terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Reforma conventual: atuação feminina no México setecentista*


Reforma conventual: atuação feminina no México setecentista*

Luciana Gandelman

Pós-doutoranda na Cátedra Jaime Cortesão – USP. lucianagandelman@yahoo.com.br

Em meados do século XVIII a cidade do México, capital do vice-reino da Nova Espanha e sede do arcebispado, estava em plena expansão. Segundo os censos do período, a cidade contava com algo em torno de 112.462 habitantes, sendo possivelmente a maior da América. Por suas numerosas e movimentadas ruas espalhavam-se 84 igrejas, 7 hospitais, 9 colégios de meninos, 2 escolas de meninas, 1 academia de artes, 1 escola de mineração, 1 universidade, 36 mosteiros de religiosos, alguns recolhimentos de mulheres e 19 conventos femininos.

Os conventos de religiosas no México recebiam um público heterogêneo de mulheres, pertencentes a diferentes etnias e estatutos sociais, divididas hierarquicamente em um complexo rol de postos e funções. Essas instituições, pilares fundamentais da sociedade mexicana, desempenhavam a um só tempo os papéis de instituições religiosas, casas de seguridade social e locais de apoio a estratégias familiares ligadas a herança, sucessão, casamento, prestígio e honra. Os conventos tiveram diferentes graus de crescimento e prosperidade, sendo que alguns chegaram a reunir uma considerável parcela da população feminina da elite, alcançando, por conseguinte, poderio político e econômico. Na segunda metade do século XVIII, essas instituições, graças à atuação de dois arcebispos, passaram por um conturbado processo de reforma. As propostas de reforma desses prelados geraram fortes polêmicas que ultrapassaram os muros dos conventos e envolveram a sociedade mexicana como um todo, de autoridades eclesiásticas e civis a famílias da elite e homens da governança local. Foi com o objetivo de entender esses acontecimentos que a historiadora espanhola Isabel Arenas Frutos se debruçou sobre os governos eclesiásticos dos arcebispos Don Francisco Antonio Lorenzana e Don Alonso Núñez de Haro, no livro que é o tema desta resenha.

O livro de Isabel Arenas faz parte da coleção intitulada Tradición Clásica y Humanística en España e Iberoamerica, publicada pela Universidade de Léon, que procura entender o pensamento humanístico espanhol e seus desdobramentos nos períodos do barroco e da ilustração. A pesquisa da autora situa-se, portanto, no conjunto das investigações que procuram avaliar o impacto do pensamento ilustrado na Europa e na América e as mudanças ocasionadas pela ilustração nessas sociedades. Assim sendo, Arenas situa o recorte temporal de sua investigação na segunda metade do século XVIII, especialmente entre os anos de 1766 e 1775, período correspondente à atuação do mencionado arcebispo, Don Francisco Antonio Lorenzana e a parte do governo de seu sucessor, Don Alonso Núñez de Haro. Ambos os religiosos haviam nascido em famílias fidalgas da Espanha durante a década de 20 do século XVIII. Don Francisco Antonio Lorenzana iniciou seus estudos com os jesuítas e os beneditinos e, ainda na primeira metade do século XVIII, estudou Leis e Cânones em diversas universidades espanholas, construindo uma carreira eclesiástica na Espanha. Quando, em 1766, foi nomeado arcebispo do México e rumou para a América junto com o novo vice-rei, Marquês de Croix, trouxe consigo, segundo a autora, um espírito marcado por influências do pensamento ilustrado e regalista de então. De forma semelhante, seu sucessor a partir de 1772, Don Alonso Nùñez de Haro, educado pelo tio cônego e posteriormente pelos dominicanos e formado em filosofia e teologia por universidades italianas, manteria essa tendência, ainda que com uma atuação menos incisiva. Ao longo de seus governos, os dois arcebispos tiveram de lidar com as pressões anticlericais presentes em certas facetas do pensamento ilustrado e regalista do período e com as conseqüentes demandas por reformas internas na Igreja e nas ordens religiosas inspiradas por essa mesma corrente de pensamento.1

Entretanto, dentre todos os desafios apresentados por esse momento de inflexão na sociedade mexicana, Isabel Arenas interessa-se mais especificamente pelo impacto das reformas direcionadas aos conventos femininos existentes na cidade. Nesse sentido, o trabalho da autora insere-se não somente nos estudos acerca do impacto do pensamento ilustrado, mas também nas vertentes de investigação ligadas à história das mulheres, aos estudos da reclusão feminina e à história das instituições religiosas femininas. Desde pelo menos a década de 1980, os estudos sobre a reclusão feminina, tanto em instituições leigas quanto religiosas, vêm ganhando maior atenção de historiadores e pesquisadores como um aspecto importante para a compreensão das experiências femininas na Europa e em territórios ultramarinos ao longo da época moderna. A investigação sobre o fenômeno da reclusão feminina tem sido particularmente importante entre os historiadores ligados à história social e cultural da Europa católica e mediterrânea e suas colônias.2 No caso dos estudos sobre o México, o trabalho de Isabel Arenas vem se reunir ao pioneiro livro de Josefine Muriel, intitulado Los recogimientos de mujeres: respuesta a una problemática social novohispana3, publicado em 1974, e a obras mais recentes, como a coletânea de artigos organizada por Asunción Lavrin e Rosalva Loreto López, intitulada Monjas y beatas. La escritura feminina em la espiritualidad barroca novohispana, siglos XVII y XVIII4, entre outros.5

Acompanhando os desdobramentos da história das mulheres e dos estudos das relações de gênero, as pesquisas acerca da reclusão feminina, ao darem visibilidade às experiências femininas, têm evitado a vitimização das mulheres e buscado entendê-las como agentes sociais imersos em redes de relação, poder, obrigação e solidariedade que ora possibilitam ora restringem seu campo de atuação. Arenas reconhece que as possibilidades de atuação feminina nas sociedades modernas ibero-americanas eram de certa forma limitadas pela organização patriarcal da sociedade, cujas instituições, legislação e agentes reforçavam constantemente a submissão feminina. Uma das grandes desvantagens enfrentadas pelas mulheres no período, aponta a autora, seria o fato de terem poucas oportunidades de se organizar e de atuar em grupo e, portanto, de carecerem de uma rede ampla de conexões que reforçasse seus esforços individuais e canalizasse suas ações coletivas dentro da sociedade. Segundo Arenas, entretanto, os conventos representaram uma certa exceção a esse contexto, pois foram espaços onde as mulheres puderam formar seus próprios círculos de relações, seu próprio governo e sua própria prática administrativa, ainda que estivessem externamente sujeitas à hierarquia masculina da Igreja. Nesses casos, de acordo com Arenas, as mulheres experimentaram um notável grau de independência como grupo.

Foi buscando justamente esses espaços onde as mulheres possuíam maior possibilidade de atuação que Isabel Arenas voltou seu olhar para as instituições religiosas femininas e mais especificamente para a proposta de reforma dessas instituições na segunda metade do século XVIII. A opção da autora por investigar um momento de inflexão e de reforma auxilia a concretização do objetivo de observar as possibilidades de atuação feminina na medida em que o período analisado é de embate. Como se trata de uma questão que mobilizou considerável parcela da sociedade da capital do vice-reinado da Nova Espanha, Arenas se preocupa em dar voz, na medida do possível, aos diversos grupos e agentes sociais envolvidos. Nesse sentido, as personagens de seu livro não são apenas os arcebispos e autoridades religiosas, mas também as religiosas e suas redes de relações, ainda que a atuação das autoridades seja o foco central e o componente de maior visibilidade na documentação e no trabalho da autora.

As fontes selecionadas e utilizadas pela autora, algumas delas reproduzidas em anexo documental, ajudam a reconstruir as etapas do embate e, dessa forma, a compor o painel dos vários aspectos e dos diferentes agentes envolvidos. O cerne de suas pesquisas está, portanto, baseado na documentação produzida pela polêmica em torno da reforma conventual. O material utilizado por Arenas inclui primeiramente documentos produzidos pelos arcebispos e demais autoridades religiosas - cartas, pastorais e editos – elaborados no contexto do início do governo eclesiástico de Don Francisco Antônio Lorenzana e de suas primeiras tentativas de implantar a reforma da vida conventual. O desenrolar das polêmicas prosseguiu e se desenvolveu no interior dos debates do IV Concílio Provincial do México, possibilitando o alargamento da documentação para incluir as atas, os decretos, as representações e as correspondências relativas ao mencionado concílio e demais cartas, editos e posturas subseqüentes. Isabel Arenas conseguiu reunir, ao longo de todo o período, documentação que nos oferece indícios da posição das religiosas sobre a questão e de suas tentativas de fazer valer sua voz nas disputas acerca da referida reforma. Arenas reuniu, ainda, documentação de autoridades civis e cartas régias que atestam a amplitude da polêmica gerada pelas reformas propostas pelos arcebispos e seu alcance na sociedade mexicana.

