Mostrando postagens com marcador Ciencia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ciencia. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

The Anthropocene as a Geological Time Unit: A Guide to the Scientific Evidence and Current Debate

 



ZALASIEWICZ, J.. The Anthropocene as a Geological Time Unit: A Guide to the Scientific Evidence and Current Debate. Cambridge: Cambridge University Press, 2019. 361p

No ano 2000, o Prêmio Nobel de Química Paul Crutzen e o liminologista Eugene Stoermer publicaram na Newsletter do International Geosphere-Biosphere Programme (IGBP) a hipótese na qual a atual Época geológica do planeta Terra, o Holoceno, havia se encerrado e em seu lugar se iniciara o que viria a ser reconhecido como o “Antropoceno” (Crutzen; Stoermer, 2000). Dessa forma, conceituaram a nova unidade cronoestatigráfica como resultado direto das mudanças ambientais globais proporcionadas pelas ações da humanidade a partir da Revolução Industrial, iniciada no século XVIII com o advento da máquina a vapor de James Watt. Logo, teve início a formalização que a humanidade teria se convertido em uma força geológica poderosa e capaz de alterar irreversivelmente o futuro do planeta.

Mesmo que o Antropoceno apresente certo caráter polêmico e não seja ainda um consenso absoluto nas geociências, nem tampouco nas ciências humanas, devido a grande repercussão na comunidade científica internacional e a um aumento exponencial do interesse na discussão sobre a validade ontológica e epistemológica (Crutzen, 2002), a Subcomissão de Estratigrafia do Quaternário (órgão da União Internacional de Ciências Geológicas - IUGS) considerou que o conceito possuía “mérito estratigráfico” o suficiente para a sua formalização e criou, em 2009, o Grupo de Trabalho do Antropoceno (GTA), cuja finalidade é avaliar se o atual cenário de exploração científica poderia se constituir no reconhecimento de um novo paradigma, e se esta Época poderia formalmente fazer parte da Escala de Tempo Geológica internacional (Silva; Arbilla, 2018; Silva et al., 2020).

Como pode ser observada na Figura 1, após a obtenção de um consenso de, no mínimo, 60% dos membros do GTA a proposta do Antropoceno deverá ser posta à aprovação da Subcomissão de Estratigrafia do Quaternário. Caso aceite os argumentos científicos apresentados, essa subcomissão fará a recomendação à Comissão de Estratigrafia para que, caso também aprove o conjunto de evidências e argumentos científicos apresentados nas etapas anteriores, consolide a proposta para a aprovação pelo Comitê Executivo da IUGS. Esse Comitê será o responsável por atualizar a Escala Geológica de Tempo, constando o Antropoceno como a Época mais recente na história da Terra. Era previsto, inicialmente, que a Subcomissão de Estratigrafia do Quaternário apresentaria a sua decisão durante ao 36ª Congresso Geológico Mundial que seria realizado em março de 2020. Infelizmente, em razão da pandemia do Covid-19, esse congresso teve que ser adiado para novembro de 2020, fazendo que todo o processo de ratificação do reconhecimento formal do Antropoceno como Época geológica continue em andamento (Figura 1).

Figura 1
Processo de avaliação formal para o reconhecimento oficial da proposta do Antropoceno como Época geológica.

O conjunto de dados obtidos e hipóteses levantadas ao longo de uma década pelo GTA têm sido apresentado de maneira crítica e coerente em uma grande variedade de livros e artigos científicos internacionais, assim como foram expostos no 35o Congresso Geológico Internacional, em 2016 (Silva et al., 2018), sendo posteriormente compilados e sumarizados no livro The Anthropocene as a Geological Time Unit: A Guide to the Scientific Evidence and Current Debate, editdo pelos pesquisadores Jan Zalsiewicz, Colin Waters, Mark Williams e Colin Summerhayes (Alasiewicz et al., 2019).

O livro se divide em sete capítulos e conta com a contribuição de 38 dos mais renomados cientistas internacionais atuantes na teoria do Antropoceno. Contudo, embora se observe um grande esforço em proporcionar uma leitura acessível, pelo caráter multidisciplinar e bastante específico do tema, pode se constituir num grande desafio a leitores não familiarizados com a linguagem científica em geral, e com conceitos geológicos em particular.

O primeiro capítulo, “História e desenvolvimento do Antropoceno como um conceito estratigráfico”, expõe como a hipótese do Antropoceno despertou profundo interesse da comunidade científica internacional, principalmente quando foi mais bem elaborada e divulgada na renomada revista Nature (Crutzen, 2002).

Os autores destacam que as ciências naturais foram aquelas que, informalmente, mais utilizaram o Antropoceno para abordar diferentes assuntos inerentes ao Sistema Terra tais como, mudanças climáticas globais, extinção das espécies, acidificação dos oceanos, alteração dos ciclos biogeoquímicos, acumulação de tecnofósseis entre outros (Silva; Arbilla, 2018). Além disso, enfatiza-se constantemente que o objetivo do livro é descrever o Antropoceno somente de um ponto de vista geológico, mas sem adotar um caráter excludente ou polarizante entre diferentes ramos da Ciência, como pode ser observado em “[...] esta definição não exclui outras diferentes interpretações do Antropoceno que apareceram nos anos recentes entre outras comunidades acadêmicas, particularmente nas ciências humanas” (p.1), mas sem tergiversar em seu rígido caráter científico ”[Antropoceno] não tem significância particular ou caráter simbólico [...] é um fenômeno geológico de um planeta profundamente impactado pelos seres humanos” (p.15).

No segundo capítulo, “Assinaturas estratigráficas do Antropoceno”, são apresentadas as evidências científicas que baseiam o Antropoceno, com especial ênfase no uso dos distintos marcadores estratigráficos estocados em diferentes compartimentos ambientais, que são elegíveis a serem reconhecidos como o registro geológico definitivo (golden spike) do início da ação antropogênica sincrônica e global do Antropoceno. As Terras Pretas de Índio (TPI) da Região Amazônica são destacadas como possíveis golden spikes, mesmo apresentando características pedológicas que as definam apenas como interessante marcador da presença antrópica da Bacía Amazônica (Soares et al., 2018).

O terceiro capítulo, intitulado “A assinatura bioestratigráfica do Antropoceno”, apresenta como os fósseis podem fornecer informações fundamentais nas alterações das composições das espécies durante as mudanças sofridas no Sistema Terra ao longo das Eras geológicas. As evidências apontam que a humanidade poderá, e com razão, ser responsabilizada pela atual sexta extinção em massa de diferentes espécies ao redor do globo.

Ao longo do quarto capítulo, “A tecnosfera e seu registro estratigráfico”, os autores apresentam a relação desse novo nicho de construção humana com o Antropoceno, com especial ênfase nos artefatos que podem servir de registros geocronológicos das atividades antrópicas no Sistema Terra. Contudo, ao considerarem os diferentes candidatos à tecnofósseis, os autores se limitaram, injustificadamente, a descrever quase que exclusivamente os plásticos, pois “[Plásticos] providenciam um registro físico distintivo da evolução da tecnosfera durante o século XX e início do século XXI” (p.155). Embora o plástico possua uma indiscutível importância e seja emblemático como potencial tecnofóssil, não se deveria omitir ou diminuir a importância do concreto, do alumínio elementar ou dos materiais eletroeletrônicos que apresentam a mesma tendência de produção massiva a partir da década de 1950, em um período histórico, informalmente, reconhecido como “A Grande Aceleração” (Silva et al., 2020).

O quinto capítulo, “Quimioestratigrafia do Antropoceno”, elucida como a combinação da geoquímica com a estratigrafia pode ser usada para avaliar a variação das substâncias químicas através dos tempos, assim como “[...] definir padrões de alteração da composição química ao longo do tempo que podem fornecer marcadores para o Antropoceno como nova Época geológica” (p.158). Todavia, ao contrário do capítulo anterior, os autores se preocuparam em expor adequadamente os diferentes possíveis marcadores do início do Antropoceno e a tendência sugerida, timidamente, é que seja escolhido futuramente o fallout dos radionuclídeos gerados pelas detonações atmosféricas das armas nucleares, no período da guerra fria, como o marcador mais preciso dessa nova Época geológica.

Embora tenha sido propositalmente omitido pelos autores, caso realmente os radionuclídeos espalhados ao redor do planeta pelas explosões nucleares atmosféricas sejam futuramente escolhidos como definitivos Golden Spikes, isso poderá acarretar em severas e significativas implicações aos estudos das ciências humanas e sociais sobre o tema, que teriam que passar a considerar, também, a contribuição do Socialismo (socialismo real, socialismo com características chinesas etc.), além do sistema capitalista para o surgimento da Época do Antropoceno no Sistema Terra ao longo do século XX.

