórias de "hierofanias" nos textos literários, numerosíssimas, mas que acabam por nos conquistar por sua eficácia estética. Senão, vejamos: "Quem me dirá se no arquivo secreto de Deus / estão as letras do meu nome?" (J. L. Borges); "Nós gritamos SIM ao eterno" (Drummond); "Existirmos, a que será que se destina?" (Caetano Veloso); "Deus dói" (Unamuno); "Abre teus olhos, meu Deus / Come de mim a tua fome" (Hilda Hilst); "Tua ausencia me rodea como la cuerda a la garganta" (J. L. Borges). Ou ainda, de Baudelaire, sobre a Poesia: "uma exigência devastadora de Absoluto".

Mas não só de citações-testemunho e de reflexões teóricas se constrói esse livro: alguns de seus capítulos propõem análises literárias, sob a óptica da teologia (ou seria vice-versa: abordagens teológicas com um instrumental da literatura?), como é o caso do estudo sobre o Evangelho Segundo Jesus Cristo, em que se rastreia a tensão entre o Jesus e o Deus de Saramago, com indisfarçável simpatia pelo primeiro, o que faria o ficcionista entrar na categoria de "teólogo charlatão"; ou o capítulo sobre João Cabral, "teólogo inconfessável", por conta da mesma "tensão com a linguagem" que os místicos experimentam. Mas há também ensaios em que aflora a metodologia privilegiada de Waldecy Tenório: uma abordagem comparativa, aos pares, que revelará por vezes, insuspeitadas articulações. Freud, o grande destrinçador dos problemas da psique, dizia que quando um problema é grande, arranja-se um outro com o qual se lidar concomitantemente, à maneira como se quebra uma noz: se uma só é difícil de abrir, toma-se na mão uma segunda noz, e o processo se viabiliza... E assim são abordadas duplas: Thérèse de Lisieux / Mme. Bovary; Proust / Manuel Bandeira; Adélia Prado / Hilda Hilst; Teilhard de Chardin / Saint-Exupéry. À maneira de Plutarco, que inaugurou a Biografia Comparada, com suas Vidas paralelas, Waldecy aborda pares - às vezes, um ser real e um ser de ficção. Como o capítulo que o leitor começa a ler de sobrancelha franzida e acaba convencido (e divertido) pelo paralelo entre a vida daquela que se tornou a popular "Santa Terezinha" e a biografia imaginária da personagem Mme. Bovary de Flaubert. Aí ele coteja as leituras que ambas fizeram, os contextos, os percursos, as experiências ("coincidência de formação", como ele diz) - para concluir, finalmente, que elas têm muito a ver entre si, mulheres que falam a linguagem amorosa.

Mas a questão realmente complicada diz respeito àquilo com que iniciei o meu texto, e que, embora diversamente nomeada ao longo de todo o livro, concentra-se especialmente em dois capítulos, o "O autor invisível" e "O teólogo charlatão". No primeiro deles, coloca-se uma questão que atormenta Clarice Lispector: "Falo como se alguém falasse por mim". O comentário vem na frase contígua: "o inconsciente, o superego?". Mas essa réplica em forma de interrogação vem apenas para ser descartada, pois na sequência ergue-se uma outra pergunta, dessa vez com a assinatura de Octavio Paz: "Como se chama, quem é esse que interrompe o meu discurso e me faz dizer coisas que não pretendia dizer"? (em El arco y la lira). E aí a resposta vem célere, por parte de Waldecy, infelizmente rápido demais encerrando o caso: "É Javé, o deus da Bíblia" (p.46). E o que se seguirá serão exemplos de passagens em que "Javé" se infiltrará na escrita de escritores tão diferentes como Dostoiévsky e Adélia Prado, ou Beckett e Cortázar.

