Mostrando postagens com marcador Administração. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Administração. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 28 de junho de 2022

No laboratório da Nação: a Câmara Municipal de Mariana, Minas Gerais, e a construção do Estado Nacional Brasileiro





DO LOCAL AO NACIONAL: A ATUAÇÃO DA CÂMARA DE MARIANA APÓS A IMPLEMENTAÇÃO DA LEI DE ORGANIZAÇÃO MUNICIPAL, 1828-1836

Bruna Prudêncio Teixeira

Resenha de: OLIVEIRA, Kelly Eleutério Machado. . No laboratório da Nação: a Câmara Municipal de Mariana, Minas Gerais, e a construção do Estado Nacional Brasileiro . Belo Horizonte: Fino Traço, 2021.




Publicado em 2021, No laboratório da Nação: a Câmara Municipal de Mariana, Minas Gerais, e a construção do Estado Nacional Brasileiro é fruto da dissertação de mestrado de Kelly Eleutério Machado de Oliveira defendida em 2013, na Universidade Federal de Minas Gerais. Atualmente, a autora é pós-doutoranda em História pela Universidade de São Paulo.



Dividido em três capítulos, o livro traz nova contribuição aos estudos sobre as Câmaras Municipais. A temática foi bastante abordada pela historiografia do Brasil colonial. Autores como Júnia Furtado, Russel-Wood e Nuno Monteiro3 se debruçaram sobre o assunto. Oliveira, contudo, tem como pano de fundo o Brasil independente, especificamente no contexto onde as Câmaras sofreram reformas profundas que esvaziaram o poder que possuíam no período colonial. Com base no estudo específico da Câmara de Mariana, a autora explora o novo papel da instituição e como as dinâmicas locais interferiram no contexto geral. Nesse sentido, a obra segue a tendência historiográfica dos últimos anos, em que os estudos de caso aparecem como lócus privilegiado para compreensão das minúcias do processo de formação do Estado brasileiro.



O objetivo central do livro é analisar a atuação e trajetória dos vereadores da Câmara de Mariana e entender as relações e tensões desses agentes no processo de construção do novo Estado independente. Apesar do esvaziamento do poder local nas décadas de 1820 e 1830, a autora consegue analisar o peso da esfera municipal sobre a política nas suas relações com os níveis de poderes provincial e geral. Na análise de Oliveira, os vereadores emergem como agentes ativos no chamado “laboratório da nação”.



No primeiro capítulo, intitulado “Organização e Funcionamento da Câmara Municipal da Cidade de Mariana, Minas Gerais (1828-1836)”, a autora retraça o panorama de atuação da Câmara nos anos assinalados. Partindo das tensões entre pré e pós independência, demonstra rupturas e continuidades impostas pela lei de 1828, que regula e limita os poderes municipais no Brasil. Indo ao encontro da tese de Sérgio Buarque de Holanda,4 a medida é compreendida de uma perspectiva liberal, visto que estabelece mudanças em relação ao período colonial. Se antes as Câmaras eram espaços de poderes quase autônomos, após a reorganização foram subordinadas aos Conselhos Gerais provinciais e perderam atribuições judiciais, mantendo somente funções administrativas.



Todas essas alterações geraram tensões entre os vereadores de Mariana e para compreender o novo espaço de atuação da Câmara, Oliveira analisou cerca de 900 atas de sessões do local. Evidenciando os perigos de analisar essa documentação de maneira isolada, a autora chama a atenção para a forte inconstância política dos atores políticos no Período Regencial. Uma das reformas mais questionadas pelos vereadores marianenses foram as posturas municipais. Alguns defendiam que as posturas fossem assuntos da Câmara, e não do Conselho da província. Mesmo assim, de maneira geral, a Câmara considerava a lei de 1828 legítima, bem como as reformas liberais de 1830. Portanto, mesmo perdendo autonomia, e abrigando uma série de tensões e debates, a Câmara de Mariana tendia à corrente liberal moderada e se mostrou fiel à Regência.



Acerca da nova organização das Câmaras a autora demonstra que os vereadores seriam eleitos pelo município dentre aqueles que possuíssem no mínimo 200$000 de renda anual. Não estavam previstos pagamentos para este cargo, a ideia não era “viver da Câmara” e sim “para a Câmara”. (p. 39). Portanto, a principal motivação em ser vereador seria o acumulo de prestígio e poder.