De forma correta, é constantemente enfatizado na obra que o Antropoceno não deve ser simplesmente confundido ou ter seu estatuto científico reduzido ao mero aumento das concentrações dos gases de efeito estufa (GEE), de origem antrópica, e que estão remodelando e afetando o atual estado de equilíbrio termodinâmico do planeta. Contudo, no sexto capítulo, “Mudanças climáticas e o Antropoceno”, os autores elucidam a questão das mudanças climáticas globais com um enfoque paleoclimático, descrevendo o estado da arte dos mecanismos e processos biogeoquímicos naturais, desde o início da formação da atmosfera primitiva do planeta até a projeção de cenários futuros com seus respectivos impactos ambientais negativos ao equilíbrio térmico do Sistema Terra (derretimento de geleiras, aumento do nível do mar, acidificação dos oceanos etc.). Surpreendentemente, os autores, ao abordarem esse capítulo, não levaram em consideração que as mudanças climáticas globais constituem um dos principais Limites Planetários (espaço operacional seguro) para o desenvolvimento da Humanidade com respeito ao funcionamento do Sistema Terra (Silva; Arbilla, 2018).

Finalmente, o capítulo “O limite estratigráfico do Antropoceno” serve de epílogo, sumariza e critica as diversas propostas de origem sugeridas pela comunidade científica internacional: “PaleoAntropoceno”, “Antropoceno precoce”, hipótese “Orbis Spike”, “Revolução Industrial”, “Grande Aceleração” entre outras. Além disso, os autores reforçam que, independentemente da hipótese a ser reconhecida, o GTA trabalha somente com o “[...] ‘Antropoceno geológico’ essencialmente como originalmente pretendido, e não a outras interpretações” (p.286).

Em 2019, foi divulgado que 88% dos membros do GTA ratificou a proposta que o Antropoceno fosse formalmente reconhecido como uma nova unidade cronoestatigráfica com início a partir da década de 1950, cabendo à Subcomissão de Estratigrafia do Quaternário decidir se apresentaria essa proposta à União Internacional de Ciências Geológicas no 36o Congresso Geológico Internacional, a ser realizado em 2020, na cidade de Nova Délhi - Índia (Silva et al., 2020), como dito anteriormente. Contudo, devido à grave pandemia de Covid-19, até fevereiro de 2020 nem a Comissão de Estratigrafia, nem o Comitê Executivo da IUGS iniciaram as suas respectivas etapas de análise para a oficialização do Antropoceno como Época geológica. Logo, esse livro que representa o esforço de mais de dez anos de coleta de dados e evidências científicas deveria possuir um caráter mais conclusivo de como e quando se iniciou o Antropoceno, e não ser uma mera tentativa de resposta àqueles que criticam, acertadamente, que o GTA não dispunha de um corpus teórico robusto e baseado suficientemente no peso das evidências de forma que atenda ao rigor do método científico.

O livro The Anthropocene as a Geological Time Unit: A Guide to the Scientific Evidence and Current Debate representa uma contribuição imprescindível para a compreensão científica da evolução epistemológica sistemática da teoria relativa ao Antropoceno e, como dito antes, embora possa se constituir como desafiador ao público leigo torna-se primordial àqueles que queiram estar familiarizados com os debates mais recentes a respeito da “Época da Humanidade”.

Referências

  • CRUTZEN, P. J. Geology of mankind. Nature, v.415, n.3, p.23, 2002.
  • CRUTZEN, P. J.; STOERMER, E. F. The Anthropocene. IGBP Global Change Newsletter, n.41, p.17-18, 2000.
  • SILVA, C. M.; ARBILLA, G. Antropoceno: os desafios de um novo mundo. Revista Virtual de Química, v.10, n.6, p.1619-47, 2018.
  • SILVA, C. et al. A nova Idade Meghalayan: o que isso significa para a Época do Antropoceno? Revista Virtual de Química, v.10, n.6, p.1648-58, 2018.
  • SILVA, C. M. et al.. Radionuclídeos como marcadores de um novo tempo: o Antropoceno. Química Nova, v.43, n.4, p.506-14, 2020.
  • SOARES, R. et al. O Papel das Terras Pretas de Índio no Antropoceno. Revista Virtual de Química, v.10, n.6, p.1659-92, 2018.
  • ZALASIEWICZ, J. et al. (Ed.) The Anthropocene as a Geological Time Unit: A Guide to the Scientific Evidence and Current Debate. Cambridge: Cambridge University Press. 2019. 361p.
  • Revista Estudos Avançados

quarta-feira, 3 de maio de 2017

História, ciência e linguagem: o dilema relativismo-realismo



História, ciência e linguagem: a agência material e o impasse realismo versus relativismo


History, science, and language: material agency and the realism versus relativism impasse


Fernanda Schiavo Nogueira
Doutoranda, Universidade Federal de Minas Gerais. fernandaschiavonogueira@gmail.com


MAIA, Carlos Alvarez. História, ciência e linguagem: o dilema relativismo-realismo. Rio de Janeiro: Mauad X, 2015. 184p.


No mais recente livro do historiador da ciência Carlos Alvarez Maia, História, ciência e linguagem, publicado em 2015, pela editora Mauad X, podemos acompanhar como o autor, insatisfeito com as (pseudo)soluções dadas pelo realismo/relativismo, procura romper com a antiga polarização quando investiga a produção do conhecimento. Identificamos, como objetivo central da obra, a preocupação em compatibilizar a utilidade explicativa de cada uma das intepretações, antes incompatíveis, em uma mesma abordagem: o “neorrealismo”, denominação dada para abordar o principal objeto de estudo das ciências, a noção de realidade. Para tanto, o autor redefine a atuação de eixos estruturadores do conhecimento, os três componentes com os quais escolheu intitular seu livro, ou seja, a história, a ciência e a linguagem, utilizando o conceito de agência material.

Chama atenção o fato de a obra avançar sobre uma tradicional lacuna constatada na produção historiográfica, seja nacional ou internacional: a ausência de maiores tentativas de analisar como história, ciência e linguagem estão intimamente relacionadas e operam conjuntamente na produção do conhecimento. Faltam investigações que evidenciem as articulações que ocorrem entre os três elementos: a maioria dos estudos ora privilegia apenas dois componentes, ora enfatiza demasiadamente a importância de um. Para dar novo enquadramento à questão ainda não interpretada satisfatoriamente, Maia adota a perspectiva teórico-pragmática, estruturando as interpretações feitas sobre a tríade em torno do conceito de agência material. Assim, o autor rompe com concepções idealistas que ainda fomentam a sobrevivência de mitos capazes de obscurecer nosso entendimento, como a mitologia positivista do realismo.

No livro, percorremos o trabalho minucioso do autor para caracterizar as repercussões desencadeadas pela desintegração do grande centro irradiador de certezas absolutas: a mitologia positivista do realismo. Compreendemos o processo pelo qual houve a dissolução do mito do objetivismo que pressupunha características imanentes do objeto, uma natureza inerente aos fenômenos que possibilitaria a descoberta das leis de funcionamento do mundo. A realidade não constitui mais uma essência autoevidente, dada por si, cuja existência independe do poder de criação humana. O conhecimento, acusado de não proporcionar a reprodução idêntica dos fenômenos, fica desacreditado na sua capacidade de desempenhar a finalidade que originalmente ocupava: duplicar a realidade.

Desde 1960, as mudanças intelectuais emergentes favoreceram o surgimento de movimentos reconhecidos como difusores do relativismo: o Programa Forte e o Linguistic Turn. Ambos não idealizam a realidade como manifestação objetiva, em que os fenômenos se apresentam em estado de natureza, independentes das definições criadas para os tornar compreendidos. Os eventos naturais e sociais ou o passado, corporificado nos documentos, são modelados pelo discurso, pela coerência interna do texto elaborado por cientistas ou historiadores para o convencimento dos seus pares e de seus leitores em potencial. Todavia, a valorização da linguagem foi tão superestimada pelos movimentos que acarretou a desconstrução do principal diferencial das formas de conhecimento, com pretensões realistas: a necessidade de o discurso estar ancorado no mundo supostamente real. Os atores humanos são projetados como os únicos responsáveis por determinar o que ocorre no mundo, independente do aval dos fenômenos. A realidade foi transformada em mero coadjuvante silencioso – invisível.

Os pontos de vista apresentados por Maia nos possibilitam articular instrumentos mais eficazes para superar a divisão realismo/relativismo, ao defender a criação de uma terceira via, isenta dos problemas corriqueiros das explicações polarizadas. As interpretações dadas pelo autor abrem nossos horizontes para novas possibilidades de compreensão dos principais pilares da produção de conhecimento, história, ciência e linguagem, articulados sobre o conceito de agência material.

A agência material ocorre quando os indivíduos aprendem, em sociedade, a distinguir quais referenciais disponibilizados pela linguagem poderão dar significação ao mundo onde vivem para conseguir interagir entre si e com os fenômenos que os rodeiam – o sujeito produz seus conhecimentos reagindo, respondendo e contrapondo-se ao meio natural ou social que o cerca. As agências materiais, contudo, não constituem meramente “interações”, mas “intra-ações” estabelecidas entre homem e mundo. As partes envolvidas, quando interagem, são, simultaneamente, constituídas e transformadas em novos sujeitos e objetos.