A se aceitar tal afirmação, como ficariam, por exemplo, o poeta sufi Rumi, que o autor evoca mais adiante? E os gregos (não me refiro aos citados Zeus ou Atena, do Panteão olímpico, mas aos órficos, ao Deus de Platão, que no Timeu leva o Caos a um Cosmos), ou os hindus, ou escritores de outras paragens, que não do mundo judaico-cristão? E os ateus militantes, não se sentiriam desrespeitados com a autoria de seus textos atribuída ao Deus do Antigo Testamento? De fato isso significaria confessionalizar uma voz que em outro momento do texto o autor vai equiparar à voz de Shiva, Krishna, Maomé, Iemanjá, Tupã, Xangô, Oxalá - declarando com muita pertinência que "Essa Teologia plural aprendeu que Deus muda como o fogo quando misturado com fragrâncias e é nomeado segundo o perfume de cada uma". Talvez aqui, num afã de comunicar-se com o seu público, o autor tenha adiado cavoucar um pouco mais esse chão. Teria sido melhor ficar com a Kristeva, citada ao fim do livro, quando se volta o assunto, e que alude "a um outro que existe em mim, ou ainda um não sei quê de exterior a mim mesmo que se exprime através de minha boca em virtude de qualquer processo ainda inexplicado" (p.166). Ou com Greimas, que diz na mesma página: "Talvez exista um mistério na linguagem".

Mesmo quem perceba na Arte uma manifestação da transcendência, onde se expressam coisas a despeito do próprio autor, não poderia concordar com a visão da psicanálise, de que o poeta mantém aberto o canal de comunicação com o inconsciente - pessoal ou filogenético? Haveria que se levar em conta a arte como uma "formação contraideológica" - mas, advirto, tomo aqui "ideologia" na acepção quase caseira de "visão de mundo". Efetivamente, nos grandes poetas, é o que escapa ao espartilho ideo- lógico que faz o encanto e a força de sua criação. Como aponta Alfredo Bosi (1977) no episódio de Paolo e Francesca da Rimini, na Divina comédia, em que a teologia de Dante cede à compaixão do poeta e ele colocará o casal adúltero no Inferno, sim, mas ... juntos por toda eternidade, na amada presença um do outro! Além, é claro, de, para interrogá-los, ter-lhes suspendido o castigo que deveria ser ininterrupto.

Voltando ao texto de Waldecy: o "autor invisível" aqui seria então o que comete a transgressão à ortodoxia teológica, que previa a pena infindável. Mas na realidade, o próprio autor, em outro momento do seu livro, está consciente disso, quando, por exemplo, endossa Casais Monteiro dizendo que "A poesia de Dante é imortal, sua teologia não é".

Um último topos resta a ser trabalhado: a questão do termo "teologia" usado no título, que, se etimologicamente diz respeito a "saber sobre Deus", no uso comum se reveste de uma dimensão inescapavelmente doutrinal e dogmática. Daí que Waldecy tenha tido que chamar de "teólogos charlatães" aqueles que estão à revelia do espartilho doutrinal. (Por que então não substituir de vez o termo "teologia" por algo como "experiência do sagrado"?) É certo que o autor nos adverte de que não se trata aqui de uma teologia "enrijecida em certezas, clericalismo ou intolerâncias", mas sim de "uma teologia marcada por um sentido profundo de hierofania, como a poesia de William Blake, revelando o caráter sagrado de todas as coisas" (p.20). Mas mesmo essa advertência não confortará o leitor arisco, lembrado de Inquisições e, mais na contemporaneidade, de congregações para as doutrinas corretas.

E é assim que o senso comum vê a palavra, no seu lado negativo. E nessa linha foi concebida a capa do livro, uma expressiva criação de Gustavo Piqueira, e que ganhou um prêmio importante, o "International Design Award". Pois bem, a capa mostra uma compacta figura negra, evocando ao mesmo tempo um desenho de gato desses que as crianças fazem (basicamente, um círculo encimado por dois circunflexos paralelos - as orelhas); um Livro, recortado por um leve pontilhado em branco, as páginas semiabertas; e o negror rotundo de uma eventual batina eclesiástica (ou veste rabínica). Expressivo dessa concepção de "Teologia" cujos riscos venho apontando, mas que deixa no escuro - literalmente - os momentos luminosos do livro, em que se pode vislumbrar a sobreposição da experiência poética com a experiência mística; e o entusiasmo do ensaísta.