Os vereadores eram responsáveis pelas questões econômicas e policiais da cidade. Deveriam garantir o bem-estar local e costumeiramente aproveitavam para suprir seus interesses, inclusive financiando as obras. Sobre essa questão, o estudo de Oliveira adentra uma perspectiva importante sobre o processo de formação do Estado brasileiro. Ainda que a questão financeira tenha sido transferida para a esfera provincial, isso não impediu autoridades municipais de investirem dinheiro do próprio bolso nas obras públicas e melhorias locais. Com isso, a autora reverbera a tese da permanência da “componente patrimonial”, como herança do Antigo Regime (p.42).



No segundo capítulo, “Viver de seu negócio e governar o bem comum: o perfil socioeconômico nos primeiros anos das Regências”, Oliveira analisa o perfil dos homens que ocuparam a vereança. Para isso, baseia-se em testamentos, inventários, listas nominativas, registros de matrimônios, jornais e também informações contidas no livro Casa de Vereança de Mariana: 300 anos de História da Câmara Municipal. Oliveira contabilizou 16 vereadores (três dos quais carecem de documentação). Eram via de regra, brancos, livres, “chefes de armas”, membros da elite local e da Sociedade Patriótica Marianense. Entre as ocupações mais comuns estavam as de fazendeiro, comerciante e padre.



Para traçar um perfil socioeconômico dos vereadores, a autoria os dividiu em quatro tópicos. No primeiro, analisou os eclesiásticos. Dentre os três padres, o que mais se destaca é Antônio José Ribeiro Bhering. No âmbito político, foi vereador, procurador, juiz de paz, municipal e de direito, membro do Conselho Geral, da Assembleia Legislativa mineira e da Assembleia Geral. João Paulo Barbosa, por sua vez, foi vereador da Câmara e membro da Assembleia Legislativa Provincial. Manoel Júlio Miranda assumiu, além da vereança, as funções de juiz de órfãos e deputado provincial.



Além dos cargos políticos, os padres receberam comendas. Sobre essa questão, a autora se aproxima dos estudos de Ângela Xavier e Antonio Manuel Hespanha5. Ainda que esses autores se debrucem sobre o cenário português da década de 1820, a economia de “troca de favores” está presente nos dois contextos. Era comum que indivíduos oferecerem serviços ao Estado em troca de comendas e títulos. A diferença, contudo, estaria na origem da nobreza. À luz de Lilia Schwarcz6, Oliveira defende que o critério brasileiro de nobreza estava muito mais ligado ao “merecimento” que ao “nascimento”. Ocupar cargos eclesiásticos, políticos e administrativos poderia gerar status social.



O segundo e terceiro grupo de vereadores são os que acumularam grandes e médias fortunas. Dentre os maiores montantes temos quatro vereadores que somavam de 30 a 70 contos de réis. O mais rico, entretanto, era detentor de um montante-mor acima dos 119 contos de réis. Os vereadores deste grupo eram em geral proprietários de terras, fazendeiros e comerciantes, alguns com investimentos na mineração, outros também no comércio de cativos. Havia ainda um advogado. Quatro vereadores representam as “médias fortunas”. Nenhum deles aparece como grande proprietário de terras, sendo que dois somam pouco mais de 9 contos de réis.



Assim como os padres, esses vereadores também acumulam cargos políticos. A autora sugere que esse amealhar de funções pode estar associado à carreira política exercida por essas pessoas e ainda à insuficiência de cidadãos para ocupar cargos requeridos pelo novo Estado. Além disso, esse grupo também tem sua lista de títulos e comendas, o que corrobora com a tese de “troca de favores” entre indivíduos e Estado e de busca de distinção social, práticas herdadas do Antigo Regime.



O quarto e último grupo apresentado por Oliveira é na verdade uma exceção: Manoel Francisco Damasceno era agregado, carpinteiro e o único vereador pardo. Seu caso representa uma ruptura com o período colonial. Se no passado as Câmaras Municipais eram espaços para “homens bons”, no oitocentos deixam de sê-lo em função do fim dos critérios de sangue para provimento de cargos públicos. Por outro lado, a renda era condição da vereança, e assim se observa que a maioria dos vereadores eram membros da elite política e econômica local, que por vezes já haviam ocupado posições na Câmara e circulavam por várias esferas políticas.