O conceito de agência material nos permite entender a ciência como um conjunto de atividades capaz de remeter à categoria do “trabalho”, procedimento, por excelência, do qual decorre a transformação da realidade. A ciência equivale a muito mais do que simplesmente um “saber”, uma representação abstrata de teorias sobre o mundo: ela corresponde a um “fazer”, desenvolvido para intervir, prever e controlar os fenômenos. A produção do conhecimento não estaria limitada, portanto, ao que compreendemos por “social”, as decisões tomadas pelos agentes humanos, que arbitrariam, pelo uso da linguagem, como deveriam ser os comportamentos dos fenômenos.

Constatamos a necessidade de substituir a ideia de “social” pela de “pós-social”, apta a dissolver as barreiras entre duas unidades consideradas autônomas – a sociedade e a natureza – promovendo, sua integração em uma socionatureza. A socionatureza consiste em caracterizar o jogo societário como aquele que abrange as relações dos indivíduos entre si e com o meio em que estão inseridos, ou seja, os elementos sociais e naturais são tratados de maneira inclusiva por Maia (diferente do que ocorre com o que convencionalmente pensamos como “social”).

Na obra, podemos avaliar a importância dada à participação da linguagem para toda e qualquer agência material ser efetivada. O autor chama atenção para que não reconheçamos a linguagem como uma correia de transmissão neutra, utilizada para comunicar as ideias criadas mentalmente sobre os fenômenos, sob o comando da razão. Ela constitui uma ação concreta na realidade, com a qual os falantes traduzem as significações apropriadas do mundo para produzir um acervo de referenciais capaz de orientar a sua atuação no próprio mundo. Os fenômenos são visualizados apenas se forem significativos, caso apresentem, antecipadamente, ressonância na linguagem praticada socialmente – o objeto, desde a primeira observação, surge inscrito no universo das classificações definidas pelas palavras. As palavras e os fenômenos não pertencem a duas ordens separadas, em que uma seria epistemologicamente prévia à outra e possuiria a capacidade de determinar o que aparece depois: ambos são formulados conjuntamente.

As reflexões desenvolvidas no livro contribuem para evidenciar a historicidade da produção do conhecimento, pois desconstroem a crença equivocada em entidades ontológicas: nada aparece em seu estado de nudez, despido das vestimentas criadas pelas palavras para sua definição. A realidade não existe em si, porque artefato elaborado historicamente por indivíduos capacitados pelo aprendizado social, a transformar em linguagem as informações colhidas na observação do mundo. O indivíduo constrói o fenômeno a ser conhecido quando decifra textualmente as significações que os referenciais da linguagem praticada lhe possibilitam detectar no mundo, segundo a comunidade de profissionais ao qual pertence, a sociedade e a época em que vive. Consideramos que todo esse novo panorama descortinado no livro compõe o que Maia denominou neorrealismo – o realismo histórico.

No tratamento inovador dado pelo autor a três eixos centrais do conhecimento, história, ciência e linguagem, podemos identificar, portanto, a construção de padrões de objetividade capazes de proporcionar parâmetros mais eficientes para analisar a constituição do principal tema de investigação das ciências, a noção de realidade. Por isso, o livro merece constar entre as leituras obrigatórias de todos os investigadores conscientes da necessidade de enfrentar um dos maiores desafios da atualidade: retratar o caráter histórico dos conhecimentos produzidos nas ciências naturais e humanas.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Artigos Científicos: como redigir, publicar e avaliar




Cassia Maria Buchalla
Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP)


O livro Artigos Científicos: como redigir, publicar e avaliar, de autoria do Prof. Mauricio Gomes Pereira, foi lançado recentemente pela Editora Guanabara Koogan.

Com o objetivo de orientar os potenciais autores sobre como vencer as muitas barreiras na elaboração e publicação de artigos científicos, o livro aborda cada uma das etapas desse processo em 24 capítulos.

Os três primeiros capítulos tratam dos aspectos da preparação do trabalho. O primeiro capítulo, Pesquisa e Comunicação Cientifica, versa sobre a necessidade de divulgação dos resultados das pesquisas como forma de finalização da mesma. Aborda, de modo geral, a evolução da comunicação cientifica nas ciências da saúde, menciona os periódicos de acesso livre e a situação atual de elevada competição para publicar .

No segundo capítulo, Canais de Comunicação Cientifica, o autor descreve os tipos de periódicos, os tipos de artigos, as formas de publicação e as normas que as regem.

Do terceiro ao décimo quinto capítulo é apresentada cada parte da estrutura de um trabalho cientifico, começando pelo planejamento, abordando a estrutura, redação e revisão do texto, a introdução, o método, os resultados, a discussão, as referências bibliográficas, o título, a autoria, o resumo, as palavras-chave, a escolha do periódico e um capítulo com temas para a complementação do artigo (capítulo 15).

Somam-se a esse conjunto de capítulos, que orientam a elaboração de cada seção do artigo cientifico, outros três capítulos que exploram a Estatística (capítulo 18), a Preparação de Tabelas (capítulo 19) e a Preparação de Figuras (capítulo 20).

O leitor irá encontrar também capítulos sobre a Submissão do Artigo para a Publicação, sobre a Avaliação de artigo Cientifico e sobre Ética (capítulo 21).

Os três últimos capítulos do livro versam sobre temas auxiliares, enfocando a motivação para divulgar os resultados de uma pesquisa e os recursos para publicá-los. O capítulo 22 , Vale a pena publicar Artigo Científico?, lista os motivos pelos quais esta prática é cada vez mais importante e competitiva assim como os auxílios disponíveis para uma escrita de qualidade. O capitulo seguinte, Como ter Artigo aprovado para Publicação, aponta as particularidades dos textos recusados, como falta de relevância do tema, pouca originalidade, os erros mais comuns de redação, entre outros aspectos que devem ser evitados para que um trabalho seja aprovado para publicação.

O livro termina com Síntese das Sugestões sobre Redação Científica, onde são agregadas as informações que resumem os demais capítulos do livro.

Os capítulos são estruturados em itens, apresentados com texto curto e com um ou mais exemplos, quando pertinente. A estrutura do texto obedece a lógica de apresentação de cada tópico, do geral ao especifico, havendo dois itens comuns a todos os capítulos, o item Sugestões e outro com Comentário final.

Os temas são apresentados com uma linguagem clara e direta. Além disso, vários recursos utilizados pelo autor facilitam a leitura, como a inclusão de exemplos e o resumo do conteúdo de cada capítulo, apresentado em tabela, fazendo referência à seção onde cada tema aparece.

O leitor pode esperar instruções sobre cada etapa do processo de elaboração de um texto científico para publicação, com a exposição de cada detalhe envolvido e dicas sobre o que deve ser considerado para se obter um resultado apropriado.

Além disso, aspectos importantes relacionados ao encaminhamento e à publicação do artigo são abordados na obra. Entre esses, como preparar uma carta ao editor, como lidar com o processo de revisão, e como proceder para avaliar um artigo cientifico.

A inclusão de um capítulo sobre estatística, assim como sobre a preparação de tabelas e figuras reflete a abrangência da obra. Nota-se, em toda a obra, uma abordagem além do que seria esperado para os temas propostos.

O autor não se limita a identificar o conteúdo básico de cada item de um artigo cientifico e a explorar formas de preparar cada parte do trabalho, oferecendo ao leitor a chance de rever cada tópico da preparação do estudo. Por exemplo, o capítulo de Método aborda detalhes de cada um dos seus itens como tipos de estudo, características da amostra, classificação das variáveis, erros a serem evitados, entre outros. No capítulo Resultados, somado à seqüência de apresentação dos dados, o autor também descreve as formas estatísticas para apresentar o efeito encontrado no estudo.

No capítulo sobre Complementação do Artigo o leitor encontrará instruções sobre as revisões para o aprimoramento do artigo, os erros e os vícios de linguagem a serem evitados, normas para o uso de siglas e de citação de números no texto, tempos verbais a serem usados em cada parte do artigo, entre outros aspectos necessários a uma redação correta.

A abrangência do conteúdo torna inevitável algumas repetições, até porque alguns temas apresentados se sobrepõem.

Ainda que o foco seja a redação de artigo cientifico, é evidente a quantidade de informação teórica sobre pesquisa epidemiológica disponibilizada. O livro não se limita a propor normas de redação, como uma receita do que deve conter a introdução, a parte de métodos ou as demais partes do artigo, mas inclui um conteúdo teórico sobre temas relacionados a cada tópico. Desta forma, o livro pode ser útil para aqueles que querem um roteiro ou orientação para aprimorar seus manuscritos científicos e que têm dúvidas específicas, mas também para os iniciantes, que se beneficiarão ao ler um texto mais extenso, com um teor maior de informação sobre cada aspecto envolvido na produção cientifica.