Diferentemente da política adotada pela coroa portuguesa para seus territórios americanos, a coroa espanhola aparentemente não impôs tantas barreiras à criação de instituições religiosas femininas em seus territórios americanos.6 Como resultado, a cidade do México contava no século XVIII com 19 conventos de religiosas, alguns deles presentes desde o século XVI, ao passo que Salvador, uma das principais cidades da América portuguesa no período, contava com apenas quatro.7 Os conventos mexicanos do período pré-reforma dividiam-se em dois tipos: o de "religiosas descalças" (descalzas ou rigoristas), que seguiam o modelo de "vida comum" e cumpriam o voto de pobreza, e o de "religiosas calçadas" (calzadas ou holgadas), que seguiam as regras próprias de cada ordem religiosa, porém mais amenas, e cultivavam a "vida particular", isto é, não eram obrigadas a partilhar refeitório e dormitório comuns, devendo partilhar apenas os atos religiosos. Além disso, este último tipo de convento admitia grandes contingentes de mulheres leigas e meninas como educandas.8 Como mostra Isabel Arenas, os conventos de religiosas calçadas seriam justamente o alvo das propostas de reformas dos arcebispos, devendo passar da "vida particular", considerada pouco compatível com os preceitos da ortodoxia católica, à "vida comum". O interesse da autora se voltou especialmente para os conventos que estavam sob a jurisdição do ordinário, ou seja, dos arcebispos e que totalizavam 10 instituições.9

Dentre essas instituições, quase todas fundadas ainda no século XVI ou nas primeiras décadas do século XVII, encontravam-se alguns dos maiores e mais poderosos conventos da cidade do México, como era o caso dos conventos de La Concepción, de Jesús Maria e de San Jerónimo. Os conventos calçados da cidade, como afirma Isabel Arenas, contavam com uma numerosa população interna composta por um público variado de mulheres – das chamadas religiosas de hábito negro, ou seja, religiosas que já haviam professado, até noviças, serventes e seculares, passando por meninas educandas e agregadas – todas organizadas hierarquicamente em seu interior. As religiosas possuíam "reservas" e "pecúlios", ou seja, recursos angariados de várias formas, os quais administravam por conta própria, o que acarretava grandes diferenças e desigualdades nas rendas de recolhidas que conviviam numa mesma instituição.10 Como conseqüência disso, e da prática da "vida privada", as religiosas cuidavam, juntamente com suas criadas e agregadas, de suas vestimentas e adereços, tornando-os mais ou menos luxuosos, de acordo com suas possibilidades e inclinações. De forma análoga, as recolhidas faziam sua comida, com a ajuda de suas servas e em suas celas, e assim controlavam não só a sua própria alimentação como também a sociabilidade dos momentos de refeição.

Como argumenta Isabel Arenas, o espaço dos conventos, desenvolvido em conjunto com a consolidação da prática da "vida privada", criou uma arquitetura singular que as assemelhava a pequenas cidades, compostas por amplas celas, muitas vezes construídas e anexadas aos conventos pelas famílias das religiosas, as quais reproduziam os ambientes familiares dos grandes sobrados da elite mexicana. Nesse ambiente, convivia ao redor das religiosas um considerável número de mulheres organizadas em categorias mutáveis e altamente adaptáveis, que variavam entre educandas, agregadas, moças e serventes, acomodando um amplo leque de relações e redes de clientela e obrigação no seu interior. Nesses espaços compostos por tantos elementos privados e habitados por um contingente amplo e diversificado de mulheres, os níveis de autonomia das religiosas e o seu contato com o exterior eram igualmente bastante flexíveis.

Foi contra esse universo, segundo Arenas, que o arcebispo ilustrado e regalista investiu quando chegou ao México e decidiu pela necessidade de reforma da vida religiosa na América espanhola.11 Essa polêmica não era nova, desde pelo menos o Concílio de Trento medidas para reformar a vida religiosa, tornando-a mais próxima dos evangélios e das normas da Igreja, eram tentadas na Europa. Para a autora, entretanto, ao chegar ao México o arcebispo Lorenzana teria seu desejo de reforma alimentado pelos ventos anticlericais soprados pelo pensamento ilustrado. Como conseqüência, suas iniciativas, desde as pastorais até a atuação no Concílio do México, rumaram no sentido de abolir a vida particular e instituir a vida comum e o cumprimento do voto de pobreza, o que na prática significou algumas determinações: 1) proibia-se a negociação e a construção de celas para uso privativo e estabelecia-se o uso coletivo de todos os espaços dos conventos; 2) limitava-se o número de religiosas de hábito negro, branco e extranumerárias; 3) proibia-se a permanência de meninas, agregadas e seculares no claustro; 4) restringia-se o número de servas particulares por religiosa. Além disso, a obrigação ao voto de pobreza limitava igualmente os resursos de "pecúlios" e "reservas", assim como regulamentava a vestimenta, que deveria ser igual para todas e a refeição, que deveria ser feita coletivamente no refeitório.

A rejeição à reforma nos conventos foi grande. Como argumenta Arenas, as religiosas não aceitaram ou se resignaram facilmente e promoveram uma verdadeira guerra que opunha de um lado as hierarquias eclesiásticas e civis masculinas e de outro as próprias religiosas e seus aliados, familiares e autoridades locais. A resistência dos conventos foi, de início, variada e isolada, mas ao longo do conflito, afirma a autora, os conventos foram alcançando um grau de articulação que jamais haviam experimentado antes. Ainda que tenham variado um pouco com o tempo e entre as diversas instituições, os argumentos para a rejeição acabaram por formar um discurso de repúdio comum. De modo geral, as religiosas argumentavam que os conventos não tinham espaço ou recursos para promover as mudanças previstas pela reforma; que haviam professado nas antigas regras da "vida privada" e que não tinham saúde ou inclinação para a chamada "vida rigorista"; e que as condições de vida e a forma como haviam sido criadas nos territórios americanos faziam com que esse modo de vida proposto fosse excessivamente duro para sua constituição e costumes.

À medida que a reforma foi avançando, juntamente com a polêmica, as cisões apareceram não somente entre as religiosas e as autoridades, mas também dentro das instituições, dividindo as recolhidas entre adeptas e resistentes à proposta do arcebispo. A polêmica com as autoridades religiosas começaria a perder força com uma carta régia de 1774 que confirmou a reforma, mas ao mesmo tempo estabeleceu que as novas regras da "vida comum" seriam aplicadas apenas às religiosas que optassem por essa mudança ou às noviças que professassem dali por diante. Essa medida, entretanto, não amenizou as disputas internas nos conventos e a cisão entre adeptas e refratárias à reforma apenas se aprofundou. Seja como for, argumenta Isabel Arenas, as reclamações dos conventos cessaram a partir de 1775 e a resistência das religiosas à mudança, ainda que não tenha se apagado, passou a ser mais silenciosa e velada. Por fim, de acordo com Arenas, a reforma não teve na prática o sucesso esperado, pois o cotidiano dos conventos prosseguiu com certa autonomia. Essas instituições continuaram, por exemplo, a receber mulheres leigas de famílias importantes, acompanhadas de um considerável número de criadas, e meninas continuaram a ser aceitas como educandas.

Em seu livro Isabel Arenas buscou analisar o impacto das propostas reformistas, de inspiração ilustrada e regalista, nos territórios ultramarinos na segunda metade do século XVIII. Mais especificamente, sua investigação nos oferece uma reflexão acerca dos efeitos dessa política sobre as instituições femininas de reclusão que então proliferavam na cidade do México. Essa escolha não poderia ser mais adequada, pois o espírito reformador que impulsionou o século XVIII e inspirou autoridades régias e civis a pressionarem a Igreja e as ordens religiosas por uma revisão de seus privilégios, formas de atuação e organização interna, incidiu sobre as religiosas e sobre as mulheres em geral com empenho singular. Como argumentou Leila Mezan Algranti, a idade moderna assistiu à perda paulatina dos direitos das mulheres e ao crescimento de um discurso controlador das condutas femininas e o século XVIII fecharia ainda mais o cerco em torno das mulheres, pressionando-as com as demandas em torno da honra sexual.12 Desta maneira, incidiram sobre as religiosas no período tanto as pressões reformadoras que pressionavam a Igreja como um todo quanto as demandas que se intensificavam sobre as mulheres. O trabalho de Arenas demonstra vivamente essa convergência de demandas sobre os conventos femininos no período. Se analisarmos cuidadosamente o embate travado entre as autoridades e as religiosas, podemos observar que a religiosidade feminina proposta pelos reformadores intentava, sob o pretexto de reforçar e recuperar os tradicionais ideais de clausura obediência recomendados pela doutrina da Igreja para a reclusão feminina, reduzir a autonomia e a capacidade de atuação das religiosas. Tal intento enfrentou a resistência das religiosas que buscavam preservar e defender sua experiência de religiosidade e reclusão.

