domingo, 13 de maio de 2012




DANTAS, B. G. Rendas e rendeiras no São Francisco. Estudos e documentos sobre a renda de bilro de Poço Redondo/SE. Paulo Afonso/BA: Editora Fonte Viva, 2006.



Documentar, registrar, inventariar. Nas discussões e ações instituídas para preservação do patrimônio cultural01, esses termos são bastante aplicados e debatidos, principalmente, após a gestão do antropólogo Antônio Augusto Arantes, na presidência do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), a partir do ano de 2004, quando ficou estabelecido como método oficial o INRC (Inventário Nacional de Referências Culturais).
Os estudos e documentos produzidos pela antropóloga sergipana Beatriz Góis Dantas sobre o rendar com bilros em Poço Redondo/SE datam de um período no qual essa metodologia estava ainda “engatinhando”, pautando-se, portanto, em referências metodológicas restritas a trabalhos acadêmicos, principalmente nos âmbitos da Antropologia e da História. Outro diferencial do trabalho de Dantas são as discussões de cunho socioeconômico realizadas a partir do fazer renda de bilros.
O livro reconstrói um universo poético e antropologicamente rico, vertendo o fluxo de informações coletadas pela autora por um caminho lógico de contextualização sócio-histórica, em que o material principal, a renda, é tratado a partir de uma viagem pela história de vida de figuras nordestinas que viveram em seus dias de juventude mudanças históricas de extrema importância. A obra contém muitas imagens, em que figuram as rendeiras, o sertão, a renda; e sua redação nos proporciona uma leitura fluida/agradável. Fica clara a relação de encantamento pessoal da autora com seu objeto, que transparece quando da cessão de parte do seu próprio acervo de rendas para ilustração na obra, e também no tom de sua narrativa, que consegue alia poesia e informações antropologicamente relevantes.
Como afirmado anteriormente, a metodologia de registro da renda foi criada pela própria autora por não haver outras referências, naquela época. Ela levou em conta dados sócio-históricos que pudessem fornecer conhecimento amplo sobre a renda, seus usos e sua comercialização, ao longo do tempo, chegando até o momento presente. O material usado para tal documentação foi o acervo de papelões02 de uma das rendeiras, Dona Conceição, que continha 122 exemplares, e que era o maior entre as entrevistadas. A metodologia é descrita com base nos seguintes passos: “Limpeza e digitalização dos papelões” - alguns deles estavam em péssimas condições e havia o desejo de conservar os modelos; “Identificação e fichamento dos papelões” - as fichas foram elaboradas tomando como exemplo a classificação feita por Girão (1963) e Soares (1987), que era a disponível na época, sempre atentando para o contexto histórico e para fatores sócio-culturais para fins de catalogação e classificação; “Renovação dos suportes dos papelões” - a rendeira doou os papelões velhos para o Cendop (Centro de Documentação e Pesquisa do Baixo São Francisco), fazendo novos para ela; “Execução das amostras de renda para formação do acervo” - a rendeira recebeu a encomenda de produzir uma amostragem de renda de cada um de seus papelões; “Identificação das amostras de renda”; “Registro visual das rendas, das rendeiras e do processo produtivo” – momento em que se documentou o processo de feitura da renda com fotografia e vídeo. Sobre esse último ponto, Beatriz Dantas enfatiza a importância do registro audiovisual, e sua grande utilidade na composição de eventuais exposições coletivas das rendas, realizadas em vários locais, publicações, apresentações de comunicações em eventos, ou seja, diversos desmembramentos  que servem como forma de restituição para as rendeiras que foram interlocutoras na pesquisa e como estratégia para divulgação do ofício de rendeira. Em seguida, a autora nos apresenta as 120 amostras de rendas encomendadas a Dona Conceição, juntamente com informações básicas como tipo, denominação, pontos usados e largura.
Sua iniciativa de registrar o ofício tem como finalidade dar maior visibilidade à renda de bilros no panorama cultural brasileiro, além de suprir uma lacuna que concerne à escassez da literatura a respeito da renda em Sergipe. A obra se referencia a poucas iniciativas de inventariado do ofício até aquele momento, sugerindo que na maioria das publicações que abordam esse gênero de artesanato, a renda de bilros teria ficado de fora. Dantas argumenta que essa ausência teria sido resultado de uma avaliação institucional, baseada no mercado, acerca de atividades artesanais com retorno econômico expressivo, caso em que não se enquadrava a renda de bilros em meados da década de 1960. Na década seguinte, os estudos sobre artesanato teriam recebido novo fôlego, atrelado ao investimento em turismo, cujos projetos de âmbito nacional se inclinariam a valorizar os fazeres manuais. Atualmente, as publicações com informações mínimas sobre artesanato em Sergipe afirmam haver em várias partes do estado registros de mulheres rendando em almofadas, entretanto, seria em Poço Redondo que elas estariam mais concentradas.
Unindo a produção de conhecimento com a intervenção cultural, Beatriz Dantas se revela preocupada com essa situação singular de concentração de rendeiras no sertão, especialmente porque as rendeiras, em sua maioria, já têm idade avançada e são poucas as perspectivas de transmitirem a outras pessoas o seu saber fazer. Por isso mesmo, no fim da introdução, a autora afirma que o livro, além de ser uma contribuição para o registro do ofício, pretende servir como uma colaboração entusiástica para evitar o desaparecimento da atividade.
Direta ou indiretamente, a obra provoca no leitor reflexões interessantes, como por exemplo sobre as atividades econômicas femininas, no decorrer do tempo, em espaços rurais; acerca da relação Homem – instrumento postulada por autores de várias áreas; a ênfase na documentação oral com abordagem informal; o uso de suportes técnicos de captação de imagens no processo de inventariado; as implicações sociais no discurso sobre o artesanato, ora considerado como produto, ora como bem; a importância dos discursos e das projeções teóricas sobre a valoração êmica e a possibilidade de controle social a partir da manipulação dessas práticas; as limitações e a impessoalidade do método do INRC.
Acima de tudo, o livro de Beatriz Góis Dantas provoca, de forma sutil, uma discussão sobre as metodologias consagradas de patrimonialização cultural e suas aplicações, bem como sobre as formas de retorno para os detentores de patrimônio cultural mais apropriadas em cada caso. Um único livro, com poucas páginas, mas que suscita inúmeras questões.

01 Segundo o Art. 216 da Constituição Federal de 1988, o patrimônio cultural brasileiro se compõe de “bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira”.
02 É no papelão que fica o desenho da renda, que será seguido pela rendeira.