O autor, Dr. Mauricio Gomes Pereira, é médico com especialização em pediatria e em saúde pública e professor titular da Universidade de Brasília. Tem vários livros publicados, entre eles Epidemiologia: teoria e prática, e vasta experiência na área de metodologia científica e de epidemiologia. O livro Artigos Científicos: como redigir, publicar e avaliar torna maior sua contribuição para o ensino e a pesquisa no Brasil.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Transgênicos: bases científicas de sua segurança


A segurança dos transgênicos

Transgênicos: bases científicas de sua segurança | Franco Maria Lajolo e Marília Regini Nutti | Edusp, 200 páginas.

MARCOS DE OLIVEIRA
 
As plantações de alimentos geneticamente modificados (AGM) aumentaram 87 vezes entre 1996 e 2010 e estão presentes em 29 países. No Brasil espera-se um aumento de 20% na safra de 2011/2012. Assim, poderíamos dizer que as culturas transgênicas são um sucesso entre os agricultores. Mas muitas pessoas ainda têm dúvidas ou mesmo rejeitam os alimentos transgênicos porque temem que eles possam ser danosos à saúde humana ou animal. Fazem isso com base em evidências ou faltam informações?

A possibilidade de elucidação do problema para os temerosos e também para quem quer conhecer melhor esse ramo das engenharias genética e de alimentos pode ser encontrada no livro Transgênicos: bases científicas de sua segurança, que tem como autores o professor Franco Maria Lajolo, do Departamento de Alimentos e Nutrição Experimental da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP), e da engenheira de alimentos Marília Regini Nutti, pesquisadora da Embrapa e especialista em segurança de AGM da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) e da Organização Mundial da Saúde (OMS). Eles fazem nessa 2ª edição atualizada (a primeira foi lançada em 2003) um levantamento de centenas de estudos, incluindo documentos de organismos mundiais, e descrevem a metodologia científica, baseada na análise de riscos, usada nos ensaios antes da aprovação dos alimentos transgênicos.

“Recentemente vários estudos têm sido realizados para avaliar a influência dos AGM na alimentação de animais durante várias gerações. Entretanto, em nenhum deles foram observados efeitos adversos.” Os autores mostram resultados como esse ao longo dos 10 capítulos que se iniciam com explicações, em forma didática e de fácil compreeensão, de como é a gênese dos organismos geneticamente modificados. Mostram também que dificilmente, com as metodologias aplicadas, um produto AGM possa apresentar riscos para a população. Muitos quadros explicativos, tabelas e infográficos ajudam a completar as informações e a elucidar o tema transgênicos. 
Revista FAPESP

Crônicas subversivas 
de um cientista


Memórias de um cientista subversivo

Crônicas subversivas 
de um cientista | Luiz Hildebrando 
Pereira da Silva
 | Editora Vieira & Lent, 477 páginas.

MARILUCE MOURA

 
Todas as agruras a que o processo político brasileiro submeteu ciência e cientistas no país, no período da ditadura inaugurada em 1964, ganham cor e vibração extraordinárias no recém-lançado Crônicas subversivas de um cientista, de Luiz Hildebrando Pereira da Silva. Mas, em paralelo, também ganham uma transcrição literária poderosa a avassaladora emoção e o prazer que podem irromper de uma descoberta científica a que se chega após longo tempo de buscas extenuantes, mesmo tediosas. E nesse exato instante fica muito longe a identidade de cientista no exílio para impor-se a do cientista apaixonado em qualquer latitude. “Tarde da noite, quando terminamos e incubamos tudo aquilo na estufa, estávamos esgotados. E, no entanto, bem gostaríamos de poder ficar lá, ao lado, esperando o resultado. Mas é contra as regras da ética. Os cientistas devem mostrar-se frios e indiferentes. Toda demonstração afetiva por seu trabalho ou por sua obra é malvista. Assim fomos dormir segundo as normas da profissão.” O que ele narra é o parto do gene CRO (Control of Regulator and Others). “No dia seguinte, cedinho, depois de uma noite mal dormida, chegamos ao laboratório. Diretamente à estufa. Tiramos as placas todas do interior e as depositamos sobre a bancada. É o grande momento. Um suor frio nos escorre das têmporas (…).” Nesse mesmo diapasão ele segue contando o nascimento, a comemoração com champanhe no Instituto Pausteur, em Paris, os comentários abobados de pais recentes, o registro do recém-nascido. (p. 241)

Algumas páginas antes, numa outra crônica, Hildebrando já se referira a esse filho dileto de seu trabalho científico que é dado à luz depois de ele e outros companheiros de jornada pingarem “milhares de gotas”, esfregarem “milhares de placas” e contarem “milhões de buraquinhos”. “Um dia… Uma nova bela colina se revelou a nossos olhos. A colina do gene CRO. A colina de Harvey Eisen, Pereira da Silva e François Jacob. Control of the Repressor and Others. Uma bela colina!” (p. 217)

Neste livro que inclui duas obras já publicadas, O fio da meada e Crônicas de nossa época, o talento narrativo do cientista, atuante aos 83 anos, se revela em toda a sua força também nos textos que trazem à cena retalhos preciosos da história do Brasil vista desde o campo da esquerda militante, e do Partido Comunista (PCB) em particular. Seja do exílio europeu, seja de dentro do navio Raul Soares, onde ele e tantos ficaram presos após o golpe de 1964, Hildebrando apresenta ao leitor personagens grandiosos e outros um tanto ridículos, cenas hilárias, tratadas com penetrante ironia, e outras dolorosas, perpassadas por infinita tristeza. É assim que ele conta, por exemplo, a última recepção a Roberto Morena, militante comunista em perpétua peregrinação. “Vejo sair do avião primeiro os turistas e os homens de negócios, depois Benedito Cerqueira, seu camarada na FSM, que o traz nas mãos. Ele me passa Morena e eu o tomo em meus braços com ternura. Ele não pesa muito. Apenas um quilinho. Um quilinho de cinzas.” (p. 282)

Chama atenção a capacidade de Hildebrando de fugir a toda tentação maniqueísta e, por isso, poder flagrar, de repente, no olhar de um político como o ex-governador paulista Adhemar de Barros, naturalmente um adversário, um lampejo de pura dignidade e determinação, e não se furtar a revelá-lo. E impõe-se por fim ao meu olhar o quanto é povoado quase que só por homens o universo por ele narrado. É um código masculino da amizade que apreendemos quando ele diz: “No momento da despedida, o fiscal de rendas me estendeu a mão, que apertei com cordialidade. Ao balançar a minha, com uma pressão em que eu reconhecia ternura de um novo companheiro, ele me disse: (…) se eu for preso outra vez não será mais por corrupção… Será por subversão!” 
Revista FAPESP

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Uma história da ciência: experiência, poder e paixão


Grandes questões

Livro conecta descobertas emblemáticas do passado aos movimentos da ciência da atualidade, mostrando como o conhecimento científico caminha de forma dinâmica e conectada e é fruto de um contexto histórico específico.

Por: Daniela Oliveira



Por trás das buscas do Grande Colisor de Hádrons, maior acelerador de partículas do mundo, estão conhecimentos filosóficos milenares, que vêm desde Demócrito, o risonho, autor da primeira teoria atômica e retratado pelo pintor suíço Petrini. (foto: Cern)


A avidez para entender o mundo tem resultado em incontáveis descobertas científicas. Esse ‘jogo’ dinâmico de perguntas e respostas envolve inúmeros fatores: determinação, curiosidade, criatividade, dinheiro, empreendedorismo e até mesmo sorte. No entanto, um deles acompanha todo o processo de construção do conhecimento: o contexto histórico.

Essa íntima relação entre ciência e as transformações históricas vividas pelas sociedades está retratada em Uma história da ciência: experiência, poder e paixão, de Michael Mosley e John Lynch, respectivamente produtor executivo dos programas de divulgação da ciência e diretor da área científica da BBC, a emissora britânica de rádio e TV.


Lançado este ano pela editora Zahar, o livro teve origem em série homônima produzida em 2010 pela emissora, com seis episódios sobre as principais teorias e pensadores relacionados ao cosmo, à matéria, à vida, à energia, ao corpo e à mente.

Dividido nas mesmas categorias, Uma história da ciênciaconecta descobertas emblemáticas do passado aos movimentos da ciência da atualidade. Os autores lembram, por exemplo, que o telescópio espacial Hubble, cujas imagens revolucionaram a visão que se tem hoje sobre o cosmo, só pode ser posto em órbita, em 1990, graças à aplicação prática dos conhecimentos gerados por Galileu Galilei sobre mecânica dos projéteis, por Johannes Kepler sobre o movimento planetário e por Isaac Newton sobre a gravidade.