Além de aprofundar essa problemática do impacto das reformas de inspiração ilustrada e regalista sobre as vivências femininas, o trabalho de Isabel Arenas oferece oportunidades de reflexão para aqueles que se debruçam sobre a questão da reclusão feminina na época moderna. O caso da Nova Espanha difere bastante do da América portuguesa, pois além de não contar com tantas e tão variadas instituições religiosas para mulheres, esta última não passou por um processo de reforma tão sistematizado e incisivo quanto a primeira. Ainda assim, alguns pontos podem servir de inspiração para as pesquisas sobre a reclusão feminina na América portuguesa. Especialmente importante no trabalho de Arenas foi a atenção dispensada pela autora à atuação das mulheres em meio à polêmica e sua avaliação acerca dos diversos mecanismos utilizados pelas mesmas para defenderem, em última instância, seu modo de vida e sua autonomia. Nesse sentido, é importante ressaltar que se tratou não apenas de um conflito entre autoridades e religiosas, ou entre uma religiosidade tradicional e uma nova religiosidade ilustrada, mas também entre indivíduos que traziam a visão de mundo da ilustração ibérica e uma experiência européia e agentes que estavam imersos em uma sociedade "criola", para utilizar a terminologia de Arenas, que apresentava particularidades na maneira como se organizava e ressignificava os códigos civis e canônicos da sociedade castelhana. Em meio ao conflito de gêneros e de mundos, as religiosas conseguiram se organizar numa atuação coletiva articulada, poucas vezes experimentada pelas mulheres da época moderna, quer estivessem na Europa ou na América. Podemos dizer que a busca para dar visibilidade a momentos da história como esse em que as mulheres atuaram coletivamente, ainda permanece como uma das tarefas devidas pelos pesquisadores que se voltam para as vivências femininas, principalmente, embora não exclusivamente, aqueles que se debruçam sobre as sociedades da época moderna.

* Resenha do livro: Arenas, Isabel. Dos arzobispos de Mexico – Lorenzana y Núnez de Haro – ante la reforma conventual femenina (1766-1775). León, Universidad de León, 2004. Recebida para publicação em abril de 2006.
1 Entre as reformas, promovidas principalmente por Lorenzana, estavam a reorganização da divisão paroquial da cidade e das tarifas diocesanas, o estabelecimento de um plano de estudo para os seminários Espano-americanos, a reorganização das missões e da catequese dos índios enfraquecidas com a expulsão dos jesuítas e a reforma da disciplina interna nas ordens religiosas.
2 Sobre o caso brasileiro ver: ALGRANTI, Leila Mezan. Honradas e devotas: mulheres da colônia: condição feminina nos conventos e recolhimentos do sudeste do Brasil, 1750-1822. Rio de Janeiro, José Olympio, EdUnb, 1993; e Livros de devoção, atos de censura: ensaios de história do livro e da leitura na América portuguesa, 1750-1821. São Paulo, Hucitec, Fapesp, 2004; GANDELMAN, Luciana. Entre a cura das almas e o remédio das vidas: o recolhimento das órfãs da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro e a caridade para com as mulheres, 1739-1830. Dissertação de mestrado, História, Unicamp, 2001; e Mulheres para um império: órfãs e caridade nos recolhimentos femininos da santa Casa da Misericórdia (Salvador, Rio de Janeiro e Porto – século XVIII). Tese de doutorado, História, Unicamp, 2005; ALMEIDA, Suely Creusa Cordeiro de. O sexo devoto: normalização e resistência feminina no Império Português -XVI-XVIII. Tese de doutorado, História, Recife, CFCH/UFPE, 2003.
3 MURIEL, Josefina. Los recogimientos de mujeres: respuesta a una problemática social novohispana. México, Universidad Nacional Autónoma de México, Instituto de investigaciones históricas, 1974.
4 LAVRIN, Asunción e LÓPEZ, Rosalva Loreto. (eds.) Monjas y beatas. La escritura feminina en la espiritualidad barroca novohispana, siglos XVII y XVIII. México, Universidad de las Américas (Puebla)- Archivo General de la Nación, 2002.
5 Ver ARENAS FRUTOS, Isabel. Fundación y primeros tiempos del convento de Jesús María de México (1580-1600). Actas del I Congreso Internacional de la Orden Concepcionista. Léon, Universidad de Léon, 1990, 2 vols; ver também: LÓPEZ, Rosalva Loreto. Los conventos femininos y el mundo urbano de la Puebla de los ángeles del siglo XVIII. México, El Colegio de México, 2000; e MEDINA, M. Ramos. (ed.) Memoria del II Congreso Internacional "El monacato feminino en el Imperio Español. Monasterios, beaterios, recogimientos y colegios". Homenaje a la Dra. Josefine Muriel. México, Condumex, 1995.
6 Sobre a política da Coroa portuguesa de restringir a criação de conventos e sua justificativa na preocupação com a promoção do casamento nos territórios ultramarinos ver: ALGRANTI, L.M. Honradas e devotas... Op. cit.
7 Para uma listagem dos conventos na América portuguesa do século XVIII, ver ID., I.B., pp.34-35.
8 A divisão entre calçadas e descalças refere-se à reforma feita por santa Teresa de Ávila, na Espanha, ao fundar o convento carmelita de São José em 1562, cuja regra serviu de modelo a conventos posteriores chamados "descalços", os quais passaram a se organizar em pequenas comunidades, observando estrita pobreza, clausura e silêncio.
9 Conventos: La Concepción (1540), Nuestra Señora de La Natividad y Regina Coeli (1570), Nuestra Señora de Balvanera (1573), Jesús Maria (1580), San Jerónimo (1585), La Encarnación (1593), San Lorenzo (1599), Santa Inés (1599), San José de Gracia (1610) e San Bernardo (1636).
10 As rendas das religiosas advinham de diversas fontes, entre elas: renda de dinheiro posto a juros pelas suas famílias; somas fornecidas pelos próprios conventos; dinheiro adquirido com os chamados lavores femininos (costura e culinária), esmolas, doações e presentes de fiéis.
11 Segundo Isabel Arenas, o arcebispo Don Francisco Antonio Lorenzana não estava sozinho em sua iniciativa de reforma. Seu contemporâneo, Don Francisco Fabian y Fuero, também implementou reforma semelhante quando foi bispo de Puebla de los Ángeles.
12 Sobre a questão ver: ALGRANTI, L.M. Honradas e devotas... Op. cit., p.321.

Cadernos Pagú

Vida e obra de uma menina nada comportada: Pagu e o Suplemento Literário do Diário de S. Paulo*


Vida e obra de uma menina nada comportada: Pagu e o Suplemento Literário do Diário de S. Paulo*

Heloisa Pontes

Professora do departamento de Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas e pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu, ambos na Unicamp. helopontes@uol.com.br

Polêmica, irreverente, emancipada. Tais são os qualificativos que mais fortemente marcaram o imaginário construído em torno da figura pública de Patrícia Galvão (1910-1962). Ou simplesmente Pagu. Apelido que recebeu aos 18 anos do poeta Raul Bopp e com o qual se tornou conhecida nos anos de 1920 quando, ainda colegial, fazia às vezes de mascote do modernismo paulista e de "boneca"1 do casal Tarsila e Oswald de Andrade. Essa fulgurante inserção no universo de sociabilidade da vanguarda da época aconteceu antes do romance avassalador de Patrícia com Oswald, do nascimento, em 1930, do filho de ambos (Rudá de Andrade) e da entrada deles no Partido Comunista em 1931. A isso se sucedeu uma série de acontecimentos que marcariam a vida de Patrícia Galvão no decênio de 1930: a mudança para o Rio de Janeiro em 1932, a publicação no ano seguinte de Parque industrial, tido como o primeiro romance proletário brasileiro, a viagem pelo mundo em 1934 (quando estréia como repórter), os meses que morou em Paris (sem Oswald e o filho) onde foi presa como militante comunista estrangeira. Repatriada, voltaria ao Brasil em 1934 e, por duas vezes, em 1935 e 1938, seria presa novamente. Libertada em julho de 1940, depauperada e magérrima, Pagu se casou com Geraldo Ferraz (1905-1979), com quem viveu até o fim da sua vida e com quem entrou pra valer na cena cultural, ligando-se ao periódico Vanguarda Socialista, em 1945, e iniciando, no ano seguinte, a sua colaboração regular no Suplemento literário do Diário de S. Paulo.

Do casamento de ambos nasceria Geraldo Galvão Ferraz, o segundo filho de Pagu, jornalista como os pais e o principal responsável pela publicação da autobiografia precoce de sua mãe. A ele, ao meio irmão, Rudá de Andrade, e à jovem socióloga Juliana Neves devemos um novo olhar sobre o mito construído em torno de Pagu. Aos dois primeiros pela coragem e empenho na publicação da longa carta que a mãe de ambos escreveu para Ferraz em 1940 e que só agora, sessenta e seis anos depois de ser redigida para ser lida na chave da entrega amorosa e não no registro da palavra impressa, veio a público sob o título Paixão Pagu: a autobiografia precoce de Patrícia Galvão, numa edição caprichada, ricamente ilustrada com fotografias de Pagu e de pessoas ligadas a ela. Juliana Neves, a terceira dessa trinca, é a autora do livro Geraldo Ferraz e Patrícia Galvão: a experiência literária do Suplemento Literário do Diário de S. Paulo, originalmente uma dissertação de mestrado.