Revista PROA

Bourdieu e a educação



Bourdieu e a educação: algumas reflexões
NOGUEIRA, Maria Alice; NOGUEIRA, Cláudio Martins. Bourdieu & e a educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.
SOTANA, Edvaldo Correa¹
A obra de Pierre Bourdieu ocupa um espaço considerável no mercado editorial brasileiro. Alguns dos seus livros mais importantes já foram traduzidos para o português. Além disso, suas idéias constantemente aparecem como referência teórica em inúmeras teses e dissertações produzidas no espaço acadêmico. Freqüentemente, os livros do sociólogo francês também são selecionados como referência bibliográfica para integrar os programas de ensino dos cursos de graduação e pós-graduação no país. É certo também que pesquisadores de áreas como geografia, história, ciências sociais e educação demonstram um contínuo interesse em entendê-lo.

Foi esse último aspecto que motivou Maria Alice Nogueira e Cláudio Martins Nogueira a produzirem o livro intitulado Bourdieu & a educação. Engana-se, no entanto, aquele leitor que imagina encontrar um texto com a intenção de celebrar o sociólogo francês, fetichizar sua obra e cristalizar suas idéias, pois já nas páginas iniciais os autores esclarecem que Bourdieu possui uma obra complexa: “Não se pode dizer que Bourdieu tenha construído um sistema de teoria fechado, coerente e completo. (...) sua teoria e os conceitos que a constituem foram gestados aos poucos e foram se modificando ao longo do tempo, em função dos objetos investigados e de mudanças ocorridas no campo intelectual e no contexto social mais amplo” (p.21) Com esse cuidado inicial, os autores foram movidos pelo intuito de “organizar um conjunto de idéias e de teses de forma a torná-las acessíveis e úteis a um público leitor amplo e diversificado.” (p.19).

Essa intenção levou-os a dividir o livro em quatro capítulos. No primeiro, os autores discutem o dilema colocado entre o subjetivismo e o objetivismo a partir de uma reflexão sobre a teoria da prática centrada no conceito de habitus. Os conceitos de espaço social, campo e capital (simbólico, econômico, cultural e social) são objetos do segundo capítulo. Em seguida, apresentam e discutem as análises e reflexões de Bourdieu sobre a constituição diferenciada dos sujeitos segundo sua origem social e familiar, bem como as repercussões disso no plano das atitudes e comportamentos escolares. Por fim, tratam das teses defendidas pelo sociólogo francês no que tange a função social dos sistemas de ensino.

É justamente na discussão sobre a função social dos sistemas de ensino que encontramos uma preciosa vinculação entre a teoria de Bourdieu e a educação, sobretudo para pensar a realidade brasileira. Os autores claramente indicam que, na década de 1960, Bourdieu ofereceu um “novo modelo” de interpretação sobre escola e a educação que, ao menos num primeiro momento, apareceu como “capaz de explicar tudo o que a perspectiva anterior não conseguia”, pois na instituição social em que as pessoas enxergavam “igualdade de oportunidades, meritocracia, justiça social, Bourdieu passa a ver reprodução e legitimação das desigualdades sociais.” Apontam, igualmente, que na visão do sociólogo a escola perdeu seu papel de instância “transformadora e democratizadora das sociedades” e passou a ser vista como “uma das principais instituições por meio da qual se mantêm e se legitimam os privilégios sociais.” (p.14-15). De acordo com os autores, portanto, a obra de Bourdieu demonstra que “a cultura escolar, socialmente legitimada, seria, basicamente, a cultura imposta como legitima pelas classes dominantes.” (p.85).

Ao seguir a perspectiva de não fetichizar a obra bourdiana, os acadêmicos brasileiros também apresentam as inúmeras críticas que Bourdieu recebeu por parte dos estudiosos preocupados com a função social da escola. Nesse ponto salientam, por exemplo, que o problema central apontado pelos críticos de Bourdieu relaciona-se ao “grau limitado de independência ou autonomia conferido” por ele aos “estabelecimentos de ensino e ao sistema escolar em relação � s estruturas de dominação social.” Informam, assim, que os críticos do sociólogo francês atacam o fato da escola aparecer como “uma instituição totalmente subordinada aos interesses de reprodução e legitimação das classes dominantes. Os conteúdos transmitidos, os métodos pedagógicos, as formas de avaliação, tudo seria organizado em benefício da perspectiva da dominação social.” (p.114). Especificamente, apontam um conjunto de críticos que ponderam sobre a impossibilidade de se definir o conteúdo do ensino, globalmente, como um arbitrário cultural dominante.

Demonstram, em seguida, um outro conjunto de críticas que diz respeito � diversidade interna do sistema de ensino e que, assim, apresenta a escola e os professores como não sendo iguais. Essa segunda perspectiva também discorda da visão bourdiana que tem a escola como reprodutora das desigualdades sociais, sobretudo ao argumentar que a heterogeneidade entre as escolas ou entre os professores limita as possibilidades de imposição arbitrária de uma determinada cultura.

Após apresentarem as linhas gerais do acalorado debate sobre a função da escola, os autores concluem o livro com uma breve cronologia de Pierre Bourdieu, seguida de pontuais referências sobre as obras do sociólogo publicadas no Brasil e na França, bem como aquelas que foram publicadas sobre ele e os sites que armazenam seus dados biográficos ou trechos de suas entrevistas na Internet.

Essa última parte indica pontualmente o maior mérito do livro, uma obra informativa sobre as preocupações de Bourdieu com relação � educação. Os autores brasileiros articularam de maneira muito coerente os conceitos do sociólogo francês, o papel atribuído por ele a educação e o debate gerado em função da sua concepção. Por isso, o livro pode ser uma referência, mas não a única, para aqueles que desejam iniciar o contato com a obra de Bourdieu. Afinal, foi justamente esse o intuito de Maria A. Nogueira e Cláudio Nogueira.
¹Doutorando em História pela UNESP/Assis, Docente e Coordenador do Núcleo de Pesquisa e Extensão da Faculdade de Presidente Prudente

Revista Saber Acadêmico

Cronicando a Vida



O mundo simples e cotidiano pelos olhos de uma mulher

DE CAMARGO, Maria Aparecida Bosschaerts. Cronicando a Vida. Tupã/SP: Multi Gráfica, 2003.

CÂNDIDO, Weslei Roberto¹

Crônicas. Como falar delas em tom acadêmico, se a própria natureza desse texto literário foge aos padrões da chamada grande literatura. Na verdade, a crônica nunca teve a intenção de ser “grande”, pois ao falar do cotidiano de pessoas comuns, de situações quase imperceptíveis no corre-corre diário, a crônica diverte, emociona, faz esquecer de problemas dos quais ela própria se faz tema.