O mesmo se aplica a um dos mais portentosos projetos científicos em andamento: o Grande Colisor de Hádrons (LHC, na sigla em inglês), maior acelerador de partículas do mundo. Por trás da tentativa de recriar as condições logo após o Big Bang estão conhecimentos filosóficos milenares, que vêm desde Demócrito, o risonho, nascido por volta de 460 a.C. e autor da primeira teoria atômica de que se tem notícia. Assim como descobrir as substâncias que originaram e que sustentam o mundo foi também uma obsessão para alquimistas chineses de mais de dois mil anos.

O interesse pela matéria gerou a descoberta dos elementos, das substâncias e de compostos químicos de todos os tipos e para os diferentes fins, bem como a síntese de novos materiais. Nomes como Antoine Lavoisier, a quem se atribui a descoberta do oxigênio, Ernest Rutherford e Niels Bohr, precursores no estudo do átomo, ficaram para a história do estudo da matéria. Mas ainda não sabemos de que é feito o mundo – e, como observam Mosley e Lynch, talvez nunca saibamos.


E quanto a nós?

Se o mundo onde vivemos gera tanta inquietude, o que dizer das reflexões a respeito de nossa própria vida? Questionamentos sobre quem somos e como chegamos aqui começaram a aparecer principalmente após a descoberta do Novo Mundo.

Tal necessidade de entender melhor a vida acabou por gerar tentativas de ordenar o mundo natural. O sistema de classificação das plantas proposto por Carl Linnaeus no século 18, empregado até hoje, é um exemplo. Contra a ideia da intervenção de um criador divino para cada ser vivo do planeta, foi preciso formular teorias da evolução das espécies.

Já o interesse pela anatomia e pelo funcionamento do corpo humano, aliado ao advento do microscópio, permitiu chegarmos às células e à estrutura da molécula, o que gerou respostas e novas questões sobre o segredo da vida.
E não só o corpo, mas também a mente despertou o interesse da ciência desde a antiguidade, na tentativa de se compreender a identidade e as motivações humanas

E não só o corpo, mas também a mente despertou o interesse da ciência desde a antiguidade, na tentativa de se compreender a identidade e as motivações humanas. No entanto, essa busca só se concentrou no cérebro muito recentemente, com os avanços obtidos após a descoberta do neurônio e da complexa rede de sinais que compõem o sistema nervoso.

Como podemos ver, o caminho trilhado pelos grandes cientistas para chegar a respostas para as grandes perguntas da humanidade é longo e complexo, sujeito à ação de diferentes variáveis. Mas, como ressaltam Mosley e Lynch, cada explicação oferecida pela ciência – seja ao olharmos para o mundo lá fora ou para dentro de nós mesmos – é, em larga medida, produto de seu tempo.


Uma história da ciência: experiência, poder e paixão 
Michael Mosley e John Lynch 
Rio de Janeiro, 2011, Editora Zahar 
288 páginas – R$ 49,90


Daniela Oliveira
Especial para a CH On-line/ RJ

domingo, 13 de maio de 2012

Leonardo da Vinci e seu supercérebro

Leonardo da Vinci e seu Supercérebro

COX, Michael. Leonardo da Vinci e seu supercérebro. Trad. Eduardo Brandão. S.P.: Cia. das Letras, 2004, 176 p.
DE PAULA, Enio Freire¹

Em meio ao grande alvoroço editorial causado pela obra “O código Da Vinci” (Editora Sextante, 2004) best-seller do autor norte-americano Dan Brown e seu homônimo cinematográfico, reacendem os fatos relativos � vida e obra de Leonardo da Vinci (1452 - 1519). Misticismos � parte, é possível ao leitor curioso inteirar-se sobre aspectos deste personagem. Se dentre o público leitor encontram-se professores, o assunto até então abordado sob o enfoque místico-religioso ganha status de ciência, mais especificamente de história da ciência; pois é tarefa docente fornecer não apenas seus conteúdos pedagógicos de forma pronta e acabada, mas sim apresentar também aspectos do ser humano responsável pela criação, desenvolvimento e divulgação da determinada área científica.

Um exemplo desse ideal é o livro Leonardo da Vinci e seu supercérebro, de autoria de Michael Cox lançado no Brasil em 2004 (Companhia das letras, 176 pág., tradução de Eduardo Brandão, ilustrações de Clive Goddard) é o quarto exemplar integrante da coleção Mortos de Fama, responsável por apresentar biografias de personagens ilustres da História (Cleópatra, Al Capone e Elvis Presley) e da Ciência (Isaac Newton, Albert Einstein e agora Leonardo da Vinci) ao dito público infanto-juvenil, de maneira simples, bem humorada e recheada de belas ilustrações. O livro, organizado em 14 pequenos capítulos, excluídos dessa contagem a introdução e o epílogo, relata a vida de Leonardo da Vinci e suas principais obras, bem como discute os fatores históricos envolvidos no período em que esta personagem viveu.

Leonardo nasceu na aldeia de Vinci, na atual Itália em 15 de abril de 1452, e devido a separação dos pais pouco depois de seu nascimento, o pequeno Leonardo ficou com os avós e o tio paterno, Francesco, no vilarejo de Vinci. Durante a infância, relata Michael Cox, embora não se saiba muito sobre esse período de sua vida, Leonardo era um garoto extremamente curioso e desenhava tudo o que via. Acredita-se também que ele não freqüentou a escola, mas sim teve como orientador o padre do vilarejo, que lhe ensinou “coisas fundamentais”. Michael Cox as descreve como os “Três As”: aritmética, a ler, a escrever.

Na adolescência Leonardo e seu pai mudam para Florença. Neste momento do livro (Capítulo “A Renascença é um Barato”), o autor faz um corte histórico e retrata os aspectos da Florença do século XV junto as principais características do período Renascentista, de modo humorado e muito bem ilustrado.

Nos três capítulos seguintes (“Garanta o seu futuro no Estúdio Verrocchio”, “Um é pouco, dois é bom, três é demais!” e “Pintando o Sete”) é retratado o período em que Leonardo freqüentou o ateliê de Andréa Del Verrocchio em Florença. Naquela época, começava-se como aprendiz nesses estúdios de arte. O leitor é convidado a vivenciar o dia-a-dia de Leonardo neste ambiente: o autor descreve os pormenores dessas atividades como o preparo dos materiais, a moagem dos pigmentos (os insetos são a fonte das cores!), confecção de pincéis (feitos com pêlos de porco) e as diferenças entre a pintura a tempera � ovo e a pintura � óleo.

Um capítulo inteiro é dedicado � discussão histórica do surgimento da perspectiva e a contribuição que Leonardo criará: o perspectógrafo, cuja função segundo o autor, era destinado a facilitar o desenho e a pintura e a garantir máxima precisão dos detalhes e da perspectiva. Leonardo ajudou seu mestre, Verrocchio, na pintura de um anjo em um de seus quadros; partindo daí, o autor trata as diversas técnicas de pintura renascentista: sfumato, chiaroscuro e afresco. Depois desse episódio, Leonardo, então com 23 anos inicia sua carreira de mestre-pintor na Companhia de São Lucas, uma das associações florentinas de artistas. No capítulo “Estados Desunidos da Itália”, Michael Cox discute a situação política da atual Itália, no século XV: um território dividido em cerca de 14 cidades-Estado, cada qual controlada por uma família (Médici, Sforza, entre outros), que vez ou outra entravam em guerra.

Embora até aqui não tenha sido mencionado, o autor utiliza-se de outro artífice, além das ilustrações, com o intuito de aproximar leitor e personagens: muitos fatos são narrados via um “jornal de época” como “A Folha de Florença” e o “Tribuna Milanesa”, além das anotações no “Caderno Perdido do Léo”. Detalhe importante: Leonardo escreveu mais de 13 mil páginas sobre os mais variados assuntos como música, anatomia e mecânica, a maioria deles de uma forma curiosa: Leonardo escrevia de trás para frente da direita para a esquerda! Em 1482, então com 30 anos de idade, Leonardo muda-se de Florença para Milão, e consegue um cargo no palácio de Ludovico Sforza (1451 - 1508). Leonardo exerce pelo menos três cargos, segundo o autor: 1º) pintor da corte; 2º) Mestre das festividades da corte e 3º) Engenheiro-geral e Mestre-de-obras. Foi neste período, em Milão, que Leonardo da Vinci envolveu-se num grande projeto: a construção de uma estátua de bronze de um gigantesco cavalo que, infelizmente não chegou a ser realizada por ele (apenas 500 anos depois...); e pintou a “Última Ceia”, localizada no refeitório (melhor lugar para retratar uma ceia!) do mosteiro de Santa Marie delle Grazie, também localizado em Milão. Nos momentos subseqüentes são apresentados ao leitor as principais datas de tentativa e/ou realização das restaurações na obra, bem como os infortúnios ocorridos com a mesma. Em 1500, sai de Milão e daí em diante, e praticamente pelo resto da vida, Leonardo perambula por diversas cidades da Europa, sem destino certo.