REFERÊNCIAS

BOSI, A. O Encontro dos tempos. In: BOSI, A.. O ser e o tempo da poesia. São Paulo: Cultrix, 1977. 
PLATÃO. Íon, In: Diálogos. Trad. Carlos Alberto Nunes. Belém: Universidade Estadual do Pará, 1980. v. I-II.
Adélia Bezerra de Meneses é doutora em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP. Foi docente de Literatura Brasileira no Leitorado de Romanística da Technische Universität de Berlim, professora de Teoria Literária e Literatura Comparada na USP e na Unicamp, onde se aposentou. @ - adeliabm@terra.com.br
Revista Estudos Avançados

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Desdizer


A dita do desdito

Marcos Pasche
Curso de Letras, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Seropédica, Itaguaí, Rio de Janeiro, Brasil.

SECCHIN, A. C.. Desdizer e antes. Rio de Janeiro: Topbooks, 2017.

Após quinze anos da publicação de seu último livro de poemas - Todos os ventos, de 2002 -, Antonio Carlos Secchin está de volta à poesia com Desdizer. A exemplo da edição do título anterior, a do de agora congrega um volume de textos inéditos e os volumes poéticos anteriores - o já citado Todos os ventos e mais Diga-se de passagem (1988), Elementos (1983) e Ária de estação (1973). O livro também traz o depoimento "Escutas e escritas", com o qual Secchin mapeia seu percurso pelas vias do verso. Por se evocar no depoimento a imagem do poeta como um "operário do precário" (p.195), tomada ao "Poema do infante" (p.190), do livro de estreia, aqui pautarei os comentários sobre Desdizer pela exploração da imagem, buscando demonstrar que precariedades se operam, e como se operam, na poética em questão.

A primeira precariedade estampada no livro é a do próprio dizer. Abrindo o conjunto dos 31 poemas, "Na antessala" relata algum Antonio Secchin buscando expressão poética própria e potente, num movimento afunilado e frustrante. Da rua para um mosteiro e do mosteiro para uma gaveta, o poeta que se procura só se encontra como não do cânone moderno: não vale um Pessoa; não recebe o talento de Drummond; e seus versos, rasteiros, não se equiparam aos de Cecília Meireles. Pede-se ao leitor, portanto, que não alimente grandes expectativas.

Além de texto inaugural, "Na antessala" é grafado em itálico, apondo-se como epígrafe de um livro sem epígrafe propriamente dita. O detalhe gráfico também caracteriza "Poema-saída", que fecha o volume e faz explícita referência ao primeiro. Ambos os textos desenvolvem-se em quatro quadras, e ambos possuem metro aproximado (oito sílabas o primeiro e sete o último), sendo os únicos do conjunto em que o eu se identifica na pessoa do autor e o receptor é identificado como o leitor específico de sua poesia, com acentuado grau de metadiscursividade. Considere-se ainda que eles ocupam posições-limite no território do livro (início e fim), e ei-los claramente familiarizados. As semelhanças, porém, não excluem alterações: noutro tom de interlocução, o desfecho responsabiliza o leitor (incapaz de reparar sutilezas) por seu fastio, quando o poeta abandona o lamento autodepreciativo para afirmar com lucidez: "Sei apenas que escrever/ nunca me apontou saída./ Mas ainda assim é nisso/ que apostei a minha vida" (p.57). Análogos e variados, os dois poemas podem ser lidos como verso e reverso de um mesmo texto, porque, estruturados pela percepção irônica do real, do poético e do próprio sujeito e do outro, eles atuam como dizer e desdizer simultâneos, algo que ilustra muito do livro e da linguagem poética de Antonio Carlos Secchin.