Desta maneira, pode-se pensar o livro da professora e escritora Cida Bosschaerts, pelo viés da aparente facilidade, mas já sabendo que oculta temas fundamentais para o relacionamento entre homens e mulheres. É interessante começar pensando a capa de seu livro. A presença de um homem, quiçá um escritor, na verdade, oculta uma narradora que analisa o mundo ao seu redor com uma sensibilidade, talvez só possível, � s mulheres experientes e de grande sabedoria.

A capa preta com tons amarelados, que num primeiro momento pode revelar certa austeridade, deCronicando a Vida, da escritora Cida Bosschaerts funciona como uma espécie de armadilha, pois esconde páginas cheias de ternura e amor pela vida. Amor de mulher por homens: namorados, esposos, filhos, don juans que surgem e participam do ambiente feminino: � s vezes por invasão, � s vezes convidados pela força do sexo feminino que compõe o universo de muitas das crônicas deste livro.

A mulher tem uma presença constante nas histórias contadas pela narradora com humor, paixão, sensualidade e sensibilidade típicas do sexo feminino. Muitas vezes há apenas uma voz quase imperceptível, mas que no discurso revela a presença do olhar feminino sobre o ambiente ainda patriarcalista da sociedade em que vivemos.

Nem conformismo nem rebeldia o leitor encontrará nas páginas de Cronicando a Vida. Talvez pelo gênero crônica, narrativa curta, que versa sobre temas aparentemente banais, a revolta e o conformismo caminhem juntos e não se manifestem de maneira plena em nenhum momento. Pode-se dizer, na verdade, que há o olhar experiente da mulher que viveu já muitos anos e que como professora ainda não cansou de aprender, pois para ensinar como a vida revolta e pacifismo devem ser dosados, mas nunca revelados de maneira total.

Não há ressentimentos. Há retratos de personagens sem nomes, num ambiente aparentemente interiorano, porém de uma humanidade que universaliza temas cotidianos: traição, paixão, meninas apaixonadas, mulheres conformadas, lares desgastados, decepções que não podem ficar restritos apenas ao interior do Estado de São Paulo. Quiçá, os moradores de Oswaldo Cruz possam requerer esses personagens para si, identificar-se com eles, mas essas figurações femininas pertencem, com certeza, a mulheres de qualquer parte do mundo.

Como pode perceber o leitor, aqui, escapam alguns traços biográficos da autora: professora, esposa, mãe e moradora da cidade de Oswaldo Cruz, pelo menos nos momentos de descanso, pois como profissional da educação, a Universidade é o seu lugar e esse pode variar de espaço geográfico. Assim como os temas tratados pela autora pertencem � Faculdade do mundo.

Não é comum se falar muito de biografias em uma resenha, no entanto, o caráter de crônica, o prefácio de uma amiga, o tom familiar do livro, revelado nas fotos de família presentes no livro, dão abertura para essa leitura um pouco caseira das crônicas de Cida Bosschaerts. Assim, como aquela mulher que quase arremata um touro por acaso no leilão, a intenção aqui também é apenas comprar o algodão doce, adoçar a vida com a ternura das crônicas deste livro.

A literatura é um pouco isso: fuga da realidade como diz Antonio Candido, mentira na qual encontramos nossa realidade como afirma Mario Vargas Llosa, mas sempre com a intenção de adoçar um pouco a verdade medíocre das vidas consumidas pela correria do dia-a-dia amargo das experiências afetivas.

Ler, portanto, Cronicando a Vida, é parar um pouco em personagens sem faces, sem nomes, mas que estão presentes na vida de cada leitor. Na vida da mulher como sogra, esposa, namorada, enganada, abandonada, e na vida do homem, como falso don juan, revelado em suas fraquezas pelos olhos perspicazes dessa narradora que conhece muito da vida e dela pode falar com tranqüilidade, tanto do sexo feminino quanto do masculino. Enfim, fica apenas o convite, a provocação deste texto � leitura do livro desta autora, que com sensibilidade e inteligência narrou suas histórias, cronicou a vida pelos olhos de uma mulher que mostra a segurança temida, mas desejada por todos os homens que realmente anseiam se confrontar um pouco com a maneira como o sexo feminino vê o mundo e os homens que dele fazem parte. Ler Cronicando a Vida, como leitor masculino, é questionar o discurso sobre si mesmo. Ler como mulher, pode ser um desafio a questionar o papel feminino neste mundo “comandado” por homens.

¹Doutorando em Letras pela UNESP de Assis. Atualmente é Docente dos Cursos de Letras e Tradutor/Intérprete da UNIESP – Presidente Prudente

Revista Saber Acadêmico

Leonardo da Vinci e seu supercérebro

Leonardo da Vinci e seu Supercérebro

COX, Michael. Leonardo da Vinci e seu supercérebro. Trad. Eduardo Brandão. S.P.: Cia. das Letras, 2004, 176 p.
DE PAULA, Enio Freire¹

Em meio ao grande alvoroço editorial causado pela obra “O código Da Vinci” (Editora Sextante, 2004) best-seller do autor norte-americano Dan Brown e seu homônimo cinematográfico, reacendem os fatos relativos � vida e obra de Leonardo da Vinci (1452 - 1519). Misticismos � parte, é possível ao leitor curioso inteirar-se sobre aspectos deste personagem. Se dentre o público leitor encontram-se professores, o assunto até então abordado sob o enfoque místico-religioso ganha status de ciência, mais especificamente de história da ciência; pois é tarefa docente fornecer não apenas seus conteúdos pedagógicos de forma pronta e acabada, mas sim apresentar também aspectos do ser humano responsável pela criação, desenvolvimento e divulgação da determinada área científica.

Um exemplo desse ideal é o livro Leonardo da Vinci e seu supercérebro, de autoria de Michael Cox lançado no Brasil em 2004 (Companhia das letras, 176 pág., tradução de Eduardo Brandão, ilustrações de Clive Goddard) é o quarto exemplar integrante da coleção Mortos de Fama, responsável por apresentar biografias de personagens ilustres da História (Cleópatra, Al Capone e Elvis Presley) e da Ciência (Isaac Newton, Albert Einstein e agora Leonardo da Vinci) ao dito público infanto-juvenil, de maneira simples, bem humorada e recheada de belas ilustrações. O livro, organizado em 14 pequenos capítulos, excluídos dessa contagem a introdução e o epílogo, relata a vida de Leonardo da Vinci e suas principais obras, bem como discute os fatores históricos envolvidos no período em que esta personagem viveu.

Leonardo nasceu na aldeia de Vinci, na atual Itália em 15 de abril de 1452, e devido a separação dos pais pouco depois de seu nascimento, o pequeno Leonardo ficou com os avós e o tio paterno, Francesco, no vilarejo de Vinci. Durante a infância, relata Michael Cox, embora não se saiba muito sobre esse período de sua vida, Leonardo era um garoto extremamente curioso e desenhava tudo o que via. Acredita-se também que ele não freqüentou a escola, mas sim teve como orientador o padre do vilarejo, que lhe ensinou “coisas fundamentais”. Michael Cox as descreve como os “Três As”: aritmética, a ler, a escrever.