No terceiro e último capítulo, “A trajetória e atuação políticas de Antônio José Ribeiro Bhering”, Oliveira se detém na vida do vereador eclesiástico mais importante de seu recorte. Baseada nos trabalhos de Andréa Lisly Gonçalves, destaca a relevância de trajetórias individuais para o estudo de determinados contextos.7 Bhering, que já desfrutava de prestígio por ser padre, foi professor e figura ativa nos periódicos da época, sendo considerado “ilustre e combativo”. (P. 124). Politicamente, acumulou cargos locais, provinciais e nacionais, podendo inclusive ser considerado membro do que José Murilo de Carvalho chama de “elite imperial política”.8 Com uma tendência liberal moderada, o padre apoiava maior autonomia às províncias, sem simpatizar, contudo, com o federalismo. Defensor da monarquia constitucional, armou o seminário contra a Revolta do Ano da Fumaça. Bhering também gostava de distinções sociais e pediu duas comendas ao príncipe. Sua vida desenha a trajetória de um homem local que, entrando no cenário político do Estado imperial, ainda carrega as tensões e contradições entre as novas correntes políticas e as velhas práticas do Antigo Regime.



Em vista do exposto, No laboratório da Nação merece destaque. Com análise documental rica e minuciosa, Oliveira demonstra o que a reorganização das Câmaras Municipais no Brasil recém-independente significou na prática do dia a dia. Relativizando a tendência historiográfica que vê nas reformas de 1828 o esvaziamento do município em prol da província, sua pesquisa sugere que a Câmara permaneceu como espaço de proeminência que servia de trampolim para as elites locais. Partindo do estudo específico de Mariana, consegue averiguar como disputas nacionais eram tidas no município, e mais do que isso, como agentes locais circulavam entre os âmbitos provinciais e nacional. Seu livro é sem dúvida um convite para entender o novo papel das Câmaras no processo de construção da nação independente.

Bibliografia
CARVALHO, Jose Murilo de. A construcao da Ordem: a elite imperial; Teatro de Sombras: a politica imperial. Rio de Janeiro, Civilizacao Brasileira, 2003.
FURTADO, Jania Ferreira. As Camaras municipais e o poder local: Vila rica- um estudo de caso na producao academica de Maria de Fatima Gouvea. In Tempo, 2009. P. 6.-22. https://www.scielo.br/j/tem/a/HxDGZzXvj7tRsPphZkB79cS/?lang=pt#
GONCALVES, Andrea Lisly. Estratificacao social e mobilizacões politicas no processo de formacao do Estado Nacional brasileito: minas gerais, 1831-1835. Sao Paulo, Hucitec, 2008.
HESPANHA, Antonio Manuel. & XAVIER, Angela. As redes clientelares. In: Mattoso, Jose. Historia de Portugal: o antigo regime. Lisboa: Estampa, 1993.
HOLANDA, Sergio Buarque de. Raizes do Brasil. 26ªed. Sao Paulo, Cia das Letras, 1995.
MONTEIRO, Nuno. Notas sobre a nobreza, fidalguia e titulares nos finais do antigo regime. Ler historia, Lisboa, n.10., 1987.
OLIVEIRA, Kelly Eleuterio Machado. No laboratorio da Nacao: a Camara Municipal de Mariana, Minas Gerais, e a construcao do Estado Nacional Brasileiro. Belo Horizonte: Fino Traco, 2021.
RUSSEL-WOOD, A. J. R. O governo local na America Portuguesa: um estudo de divergencia cultural. Revista de Historia, Sao Paulo, USP. V.50. N.109, 1997, p. 1887-249. https://doi.org/10.11606/issn.2316-9141.rh.1977.77329
SCHWARCZ, Lilia. As barbas do imperador: d. Pedro II o monarca dos tropicos. Sao Paulo, Cia das Letras , 2003.