Concebidos com propósitos distintos e escritos em tempos diversos, esses dois livros apresentam uma Pagu mais complexa do que a visão dominante que vem sendo construída sobre ela desde os anos de 1980, quando depois de um período de relativo silêncio, foi súbita e acertadamente recuperada pela pena irreverente do poeta concretista Augusto de Campos. O livro Pagu: vida e obra, publicado em 1982 pela Brasiliense (uma das editoras de maior prestígio na época), trouxe Patrícia Galvão de volta à cena cultural e política. Figura emblemática do feminismo que se organizava na época, símbolo da mulher emancipada e libertária, escritora concretista "avant la lettre", Patrícia Galvão virou uma espécie de ícone capaz de atender e preencher demandas e conteúdos diversos. Sua fama, amplificada pelos meios de comunicação, pela televisão que a transformou em heroína de mini-série, pelos filmes de Norma Benguell e de Joaquim Pedro de Andrade, chegou a lugares inesperados. Pagu "se multiplicou – sublinha o filho, Geraldo Galvão Ferraz – em balés, espetáculos teatrais. Emprestou o nome a centros culturais, livrarias e até butiques".2

Em virtude da fama crescente era previsível que uma parte da história – e da personalidade que lhe conferiu tônus – se perdesse para dar lugar a enredos edulcorantes, afeitos, enquanto forma narrativa, às construções míticas que teimam em proliferar nos tempos modernos. Da menina levada à mulher liberada foi um passo. Dado menos por ela, na condição de protagonista, e mais pelos intérpretes que a tomaram como heroína das suas histórias. Não que ela não fosse as duas coisas, isto é, heroína e protagonista. E sim que não fosse tanto quanto alardeado, como prova a longa carta que ela escreveu para Geraldo Ferraz. Pagu tinha então 30 anos e vivia o auge do sofrimento provocado pelos quatro anos passados na prisão durante o regime ditatorial do Estado Novo. Redigida com furor e paixão, a carta é um acerto de contas com o passado, a família, o casamento com Oswald de Andrade, a opção pela militância política nos quadros do Partido Comunista, tida naquela altura por ela como completamente equivocada. Mas é também promessa de futuro, de uma vida que se queria partilhada por inteiro e sem resquícios das convenções que rondavam os casamentos na época, com o homem que escolhera para ser o seu segundo marido.

Várias são as leituras possíveis dessa "autobiografia precoce" escrita por uma mulher marcada pelo sofrimento que, quando menina, se via como uma "moleca impossível" e que, "sentido-se à margem das outras vidas", esperava a sua "oportunidade de evasão" (p.57). Tal oportunidade veio antes do seu ingresso no círculo de sociabilidade dos modernistas. Aos doze anos e em meio a um romance sem alarde com Olympio Guilherme, ela consumou o primeiro "fato consciente" de sua vida: a "entrega do próprio corpo". Entrega no sentido mais abrangente do termo, beirando a um ato de dádiva de si e não de busca pelo prazer sexual.

A um só tempo "acima" e "abaixo" da experiência erótica, o amor não se realizou como experiência corporal plena com o primeiro namorado, de quem engravidou e abortou aos 14 anos. Tampouco com Oswald de Andrade, por quem nutria sentimentos contraditórios de admiração, repulsa e atração. A ponto de afirmar categoricamente que nunca o amou, nem no início do romance quando, para não "dar importância ao ato sexual", entregou-se a ele "com indiferença, talvez um pouco amarga". O que os ligava era uma curiosidade imensa, o prazer das leituras, as conversas intermináveis, a opção de ambos pela militância política nos quadros do Partido Comunista, a gratidão pela "brutalidade da franqueza". Nas palavras de Pagu, "o meu agradecimento vai para o homem que nunca me ofendeu com a piedade", nem lhe omitiu as aventuras extraconjugais – que não foram poucas e ocorreram inclusive no período de suas duas gestações: uma delas abortada involuntariamente, a outra completada com o nascimento de Rudá.

A maternidade, longe apaziguá-la, é vivida como uma experiência bastante tumultuada. O amor pelo filho sujeita-se aos desígnios da luta política e da agenda do Partido Comunista, e é conjugado com uma incondicionalidade plena de ambivalências, na contramão das convenções maternas da época. Várias foram as vezes em que Rudá ficou sob os cuidados de Oswald enquanto Patrícia Galvão, envolvida até a raiz dos cabelos com a militância, se ausentava de casa por longos períodos. Primeiro em Santos, depois no Rio de Janeiro para onde se mudou em 1932, a mando do Partido com a finalidade de que ela conhecesse por dentro as vicissitudes da vida proletária e firmasse a atuação política em patamar mais sólido.

Não é o caso aqui de registrar o itinerário das mudanças, das viagens e das ausências de Pagu. O leitor terá o gosto de acompanhar por si o registro dessa vida atribulada. O que me parece importante destacar é que se ela passa ao largo das convenções então dominantes no plano da experiência amorosa e da maternidade, nem por isso está isenta delas. Embora veladas, elas se deixam apanhar num lugar diverso do esperado para uma mulher que fez fama e nome como símbolo da irreverência e da emancipação no domínio sexual e dos costumes. Onde? Na busca intensa e deliberada de Pagu por uma transcendência de si e na entrega baseada no sacrifício. Nessa estrutura de sentimentos edificantes, que por tantos séculos pautou a vida de santos e das mulheres reclusas em conventos, encontra-se o núcleo denso que amarra as pontas partidas da experiência amorosa, da maternidade e da militância de Pagu. Descentrada em relação à matriz religiosa de onde derivava força e sentido, uma vez que Patrícia Galvão era e permaneceu agnóstica, ela migrou para o terreno profano da política. Mas o que se perdeu no plano do sagrado, ganhou, no quadro mental dos adeptos do Partido Comunista na época, um sentido renovado de abnegação de si em prol de uma causa maior, dirigida a dirimir as injustiças de todo o tipo que no entender dos militantes impediam a realização plena da humanidade. Luta de classes e luta política conjugam-se na militância de Pagu com uma obediência estrita e restrita às diretrizes do Partido, conformando uma vivência de gênero no registro da sujeição e do apagamento de si.

Vista à luz das experiências políticas contemporâneas, marcadas em larga medida pela desconfiança em relação à possibilidade de qualquer "pureza" nesse campo inclusive e, sobretudo, no domínio nebuloso das clivagens entre as "esquerdas", impressiona (e muito) que Pagu, aparentemente tão irreverente como mulher, pudesse ter se curvado dessa maneira aos ditames dos dirigentes do Partido Comunista. Os quais incluíam chantagens de ordem variada e até mesmo o uso da sedução feminina como arma legítima na luta política. Tendo se prestado a isso em algumas ocasiões, Patrícia Galvão faz da carta a Ferraz uma instância de autopurgação e expiação. E à medida que o relato sofrido e apaixonado vai tomando corpo, mais e mais evidentes parecem ser as ligações entre a sexualidade "seqüestrada" (por ela mesma), a maternidade partida e a militância como exercício de transcendência baseada no auto-sacrifício. Dessa figuração sobressai uma mulher tumultuada, a deixar na sombra a Pagu lânguida dos anos de 1920, de olhos enevoados e tão misteriosos quanto os de Capitu, de cabelos fartos e boca bem delineada pelo batom vermelho, que marcou a iconografia do modernismo paulista e o imaginário social em torno dela.

Entrega e submissão são os dois eixos centrais da trajetória de Pagu até o final dos anos de 1930. E é justamente essa fruição no sofrimento que parece conferir sentido à maneira como ela vive o amor, a militância política e a maternidade, para absoluto espanto do leitor embalado pela visão libertária que se construiu sobre ela a partir dos anos de 1980. O incômodo inicial suscitado pela leitura dessa "autobiografia precoce" tem muito de anacronismo. Da minha parte, evidentemente, que não escapei da armadilha de ler o passado à luz das questões e desafios postos pelo presente. Como é possível que tudo tenha se passado dessa maneira com uma mulher que sob muitos aspectos esteve à frente do seu tempo, é a questão que persiste ao final da leitura. Até que mudando o registro da indagação fui me dando conta do "ovo de Colombo": a Patrícia Galvão que se tornou Pagu foi de uma certa maneira "inventada" nas últimas décadas para driblar as ciladas do gênero e seus constrangimentos sociais. Algo não muito distinto do que aconteceu com Leila Diniz ou com a criação de uma genealogia intelectual e artística entre o concretismo, o tropicalismo e a antropofagia de Oswald de Andrade.

Domado o anacronismo, desenha-se uma Pagu mais complexa e torturada, que parece não medir esforços para fazer o que lhe parece certo no plano familiar, amoroso, político e profissional. Eis aí o saldo maior da leitura da longa carta endereçada a Ferraz que a guardou por tantos anos até que temendo a morte, decidiu doá-la ao filho. Graças à herança partilhada por ele, temos hoje a possibilidade de revisitar Patrícia Galvão e seu legado sob novos enfoques. Sobretudo quando cotejamos a leitura dessa carta com o livro de Juliana Neves, Geraldo Ferraz e Patrícia Galvão: a experiência literária do Suplemento Literário do Diário de S. Paulo, publicado também em 2005.