Na adolescência Leonardo e seu pai mudam para Florença. Neste momento do livro (Capítulo “A Renascença é um Barato”), o autor faz um corte histórico e retrata os aspectos da Florença do século XV junto as principais características do período Renascentista, de modo humorado e muito bem ilustrado.

Nos três capítulos seguintes (“Garanta o seu futuro no Estúdio Verrocchio”, “Um é pouco, dois é bom, três é demais!” e “Pintando o Sete”) é retratado o período em que Leonardo freqüentou o ateliê de Andréa Del Verrocchio em Florença. Naquela época, começava-se como aprendiz nesses estúdios de arte. O leitor é convidado a vivenciar o dia-a-dia de Leonardo neste ambiente: o autor descreve os pormenores dessas atividades como o preparo dos materiais, a moagem dos pigmentos (os insetos são a fonte das cores!), confecção de pincéis (feitos com pêlos de porco) e as diferenças entre a pintura a tempera � ovo e a pintura � óleo.

Um capítulo inteiro é dedicado � discussão histórica do surgimento da perspectiva e a contribuição que Leonardo criará: o perspectógrafo, cuja função segundo o autor, era destinado a facilitar o desenho e a pintura e a garantir máxima precisão dos detalhes e da perspectiva. Leonardo ajudou seu mestre, Verrocchio, na pintura de um anjo em um de seus quadros; partindo daí, o autor trata as diversas técnicas de pintura renascentista: sfumato, chiaroscuro e afresco. Depois desse episódio, Leonardo, então com 23 anos inicia sua carreira de mestre-pintor na Companhia de São Lucas, uma das associações florentinas de artistas. No capítulo “Estados Desunidos da Itália”, Michael Cox discute a situação política da atual Itália, no século XV: um território dividido em cerca de 14 cidades-Estado, cada qual controlada por uma família (Médici, Sforza, entre outros), que vez ou outra entravam em guerra.

Embora até aqui não tenha sido mencionado, o autor utiliza-se de outro artífice, além das ilustrações, com o intuito de aproximar leitor e personagens: muitos fatos são narrados via um “jornal de época” como “A Folha de Florença” e o “Tribuna Milanesa”, além das anotações no “Caderno Perdido do Léo”. Detalhe importante: Leonardo escreveu mais de 13 mil páginas sobre os mais variados assuntos como música, anatomia e mecânica, a maioria deles de uma forma curiosa: Leonardo escrevia de trás para frente da direita para a esquerda! Em 1482, então com 30 anos de idade, Leonardo muda-se de Florença para Milão, e consegue um cargo no palácio de Ludovico Sforza (1451 - 1508). Leonardo exerce pelo menos três cargos, segundo o autor: 1º) pintor da corte; 2º) Mestre das festividades da corte e 3º) Engenheiro-geral e Mestre-de-obras. Foi neste período, em Milão, que Leonardo da Vinci envolveu-se num grande projeto: a construção de uma estátua de bronze de um gigantesco cavalo que, infelizmente não chegou a ser realizada por ele (apenas 500 anos depois...); e pintou a “Última Ceia”, localizada no refeitório (melhor lugar para retratar uma ceia!) do mosteiro de Santa Marie delle Grazie, também localizado em Milão. Nos momentos subseqüentes são apresentados ao leitor as principais datas de tentativa e/ou realização das restaurações na obra, bem como os infortúnios ocorridos com a mesma. Em 1500, sai de Milão e daí em diante, e praticamente pelo resto da vida, Leonardo perambula por diversas cidades da Europa, sem destino certo.

Os capítulos finais abordam as invenções bélicas e detalhes da obra Mona Lisa, mundialmente conhecida e também de sua autoria, além das discussões entre ele e o então jovem Michelangelo Buonarrotti (1475 – 1564). Há um capítulo exclusivo � um dos fascínios de Leonardo: as máquinas voadoras. Leonardo morreu em 2 de maio de 1519, aos 67 anos. Seu corpo foi enterrado na França e devido a restaurações posteriores não se sabe ao certo se os ossos ali enterrados são, realmente, de Leonardo. Devido a esta dúvida, está gravado o seguinte em sua lápide:

“AQUI JAZ O QUE SE ACREDITA SEREM OS RESTOS MORTAIS DE LEONARDO DA VINCI”. A leitura deste livro, inicialmente de caráter despreocupado e juvenil, demonstra que entre a leitura fácil, agradável e indiscutivelmente bem humorada é possível proporcionar ao leitor, seja ele de qualquer idade, fatos interessantes e cientificamente corretos, mediante uma abordagem diferenciada. O conhecimento científico não é exclusividade dos poucos escolhidos do Olimpo: são de extrema importância sugerir tais leituras a todos, jovens, adultos e crianças. Boa leitura!

¹Discente do 4º ano do curso de Licenciatura em Matemática da FCT-UNESP campus de Presidente Prudente e atua junto ao L.E.M - Laboratório de Ensino de Matemática, mantido pela mesma isntituição.


Revista Saber Acadêmico

terça-feira, 8 de maio de 2012

História. A arte de inventar o passado



Durval Muniz de Albuquerque Júnior. História. A arte de inventar o passado: ensaios de teoria da história



Temístocles Cezar
Pesquisador do CNPq – Depto. de História — Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Av. Bento Gonçalves, 9500 – CP 91501-970. 91509-900 Porto Alegre – RS – Brasil. t.cezar@ufrgs.br