Os capítulos finais abordam as invenções bélicas e detalhes da obra Mona Lisa, mundialmente conhecida e também de sua autoria, além das discussões entre ele e o então jovem Michelangelo Buonarrotti (1475 – 1564). Há um capítulo exclusivo � um dos fascínios de Leonardo: as máquinas voadoras. Leonardo morreu em 2 de maio de 1519, aos 67 anos. Seu corpo foi enterrado na França e devido a restaurações posteriores não se sabe ao certo se os ossos ali enterrados são, realmente, de Leonardo. Devido a esta dúvida, está gravado o seguinte em sua lápide:

“AQUI JAZ O QUE SE ACREDITA SEREM OS RESTOS MORTAIS DE LEONARDO DA VINCI”. A leitura deste livro, inicialmente de caráter despreocupado e juvenil, demonstra que entre a leitura fácil, agradável e indiscutivelmente bem humorada é possível proporcionar ao leitor, seja ele de qualquer idade, fatos interessantes e cientificamente corretos, mediante uma abordagem diferenciada. O conhecimento científico não é exclusividade dos poucos escolhidos do Olimpo: são de extrema importância sugerir tais leituras a todos, jovens, adultos e crianças. Boa leitura!

¹Discente do 4º ano do curso de Licenciatura em Matemática da FCT-UNESP campus de Presidente Prudente e atua junto ao L.E.M - Laboratório de Ensino de Matemática, mantido pela mesma isntituição.


Revista Saber Acadêmico

quarta-feira, 28 de março de 2012

O valor da saúde: história da Organização Pan-Americana da Saúde

Eduardo Silveira Netto Nunes
Bolsista Fapesp. Doutorando em História Social — FFLCH/Universidade de São Paulo (USP) — Largo Padre Péricles, 74, ap.61 — Barra Funda. 01156-040 São Paulo — SP — Brasil. edunettonunes@yahoo.com.br

Marcos Cueto. O valor da saúde: história da Organização Pan-Americana da Saúde
Rio de Janeiro: Ed. Fiocruz, 2007. 241p.

Na história das políticas de saúde pública no continente americano a presença da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) é destacável, e na busca de delinear os caminhos da OPAS ao longo do século XX, Marcos Cueto desenvolveu seu estudo O valor da saúde.

Cueto é especialista em história da saúde pública no continente e, especialmente, no Peru, tendo desenvolvido importantes pesquisas e publicações enfocando essa temática e também a história da ciência naquele país. Sua circulação no Brasil é um tanto restrita, e este livro supre, em parte, tal lacuna.

Com pesquisa exaustiva em instituições de saúde, bibliotecas e arquivos, nacionais e de organismos internacionais — Organização dos Estados Americanos (OEA), OPAS, Organização Mundial da Saúde (OMS) —, e em periódicos da América Latina e dos Estados Unidos, o livro oferece justa visibilidade à trajetória histórica da instituição de saúde internacional mais antiga, e ainda ativa, a OPAS, criada em 1902.

A estratégia do autor foi a de acompanhar o desenvolvimento da instituição, numa linha fundamentada na sucessão das diferentes atuações e coordenações conduzidas por seus diretores gerais, cujos mandatos chegavam, em alguns casos, a dez anos.

O texto divide-se em seis capítulos: As origens da saúde internacional nas Américas; O nascimento de uma nova organização; A consolidação de uma identidade; Por um continente livre de doenças; Saúde, desenvolvimento e participação comunitária; Vigência e renovação.

As conjunturas e o desenvolvimento da saúde pública na região perpassam a periodização realizada pelo autor, interligados de modo muito interessante com as seguintes variáveis: o protagonismo de personagens importantes na saúde publica da região; as questões envolvendo os interesses particulares dos países-membros da OPAS (circulação de mercadorias e pessoas, prevenção de epidemias nos portos); os temas candentes da geopolítica de cada época (fim das duas guerras mundiais, guerra fria) conectados a emergência de sentimentos e estratégias de solidariedade continental latino-americana, num primeiro momento, e pan-americanismo da doutrina Monroe, num segundo período, expressando o interesse dos Estados Unidos nas ações da OPAS; o desenvolvimento do conhecimento sanitário, médico e higiênico, como também da engenharia, e as extensas fronteiras de ação social que as descobertas científicas como a microbiologia, a produção de novos fármacos, novas vacinas, a compreensão das dinâmicas das epidemias seus vetores, transmissores, e as técnicas de combate e prevenção, trouxeram; a criação de condições para o crescimento populacional, a urbanização (década de 1920) e a explosão urbana e demográfica (décadas de 1950 e 1960), as políticas de acomodação social, a reconfiguração das relações no campo e entre este e a cidade.

A forma habilidosa como o autor transita por diferentes fatores envolvidos na trajetória da OPAS deixa evidenciada a complexidade histórica dentro da qual a construção dessa instituição foi sendo forjada, bem como a maneira tortuosa, não linear, pela qual a saúde pública foi ganhando relevância dentro das políticas de cada um dos países, no plano interno-nacional e no internacional.

Resumidamente, a OPAS derivou da Repartição Sanitária Internacional, que fora fundada em 1902. Em 1923 sofreu alteração no nome para Repartição Sanitária Pan-Americana (RSP ou Oficina Sanitária Panamericana). A mudança de seu nome para OPAS aconteceu em 1943, como resolução da XII Conferência Sanitária Pan-Americana (Caracas, Venezuela). Apesar da nova nomenclatura, a entidade manteve o seu órgão executivo nomeado como RSP e a antiga estrutura decisória — colegiado com um membro de cada país.

A RSP interagiu através de acordos e convênios firmados em 1923 com a União Pan-americana (de 1890), assumindo a condução das Reuniões Interamericanas dos Ministros da Saúde. Em 1924 foi acolhida pelo Código Sanitário Pan-Americano do mesmo ano e reconhecida como "agência sanitária coordenadora central das várias repúblicas-membros da União Pan-Americana" e "responsável por promover a organização e a administração da saúde pública e divulgar informações sobre progressos da medicina preventiva".

Com a fundação da OEA, em 1948, o papel da OPAS foi revisto. A OPAS era uma entidade 'autônoma' dentro das relações intergovernamentais e não estava submetida à nova estrutura da OEA. A relação entre ambas era diplomática. Foram necessários acordos entre a OPAS e a OMS, para que uma possível integração, garantindo certa autonomia à OPAS em matéria de saúde pública, fosse concretizada em 1950, quando esta passou a ser uma "Organização Especializada Interamericana" dentro da OEA, seu status atual.

A OPAS também foi reconhecida pela OMS (criada em 1948) como organismo regional dotado de autonomia diante dos organismos da Organização das Nações Unidas, dos quais a OMS fazia parte, através de um acordo de 1949, pelo qual passava a ser o escritório regional para as Américas da OMS.

A consolidação da OPAS foi paulatina, com dificuldades e prioridades diferentes ao longo do tempo. Suas ações também sofreram mutações. A adesão dos países como membros aconteceu plenamente entre 1940 e 1950, quando a organização passou a englobar as Américas e o Caribe.

A capacidade de financiamento limitava as ambições da instituição. Com o tempo ampliou-se a capacidade financeira. Os orçamentos eram estes: entre 1910 e 1930, 50 mil dólares; nos anos 40, 115 mil a 280 mil dólares por ano; em 1947, 1,3 milhão de dólares; no fim dos anos 50, 2,5 milhões; entre 1961 e 1964, 16 milhões de dólares por ano.

Constituiu-se assim uma 'burocracia' e uma área técnica vinculada à instituição, como um corpo permanente e estável, chegando ao auge de 750 funcionários em 1959.

A ampliação da presença da OPAS nos países se deu com a divisão das Américas em seis zonas, com um escritório regional em cada. Posteriormente, cada país passou a comportar um escritório local.

As finanças provinham de fontes regulares (pela contribuição dos membros); de projetos financiados e bolsas de estudos da Fundação Rockefeller (1920-1950), Fundação Kellogg (após os anos 40), OMS, Unicef (Fundo da ONU para as Crianças), ONU e FAO (organização da ONU para Alimentação e Agricultura); de convênios e acordos técnicos com países da região e, especialmente, com os Estados Unidos, em auxílio intensificado na guerra fria (1941-1951, atingindo cerca de 30 milhões de dólares).

As atividades e deliberações durante um largo período estiveram circunscritas a estas instâncias: Conferências Sanitárias Pan-Americanas, Conselho Diretor e Comitê Executivo. Como órgão executivo, a Repartição Sanitária Pan-Americana.

A ação da OPAS deu-se, inicialmente, por publicações como o Boletin de la Oficina Sanitária Panamericana, e pela participação nas Conferências Sanitárias, fomentando debates sobre saúde pública. O combate às epidemias provenientes de portos propiciou uma 'guerra às epidemias' com a estratégia de combater vetores e promover vacinação/imunização e educação.

A redução da mortalidade infantil e materna era preocupação constante. Também recebeu atenção a necessária indução à formação de escolas de enfermeiras e de pessoas capacitadas para o trabalho na área da saúde, higiene e sanitarismo.