Estudo original sobre a importância desse suplemento, que pela primeira vez recebe uma análise detalhada, o trabalho de Juliana oferece ainda um contexto bem armado para situarmos a transferência de energia e de libido observada na trajetória de Pagu. Com a mesma intensidade que vivera a militância política nos anos de 1930, Pagu se lançaria de corpo e alma na militância cultural, na década seguinte. Tal deslocamento de energias não seu deu no vazio universalista das abstrações piscologizantes. Mas fincou-se no solo intelectual e cultural da cidade de São Paulo dos anos de 1940, como mostra o livro de Juliana Neves.

Criado em 1946 por Geraldo Ferraz e Patrícia Galvão, o Suplemento Literário do Diário de S.Paulo é a primeira experiência desse tipo de empreendimento no âmbito do jornalismo paulista, tendo precedido o famoso Suplemento Literário de O Estado de S.Paulo – que reuniu em novas bases os integrantes do Grupo Clima, responsáveis pela edição da revista Clima, entre 1941 e 1944. Lançado em 1956, esse último suplemento teve vida longa e já mereceu análises detidas por parte dos pesquisadores interessados em adensar a história cultural e intelectual brasileira. Situação bastante distinta da que se verificava com o empreendimento jornalístico do casal Geraldo Ferraz e Patrícia Galvão, que durou apenas dois anos. O livro de Juliana Neves vem, assim, preencher uma lacuna, que há tempos reclamava um estudo dessa natureza.

Além do recenseamento minucioso da produção veiculada nesse suplemento e de seus colaboradores mais importantes, a análise de Juliana contribui para alargar a nossa compreensão do campo das artes, da literatura e da cultura em São Paulo. Em meio ao processo de metropolização que se verifica na capital paulista nas décadas de 1940 e 50, assiste-se também, como mostra a autora, o agenciamento de novas articulações entre o jornalismo e as manifestações de ponta no âmbito da cultura erudita da cidade.

Nesse ir e vir entre a imprensa e a cena cultural mais ampla reside um dos méritos do livro. O outro se encontra na acertada opção de Juliana pela reconstrução da experiência desse suplemento à luz da parceria amorosa e de trabalho estabelecida entre Ferraz e Galvão. Não era a primeira vez que eles faziam um empreendimento conjunto. Em 1945, quando participaram da redação do jornal A Vanguarda Socialista, fundado por Mário Pedrosa e secretariado por Ferraz, publicaram também o romance que escreveram a quatro mãos, A famosa revista. Mas foi no Suplemento que o empenho de ambos em divulgar o que de mais importante estava acontecendo na cena cultural, literária e artística da época, se concretizou em base mais profissional. Empenhado na formação de um público leitor, o casal reveste o Suplemento de uma explícita função pedagógica e didática. Na concepção de Ferraz, integralmente partilhada por Patrícia Galvão, o objetivo central do empreendimento jornalístico capitaneado por eles era o de "formar" e "inquietar".

Não parece aleatório que ambos os protagonistas dessas páginas tenham sido eles mesmos autodidatas. Diferentemente, por exemplo, dos criadores e principais colaboradores do Suplemento Literário do jornal O Estado de S. Paulo – iniciado em 1956, dez anos depois do lançamento do suplemento analisado por Juliana Neves – que tinham uma formação universitária, Ferraz e Patrícia Galvão nunca freqüentaram a universidade. Entre outras razões, pela ausência de condições materiais, no caso de Ferraz, que teve uma infância amarga e difícil, marcada pela orfandade precoce (o pai e a mãe morreram de tuberculose quando ele tinha dez anos). Ou sociais, no caso de Pagu, cujos horizontes familiares, em termos do esperado para a formação de uma moça, não ultrapassavam a conclusão da Escola Normal. Coisa que ela de fato fez em 1928, aos dezoito anos de idade.

Ainda menino Feraz já trabalhava para se sustentar. Começou a vida profissional aos doze anos na Tipografia Condor, onde descobriu, em suas palavras, a "vocação" para a atividade intelectual e jornalística.3 Em 1927 entrou no mundo jornalístico, primeiro como revisor no Jornal do Comércio e logo depois no Diário da Noite. No ano seguinte virou repórter no vespertino dos Diários Associados de Assis Chateaubriand. Ali escreveu seu primeiro artigo como crítico de arte.

Ferraz foi o primeiro crítico de arte modernista a atuar profissionalmente na imprensa paulista. Antes dele, Oswald de Andrade já havia escrito sobre o assunto, mas de forma pouco sistemática. O interesse de Ferraz pelas artes plásticas manifestou-se no ano de 1927, em decorrência da relação que estabelecera com o artista e arquiteto Flávio de Carvalho, e da leitura da Revista do Ocidente, dirigida por Ortega y Gasset. Dada a inexistência no período de um Museu de Arte, aliada no seu caso à ausência de uma escolaridade formal, ele teve que substituir a experiência direta das obras pelo contato com sua reprodução na bibliografia que podia adquirir nas livrarias ou consultar nas bibliotecas. Até 1924, a única exposição que vira foi a de Lasar Segall.

Cinco anos depois, bem mais informado sobre a história da arte e sobre as experiências artísticas de vanguarda, em razão das leituras que vinha fazendo sobre o tema, foi apresentado a Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade. O ano era 1929 e graças à relação que estabeleceu com o casal "Tarsi-Oswald", entrou em contato com várias personalidades, próximas ou integrantes, do modernismo paulista, e viabilizou o início de sua atuação como crítico de arte. Ao longo dos anos de 1930 e principalmente na década de 1940, já casado com Patrícia Galvão e mergulhado na rotina diária do jornalismo, Ferraz dedicou-se com afinco à crítica de arte. Como jornalista profissional, encontrou espaço na imprensa para veicular as suas opiniões e avaliações sobre a pintura não acadêmica da época. Paralelamente, participou também da organização de eventos importantes ligados às artes plásticas, prefaciou catálogos de exposições, entrevistou diversos pintores.

Na ausência de publicações e críticos especializados, a crítica de arte no período era veiculada basicamente na imprensa diária e, secundariamente, nas revistas culturais. O jornal era o órgão central para os críticos divulgarem suas opiniões e análises sobre as artes plásticas. Os livros que editavam nesta área eram, quase sempre, coletâneas de artigos publicados primeiro na imprensa. Neste contexto de baixa institucionalização da atividade intelectual, onde o diploma de advogado conferia como que um passaporte imediato para o exercício de atividades várias no campo cultural e jornalístico, não era necessário ainda deter um conhecimento amplo e simultaneamente específico, para habilitar-se à crítica de arte. Este era adquirido no decorrer dos itinerários dos críticos, como prova a trajetória de Geraldo Ferraz.

Enquanto nas páginas do Suplemento literário do Diário de S.Paulo ele se dedicou à crítica de arte e à divulgação da arquitetura moderna, Patrícia Galvão fez crítica literária. Juntos contribuíram para calçar essas duas modalidades de intervenção em bases jornalísticas mais sólidas.

Pioneiros na criação de um suplemento cultural de vida curta – fechado em 1948 por ordem e capricho do seu patrocinador, Assis Chateaubriand, o magnata do jornalismo brasileiro na época – eles construíram uma parceria amorosa e de trabalho que dá o que pensar, como bem mostra Juliana Neves. Essa parceria aponta nas palavras da autora, para o

trânsito de mão dupla de um casal de jornalistas-intelectuais, representantes da vanguarda, que procuram fora das rotinas das redações reconhecimento no meio cultural, mas que, de modo contraditório, inserem-se nele devido em grande medida às suas atividades nos jornais. (p.22)

****

Iniciei esta resenha afirmando que a leitura em conjunto dos livros em pauta obriga a uma revisão do mito construído em torno de Pagu. Não com qualquer intuito de diminuir a sua importância na cena cultural e política, mas de aquilatá-la a partir de interpretações mais complexas, com atenção redobrada para a captação de dimensões menos alardeadas da sua personalidade. O livro de Juliana Neves oferece nesse sentido um contexto informado para situar a atuação empenhada de Pagu no âmbito da política cultural. E ainda que o trabalho não se restrinja a esse ponto – visto que o objetivo mais amplo da autora é a análise das intersecções entre a imprensa, a literatura e as artes –, ele dá a ver, por um olhar de esguelha, uma outra face de Pagu. Cotejado com a "autobiografia precoce" publicada por iniciativa de Geraldo Galvão Ferraz, o trabalho de Juliana deixa entrever a tentativa de Pagu para "domar" algumas das dimensões mais tumultuadas e torturadas de sua personalidade através da aplicação concentrada na rotina jornalística. Encerrado o Suplemento em 1948, ela tentaria o suicídio no ano seguinte. A relação entre os dois fatos não é em absoluto de causa e efeito, mas diz alguma coisa sobre as tensões que atravessam a vida de Pagu e sobre a maneira como ela se joga integralmente no trabalho para aplacá-las. Tais são algumas das pistas abertas pela leitura dos dois livros resenhados que valeriam a pena perseguir em estudos futuros.