Bauru (SP): Edusc, 2007. 256p.
Era de profissão encantador de palavras.
Manoel de Barros1
Durval Muniz de Albuquerque Júnior é de profissão historiador, o que não o impede de ser também um 'encantador' de palavras. História. A arte de inventar o passado, seu último livro, é uma coletânea de artigos sobre teoria da história articulados a partir de uma temática central: as diferentes formas de se pensar e de se escrever a história. Tarefa em geral árdua, ela é aqui tratada de modo rigoroso mas, ao mesmo tempo, sem a severidade de quem apenas quer dar lições. Como Michelet, Durval Muniz em vez de simplesmente redigir, escreve.2 Escrita audaciosa, provocativa, criativa e elegante, não diria, contudo, que ele escreva com uma "linguagem de em dia-de-semana", como suplica um 'famigerado' personagem de Guimarães Rosa.3 Mas que ele nos conduz para o terreno 'nebuloso' e 'temerário' da arte literária, disso, não tenho dúvida. Cuidado, historiadores! Durval Muniz, tal como Foucault, é um desses 'sujeitos' perturbadores da boa ordem científica, desses que se colocam entre o sono dogmático e a vigília epistemológica 'só' para provocar a polêmica.
Prefaciada por um historiador da história, Manoel Salgado Guimarães, que ressalta o papel da obra no conjunto da produção historiográfica brasileira recente e o percurso intelectual do autor, o livro divide-se em três partes: na primeira é discutida a relação entre história e literatura; após, uma seção inteira dedicada à obra de Michel Foucault; e, por fim, uma reunião de artigos variados. Esses textos, quase todos curtos — o que não subtrai sua capacidade argumentativa —, são antecedidos por uma introdução na qual Durval Muniz procura problematizar e inserir no contexto contemporâneo a noção-chave do título — 'invenção': "A História possui objetos e sujeitos porque os fabrica, inventa-os, assim como o rio inventa o seu curso e suas margens ao passar. Mas estes objetos e sujeitos também inventam a história, da mesma forma que as margens constituem parte inseparável do rio, que o inventa", explica-nos ele com auxílio de uma analogia baseada em conto das Primeiras estórias.4
Ainda nessa parte introdutória, o autor debruça-se sobre outros aspectos relacionados à questão, entre os quais a divisão artificial entre a perspectiva cultural e a social. Eu gostaria de chamar atenção, entretanto, para uma outra dimensão que pode passar desapercebida em uma primeira ou rápida leitura: a da 'evidência' da história; 'evidência', palavra mais próxima da retórica e da filosofia que da história. Para Durval Muniz a idéia de que "os fatos se impõem ao historiador como evidência" é uma falácia, na medida em que ele dissimula o trabalho de construção não apenas do documento histórico mas também da própria escrita da história (p.32, 35). O autor inscreve-se assim em um momento reflexivo que a própria disciplina vem atravessando na última década, como bem demonstra um livro recente de François Hartog, cujo objetivo também é o de questionar a suposta evidência da história.5
Os artigos que compõem a primeira parte podem ser lidos como uma tentativa de fraturar a clássica oposição entre literatura e história. O autor busca dissolver a certeza manifesta do 'evidente' desencontro entre literatos e historiadores: "meu objetivo não será separar a História da Literatura, não será encontrar seus limites e suas fronteiras, mas articulá-las, pensar uma com a outra" (p.44). De Clarice Lispector, passando pela hilária dupla Bouvard e Pécuchet, de Flaubert, pelo sisudo Kafka, chegando ao desconcertante poeta Manoel de Barros, Durval Muniz atinge plenamente seu propósito: ele os articula e os pensa, e de forma extremamente inovadora. Não imaginemos, entretanto, que estejamos diante de um "culto ao texto", isto é, que nada existiria fora dele, que a realidade textual seria a promotora incontestável de toda a revelação e verdade sobre as coisas pretéritas.6 Um estudo sobre os diferentes modos de os historiadores servirem-se da linguagem não significa, necessariamente, a queda em perspectivas negadoras da possibilidade do conhecimento.7'Inventar' e 'imaginar' são verbos que fazem parte das metodologias silenciosas, ou silenciadas, da historiografia: "a interpretação em História é a imaginação de uma intriga, de um enredo para os fragmentos de passado que se têm na mão", todavia, ressalva importante, "isto não significa esquecermos nosso compromisso com a produção metódica de um saber, com o estabelecimento de uma pragmática institucional, que ofereça regras para a produção deste conhecimento, pois não devemos abrir mão também da dimensão científica que o nosso ofício possa ter" (p.63-64). O autor chega mesmo a falar nos limites impostos pelo "nosso arquivo" (o pronome possessivo preserva a primeira parte, enquanto o arquivo preserva a segunda; p.64). Trata-se de uma resposta prévia à provável objeção de um pós-modernismo-relativista do qual devemos manter as crianças afastadas? Talvez. O certo é que Durval Muniz sabe ser doutor quando quer. Mesmo optando em situar sua produção em um discurso sobre a pós-modernidade (sinceramente não sei qual razão o leva para esse debate, ainda um embate de grandes narrativas, que visam mais desqualificar o outro do que contribuir para um entendimento sociocultural do mundo em que vivemos), o autor deixa claro que não rompeu com os princípios da 'operação historiográfica' de um autor que lhe é caro, Michel de Certeau.8
Consagrada aos trabalhos de Foucault, a parte seguinte do livro é composta de seis capítulos. No primeiro desses estudos, o autor nos apresenta um estudo comparativo entre o Menocchio de Ginzburg e o Rivière de Foucault. Através de uma consistente crítica ao historiador italiano, Durval Muniz demonstra como seu personagem "termina se explicando pelo contexto mesmo em toda sua singularidade", enquanto no dossiê organizado por Foucault acerca de Rivière a preocupação não é a de explicar suas palavras e os atos, "mas como estas palavras e estes atos foram silenciados" (p.105). O capítulo seguinte tem por objetivo analisar a obra de Foucault, de certa forma, à luz do próprio Foucault, quer dizer, como suas pesquisas relacionam-se com sua existência, com seus costumes, de onde o autor extrai a idéia nietzschiana de que o pensamento do francês deve ser mais do que discutido, usado. A reflexão seguinte relaciona-se à noção de experiência em Foucault confrontada àquela de Edward Thompson. Para Durval Muniz, enquanto o filósofo evita essencializar as experiências históricas ao negar-lhes um caráter tão-somente fundante, o historiador inglês as limita, em última instância, a serem efeitos fundacionais das classes sociais. Os dois estudos que se seguem procuram analisar, sempre a partir de Foucault, a questão do objeto em história, e a importância do 'jogo' na história (o exemplo explorado pelo autor não podia ser mais apropriado: o futebol) e sua correlata desconsideração pela historiografia como resultado de uma luta de poder.9 Por fim, uma homenagem a Foucault, um homem que "morreu de rir", dele (da doença que o vitimou, por exemplo) e dos outros, sobretudo dos poderes instituídos (p.193).
Destacaria, nos ensaios esparsos, a crítica de Durval Muniz à história oral. A conversão do oral em escrito, que anula significativamente a manifestação gestual e as emoções do ato de fala, a possível interferência do roteiro e, finalmente, a presença mesma do historiador-entrevistador como personagem da entrevista, são algumas da questões levantadas pelo autor, que não chega a investir em respostas mais aprofundadas. Sua relativa desconfiança (pois não há uma desconsideração pelos avanços realizados por inúmeros pesquisadores nesse campo) em relação às possibilidades da história oral, segundo ele "indefinida entre uma técnica, um método, uma postura teórica", leva-o a se perguntar: "terá ela conseguido converter a derrota histórica das oralidades para a escritura?". Não lhe parece: "até porque ela seria um agente infiltrado, que continua em busca dos segredos dos que falam para escrevê-los, tornando-os documentos, inscrevendo-os como monumentos" (p.234). Acredito que mais do que simplesmente provocar os historiadores da história oral, Durval Muniz busque no debate produtivo com esses profissionais respostas às suas inquietações, pois para ele, o que temos no final é "a reafirmação do poder dos que escrevem, dos que dominam a escrita sobre os que falam, os que apenas verbalizam seus conhecimentos, suas experiências. A história é mais um artefato que reafirma a dominação dos que escrevem sobre os que falam" (p.233). Convenhamos, não é todo sujeito com o dom da escrita que reconhece isso...
Finalmente, tentando não deixar passar em branco aquele que, em minha opinião, é o texto mais sensível e poético de Durval Muniz neste livro, sua homenagem a um grande amigo,10 eu me permito uma 'invenção' (como os discursos de Tucídides!), ainda que parcial:
Paris, maio de 1961: "Para falar da loucura seria preciso ter o talento de um poeta", conclui Michel Foucault depois de deslumbrar o júri e a platéia com a brilhante apresentação de seu trabalho. "Mas o senhor o tem", responde Georges Canguilhem. Campinas, abril de 1994: "Para falar da invenção do Nordeste brasileiro seria preciso ter o talento de um poeta", assim Durval Muniz de Albuquerque Júnior poderia ter concluído a exposição inicial de sua tese, e Alcir Lenharo, seu orientador, poderia ter respondido: "Mas o senhor o tem". E quem poderia afirmar o contrário?11