A promoção de estruturas de fomento à saúde pública nos países (Ministérios ou Secretarias de Saúde, Centros de Higiene) atravessou o percurso da OPAS, que procurou induzir gestores públicos a adotarem medidas de saúde coletiva como forma de a sociedade auferir benefícios como mais trabalhadores saudáveis e produtivos, e crianças menos enfermas.

A emergência da noção de saúde como um valor vinculou-se à noção de bem-estar social, pela qual a prevenção, a extensão de serviços públicos e a implementação da atenção primária à saúde englobariam o paradoxo que redunda na gênese da concepção de saúde como um direito individual e coletivo dos cidadãos. Ao mesmo tempo, a visão estratégica dos governos, no período da guerra fria, busca promover o bem-estar com a finalidade de limitar a possibilidade do surgimento de tensões e conflitos sociais entre capital e trabalho.

A OPAS exerceu uma função estratégica na região após a criação da Aliança para o Progresso, em 1961, pela OEA, para a qual o bem-estar social era critério para a 'paz' na região. Essa diplomacia sanitária foi perpassada pelos interesses dos governos, em especial dos Estados Unidos. Entretanto, a OPAS não foi uma agência submetida a um único governo. Um exemplo: à época da expulsão de Cuba da OEA, a OPAS não anuiu com a orientação dessa organização e sustentou aquele país como Estado-membro de sua estrutura.

A presença e a consolidação da OPAS no continente americano e sua participação direta e indireta na promoção e constituição da saúde pública dos países da região fazem deste livro uma importante referência. A OPAS desenvolveu esforços para se formar um ambiente regional de cooperação, de planejamento, e de ações dirigidas a políticas e intervenções de saúde, daí a importância em se tentar compreender as especificidades americanas nessa área, cuja historicidade e temporalidade são peculiares.

Antes de encerrar seu potencial de reflexões sobre a história da OPAS, o livro O valor da saúde aponta um horizonte de novos estudos relacionados a organismos internacionais, políticas de saúde pública, dinâmicas e tensões que atravessam as entidades inter-governamentais, redes intelectuais, profissionais e científicas. Aponta, também, a ascensão às esferas de poder de áreas do conhecimento como a medicina e a engenharia.
Revista Brasileira de História

The edge of evolution: the search for the limits of darwinism



Gabriel da Costa Ávila
Mestrando em Ensino, Filosofia e História das Ciências — Universidade Estadual de Feira de Santana; FFCH — Depto. de História, Universidade Federal da Bahia (UFBA) — Estrada de São Lázaro, 197 — Federação. 40210-730 Salvador — BA — Brasil. gabriel_avila_00@hotmail.com

Michael Behe. The edge of evolution: the search for the limits of darwinism
New York: Free Press, 2007. 331p.

A teoria da evolução a partir de um ancestral comum, através da seleção natural e da mutação aleatória, exposta por Charles Darwin n'A origem das espécies em 1859,1 formou um dos conjuntos de idéias mais influentes na história recente da ciência. O darwinismo atravessou as barreiras da academia e difundiu-se, bastante matizado, pela sociedade. Durante quase um século, o darwinismo dominou a explicação científica da origem da vida.

Com as novas descobertas ocorridas a partir de meados do século passado, especialmente do DNA, o nível de complexidade por trás dos processos celulares se mostrou maior do que o esperado pelos evolucionistas. Pôr o darwinismo à prova, à luz dessas descobertas, abre um enorme espaço para a refutação das idéias do naturalista inglês. Atualmente, o questionamento mais vigoroso a respeito da validade dos fundamentos teóricos do darwinismo parte das críticas de Michael Behe.

Michael J. Behe é um autor conhecido entre os estudiosos do darwinismo. Bioquímico e professor na Leigh University, na Pensilvânia, Estados Unidos, popularizou-se por defender o criacionismo — bastante camuflado — de forma bastante competente. Em 1996, com o lançamento de A caixa preta de Darwin,2 o autor tentava provar que algumas estruturas bioquímicas presentes em certas células são tão complexas que não podem ser explicadas pelo argumento da mutação aleatória, contrariando um dos pilares do darwinismo. A análise de Michael Behe fez o autor figurar entre os principais cientistas a advogarem em prol da teoria do design inteligente. Essa teoria defende que o darwinismo, mesmo sendo bastante coerente e verossímil, é insuficiente para a compreensão da vida e da evolução: a vida na Terra não alcançaria o estágio que alcançou baseada apenas em processos aleatórios. É necessário que haja um caminho a seguir, um projeto, um design funcional a ser alcançado.

Um dos suportes teóricos fundamentais para o design inteligente é o conceito de complexidade irredutível, introduzido por Behe em A caixa preta de Darwin. Segundo o autor, os avanços da ciência nos permitiram questionar a proposta evolutiva de Charles Darwin, principalmente quando se dispõe de dados e informações a que o naturalista jamais teve acesso, notadamente no que diz respeito à genética e à bioquímica. Analisando algumas estruturas celulares especialmente 'elegantes', o autor afirma que estas possuem uma configuração tão sofisticada que se torna impossível concebê-las em estágios anteriores na evolução, isto é, essas estruturas não poderiam ter evoluído de nada mais simples sem ter suas funções irremediavelmente comprometidas. Isso as faz irredutivelmente complexas. O livro gerou polêmica não apenas por seu conteúdo, mas também pela forma convincente da exposição.

Um longo debate teve início. Os darwinistas atacavam acusando os adeptos do design inteligente de criacionistas e anticientificistas, uma vez que, posta a questão do projeto que guia a evolução, é fácil questionar também a respeito do projetista. Quem é o designer? E a pergunta transcende o reino da razão, no qual se estabeleceu a ciência moderna, e passa para o campo metafísico da crença e da religião. Mesmo que se prove a inconsistência do darwinismo para explicar o desenvolvimento bioquímico de alguns organismos, o que é bastante saudável no meio acadêmico — embora o darwinismo possua acólitos fervorosos —, a hipótese de uma inteligência por detrás das estruturas da natureza lembra demais o criacionismo e outras idéias que não se sustentam se postas à prova pelos métodos desenvolvidos pela ciência para testar o conhecimento que ela produz.

Os defensores do design inteligente, por sua vez, acusavam os evolucionistas darwinistas de dogmatismo e de censura ao desenvolvimento científico, sentiam-se perseguidos por cientistas que se recusavam a aceitar a possibilidade de uma nova teoria para a evolução, julgavam estar enfrentando a "Nomenklatura científica".3

Fica claro no debate a tentativa, de ambas as 'facções', de desqualificar os argumentos dos 'adversários' empurrando-os para o terreno da não-ciência, ou, ao menos, da 'má ciência'.

Mais de dez anos depois de publicado o livro que reacendeu a tensão entre darwinistas e adeptos do design inteligente, Michael Behe volta à carga com The edge of evolution: a search for the limits of darwinism, estudo, lançado em 2007 e ainda sem tradução em português, que aprofunda as conclusões obtidas em A caixa preta de Darwin.

Enquanto o livro de estréia do autor partia de uma investigação mais específica, a respeito da 'complexidade irredutível' de algumas estruturas bioquímicas sofisticadas, The edge of evolution é muito mais ambicioso. A idéia central do livro é desenhar linhas gerais que demarquem o terreno a partir do qual o darwinismo deixa de ser útil na explicação não apenas de alguns processos bioquímicos localizados, mas também de aspectos gerais da origem das espécies. Com isso, o velho criacionismo ganha um status de saber científico na figura do design inteligente e, assim, pode disputar com o darwinismo o papel de detentor do conhecimento acerca da origem das espécies e da vida. Não é, agora, uma questão de 'ciência contra religião', mas sim de teorias científicas concorrentes.

Para os estudiosos da ciência, o surgimento de teorias que usem os pressupostos do racionalismo científico a partir de um pano de fundo religioso é, no mínimo, intrigante, pois aponta para questões novas que exigem uma revisão acerca das tradicionais idéias de ciência e razão. O desencantamento do mundo e a substituição dos elementos mágicos por elementos racionais — que, para Max Weber, consistia numa das principais características da modernidade4 — parece subvertido de forma bastante sofisticada. A razão científica é invocada por Michael Behe para dar validade a uma concepção mágica do mundo.

O estudo de Behe tem o mérito de investigar, como indica o título, os limites do darwinismo. Contudo, embora suas pesquisas demonstrem os pontos frágeis do darwinismo, não apresentam nenhuma evidência relevante a favor do design inteligente. Cabe a nós, historiadores e estudiosos da ciência, perguntarmo-nos que motivos o levaram a extrapolar de forma tão radical as fronteiras do método científico na defesa de sua teoria, quando, ao mesmo tempo, defende esse método tão veementemente ao atacar o darwinismo. De resto, é necessário atentarmos para a possível emergência de uma nova relação entre ciência e religião.