* Resenhas dos livros: NEVES, Juliana. Geraldo Ferraz e Patrícia Galvão: a experiência literária do Suplemento Literário do Diário de S. Paulo, nos anos 40. São Paulo, Annablume/Fapesp, 2005; e FERRAZ, Geraldo Galvão. (org.) Paixão Pagu: a autobiografia precoce de Patrícia Galvão, Rio de Janeiro, Agir, 2005.
1 A expressão é do artista plástico Flávio de Carvalho e encontra-se reproduzida no "Roteiro de uma vida-obra". In: CAMPOS, Augusto de. (org.) Pagu: vida-obra. São Paulo, Brasiliense, 1982, p.320.
2 FERRAZ, G. G. A vida dentro de uma pasta preta. In: Paixão Pagu... Op. cit., p.13.
3 Citação retirada do livro de memórias de FERRAZ, Geraldo. Depois de Tudo. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1983.

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Dar e cuidar da vida*


Dar e cuidar da vida*

Claudia Fonseca

Professora da UFRGS, Porto Alegre, RS, Brasil. claudiaf2@uol.com.br


Dar a vida e cuidar da vida por Lucila Scavone é uma pequena jóia de reflexão, dentro da perspectiva das teorias críticas mais atuais, sobe temas de suma relevância. Une ponderações epistemológicas sobre a própria ciência, de Bourdieu e Foucault a Kristeva, Butler e Boaventura, com a análise histórica do movimento feminista e seu papel fundamental na definição da noção de "saúde reprodutiva feminista". Essa coletânea de artigos, resultado de mais de vinte anos de pesquisas intensivas, condensa em seus nove capítulos, de forma clara e didática, conhecimentos que todo aluno em ciências sociais deveria ter ao seu alcance. Trata-se de uma obra de referência tanto para estudantes especializados na teoria feminista, quanto para aqueles que pretendem adentrar o campo de saúde, corpo e políticas públicas.

O livro inicia com uma discussão que liga a história das ciências sociais com a evolução da luta pelos direitos da mulher. Retoma, desde a revolução francesa, a luta feminista pelos direitos civis em pé de igualdade com homens. Passa por O segundo sexo - obra seminal de Simone de Beauvoir, marcando a virada entre o feminismo clássico e um novo paradigma centrado na diversidade, no relacional, na alteridade feminina - para chegar numa análise aguda do feminismo contemporâneo. Hoje, traz-se uma preocupação com a coletividade, para temperar uma visão neoliberal enfocada exclusivamente nos direitos de mulheres individuais. Temas como parto, aborto, amamentação (dar e cuidar da vida) voltariam ao centro do palco, não como destino inevitável, conseqüência de algum tipo de handicap natural, mas sim como conseqüência de circunstâncias históricas concretas. A importância desses temas traz junto uma politização de esferas vistas anteriormente como privadas ou de relevância social menor. É no bojo dessa trajetória intelectual que o conceito contemporâneo de direitos reprodutivos feministas assume seu pleno valor.

Além de traçar uma história intelectual das teorias de gênero e sua grande contribuição para a área de saúde, a autora fornece ao leitor dados históricos sobre o panorama político - que acompanha a reflexão acadêmica. Assim, adentramos os diferentes congressos internacionais - feministas e de saúde - que propulsionaram o debate entre, por um lado, proponentes da OMS (e o Banco Mundial) que abraçam uma visão utópica das tecnologias de saúde e, por outro, feministas que não aceitam perder de vista a dimensão política e conflituosa das políticas do corpo. A tensão entre esses dois campos se declara de forma contundente na discussão sobre as novas tecnologias contraceptivas. As organizações intergovernamentais tendem ao otimismo, apresentando inovações tais como Norplant e vacinas anticoncepcionais, além de métodos mais tradicionais (esterilização feminina, DIU e a pílula) como uma vitória tecnológica, capaz de resolver o "problema populacional" de países pobres. Feministas, apesar de reconhecer as vantagens possíveis dessas tecnologias - e sua capacidade de oferecer uma maior autonomia à mulher nas suas lidas com a maternidade - também chamam insistentemente atenção para as contradições sociais que, para muitas mulheres, tornam inaccessíveis serviços básicos de saúde e impõem sérias limitações a suas "opções" reprodutivas.

Encontra-se, aliás, uma ambigüidade semelhante nas discussões atuais sobre as tecnologias conceptivas (incluindo inseminação artificial, FIV, etc.). Se a postura feminista insiste na democratização dos avanços na área de saúde - reconhecendo o direito de amparo a toda mulher que deseja ter filhos - também recomenda cautela no uso de tecnologias novas que podem provocar danos à saúde da mulher. Dados comparativos, medindo o entusiasmo brasileiro por novas tecnologias médicas contra a cautela evidente nas políticas francesas, lembram que a medicalizaçao da saúde da mulher não é necessariamente vista por todos como um avanço. É na Conferência de Cairo de 1994 que as ativistas feministas consolidam a noção de saúde reprodutiva feminista, chamando atenção para a "cidadania reprodutiva", isto é, políticas que se afastam dos fundamentos antidemocráticos que nortearam a origem populacional de "saúde reprodutiva" e que vão na direção de uma "cidadania reprodutiva", atenta às desigualdades sócio-econômicas e contradições políticas da questão.

Os últimos capítulos do livro trazem os resultados de pesquisas empíricas sobre aborto numa cidade interiorana de São Paulo e sobre parteiras tradicionais em São Luiz de Maranhão. Nelas, a autora mostra suas sensibilidades etnográficas - a capacidade de escutar mulheres de diversos contextos discorrendo sobre assuntos delicados: o desejo ou não de maternidade, as relações com o companheiro, as percepções do corpo, as experiências com o corpo médico. Coloca lado a lado um saber prático, feminino, com um saber "científico", médico para repensar uma história que desqualifica o conhecimento das "comadres" / parteiras sem necessariamente oferecer serviços "modernos" compensatórios. Enfim, com esse livro, Scavone une debate teórico e exemplos concretos, fornecendo um exemplo primoroso de pesquisa feminista - engajada, polifônica, e sensível aos detalhes contextuais do objeto. Enfim, Dar e Cuidar da Vida traz vida para dentro das pesquisas acadêmicas, ao mesmo tempo em que oferece um rigor analítico para a reflexão militante, tornando esse livro leitura obrigatória para todos que trabalham o corpo e a saúde reprodutiva da mulher.

* Resenha do livro Dar e Cuidar da Vida: Feminismo e Ciências Sociais de Lucila Scavone. São Paulo, Editora UNESP, 2004, 205 p.

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Gender & Technology: A Reader*


Gender & Technology: A Reader*

Isabel Cardana

Centro de Estudos de Antropologia Social, ISCTE, Lisboa, Portugal


Esta coletânea tem origem nos trabalhos desenvolvidos por um grupo de interesse (Women in Technological History - WITH) que integra a Society for the History of Technology e se dedica ao estudo do papel das mulheres na história da tecnologia. Sete dos quinze ensaios que compõem o volume foram inicialmente publicados em Janeiro de 1997 num número especial da revista Technology and Culture, e outros que saíram em momentos distintos na mesma revista, mas também na revista Signs (IEEE Technology and Society Magazine)1 e no livro Gender and Archaeology.2

Os artigos aqui coligidos estão claramente posicionados no espaço e situados no tempo histórico (América do Norte entre 1850 e 1950) e fundamentam-se em três importantes premissas teóricas: 1) a ideologia de gênero e a tecnologia influenciam-se mutuamente; 2) a ideologia de gênero e a tecnologia não são elementos sociais estáticos nem estáveis no tempo e no espaço; 3) a tecnologia deve ser analisada segundo uma perspectiva de gênero e vice-versa.

A primeira parte do volume pretende tornar evidente a interligação entre gênero e tecnologia, especialmente no que respeita a colaboração das categorias sociais de gênero no progresso tecnológico. A objetiva aponta para o modo como o gênero influencia o design, a construção e o uso da tecnologia, e ainda para o modo como gênero contribuiu para tornar visíveis ou invisíveis as tecnologias disponíveis, tanto no passado como na contemporaneidade. Este primeiro bloco analisa a importância das tecnologias femininas a partir de objetos que não são habitualmente incluídos categoria de "tecnológicos" (Judith A. McGaw) e discute o papel das tecnologias masculinas para a análise da relação entre tecnologia e gênero (Ruth Oldenziel). Os dois ensaios que encerram este primeiro bloco de textos propõem uma análise situada de tecnologias que se adaptaram por ação do gênero a funções para as quais não foram explicitamente concebidas, como é o caso do aproveitamento do Raio-X para a eliminação eficaz de pelos supérfluos (Rebecca Herzig) e o caso da manipulação histórica da função do vibrador/massageador elétrico cuja gênese está associada a uma terapia médica mas que, hoje em dia, aparece invariavelmente associado à masturbação feminina "mecanicamente assistida" (Rachel Maines).