Cabe sublinhar que a rarefação do dizer poético aparece em Desdizer também como forma ditada pelo contingente, o que na poética secchiniana, de frequentes sofisticação e rigor formal, é uma novidade. "Instruções" (p.24), "Soneto da boa vizinhança" (p.49) e "Soneto da boa vizinhança II" (p.50) elaboram-se a partir de um modus operandi afim de procedimentos como o centenário ready-made, de Marcel Duchamp, e como o arranjo poético, de Alberto Pucheu, interlocutor de Secchin. O poeta, leitor e inventor de linguagem, é também seu auditor, e nos textos mencionados dispõem-se falas ante as quais aquele que as ouve age para organizá-las, instaurando forma (de soneto, inclusive) no caos. Secchin, poeta de Elementos ("O real é miragem consentida", p.131) e íntimo da tradição (cf. "Cisne", p.66, e "Trio", p.70, ambos de Todos os ventos), tem em Desdizer seu livro mais contemporâneo e concreto, por aberto à carne crua e à poeira do tempo: "O camarão custa os olhos da cara./ Frequento o Zona Sul, porém sou fã/ das grandes promoções do Guanabara" ("Soneto da boa vizinhança", p.49).

Em Desdizer, a precariedade do existir é verbalizada por uma confluência de pessimismo e estoicismo. Seja revendo a si próprio quando enxerga em objetos externos a derrota de suas esperanças ("A gaveta", p.18-9), seja listando a aniquilação de sonhos alheios ("Feliz ano novo", p.22), há um eu que espia e se espia para anunciar - sem margem para otimismo retórico ou autopiedade - a inexorabilidade do que se revela como vida real e de revés. Dessa vertente, "Soneto da dissipação" é cortante exemplo: "Revejo a luz gelada de manhãs perdidas/ e os sonhos que eu mandei para o endereço errado./ Tanto azul me nauseia e nada se dissipa/ em meio ao mangue seco onde estanquei meu barco./ [...]/ O espelho só me ensina a ruína do desejo./ Sei que é meu esse olhar em que eu não mais me vejo" (p.55).

Mas de um livro assinalado pela desdição, pode-se esperar o constante reverso do dito, e essa expectativa não é frustrada pelo correr das páginas. Os que acompanham o trabalho artístico e ensaístico de Antonio Carlos Secchin poderão perceber o caráter antinormativo de sua postura, caráter esse decorrente mais de um espírito lúcido e aberto do que de levantamento de bandeiras. Coabitam o mesmo espaço da obra em estudo o verso uniforme e o variado, o olhar para o universo cósmico e para o botequim da favela, o metadiscurso e a referência social, a ambiência coletiva e a familiar, a amargura e o riso. Assim, poemas da grave precariedade ladeiam poemas solares, o que não significa dar a entender que o sol não brilha para os precários, pois, se fosse essa uma crença emitida pelo livro, ele cairia na dicotomia previsível e simplificadora há muito questionada pelo autor. A poética de Antonio Carlos Secchin também pode ser entendida como apontamento para "o lado além do outro lado", conforme se inscreve em epígrafe ao poema "Translado" (única epígrafe no livro, aliás, em que o poeta toma a palavra a si mesmo, e não a outrem). Como exemplo mais pujante da convergência de precariedade e vitalidade, cito "O galo gago", poema cômico e narrativo que valeria como edição exclusiva também voltada para o público infantojuvenil. No relato, formula-se um impasse espantoso: a gagueira do galo o impede de cantar, o que inviabiliza o descanso da Noite e a consequente aparição do Sol. A forma humorística dominante e repleta de tiradas de superlativa criatividade - "Nada de periquito/ para cantar ao Sol!/ Bastava ensinar ao papagaio/ o canto em cocoricó bemol." (p.33) - não se isenta de apresentar fundos questionamentos, típicos da palavra mítica: "Toda a mata matutou:/ se a Noite vai e o Sol não vem,/ qual seria a cor de um céu/ habitado por ninguém?" (p.32). A insuficiência canora do galo desencadeou um esforço coletivo para a garantia da manhã, saudada por enorme conjunto de bichos e até pelo poeta, que, sem ter tido participação alguma nos trabalhos, foi justamente convidado a retirar-se da ópera para cantar noutro poema.