NOTAS
1 BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão. Rio de Janeiro: Record, 2007. p.17.         [ Links ]
2 BARTHES, Roland. Le bruissement de la langue. Paris: Seuil, 1984. p.244-245.         [ Links ]
3 ROSA, Guimarães. Primeiras estórias. Rio de Janeiro: J. Oympio Ed., 1981. p.11.         [ Links ]
4 ALBUQUERQUE Jr., 2007, p.29; ROSA, Guimarães. "A terceira margem do rio", em ROSA, 1981, p.27-32.         [ Links ]
5 HARTOG, François. Évidence de l'histoire. Ce que voient les historiens. Paris: Éd. de l'EHESS, 2005.         [ Links ]
6 FAYE, Jean Pierre. Théorie du récit, 1972, p.130,         [ Links ]citado em HARTOG, François. Le miroir d'Hérodote. Essai sur la représentation de l'autre. Paris: Gallimard, 1991. p.321.         [ Links ]
7 É o caso do trabalho de R. Koselleck, assim definido por Hayden White: a "história da historiografia, na visão de Koselleck, é a história da evolução da linguagem dos historiadores". WHITE, H. Foreword. In: KOSELLECK, R. The practice of conceptual history. Stanford: Stanford University Press, 2002. p.XIII.         [ Links ]
8 CERTEAU, Michel de. L'écriture de l'histoire. Paris: Gallimard, 1975. p.63-120.         [ Links ]
9 "Chega de ensaios racionalistas que, como diria Nietzsche, mal escondem o seu rancor e sua demagogia". CERTEAU, 1975, p.178.
10 "Íntimas histórias: a amizade como método de trabalho historiográfico", ibidem, p.211-217.
11 ERIBON, Didier. Michel Foucault. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p.117;         [ Links ]ALBUQUERQUE Jr., Durval Muniz de. A invenção do Nordeste e outras artes. São Paulo: Cortez, 1999. p.9.         [ Links ]


Revista Brasileira de História

Cidades da mineração



Regina Beatriz Guimarães Neto Cidades da mineração: memória e práticas culturais: Mato Grosso na primeira metade do século XX



Antonio Edmilson Martins Rodrigues
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) – Pontifícia Universidade Católica – Rio de Janeiro (PUC-Rio). Rua Marquês de São Vicente, 225, Sala 512 F – Gávea. 22453-900 Rio de Janeiro – RJ – Brasil. edmilson@puc-rio.br