A segunda parte do volume pretende mostrar como gênero e tecnologia são categorias inter-ligadas abordando o modo como o progresso tecnológico contribui para a construção social da categoria de gênero e para a reprodução da divisão entre masculino e feminino. Aqui, questiona-se o modo como as expectativas de gênero se mantêm ou se modificam à medida que a tecnologia avança e em que medida o aparecimento de novas tecnologias é um desafio para as pessoas que se confrontam com essa inovação. Neste bloco de textos, começamos por recuar até à América do Norte nos anos 1850, quando surge o revólver Colt, a máquina de costura e o telégrafo, numa tentativa de perceber como se foram definindo as barreiras de gênero e como, baseado em determinados tipos de conhecimento, se atribuíram tarefas e ferramentas a grupos sociais específicos e distintos (Nina E. Lerman). O segundo artigo explora os limites das categorias sociais, e fá-lo com base na análise de uma atividade doméstica tipicamente feminina - a lavagem e o tratamento da roupa - que, em finais do século XIX, se tornou uma atividade industrial dominada por homens (laundrymen) que afirmaram a sua masculinidade em "contexto feminino", argumentando que sua presença no mundo das lavanderias era apenas uma conseqüência natural da industrialização e da mecanização desta atividade, uma vez que os homens tinham estado desde sempre muito mais ligados às máquinas do que as mulheres (Arwen P. Mohun). Este segundo bloco explora ainda a ligação entre o aparecimento dos computadores e o contexto/pensamento militar altamente masculinizado, como fator que permite perceber a associação da informática e da sua linguagem técnica a um domínio masculino e que clarifica de algum modo as razões para o modo desequilibrado como as tecnologias de informação se difundiram entre homens e mulheres (Paul N. Edwards).

A terceira parte do volume apresenta casos específicos de indústrias marcadas pelo estereótipo de gênero, vocacionadas para a produção de bens tendencialmente destinados para um gênero em detrimento do outro, onde se verificam adaptações e alterações ao estereótipo conforme a situação específica e o posicionamento na história. Temos aqui a análise das fábricas de cigarros que aparecem na virada do século XX no contexto norte-americano, onde a divisão do trabalho por gênero dependia da tarefa a desempenhar e da qualidade/preço do tabaco para comercialização, sendo que aos homens competia a produção dos cigarros caros, com tabaco de qualidade para apreciadores, e às mulheres, o trabalho nas fábricas onde se produziam cigarros para a comercialização em massa a baixo custo (Patricia Cooper). Temos também o exemplo da indústria de vestuário norte-americana nas últimas décadas do século XIX, onde a força operária era maioritariamente feminina, mas a presença dos homens era tanto mais visível quanto mais mecanizada fosse essa indústria (Wendy Gamber). Ainda neste bloco, temos um artigo que mostra como se alterou a distribuição do trabalho nas fábricas de embalagem de carnes entre 1890 e 1980, nas quais os homens tratavam das carnes de melhor qualidade, mais caras e finas, enquanto as mulheres se ocupavam da carne de menor qualidade direcionada para o fabrico de embutidos, salsichas e outros produtos derivados (Roger Horowitz). É nesta parte ainda que acedemos ao exemplo dos primeiros computadores que surgem durante a II Guerra Mundial e que eram na verdade "computadoras" - mulheres que trabalhavam no cálculo das trajetórias balísticas e resolviam equações matemáticas complexas para serem aplicadas em estratégias bélicas - e cujo trabalho inerente sempre foi considerado de segundo plano, até ao momento em que o mesmo trabalho passa a ser desempenhado por máquinas "inteligentes" operadas por homens que se pretendiam não menos inteligentes (Jennifer Light).

A quarta parte do volume dá conta do modo como, no início do século XX, as casas começam a se tornar autênticas fábricas e, por acréscimo, se tornam também os espaços onde a maioria das atividades tecnológicas femininas se desenrola. Nos liceus, as mulheres passam a usufruir de uma disciplina de "economia doméstica" onde aprendem a gerir a sua casa. Assiste-se à mecanização do trabalho doméstico e surgem os mais variados mecanismos de apoio às tarefas da dona de casa. Este bloco de textos pretende também explorar uma questão de fundo que se prende com a relação de causa-efeito entre mecanização e masculinidade e as razões pelas quais essa relação não se verificou com a mecanização do domínio doméstico. No Canadá, até aos anos 50, as mulheres rejeitaram as novas tecnologias de lavagem de roupa, continuando a usar os métodos tradicionais com o argumento de um melhor controle sobre a quantidade de água gasta em cada lavagem, que não acontecia com as máquinas automáticas. A rejeição deve-se assim à inadequação da tecnologia aos códigos culturais vigentes e à incompetência da máquina para cumprir a sua função de modo que se adeqüe ao conceito de "roupa lavada" e ao tipo de organização de tarefas domésticas a que as canadenses estavam habituadas (Joy Parr). O segundo artigo (Carolyn M. Goldstein) fala-nos de uma atividade de mediação comercial que surge no início do século XX, desempenhada sobretudo por mulheres contratadas pelas recém-estabelecidas empresas de fornecimento de gás e eletricidade, e dirigida principalmente para mulheres enquanto potenciais consumidoras a quem eram dirigidos programas educativos sobre os benefícios da utilização do gás e da eletricidade no trabalho doméstico. Este estudo de caso levanta a discussão sobre a separação entre os domínios público e privado, ou entre a produção e o consumo, pois esta atividade profissional desempenhada por mulheres e dirigida a mulheres colocava-as em atividade nos dois domínios. Noutro nível de abordagem, o artigo de Ronald R. Kline analisa o tempo gasto para as tarefas domésticas em dois contextos diferentes - o meio rural dos anos 20 e o meio urbano dos anos 70 - e conclui que as tecnologias domésticas que se apresentaram como economizadoras de tempo exigem tanto tempo para realizar uma tarefa quanto aquele exigido para a mesma tarefa realizada com base nas ferramentas tradicionais não mecânicas.

Trazido até nós na voz de historiadores, mas de leitura pertinente para qualquer interessado nestas questões, a coletânea aqui comentada vem reforçar a necessidade de estudar a organização da sociedade com base nas categorias de gênero. Do mesmo modo, são fornecidos neste volume importantes argumentos históricos que contribuem para sustentar a problematização antropológica dos limites das categorias de gênero. Este reader é uma importante contribuição para a História da Tecnologia, mas também para a antropologia, pois revela a importância da dimensão histórica na análise de qualquer estereótipo, no sentido em que esta nos permite identificar, no tempo, mutações e inversões que conferem às categorias classificatórias um caráter eminentemente plástico, variável e flexível.


* Resenha do livro Lerman, Nina E.; Oldenziel, Ruth; Mohun, Arwen P. (orgs.) Gender & Technology: A Reader. Baltimore and London, The John Hopkins University Press, 2003, 465p.
1 IEEE - Institute of Electrical and Electronics Engineers.
2 Rita Wright. (org.) Philadelphia, University of Pennsylvania Press, 1996.

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Gênero e contracepção: uma perspectiva sociológica*


Gênero e contracepção: uma perspectiva sociológica*

Cristina Tavares da Costa Rocha

Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis-SC. cristinarocha@cfh.ufsc.br



É significativa e intensa a trajetória de Luzinete Simões Minella no campo dos estudos de gênero, particularmente nas atividades que desenvolveu no âmbito da Linha de Pesquisa "Saúde e Sociedade no Brasil" durante os anos 90 e, atualmente, na Linha de Pesquisa "Gerações, Gênero, Etnia e Educação", ambas do Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política. A autora tem atuado, também, na Área de Estudos de Gênero do Doutorado Interdisciplinar. Estes são programas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Desta maneira, é sólido seu conhecimento na área, fato que se constata, além de suas atividades docentes, por sua extensa contribuição científica.

Esse livro, recém-lançado pela Editora da UFSC, representa uma importante contribuição para os estudos da saúde reprodutiva em geral e, mais especificamente, para as questões da contracepção, com foco em gênero, o que implica em compreender a questão da reprodução humana "não apenas em seu aspecto biológico, mas no aspecto relacional das múltiplas definições socioculturais sobre o masculino e o feminino" (p.160). As análises e reflexões centram-se nas abordagens clínicas sobre esterilização feminina, nas conseqüências da laqueadura do ponto de vista das mulheres e no perfil dos vasectomizados, embora sejam mencionados, ainda, outros tipos de contracepção.

O livro é estruturado em seis capítulos a partir de um eixo teórico fundamentado tanto no conceito de gênero quanto na noção de saúde reprodutiva, sendo que dois deles constituem-se em densos capítulos teóricos, nos quais a autora dialoga com diversos/as e conceituados/as autores/as nas áreas de gênero, reprodução e contracepção humana – Joan Scott, Maria Luiza Heilborn e Teresita de Barbieri, Sonia Corrêa, Elza Berquó, Elisabete Dória Bilac, Maria Isabel Baltar da Rocha –, que interpretaram a síntese elaborada pela Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento realizada no Cairo em 1994. Nos demais, a autora sugere que existe uma certa oscilação entre a autodeterminação e a passividade feminina na área da saúde reprodutiva, considerando que tal oscilação deve ser levada em conta pelas políticas públicas voltadas para o planejamento familiar no sul do Brasil. Num dos capítulos, a autora analisa os resultados de uma pesquisa empírica sobre esterilização feminina realizada em Florianópolis, Santa Catarina, em dois grupos de mulheres oriundas das camadas médias e de baixa renda. No último capítulo, a autora examina as razões do predomínio das mulheres no serviço de atendimento em planejamento familiar em Florianópolis e Porto Alegre.