Por fim, cito "Autorretrato", poema central para o livro e um de seus maiores feitos. O título leva a supor um texto centrado no eu do discurso, mas a todo tempo esse eu fala de um ele, um poeta qualquer que ignora seu próprio fazer, sendo também ignorado, por esquivo e fugidio. A ideia de um retrato que retrata de soslaio, e que não consegue paralisar o movimento de alguém que não se apresenta fixamente, é também confirmação de alguém que opera o precário e que opera precariamente. Sendo o poeta um ser da palavra, poder-se-ia esperar ou exigir dele a sentença definitiva que apresente caminhos a serem seguidos e passos a serem dados. Só que a necessidade de certeza é já desautorizada pelo próprio operário, que "nunca sabe onde sua voz termina" (p.39), "se o outro é que lhe invade,/ numa voragem assassina" (ibidem) e que não sabe do motor que o impele "contra a crosta da rotina" (ibidem). E ali, onde tudo é dúvida, assoma um saber, desconfiado e conflitante, posto a desdizer a convenção e também aquele que dela se distingue, pois "Sabe que nasce do escuro/ a poesia que o ilumina" (ibidem).

REFERÊNCIA

SECCHIN, A. C. Desdizer e antes. Rio de Janeiro: Topbooks, 2017. 

Marcos Pasche é professor de Literatura Brasileira na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. @ - marcospasche@uol.com.br
Revista Estudos Avançados - USP

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Atividade de linguagem, discurso e desenvolvimento humano

BRONCKART, J. P. (2006). Atividade de linguagem, discurso e desenvolvimento humano. Campinas: Mercado de Letras

No início do século XXI, emergiram vários trabalhos tratando de questões relacionadas à linguagem e ao trabalho. Nessa perspectiva, em especial na área da Lingüística Aplicada, os estudos da atividade profissional docente passam a ocupar um lugar de destaque, o que pode ser evidenciado por publicações em periódicos (GERALDINI e MARTINS FONTES, 2004; MACHADO e ABREU-TARDELLI, 2005; MAZZILLO, 2005), anais de congresso (MACHADO e CRISTOVÃO, 2005) e coletâneas (SOUZA-E-SILVA e FAÏTA, 2002; MACHADO, 2004; FAÏTA, 2005). De maneira especial, estamos fazendo referência a textos que exploram o trabalho do professor e o papel da linguagem em constituir essa atividade profissional e suas relações sociais. Nesse sentido o livro que ora apresentamos vem justamente especular as relações entre práticas de linguagem, atividade e ação.

A obra Atividade de Linguagem, discurso e desenvolvimento humano, organizado por Anna Rachel Machado e Maria de Lourdes Meirelles Matencio, traz oito artigos publicados ao longo dos últimos 10 anos, traduzidos e organizados em um volume, que ilustram as maiores orientações do Interacionismo Sociodiscursivo (doravante ISD) desenvolvido por Bronckart e seus colaboradores. Trata-se do primeiro livro com textos de Bronckart publicados no Brasil após sua obra Atividade de linguagem, textos e discursos de 1997, lançada em português em 1999.

O ISD, inscrito no movimento do interacionismo social, adota três princípios gerais: 1) a problemática da construção do pensamento humano consciente deve ser tratada paralelamente à construção do mundo, dos fatos sociais e obras culturais; os processos de socialização e individuação são vertentes indissociáveis do desenvolvimento humano; 2) os questionamentos das Ciências Humanas devem apoiar-se na filosofia (de Aristóteles a Marx) e preocupar-se ao mesmo tempo com questões de intervenção prática; 3) as problemáticas centrais de uma ciência do humano implicam relações de interdependência entre os aspectos psicológicos, cognitivos, sociais, culturais, lingüísticos, e também os processos evolutivos e históricos.