3
FURTADO, Júnia Ferreira. As Câmaras municipais e o poder local: Vila rica um estudo de caso na produção acadêmica de Maria de Fátima Gouvêa. In: Tempo, 2009. < https://www.scielo.br/j/tem/a/HxDGZzXvj7tRsPphZkB79cS/?lang=pt#> P. 6.-22; RUSSEL-WOOD, A. J. R. O governo local na América Portuguesa: um estudo de divergência cultural. https://doi.org/10.11606/issn.2316-9141.rh.1977.77329 Revista de História, São Paulo, USP. V.50. N.109, 1997, p. 1887-249; MONTEIRO, Nuno. Notas sobre a nobreza, fidalguia e titulares nos finais do antigo regime. In: Ler história, Lisboa, n.10, 1887.
4
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raizes do Brasil. 26ªed. São Paulo, Cia das Letras, 1995.
5
HESPANHA, Antonio Manuel. & XAVIER, Ângela. As redes clientelares. In: Mottoso, José. História de Portugal: o antigo regime. Lisboa: Estampa, 1993.
6
SCHWARCZ, Lilia. As barbas do imperador: d. Pedro II o monarca dos trópicos. São Paulo, cia das letras, 2003.
7
GONÇALVES, Andréa Lisly. Estratificação social e mobilizações políticas no processo de formação do Estado Nacional brasileito: minas gerais, 1831-1835. São Paulo, Hucitec, 2008.
8
CARVALHO, José Murilo de. A construção da Ordem: a elite imperial; Teatro de Sombras: a política imperial. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2003.


2
Historiadora, mestre em história pela UNIFESP. Atualmente doutoranda em Sociologia pelo PPGS/USP. Pesquisadora do NEV-USP. Bolsista FAPESP (2020/15880-0).


2
Historiadora, mestre em história pela UNIFESP. Atualmente doutoranda em Sociologia pelo PPGS/USP. Pesquisadora do NEV-USP. Bolsista FAPESP (2020/15880-0).
Revista Almanack

sábado, 11 de agosto de 2012

O tempo entre costuras

O tempo entre costuras
Maria Duenas, Ed. Planeta


Contando apenas com a costura, a vida de Sira Quiroga se divide basicamente em três fases permeadas por uma traição e duas guerras. Ao final de cada fase, parece que a história está prenunciando o fim, mas eis que ocorre uma reviravolta e o enredo recomeça com uma nova trama, outras pessoas, mas a mesma personagem principal.
No início, Sira é uma jovem ingênua que costura para ajudar a mãe em um ateliê em Madri e está definindo os traços que dará a sua vida. Quando parecem estar certos, ela vive uma paixão avassaladora e parte para uma aventura no Marrocos. Ali vive uma história sem restrições ou limites, até que seu amado lhe surpreende, abandonando-a. Sem alternativas de retorno a Madri, começa uma nova fase, em que precisa reestruturar sua vida sozinha, com poucos recursos. Nesse momento, personagens importantes entram na trama, e a protagonista vive momentos de suspense e perigo, mas alcança paz e conforto com a costura.
Inserida na elite marroquina, ela vive distante dos horrores por que passa sua terra natal com a Guerra Civil Espanhola. Quando Sira alcança aparente estabilidade e novamente a história poderia terminar, a autora cria um recomeço e coloca a protagonista num novo enredo, agora num contexto de Guerra Mundial.
Maria Duenas descreve os caminhos de uma mulher que encara a vida de forma solitária, mas nunca sozinha. Talvez o mais fascinante do livro seja acompanhar os passos dessa personagem num tempo em que, em geral, o papel das mulheres na sociedade se restringia ao desempenhado pelas próprias frequentadoras do ateliê de Sira: esposas. Porém, mesmo elas, nessa história, têm atuação fundamental, já que se tornam mais do que clientes de Sira − são ingênuas delatoras daqueles que lhes proporcionam seu principal papel: os maridos. Assim, a autora consegue criar um enredo com personagens complexos, que fogem dos estereótipos mesmo que de forma sutil.
Sofia Reinach
Mestranda em Administração Pública e Governo pela EAESP/FGV na temática de gênero e leitora de romances nas horas vagas
Le Monde Diplomatique Brasil 