Cuiabá: Ed. UFMT; Carlini & Caniato Editorial, 2006. 272p.
Alguns encargos constituem fardos pesados e são resolvidos com má vontade; outros são tão prazerosos que gostaríamos de prolongá-los. Bom exemplo deste segundo caso é a leitura de Cidades da mineração, de Regina Beatriz Guimarães Neto. Construído inicialmente como tese de doutorado, o livro se destaca por ampliar os horizontes e o quadro de reflexões sobre a modernidade brasileira para fora do eixo que comumente os historiadores e cientistas sociais tomam como exemplaridade desse processo de mudanças. A escolha de Mato Grosso como tema de estudo sobre a expansão da urbanização no Centro-Oeste é instigante porque parte das referências teóricas comuns aos estudos da modernidade no Sudeste e, de saída, estabelece com eles um diálogo crítico que alcança o modo pelo qual até agora vem sendo tratada a questão da modernização no Brasil. O diálogo proposto aponta para a periodização que solicita de todas as áreas brasileiras os mesmos elementos para dar-lhes a condição de progresso. Regina Beatriz é dura nas suas críticas ao processo de exclusão de regiões desse horizonte de desenvolvimento.
Para dar ao diálogo crítico maior corpo, transforma o seu estudo em uma busca incessante de compreensão do que estaria para além das estruturas econômicas, sempre apresentadas como elemento definidor da inclusão, ou não, de regiões. Avança introduzindo na análise os elementos culturais, vistos da perspectiva da diversidade de contatos e entendidos como formalizadores de novos traços culturais capazes de dar identidade à região, considerada freqüentemente como uma região de passagem. Disso resulta uma contribuição significativa para os estudos culturais, por sua heterogeneidade, e abre-se caminho para que o trabalho possa ser integrado aos estudos sobre expansão de fronteiras, com a singularidade de colocar em jogo as referências da vida, o movimento dos sentimentos e a genealogia da conquista.
É nesse ponto que o livro de Regina Beatriz se mostra mais audacioso. Revela, na linha de Euclides da Cunha, emOs sertões, como a poeira possui traços que podem servir de rastros para a compreensão da realidade.
Mas o desbravamento realizado pela autora vai além e constitui uma das apostas interessantes numa área, ainda desértica, que é a dos estudos de frentes de expansão do Brasil central. Se isso não bastasse, ainda nos oferece outra lição sobre a utilização de fontes produzidas pela metodologia da história oral. A autora nos fornece elementos que, de um lado, nos ajudam a compreender as linhas de ponta dessa metodologia e, de outro, mostram exemplarmente como devemos trabalhar as memórias para que o resultado não seja apenas uma narrativa que tenta atar pontos comuns entre aqueles que falam. Temos aí um instrumento de produção de uma história singular das conquistas e da ocupação do espaço, e seus resultados, combinados com as leituras teóricas — que vão de Deleuze a Ginzburg —, oferecem um 'desenho' do Centro-Oeste. Desenho esse que ultrapassa as formas de simplificação explicativa oferecidas pelas interpretações tradicionais da região.
Com isso, a autora inclui o Centro-Oeste em uma discussão que elimina a sua condição de apêndice de uma economia maior, complemento ou periferia de transformações históricas que construíram a nação brasileira. Nesse sentido, as reflexões contidas no livro auxiliam no entendimento das variadas formas e projetos que estiveram presentes no processo de institucionalização do nacional no Brasil.
Outro ponto de destaque é a forma da narrativa adotada por Regina Beatriz, que nos dá a sensação de vivenciar os fatos e de entendermos os processos, mas que também nos lembra que o historiador deve, antes de tudo, narrar os modos de compreensão de determinado tema. O historiador deve antes compreender para depois indicar elementos explicativos. Nesse aspecto, a autora oferece uma narrativa que nos envolve no processo de expansão da região, das rotas iniciais de deslocamento, não só de São Paulo e de Minas Gerais, como também de outras áreas. Expõe, assim, a potencialidade da história ali presente, principalmente introduzindo como premissa a constituição das fazendas para logo a seguir mostrar como se estabelecem os caminhos de expansão dos nortistas. Isso é feito com o intuito de demonstrar como esses caminhos definidos pelos tropeiros vão dar origem a cidades, onde predomina a diversidade de culturas. Tais cidades contêm um imaginário fértil que decorre exatamente dessa multiplicidade de presenças, motivo pelo qual elas solicitam a presença da modernização e da civilização.
Esse percurso é realizado no capítulo final do livro, onde estão apresentados "os artifícios da civilidade" e os caminhos que essa solicitação de civilização toma, através das memórias de famílias. Essa linha de reflexão faz que o livro de Regina Beatriz possa se aproximar do texto de referência para a modernidade fora do Sudeste, intitulado Trem Fantasma, a modernidade na selva. Como Francisco Foot Hardmann, a autora desvenda o 'espetáculo' da modernização na selvageria inóspita de espaços conquistados e, com perícia, combina a multiplicidade cultural daqueles que para essa região se dirigiram, reforçando esse processo de compreensão com relação às histórias de vida da região.
Ao final da leitura temos a sensação de que aprendemos algo, de que tivemos contato com novas questões. Isso em um universo editorial em que os livros arriscam cada vez menos, são menos audaciosos e mais despossuídos de teses.
Por isso, Cidades da mineração é uma leitura obrigatória não só para quem pretende ampliar o seu horizonte de conhecimentos sobre a modernidade brasileira e o processo de constituição das cidades da mineração no Mato Grosso da primeira metade do século XX, mas também para quem quer observar como se pode combinar análise e síntese, lembrando a velha, mas cada vez mais oportuna, proposição de Lucien Febvre.

Revista Brasileira de História


Uma pré-história do turismo no Brasil



Haroldo Leitão Camargo. Uma pré-história do turismo no Brasil: recreações aristocráticas e lazeres burgueses (1808-1850)



Sandra C. A. Pelegrini
Depto. de História – Universidade Estadual de Maringá. Avenida Colombo, 5790, Jardim Universitário.87020-900 Maringá – PR – Brasil.spelegrini@wnet.com.br