Uma história do darwinismo que tenha a pretensão de compreender o território conflituoso da afirmação de uma teoria científica em sua dimensão social não pode perder de vista as condições socioculturais que envolvem a produção dos discursos científicos. Ou seja, deve-se refletir sobre o tipo de ciência que pode ser feita por um católico apostólico romano que, como Michael Behe, direciona seu discurso a partir de convicções filosóficas e religiosas.

Não se trata de considerar, no entanto, a ciência como uma atividade neutra, objetiva, que pode ser corrompida pela subjetividade de criacionistas com interesses espúrios; trata-se de perceber a ciência como uma atividade humana que se inscreve no âmbito da cultura e que, por isso, está sujeita a variações e condicionantes sociais, culturais e históricos. A ciência está imersa em seu tempo. E o caso de Behe aponta para isso.

O design inteligente, como formulado por esse autor, dá aos criacionistas uma excelente oportunidade de desafiar o darwinismo na interpretação da origem da vida em igualdade de condições, especialmente em relação ao ensino dessas teorias nas escolas públicas dos Estados Unidos. Lá, a disputa pelo ensino do criacionismo em substituição, ou em paralelo, ao evolucionismo remonta ao início do século passado, e a matéria acabou na justiça em 1987, quando se decidiu suprimir o ensino do criacionismo, com base na noção de Estado laico. Com o advento do design inteligente, porém, a situação se altera.

Graças ao esforço cientificista de Michael Behe e outros cientistas ligados a essa corrente, outra vez a peleja entre darwinistas e criacionistas, agora escudados pelo design inteligente, vem à baila. Em 2004, a tentativa, no Liceu de Dover, de introduzir o design inteligente como explicação alternativa à origem da vida resultou em novo processo judicial, no qual a instituição foi acusada de privilegiar interpretações religiosas, contrariando assim o laicismo que rege a educação nos Estados Unidos. Pode-se perceber um jogo político no qual a ciência é um cavalo de batalha. E a reconfiguração do alcance do darwinismo, seja nas suas lacunas bioquímicas, seja nas cartilhas escolares, não significa um avanço das trevas sobre os territórios das luzes e da razão, mas uma demonstração da dinâmica da ciência tal qual se faz.

NOTAS
1 DARWIN, Charles. On the origin of species. Cambridge: Harvard University Press, 1975. 512p.
2 Cf. BEHE, Michael. A caixa preta de Darwin: o desafio da bioquímica à teoria da evolução. Trad. Ruy Jungmann. 1.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997. 300p.
3 A Nomenklatura era a classe dirigente soviética, composta pelo alto escalão do partido comunista e do Estado. Segundo alguns críticos do regime de Moscou era o próprio Estado e usava essa condição para se beneficiar. É usada por alguns autores que defendem o design inteligente, quando se referem aos darwinistas, que dispõem de prestígio nas instituições científicas e constituiriam uma classe privilegiada.

4 WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. Trad. José Marcos Mariani Macedo. 1.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. 336p.
Revista Brasileira de História

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Ciência a jato


Manual para curiosos de todas as espécies
Uma pretensiosa compilação de descobertas científicas
Lia Brum

Se você procura uma maneira de se preparar para ganhar um milhão de reais em um jogo de perguntas sobre conhecimentos gerais, Alan Axelrod fornece a solução. Em Ciência a jato , o escritor enumera 202 fatos científicos, desde a Antigüidade até o ano de 2002, de olho em quem deseja rechear seu repertório nessa área. Com uma linguagem simples, o livro pode ser devorado com facilidade. Porém, se você pretende compreender o desenvolvimento da ciência ao longo da história, a obra deve ser encarada apenas como um agradável ponto de partida.

Logo na capa da edição brasileira e na introdução, o autor já deixa bem claro o seu objetivo: Ciência a jato se propõe a mostrar a ciência historicamente e a revelar somente o necessário a um cidadão comum para que demonstre uma boa cultura geral. Essa intenção nutre a idéia de um conhecimento de fachada: o sujeito decora as mais diversas datas e nomes, e quando os cita, passa a impressão de que sabe de variados assuntos. Contudo, não consegue explicar os fatos nem estabelecer relações entre eles.

Para fornecer esse saber superficial, Ciência a jato funciona perfeitamente. Apresenta descobertas que vão desde o uso controlado do fogo pelo homem até a criação de um olho animal a partir de células-tronco. Tudo em ordem cronológica e de forma breve: cada item não ocupa mais do que quatro páginas e, muitas vezes, são empregadas expressões como “é bem provável”, “supõe-se” e “acredita-se” para esclarecer fenômenos. Se absorvidos sem questionamentos, os dados expostos não são aprendidos e correm o risco de ser esquecidos rapidamente.

Por outro lado, Ciência a jato prova ter virtudes ao enfatizar, ao longo de suas 364 páginas, a curiosidade dos cientistas e o seu inconformismo em relação a dogmas como estopim para seus estudos e invenções. Essa ênfase faz com que o leitor se envolva em indagações e passe a questionar o conteúdo do próprio livro. Vista dessa forma, a obra pode se transformar em um excelente estimulante para a busca de explicações mais aprofundadas sobre os fatos mostrados.
Além disso, Axelrod mantém um texto sem termos técnicos e fácil de ler inclusive por aqueles que resistem à “chatice” da ciência. Assim, muita gente pode descobrir, de forma prazerosa, que conveniências consideradas naturais hoje em dia – como a agricultura, o telefone e as cirurgias – resultaram de necessidades, de pesquisas ou até mesmo do acaso ao longo da história da humanidade. Da mesma forma que temas estudados pela ciência e considerados polêmicos atualmente talvez sejam incorporados ao cotidiano no futuro.

Ciência a jato
Alan Axelrod
Rio de Janeiro, 2005, Editora Record
264 páginas
Revista CIÊNCIA HOJE

sábado, 28 de janeiro de 2012

Troglodita é você! Pequeno guia darwiniano da vida cotidiana


Trogloditas somos nós
Livro traz curiosidades biológicas e mostra como a evolução se manifesta no comportamento humano

Sofia Moutinho

Por que há cada vez mais pessoas míopes no mundo? Por que grávidas têm enjoos? Devemos tomar uma aspirina quando temos febre? Essas e muitas outras perguntas são respondidas no livro Troglodita é você! Pequeno guia darwiniano da vida cotidiana, do pesquisador francês de biologia evolutiva Michel Raymond. Lançada no Brasil pela editora Paz e Terra, a obra descreve e explica, sob a ótica da teoria da evolução, comportamentos humanos que vão desde a preferência por algumas comidas até a orientação sexual.

A fácil leitura desse livro revela a manifestação da evolução humana no cotidiano. Evolução esta que nem sempre é sinônimo de progresso. Como nos conta o autor, a alergia, por exemplo, é algo novo em nossa sociedade. Esse mal, que atinge 40% das crianças apenas na França, é resultado da adaptação humana a um meio limpo. Com a maior higienização e a urbanização a partir do século 19, o nosso corpo deixou de ter contato com uma quantidade de microrganismos suficiente para que o sistema imunológico aprenda a se defender.

Em seus seis capítulos, a obra nos mostra que o homem é um animal altamente especializado, e, mesmo assim, não escapa das regras da biologia evolutiva. Possui, por exemplo, a cultura, que afeta o modo como evolui. É por causa da cultura de cada povo que alguns de nós conseguem beber leite depois de adultos sem problemas, enquanto outros passam mal só de pensar nisso. Curioso? O autor explica isso detalhadamente.

Explicação evolutiva
Tudo nesse livro é esclarecido por meio da evolução. Até mesmo o porquê das meninas gostarem de bonecas enquanto meninos preferem brincar de luta e com carrinhos. Então, se você for um aficionado por Freud ou antropologia provavelmente irá discordar de alguns comentários do autor. Raymond não hesita em tratar de assuntos polêmicos e defende que a homossexualidade é determinada por fatores biológicos e não por uma escolha individual. Ele também nos mostra que toda guerra – e não só a de Troia – tem como causa a disputa por uma mulher.

Ao longo do livro, o leitor irá se deparar com muitas desmistificações que podem parecer “politicamente incorretas” à primeira vista. No entanto, todas as afirmações, mesmo que por vezes irônicas, são cientificamente embasadas. Para não restarem dúvidas, há um espaço no fim do livro cuidadosamente dedicado a notas científicas que aprofundam a explicação sobre os temas tratados em cada capítulo.

Ao final da leitura, o leitor provavelmente não irá ficar chateado caso seja chamado de troglodita. Sim, segundo Raymond, trogloditas somos todos nós. Quando o que está em jogo é a luta pela sobrevivência, um resquício dos trogloditas do passado pode ser de grande ajuda.

Troglodita é você! Pequeno guia darwiniano da vida cotidiana
Michel Raymond
Tradução: Martha Gambini
São Paulo, 2009, editora Paz e Terra
256 páginas
Revista Ciência Hoje