Para o ISD a problemática da linguagem é central ou decisiva para a ciência do humano e considera que os signos linguageiros estejam na origem da constituição do pensamento consciente. O ISD procura demonstrar que as práticas de linguagem situadas são os maiores instrumentos do desenvolvimento humano, tanto sob o ângulo do conhecimento e do saber como em relação às capacidades de agir e da identidade das pessoas. A construção das capacidades cognitivas resulta de um processo inicialmente marcado pelo sócio-cultural e pela linguagem.

Bronckart iniciou seus estudos filiando-se a diversas correntes de pensamento, entre as quais o behaviorismo de Skinner, a Gramática Gerativa de Chomsky, e as idéias de Vygotsky, Luria e Leontiev (às quais aderiu firmemente). Embora tenha depois rejeitado o behaviorismo, conservou a higiene metodológica dessa corrente, o que se reflete em seus trabalhos com os textos.

Numa segunda fase, Bronckart integrou o Centro Internacional da Epistemologia Genética, realizando estudos estritamente piagetianos. Tentou conciliar a perspectiva de desenvolvimento de Piaget com a abordagem estrutural de Chomsky em suas pesquisas, mas essas referências teóricas não se mostraram pertinentes para seus estudos. Percebeu, então, que necessitava de um quadro textual global, o que o fez entrar em contato com a obra de Bakhtin, iniciando um debate permanente com Jean-Michel Adam e seus trabalhos.

Em seguida, após 1973, Bronckart ministrou um curso de Lingüística destinado aos formadores e professores da escola Primária de Genebra e obteve um posto de professor de "Psicopedagogia das Línguas". Entre seus colaboradores estavam Daniel Bain e Bernard Schneuwly. Desta fase e de suas preocupações didáticas se originou o projeto do ISD propriamente dito. Nas fases iniciais, os trabalhos consistiam em criar e testar seqüências didáticas e elaborar paralelamente um modelo teórico capaz de sustentar e esclarecer questões práticas. Bronckart e seus colaboradores reexaminaram a abordagem de Vygotsky, a obra de Saussure, o papel da apropriação dos signos na emergência da consciência humana, e começaram a estudar os efeitos produzidos pela matriz dos gêneros textuais e dos tipos de discurso sobre o desenvolvimento humano, nas suas dimensões epistemológicas e praxiológicas.

O primeiro artigo do livro, As unidades de análise da psicologia e sua interpretação, apresenta a posição do ISD em relação à problemática do desenvolvimento humano por meio da confrontação dos aportes respectivos do interacionismo social de Vigostky e do construtivismo de Piaget. O autor entende que os princípios explicativos do humano se situam na construção do social e do semiótico, sendo que o comportamento só se explica pela construção e pela evolução das organizações sociais.

O artigo Ação, discurso e racionalização: a hipótese de desenvolvimento de Vygotsky revisitada (capítulo 2) é um reexame das propostas psicológicas de Vygotsky e de seu quadro epistemológico. Nessa análise Bronckart critica, entre outras coisas, a ausência de uma verdadeira conceitualização praxiológica (apoiando-se principalmente nas teorias de Anscombe, Habermas e Riccouer), enfatizando o papel decisivo da atividade de linguagem na construção das próprias ações e dos conhecimentos declarativos. Critica a hipótese de Vygotsky de que os desenvolvimentos da inteligência prática e da linguagem na criança se dêem de forma separada, e de que só haja uma convergência de ambos após 15/18 meses de vida. Para Bronckart, a criança é imediatamente imersa em um mundo de pré-construídos sociais que mediatizam suas relações com o meio ambiente e constroem suas primeiras imagens mentais.