São Paulo: Aleph, 2007. 383p.
Na efeméride dos duzentos anos da chegada da Coroa Portuguesa a terras brasileiras e na esteira das inovações que trouxe consigo — como a criação de instituições de ensino superior, indústrias, imprensa e museus, entre outras —, observamos que a historiografia tem revisitado esses temas. No entanto, poucos especialistas têm se debruçado sobre o estudo das formas de lazer introduzidas no Brasil Colônia, após 1808 — temática eleita por Haroldo Leitão Camargo em Uma pré-história do turismo no Brasil. Trata-se de um volume que retoma a análise dos percalços das viagens transoceânicas realizadas entre os séculos XVI e XIX e das transformações que distintas formas de diversão adquiriram no Brasil. Todavia, sua principal contribuição diz respeito à conceituação do 'proto-turismo' e ao estudo das conotações atribuídas às recreações, aos banhos de mar, às caldas e às estâncias hidrominerais desfrutados pelos membros da corte e seus pares.
Uma narrativa envolvente e fundamentada em documentação diversificada nos introduz em um universo que abarca desde relatos de navegadores anônimos manifestos por tripulantes de embarcações, funcionários da Companhia das índias ocidentais, comerciantes, jesuítas e capuchinhos, até correspondências pessoais de aspirantes a marinheiro como Manet, que se tornaria reconhecido artista plástico. Registros de exploradores e cientistas estrangeiros que se aventuraram pelas terras tropicais e comentários de personagens emblemáticos, como Pero Vaz de Caminha, também não escaparam de uma cuidadosa análise por parte do autor.
Com efeito, Camargo nos deleita com impressões transmitidas por olhares estrangeiros através da literatura de viagem, muito apreciada entre os europeus no século XIX. Um gênero que corroborou para transformar o exercício individual da leitura numa prática de sociabilidade compartilhada em serões domésticos não apenas na Europa, mas também no Brasil. Além dessa literatura, o autor toma como referenciais investigativos folhetins, anúncios, vinhetas, ilustrações e diários de membros da corte com o intuito de apreender o sentido atribuído para as práticas sociais que incluíram os benefícios medicinais das águas minerais e sulfurosas, as atividades em balneários marítimos e as diversões desfrutadas por parte significativa da aristocracia portuguesa instalada no Brasil no início do século XIX, reproduzidas também pela fidalguia mais abastada.
Tal empreitada exigiu a averiguação de pistas acerca das motivações e as inovações tecnológicas capazes de propiciar a oferta de atividades que levariam os indivíduos a se afastarem do trabalho (ou do não-trabalho) e seriam, na atualidade, decodificadas como anseios associados às necessidades psíquicas e culturais de os cidadãos esquivarem-se de suas rotinas cotidianas. Nesse percurso, Camargo não se furta da investigação sobre os significados históricos da vilegiatura, das caçadas e dos jogos de carteado, da hospedagem nos cottages na Serra, da construção de casas de veraneio, enfim, de recreações em tempos e espaços sociais distintos. Aborda a origem etimológica dos vocábulos e as suas similaridades e diferenças em relação ao turismo, tal como é concebido pela sociedade capitalista.
O livro examina de que maneira determinados costumes passaram a ser reconhecidos como embriões do turismo no país e procura desvelar visões simplistas, cujo intuito se circunscreve a associar, por exemplo, os banhos ao turismo. Interessado em compreender as alterações que, simultaneamente, enredaram a ritualização desse fenômeno, pesquisa os hábitos que passaram a adquirir sentidos lúdicos e a envolver serviços remunerados sem, no entanto, excluir as indicações médicas que os inflaram. Para tanto, opta por analisar a gênese e o desenvolvimento de determinadas práticas cotidianas, como as desenvolvidas nos antigos balneários romanos e outras que, ao longo dos séculos, se transformaram em atividades recreativas ou terapêuticas recorrentes entre a aristocracia européia, igualmente adotadas no Brasil pela 'Corte Tropical'.
Do seu ponto de vista, a vilegiatura, as visitas à Floresta da Tijuca, ao Corcovado ou ao Horto Real ou Jardim Botânico indicam a busca de ares mais puros e a fuga da usualidade. Os banhos em águas salgadas ou passeios à beira-mar difundidos entre aristocratas e burgueses, a princípio recomendados por médicos, posteriormente assumiram um perfil hedonista e prazeroso distante das motivações terapêuticas e profiláticas iniciais.
Nessa linha argumentativa, o autor salienta que as visitas às fontes de águas minerais e às caldas, praticadas desde a Antiguidade, assumiram uma dimensão disciplinada e regular a partir da amplitude que atingiram no discurso médico no século XVIII e ora se imbricaram a empreendimentos médico-hospitalares, ora se associaram ao 'curismo-turismo', como ocorreu na Grã-Bretanha, na Europa Ocidental e Central. No Brasil, o usufruir das chamadas 'águas virtuosas' implicou as facilidades de acesso a esses locais, bem como diferentes percepções sobre suas finalidades. Enquanto para o comerciante inglês John Luccock1 elas apresentavam um potencial comercial a ser explorado, para D. João VI, fundamentado talvez em princípios de 'eqüidade' ou em perspectivas empresariais limitadas, a virtude curativa dessas águas devia ser consagrada a remediar "moléstias rebeldes aos esforços da Medicina e da Cirurgia" (p.259).
As viagens transoceânicas e os seus infortúnios constituem um outro assunto abordado por Haroldo L. Camargo, um tema recorrente na literatura especializada que deu e continua dando vazão às fábulas alimentadas no imaginário social. Assim, por intermédio de fragmentos de relatos dos vários viajantes, o historiador evidencia situações vivenciadas no cotidiano das embarcações que se precipitavam mar adentro e remete à precariedade das condições de vida a bordo, entre os séculos XVI e XVIII. Para esses passageiros e tripulantes, o conceito de uma viagem profícua se circunscrevia à condição de escapar com vida ao seu término.
Apenas para aguçarmos a diligência de futuros interlocutores, vale retomar determinados relatos analisados nesse volume, como os do jesuíta Antônio Sepp, do funcionário da Companhia das índias ocidentais da Holanda Joan Nieuhof e do marquês de Távora. Alguns deles descrevem suas impressões sobre o Brasil e seus habitantes, mas salientam os contratempos enfrentados no transcurso das viagens, tais como: sucessivas tempestades, a putrefação dos alimentos, a contaminação da água potável, o desconforto psicológico e material, a necessidade de superar a 'lenta' passagem do tempo, as pestes e doenças. Como se não bastassem tais mazelas, mencionam ataques de corsários inculpados de saquear as embarcações, ferir os tripulantes e escravizar os sobreviventes. O temor dos 'perigos do mar', por exemplo, é exposto com minúcias por Joan Nieuhof que, em 1640, desembarcou no Recife.
Os relatos tomados como fontes por Camargo tendem a desmistificar o imaginário ocidental relativo às imagens romanescas criadas em torno dos tripulantes das naus e suas 'façanhas heróicas'. Se nos séculos XV e XVII alguns registros dessas viagens se aproximam do que o autor define como 'confissões catárticas', os relatos dos séculos XVIII e XIX apontam alterações no perfil dos viajantes e, principalmente, da tripulação — em geral, composta por pessoas marginalizadas socialmente e que abraçavam a profissão sem conhecer as artimanhas do ofício. O jesuíta Antônio Sepp, cujo translado iniciou-se em Cádiz (Espanha) com destino a Buenos Aires (Argentina), no segundo quartel do século XVII, inquieta o leitor porque se refere aos 'conceitos e preconceitos' manifestos no ambiente social interno dessas embarcações. Ele admite nutrir rancores contra o comandante considerado mesquinho e ambicioso. Já em 1750, o marquês de Távora mostra-se indignado frente à brutalização dos marinheiros e chega a afirmar: "Posso lhes assegurar que ... sentem mais a morte de um de seus frangos do que a perda de cinco ou seis companheiros de viagem" (citado na p.53).
De todo modo, cabe-nos destacar que o historiador extrai das entrelinhas dessas narrativas algumas verossimilhanças e esmiúça as imagens idealizadas impressas na literatura que se reporta à pirataria ou aos desafios das viagens transoceânicas. Tais temas foram e continuam sendo alvo de inspiração para produções cinematográficas e literárias que não raro são apropriadas por empreendimentos turísticos e pela publicidade. Nessa direção, assevera: "O turismo reelabora para os seus próprios fins as imagens e a produção delas decorrentes..." e ao referir-se às recreações dessa natureza lembra que "Em torno delas, há uma orquestração que pretende revivê-las, mitigadas e conseqüentemente desprovidas de suas características reais..." (p.55).
Sem dúvida, as perspectivas de desfrutar da aventura, do terror ou do prazer estimulam sensações muito bem exploradas por empresas que se ocupam do turismo desde que a sociedade industrial criou o axioma 'tempo é dinheiro'. O tempo deve ser integralmente aproveitado, até mesmo aquele destinado ao descanso, à recreação e ao lazer. Encerramos esta resenha citando o historiador Evaldo Cabral de Mello quando afirma que "o prazer de falar de um bom livro só é inferior ao prazer de lê-lo",2 e salientamos a propriedade com que Haroldo Camargo trata a problemática pesquisada — tema candente na atualidade.

NOTAS
1 Luccock viveu no Rio de Janeiro entre 1808 e 1818. Ao retornar ao seu país publicou Notas sobre o Rio de Janeiro e partes meridionais do Brasil, em 1820. O livro foi traduzido para o alemão um ano depois e compilado em 1831 numa versão destinada ao público juvenil, dada a significativa aceitação do tema entre os europeus. No Brasil, há duas edições: Itatiaia (Belo Horizonte) e São Paulo (Edusp, 1975). Cf. CAMARGO, 2007, p.79, 367.
2 Cf. MELLO, E. C. "Em O modelo italiano, Fernand Braudel examina o apogeu cultural, político e econômico do país nos séculos 15, 16 e 17". Folha de S. Paulo, 23.dez.2007, Caderno Mais, p.8.     

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