E se Obama fosse africano

E se Obama fosse africano
Mia Couto, Ed. Companhia das Letras


O livro é uma reunião de ensaios que refletem sobre mazelas e potencialidades do continente africano e conferem continuidade ao papel de intervenção social que Mia Couto vem construindo com tamanha seriedade, numa boa dose de observação e de mágica nas palavras.
O autor moçambicano traça uma crítica clara à falta de investimento em educação e trabalho no país, sem o qual o continente não poderá extrapolar os status de ausência, de caso clínico ou de quintal do mundo e assumir protagonismo em sua história. Suas reflexões representam o grito por um pensamento produtivo, igualitário e ousado, que seja capaz de se opor às margens de um sistema que comprime as águas volumosas que banham o continente.
Com exceção daquele que empresta título à obra, os textos reunidos foram pensados para participações em encontros e colóquios dentro e fora de Moçambique. Desses, três foram realizados no Brasil.
No artigo “E se Obama fosse africano?”, o autor moçambicano especula sobre as dificuldades que o presidente encontraria para chegar ao poder nesse continente e continuar a exercê-lo de maneira democrática.
A corrupção, as doenças, as queimadas, a ciência, o hip-hopmoçambicano, a solidariedade entre iguais, as formas de violência... São diversos os temas tratados nessa coletânea, e, ao abordar peculiaridades do país de onde escreve, o autor fala de temas universais, por se referir sempre a humanidades: desejos, angústias, injustiças, descobertas, alegrias, efemeridades.
Logo no início do volume é narrada a história do velho guarda de uma estação hidrológica de Moçambique, que cumpria com dedicação a missão de preencher formulários para o controle fluvial, embora tal programa federal houvesse sido extinto com a guerra. Quando seus formulários acabaram e não havia a quem os solicitar, o velho guarda começou a fazer registros na parede da estação. Mia nos faz lembrar que em todas as partes do mundo há gente “inscrevendo na pedra os minúsculos sinais da esperança”.


Telma Hoyler
Pesquisadora do Centro de Estudos em Administração Pública e Governo da Ceapg-FGV e Instituto Pólis.
Le Monde Diplomatique Brasil 

domingo, 20 de maio de 2012

Os sete pontos-chave de quem se destaca sempre



João Paulo Meira Marinho (Geógrafo licenciado  pela Universidade Federal de Mato Grosso - UFMT) 
I - OBRA 
GARCIA, Luiz Fernando. Pessoas de Resultado: Os sete pontos-chave de quem se destaca sempre. São Paulo: Editora Gente, 2003. 
II - CREDENCIAIS DA AUTORIA 
Luiz Fernando Garcia é formado em Administração de  Empresas, com especialização em Mercadologia e psicólogo ainda em formação. No âmbito internacional, além de uma qualificação específica na área de relações humanas na Itália, é credenciado pela ONU (Organizações das Nações Unidas) para o desenvolvimento de educadores de empreendedores, donos de negócios e dirigentes de empresas no Brasil. foi desenvolvedor, em 1997 da 1ª matriz curricular do empreendedorismo no Brasil, registrada no MEC. Treinou e capacitou todos os agentes envolvidos no desenvolvimento da Metodologia EMPRETEC no Brasil e na América Latina, nos anos de 1999 a 2002. Além disso, é empresário do ramo de confecções e da área de treinamento, há doze anos com duas empresas. 
III - CONCLUSÕES DA AUTORIA 
O autor, produziu um livro, muito prático, embasado em experiências vividas e em estudos feitos principalmente a partir de entrevistas. Ele  primeiramente transmite ao leitor, uma rápida revisão de sua vida no pensamento, de forma clara e nítida. A partir desse flashback, o individuo passa a reconhecer o que passou a de maléfico e benéfico em sua vida. È a partir dessa revisão, que o leitor poderá traçar novos parâmetros para sua vida. Além disso, busca- se uma reflexão sobre o que faz uma pessoa dar errado (título do capítulo 2 de seu livro), onde ele aborda aspectos como a chamada arrogância da certeza, características adotada por pessoas de negócio, que nada mais são que a extensão de seus egos. Com base no que faz uma pessoa dar errado, e buscando características comuns as individuas de 
Sucesso; pessoas empreendedoras, o autor identifica sete pontos chaves que devem ser adotados e praticados; pelas pessoas que buscam resultados positivos em suas vidas, que buscam o sucesso. Esses pontos- chaves são: Visualização, que é o ato de ver aquilo que se deseja. Visualizar seu futuro, seu desejo, com todos os detalhes; com todas as medidas; numa escala de tempo mensurável. Além disso, o medo (de que algo dê errado) deve existir para forçar o indivíduo a buscar cada vez mais o objeto desejado.Desafio. Esse é parte inerente às operações mentais dos homens que se destacam em tudo. Os desafios devem ser vistos como estímulos à conquistas. È preciso aceitar os desafios para sair vitorioso. 
Manutenção do foco. Tão importante quanto os pontos anteriores, manter o foco, significa se manter no caminho, até chagar ao propósito desejado.Criação de Mapas de Percurso. 
Para se chagar ao propósito desejado, é necessário traçar objetivos a serem alcançados, formando uma espécie de mapa. E a arte de planejar o caminho. Expectância e Drive. Trata-se de alimentar a expectativa em torno do objetivo  ou situação desejada. Tolerância à ambigüidade e à incerteza. Significa não temer a incerteza e o ERRO. O medo de errar é o que pode levar a pessoa ao insucesso. Desta maneira não se deve ter medo do erro, mas encará-lo como aprendizado. Além de tudo isso, o último ponto -chave, exige que nos reforcemos sempre que conquistamos algo. È este reforço que garante a melhora na autoestima. No final de seu livro, o autor apresenta uma série  de exercícios que buscam alcançar os resultados desejados pelo leitor. 
O Livro é um excelente auxílio, aos que buscam a leitura de um material simples, sem o uso de termos técnicos complicados e que apresenta uma metodologia eficaz e bastante prática. 
Leitura recomendada.
(Diagramação: Thays B. Marinho)
http://www.visaogeografica.com