O artigo A análise do signo e a gênese do pensamento consciente (capítulo 3) consiste em uma tentativa de demonstração dessa hipótese, que se articula com um reexame empírico dos dados analisados por Piaget em La formation du symbole. Bronckart apóia-se em Saussure, em sua análise da natureza do signo lingüístico, ao comentar sobre as quatro propriedades dos signos (seu caráter imotivado, radicalmente arbitrário, discreto e dinâmico) e mostra como a interiorização dessas propriedades pela criança transforma a organização psíquica que emerge do estado sensório motor.

O artigo Os gêneros textuais e os tipos de discurso como formatos das interações propiciadoras de desenvolvimento (capítulo 4) apresenta as teses centrais do ISD em relação aos estatutos da linguagem, dos gêneros textuais e dos tipos de discursos, bem como o papel desempenhado pelos últimos no processo do desenvolvimento humano. Bronckart apóia-se em diversos referenciais teóricos, tais como a filosofia marxista, as correntes da física dinâmica, as abordagens de Volishinov, de Fregue, Saussure e Wittgenstein. O modelo de arquitetura textual proposto pelo ISD coloca no centro as unidades lingüísticas, chamadas de tipos de discurso, as quais dão conta dos diferentes mundos discursivos que podem ser construídos e combinados nos textos. São essas unidades macrossintáticas de base que se aplicam aos diversos mecanismos de textualização (conexão e coesão) e de enunciação (vozes e modalização). Mas a utilização do termo discurso traz um problema, na medida em que o mesmo termo se aplica a numerosos outros quadros teóricos. O autor prefere, dessa forma, designar discurso como a atividade da língua em contexto, por oposição às dimensões do sistema da língua e aos textos concretos que são produtos dessa atividade.

O capítulo 5 - Questões em jogo e problemas da nossa análise do discurso - apresenta os argumentos que fazem o ISD adotar e a manter essa acepção do termo discurso, apesar dos problemas de compreensão que possam advir.

Os próximos três artigos são mais centrados nas questões da educação e da intervenção formativa. No capítulo 6, As condições de construção dos conhecimentos humanos, Bronckart analisa os três conceitos de desenvolvimento que exercem maior influência na educação: a tradição escolástica e sua reformulação parcial dentro do quadro das abordagens behavioristas; o modernismo, proveniente de Comenius, desenvolvido pelos promotores da Nova Escola, ou da Educação Ativa, apoiada pela psicologia do desenvolvimento de Piaget; e a abordagem sócio-cultural herdada de Vygotsky e do interacionismo social. Faz uma análise do conceito de competências e suas implicações político-ideológicas e propõe uma releitura dessa noção, introduzindo uma ênfase em sua dimensão dinâmica. Centra-se também nas abordagens relevantes da análise do trabalho e anuncia as razões que levaram o ISD a se integrar a esse movimento, apresentando as grandes linhas de pesquisa nessa perspectiva.

O capítulo 7, Porque e como analisar o trabalho do(a) professor(a), apresenta três situações de trabalho com a finalidade de: analisar as características comportamentais e de linguagem do trabalho real; as representações dessa atividade de trabalho pelas instituições e as pessoas implicadas; e os efeitos formativos e/ou de desenvolvimento potenciais dessas análises interpretativas da atividade. Utilizam-se conceitos e métodos da ergonomia, sendo apresentados, em seguida, os princípios que orientam tal pesquisa, bem como os principais conceitos utilizados para interpretar os dados coletados. São resumidos, enfim, alguns resultados obtidos, que confirmam por um lado as diferenças entre o trabalho prescrito e o trabalho realizado, e as dificuldade de se conduzir uma pesquisa que revela o cotidiano dos professores.

O capítulo 8 - Entrar em acordo para agir e agir para entrar em acordo - faz uma análise histórica dos conflitos entre pesquisas de base e pesquisas aplicadas, que marcaram as Ciências Humanas e Sociais, e traz um conjunto de reflexões sobre o estatuto das Ciências da Educação e das intervenções formativas. O autor entende que é importante analisarmos as ações e os discursos produzidos no quadro das intervenções, por um lado, e por outro tomarmos "consciência das propriedades, da problemática e dos efeitos dessas produções acionais e textuais" (p.255). Essa análise e tomada de consciência em si, embora importantes, não constituem um objetivo final de formação. É preciso ir além, se quisermos fazer frente à economia capitalista globalizada, repensando o futuro à luz de outros critérios e valores.