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Treinamento, desenvolvimento e educação: tendências no estilo de gestão das organizações


Treinamento, desenvolvimento e educação: tendências no estilo de gestão das organizações
Thaís Zerbini

Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto-SP, Brasil



Borges-Andrade, J. E., Abbad, G., & Mourão, L. (Orgs.). (2006). Treinamento, desenvolvimento e educação em organizações e trabalho: Fundamentos para a gestão de pessoas. Porto Alegre: Artmed.



A leitura do livro organizado por Jairo Eduardo Borges-Andrade, Gardênia da Silva Abbad e Luciana Mourão é altamente recomendável para estudantes, pesquisadores e profissionais de Psicologia Organizacional e do Trabalho (POT) que pretendem atuar ou atuam na área de Treinamento, Desenvolvimento e Educação (TD&E) nas organizações e em contextos de trabalho diversos.

Atualmente, o atendimento às novas exigências do mercado de trabalho, caracterizado por transformações sociais e tecnológicas, exige que empresas, escolas técnicas, órgãos de governo, entre outras instituições que compõem o sistema produtivo, desenvolvam estratégias de atualização contínua de suas competências organizacionais e individuais. É fato também, que um dos grandes desafios do Brasil é promover o desenvolvimento sustentável econômico e social em diversas regiões. Programas de TD&E nas empresas e de formação e qualificação profissional em ambiente aberto contribuem para que este desenvolvimento ocorra. Eduardo Salas, pesquisador renomado da área, Ph.D. pela University of Central Florida, destacou no prefácio do livro esta necessidade: "As organizações sabem que, para serem viáveis e competitivas nesta `planície', elas precisam ser coleções de habilidades adaptáveis em sua força de trabalho e ter empregados, executivos e gestores com conhecimentos e habilidades atualizados." (p.11).

As organizações, preocupadas com a manutenção da competitividade no mercado, mostram-se interessadas em entender como ocorrem os processos de aprendizagem e, principalmente, os processos de transferência para os diferentes níveis da organização. Torna-se necessário entender, portanto, como ocorrem tais processos em diferentes ambientes corporativos e profissionais. Para possibilitar o estudo desses fenômenos, pesquisadores e profissionais precisam identificar formas de garantir a melhoria do desempenho no trabalho, investigando o processo de aquisição de conhecimentos, habilidades e atitudes (CHA's) por meio de ações de TD&E, formação e qualificação profissional. Neste sentido, o livro é um grande auxílio para o profissional de TD&E que precisa exercer seu trabalho de pesquisa e intervenção em contexto de organizações e trabalho.

O livro é composto por vinte e nove capítulos distribuídos em quatro partes, a saber: Parte I Contexto e desafios em TD&E; Parte II Avaliação de necessidades e delineamento de soluções em TD&E; Parte III Avaliação dos sistemas de TD&E; e Parte IV TD&E em organizações e trabalho: casos. A estrutura dos capítulos é padronizada e desenvolvida em cinco seções. No início do capítulo são apresentados os objetivos de aprendizagem que o leitor deverá alcançar ao final da leitura. Em seguida, há uma breve seção introdutória que apresenta a proposta do capítulo e seus conteúdos. A terceira seção consiste na revisão e análise da literatura desenvolvida nas três últimas décadas, na qual são apresentados e discutidos conceitos, definições, resultados de pesquisa e exemplos de instrumentos de medida sobre o tema. Na quarta seção considerações finais retomam-se os objetivos do capítulo, faz-se uma análise crítica da revisão de literatura apresentada e discutem-se as tendências teóricas e práticas sobre o tema. E, ao final do capítulo, o leitor é presenteado com pertinentes questões para discussão.

O referencial teórico utilizado na maioria das pesquisas nacionais e estrangeiras sobre ações de TD&E segue a abordagem sistêmica. Os elementos que compõem o sistema de TD&E são: avaliação de necessidades, planejamento e execução, e avaliação, sendo que esses mantêm entre si trocas constantes de informações e resultados. O subsistema avaliação de necessidades de treinamento identifica as competências necessárias que uma organização precisa desenvolver para alcançar seus objetivos, os CHA's que um indivíduo deve apresentar para desempenhar sua função, bem como, identifica os indivíduos que necessitam de treinamento por não apresentarem esses CHA's desenvolvidos. Em seguida, a ação educacional é planejada e executada a partir da definição dos objetivos instrucionais, definição do conteúdo, da seqüência do ensino e da escolha dos meios e estratégias instrucionais mais adequados para se alcançar os objetivos descritos. Por fim, a avaliação de treinamento fornece ao sistema informações sistemáticas sobre lacunas no desempenho dos indivíduos e dos instrutores, identifica falhas no planejamento de procedimentos instrucionais, indica se o treinamento foi positivo para os indivíduos e organizações em termos de aplicabilidade e utilidade, informa o quanto as habilidades aprendidas estão sendo aplicadas no trabalho ou na vida profissional dos indivíduos e quais aspectos facilitam ou dificultam este processo (Borges-Andrade, 1997).

O livro, após uma contextualização, segue a mesma seqüência do sistema de TD&E. Os capítulos iniciais que compõem a Parte I demarcam o contexto no qual o livro está inserido: organizações, trabalho, aprendizagem e ações de TD&E. Relações entre a reestruturação produtiva e a qualificação do trabalhador, importância e necessidade de programas de formação profissional, relação de práticas inovadoras em gestão de pessoas com aprendizagem nas organizações, bem como história, importância e conceitos relacionados ao sistema de TD&E são os assuntos abordados. O último capítulo da primeira parte do livro, escrito por Jairo Eduardo Borges-Andrade, discute um aspecto fundamental da área: a competência política que o profissional de TD&E precisa desenvolver para atuar de forma estratégica em uma organização. Zanelli e Bastos (2004) discutem a mesma problemática no livro Psicologia, Organizações e Trabalho no Brasil, referência nacional em temas relacionados à área de POT. Ao longo da discussão, fica evidente a preocupação quanto à formação dos estudantes de graduação e dos profissionais da área. Segundo os autores, nos anos de 1980, o Conselho Federal de Psicologia verificou que a atuação da maioria dos psicólogos apresentava um forte viés tecnicista, com a utilização de modelos e pacotes prontos para a solução de problemas. Além disso, o trabalho desenvolvido era fragmentado, sem visão estratégica e política de todo e de fim. Entretanto, com a ampliação dos mercados e com o aumento da competitividade, as organizações e a realidade de trabalho passaram a exigir novas posturas e formas de atuação do psicólogo organizacional e do trabalho. E é sobre esta nova postura que Borges-Andrade discute: o profissional deve atuar, não somente como técnico, mas como consultor, pesquisador e agente de mudanças.

Na Parte II, discute-se sobre o diagnóstico e o prognóstico de necessidades e a proposta de soluções para resolver os eventuais problemas de desempenho detectados, incluindo ações de TD&E presenciais e a distância para suprir lacunas de competências. Em análise da literatura nacional e estrangeira, Abbad, Carvalho e Zerbini (2006) observaram que, na prática vigente, as organizações não utilizam avaliações sistemáticas de necessidades de treinamento, não as relacionam às competências organizacionais ou as alinham às estratégias organizacionais, fazem pequeno esforço de avaliação de aprendizagem e investem pouco em planejamento instrucional de cursos presenciais. Além disso, utilizam com mais freqüência treinamentos presenciais que privilegiam poucas pessoas da organização, em detrimento de treinamentos a distância que poderiam alcançar um número bem maior de participantes de diferentes unidades da organização. Segundo as referidas autoras a ampliação do acesso a treinamento, formação e qualificação profissionais vem sendo viabilizada pela aplicação das Novas Tecnologias de Informação e Comunicação (NTICs) em projetos de educação a distância. Os treinamentos mediados por NTICs, somadas às tecnologias tradicionais de disponibilização de conteúdos como o material impresso, materiais em vídeo e áudio, correspondência, vêm se tornando ferramentas fundamentais para capacitação e qualificação profissional dos trabalhadores. Todas estas tendências, relacionadas à educação corporativa e continuada, bem como à educação para o trabalhador, são discutidas nesta parte do livro.