A coletânea do autor tem como título Atividade de linguagem, discurso e desenvolvimento humano, mas, no entanto, Bronckart opta por utilizar a expressão atividades de linguagem (ao invés de discurso) para designar "a operacionalização da linguagem por indivíduos em situações concretas" (p. 140). O termo discurso aparece no texto para referir-se a atividades de linguagem, enquanto que tipos de discurso estão relacionados a modalidades do agir da linguagem, que são expressas por meio de quatro formas lingüísticas relativamente estáveis: discurso interativo, teórico, relato interativo e narração. Os capítulos deste livro não contemplam as relações de poder no discurso e não discutem seu caráter ideológico, embora, conforme o autor, o objeto da educação seja constituído por "intervenções formativas deliberadas" (p.255), o que, no nosso entender, envolve essas questões. Consideramos que o agir humano (tema central do livro) seja permeado pela ideologia e por relações de poder, que influem inclusive nas escolhas dos gêneros textuais a serem utilizados nas interações sociais. O autor, no entanto, não deixa claro o que entende por ideologia e sua relação com o agir.

O livro cumpre o objetivo de apresentar um panorama dos princípios que subjazem ao interacionismo sociodiscursivo detalhando a especificidade da linguagem ser central nessa ciência do humano. Como explicitado na introdução, "o ISD visa demonstrar que as práticas linguageiras situadas (ou os textos-discursos) são os instrumentos principais do desenvolvimento humano, tanto em relação aos conhecimentos e aos saberes quanto em relação às capacidades do agir e da identidade" (p.10). A organização da obra procura discorrer sobre os construtos necessários para a compreensão dessas propostas, pressupondo leituras prévias em áreas como a lingüística, a filosofia, a psicologia da linguagem. Assim, acreditamos que o livro se destina àqueles realizando estudos e/ou pesquisas dentro de uma perspectiva sócio-histórica com vistas a análises lingüístico-discursivas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRONCKART, J. P. (2006). Atividade de linguagem, discurso e desenvolvimento humano. Campinas: Mercado de Letras.
FAÏTA, D. (2005). Análise dialógica da atividade profissional. Rio de Janeiro: Express Editora.
GERALDINI, A. F. S. ; FONTES, M. C. M. (2002). Ações docentes em meio digital: uma proposta sócio-interacionista. Calidoscópio, São Leopoldo, v. 02, p. 97-105.
MACHADO, A. R. (org.) (2004). O Ensino como Trabalho: uma abordagem discursiva. Londrina: EDUEL.
MACHADO, A. R.; ABREU-TARDELLI, L. S. (2005). Textos prescritivos da educação presencial e a distância: fonte primeira do estresse do professor? Signum, Londrina, v. 8, n. 1, p. 11-24.
MACHADO, A. R.; CRISTOVÃO, V. L. L. ; . Representações sobre o Professor e Seu Trabalho em Proposta Institucional Brasileira para a Formação Docente. In: Congresso Internacional Educação e Trabalho - Representações Sociais, Competências e Trajectórias Profissionais, 2005, Aveiro. Resumos das Comunicações, 2005. p. 17-17.
MAZZILLO, T. (2005). Professores à beira de um ataque de nervos: o dilema do trabalho real e o stress ocupacional. Signum, Londrina, v. 1, n. 8, p. 25-36.
SOUSA-E-SILVA, M. C. P. de; FAÏTA, D. (orgs.) (2002). Linguagem e Trabalho: construção de objetos de análise no Brasil e na França. São Paulo: Editora Cortez.

Francisco Carlos Fogaça
Vera Lúcia Lopes Cristóvão
Trabalhos em Linguística Aplicada - UNICAMP