No capítulo inicial da Parte III é apresentado um modelo teórico de avaliação e seus componentes: características da clientela, procedimentos instrucionais, processos, resultados imediatos (aprendizagem), elementos do contexto (necessidades, suporte, disseminação e efeitos no desempenho dos indivíduos e das organizações e retorno de investimentos). Nos capítulos seguintes, o modelo é desmembrado em seus componentes e a sua aplicabilidade no contexto de organizações e trabalho fica evidente por meio de relatos de pesquisas e instrumentos de medida validados de acordo com pressupostos estatísticos. Além disso, são discutidos diferentes delineamentos metodológicos, bem como problemas metodológicos relacionados à mensuração.

Fechando o livro, a Parte IV apresenta casos que relatam a aplicação do conhecimento apresentado nos capítulos anteriores em três diferentes contextos: uma instituição bancária, uma universidade e um hospital.

Para finalizar, deixo registrado que o livro é fruto de trabalho intenso e constante de um grupo de pesquisadores da área de POT e da Administração que integrou o Núcleo de Excelência "Treinamento e Comportamento no Trabalho", contemplado pelo Programa de Apoio a Núcleos de Excelência (PRONEX/CNPq), e foi coordenado por Jairo Borges-Andrade. O grupo, com aproximadamente cinqüenta integrantes, teve como sede a Universidade de Brasília e contou com a participação das Universidades Federais da Bahia, de Minas Gerais e de Uberlândia. Sem dúvida, o trabalho dos organizadores do livro é um exemplo de profissionalismo e competência.

O livro Treinamento, desenvolvimento e educação em organizações e trabalho se tornou uma referência da área, não só no Brasil, mas em toda a América Latina e, novamente cito um trecho do prefácio escrito por Eduardo Salas: "Ele é o único na América Latina para se compreender a ciência e a prática de aprendizagem e desenvolvimento. Tomara que venham outros." (p.11). E virão. O mesmo grupo de pesquisadores iniciou as discussões para a organização de um livro de escalas construídas e validadas na área de avaliação de TD&E presenciais e a distância. O projeto está previsto para 2009.

Referências

Abbad, G., Carvalho, R. S., & Zerbini, T. (2006). Evasão em curso via internet: Explorando variáveis explicativas [Versão eletrônica]. Revista de administração de empresas eletrônica, 5(2), 1-26. Retirado em 10 julho 2006, de http://www.rae.com.br/eletronica/index.cfm?FuseAction=artigo&ID=3652 &Secao=ARTIGOS&Volume=5&Numero=2&Ano=2006.

Borges-Andrade, J. E. (1997). Treinamento de pessoal: Em busca de conhecimento e tecnologia relevantes para as organizações brasileiras. In A. Tamayo, J. E. Borges-Andrade & W. Codo (Orgs.), Trabalho, organizações e cultura (pp. 129-149). São Paulo: Cooperativa de Autores Associados.

Zanelli, J. C., & Bastos, A. V. B. (2004). Inserção profissional do psicólogo em organizações e no trabalho. In J. C. Zanelli, J. E. Borges-Andrade & A. V. B. Bastos (Orgs.), Psicologia, organizações e trabalho no Brasil (pp. 466-491). Porto Alegre: Artmed.


Endereço para correspondência:
Thaís Zerbini
Departamento de Psicologia e Educação. Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto. Universidade de São Paulo
Av. Bandeirantes, 3900
CEP: 14040-901. Ribeirão Preto-SP, Brasil
E-mail: thais.zerbini@gmail.com

Thaís Zerbini é Professor Doutor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo.

Paidéia: cadernos de Psicologia e Educação