Os resultados dessas pesquisas são relacionados com referenciais teóricos, explicitando-se os percursos metodológicos. No caso de um dos capítulos teóricos, a autora afirma que recorreu à "análise comparativa de textos científicos" (p.15) elaborados em diversos países. No caso das pesquisas empíricas, houve respaldo nos depoimentos "de pessoas comuns, mulheres e homens que na sua cotidianidade desenvolvem na prática seus códigos de sociabilidade" (p.15-16), os quais passaram e/ou se candidataram a processos de esterilização. Houve, ainda, aplicação de questionário às mulheres esterilizadas, no qual foram contempladas questões objetivas e subjetivas relativas às representações sobre as conseqüências pós-cirúrgicas. A exposição dos resultados, mais do que mostrar a quantificação estatística dos dados obtidos, volta-se às reflexões e considerações a partir de pontos de vista sociológicos imbricados com gênero. Dessa maneira, os capítulos proporcionam uma leitura fácil que reflete a limpidez dos textos em uma sólida articulação científica. Articulação esta que se inicia com a exposição e a interpretação, no primeiro capítulo, de cinco posições sobre abordagens clínicas referentes à esterilização feminina. Em decorrência destas abordagens, fica a constatação de que se trata de um "debate em aberto", dada principalmente a multidisciplinaridade e a complexidade dessa área de estudos, estudos estes que muitas vezes vão contribuir e influir no engendramento de políticas públicas na área da saúde da mulher e no – ainda – ausente homem, no âmbito dos governos municipal, estadual e federal.

No capítulo seguinte, a autora problematiza a massificação da esterilização feminina, que tem ocorrido nas últimas décadas, como solução para um possível planejamento familiar. Questiona se, afinal, trata-se de solução ou de surgimento de novos problemas decorrentes dessa opção por mulheres, tendo em vista as dificuldades de saúde biopsíquicas que se estabelecem a partir dela.

Aliás, o perfil dos/as integrantes – femininos e masculinos – da presente pesquisa é exposto nos capítulos do livro, de modo que se tenha um entendimento amplo da amostra que foi a opção da autora e que se configura, de fato, em uma representação do todo, pela similaridade de ocorrências encontradas nas narrativas expostas no livro e nas narrativas que, em geral, a gente escuta durante as conversas com amigos/as, colegas, parentes e conhecidos/as, pessoas, enfim, que fazem parte do nosso cotidiano.

Luzinete Simões Minella menciona e compara artigos nacionais e internacionais sobre a contracepção e saúde. Isto porque a socióloga dialoga com a produção científica sobre esterilização feminina nos anos 80 e no início dos 90 no Brasil, publicada em anais de congressos, simpósios, relatórios de órgãos públicos voltados à saúde e dissertações e teses, explicitando as mais diferenciadas tendências sobre o tema e informando seus três enfoques: o demográfico, o da saúde coletiva e o sócio-antropológico. Este farto material teórico integra o terceiro capítulo do livro.

Para a autora, os depoimentos e os casos expostos no livro, tanto das mulheres quanto dos homens que se submetem às técnicas de esterilização, são

uma luta epistemológica" em direção a (e aí ela se inspira em Boaventura de Souza Santos) "uma nova relação entre a ciência e o senso comum, uma relação em que qualquer deles é feito do outro e ambos fazem algo de novo (p.16).

Dentre as conclusões da autora está a constatação de que as mulheres do

contingente investigado [apresentaram] um movimento que oscila entre a liberação e a opressão em relação aos modelos e práticas vigentes a respeito do planejamento familiar, que é compatível com as contradições do seu meio socioeconômico, político e cultural [talvez] porque os processos de conscientização não são lineares, tendo seus altos e baixos (p.155).

Além disso, as mulheres, ao continuarem assumindo isoladamente as decisões sobre sua esterilização, sem articulação e sem diálogo com seus parceiros, talvez estejam dando continuidade ao status quo histórico vigente da ortodoxia do modelo médico e do modelo herdado de seus ascendentes familiares. Porém, alternando possibilidades a partir de um outro modo de olhar, com esta postura, elas podem estar "reforçando seu próprio poder na esfera do comportamento reprodutivo, com o aval das instituições de saúde" (p.172).

Apesar da abundância de dados quantitativos e qualitativos expostos na forma de síntese como resultados da pesquisa de campo, levadas a efeito no sul brasileiro, e mesmo entendendo a impossibilidade de se abarcar os vieses gerados pela complexidade do tema, ao finalizar a leitura do livro tem-se a sensação da vontade de querer saber mais e mais a respeito da reprodução (e contracepção) humana. Instigantemente, ficam diversas questões que querem ser audíveis na polifonia contemporânea sobre este assunto. Dentre tantas, por exemplo, tem-se ainda a ousadia de dizer que seria interessante, também, conhecer – mesmo sabendo-se que as mulheres explicitaram que queriam " 'poupar' seus companheiros, alegando que eles 'não precisavam ser entrevistados'" (p.49) para a presente pesquisa – como os parceiros "sentem" suas mulheres que se submeteram a cirurgias de esterilização. Ou, do outro lado da moeda, se as mulheres que tiveram seus parceiros vasectomizados sentiam-nos como menos viris, como apareceu enquanto "medo da impotência" na fala de um entrevistado (p.118).

Enfim, a desafiadora e provocativa complexidade do tema e respectivos questionamentos gerados, sendo que a maioria deles ainda permanece em aberto, além de uma variedade de posicionamentos encontrada na rede de atores/as envolvidos/as com as questões da saúde reprodutiva e contraceptiva no país, e por suas correlações com ciência e poder, visto que há "alta ressonância econômica e política, em relação à qual a produção científica não permanece imune" (p.10), faz-se mister a leitura deste livro.


* MINELLA, Luzinete Simões. Florianópolis-SC, Editora da UFSC, 2005.


Cadernos Pagú

Páginas de devoção e de sensação: gênero e história social do livro e da leitura*


Páginas de devoção e de sensação: gênero e história social do livro e da leitura*

Heloisa Pontes

Departamento de Antropologia/IFCH; pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero - Pagu, ambos da Unicamp

Por uma dessas coincidências felizes, os livros da historiadora Leila Mezan Algranti e da antropóloga Alessandra El Far foram editados no mesmo ano e lançados no mesmo mês, em novembro de 2004. Com todas as letras, ambos mostram a força da palavra impressa quando lida no registro, necessariamente interdisciplinar, da história social do livro. Do encontro entre a perspectiva historiográfica e antropológica, abre-se um universo fascinante de pesquisa e análise. Tomando os livros não apenas (o que está longe de ser pouco) pelo seu conteúdo substantivo, na linha praticada pela história das idéias, as autoras os usam como chaves preciosas para adentrar o imaginário e a sociabilidade de grupos sociais específicos. Em comum, perseguem pistas, sinais e rastros deixados pelos livros e sua circulação. Atentas às práticas de leitura e aos seus significados distintos em função do público a que se destinam, às convenções narrativas que informam tanto os gêneros interditos como os de maior visibilidade na época, às relações de gênero como marcadores relevantes na trama armada pelas interações sociais, as autoras iluminam, com novas luzes, aquilo que Robert Darnton chamou de "ciclo de vida dos livros". Isto é, o seu longo e complexo processo de produção, divulgação e consumo. Contribuindo, assim, para um entendimento mais qualificado das implicações sociais e culturais do ato da leitura e de sua difusão.

Historiadora experiente e analista atilada, Leila Algranti, em Livros de devoção, atos de censura. Ensaios de história do livro e da leitura na América Portuguesa (1750-1821), põe em conexão as práticas de leitura de mulheres enclausuradas em recolhimentos ou conventos e o sistema de censura que recaía sobre os livros e sua circulação na América Portuguesa. Não menos atilada, a jovem antropóloga Alessandra El Far, em Páginas de sensação: literatura popular e pornográfica no Rio de Janeiro (1870-1924), volta-se para o nascente e promissor mercado editorial brasileiro com o propósito de descortinar as razões do enorme sucesso dos chamados romances de "sensação" e dos livros "para homens".

Originalmente concebido como uma tese de livre-docência, o livro de Leila Algranti é composto de sete ensaios independentes, que, embora possam ser lidos em separado, ganham força renovada quando vistos em conjunto. Não só em virtude da unidade que apresentam – a busca por um entendimento mais circunstanciado do que se lia na América Portuguesa, quem lia o quê e como se liam os livros que circulavam na época – como por desdobrarem os temas comuns em novos arranjos analíticos. Para um leitor ou uma leitora não especializada na historiografia do período, esses desdobramentos soam como uma frase melódica que a cada aparição refaz de forma sintética o percurso anterior da melodia e delineia os temas seguintes. Advém daí um dos encantos desse trabalho vigoroso. Enredando o leitor na sua narrativa espiralar, faz dele uma espécie de cúmplice das descobertas da autora. Recurso deliberado ou involuntário, essa estratégia narrativa ancora-se, por sua vez, numa sólida pesquisa documental e no rigor analítico da historiadora, que dá continuidade nesse livro ao estudo das bibliotecas das casas de reclusão de mulheres leigas, chamadas de recolhimento, objeto de sua tese de doutorado. Mas se, em Honradas e devotas: mulheres da colônia, Leila estava interessada em examinar as descontinuidades entre o que se passava na metrópole e na colônia, neste livro buscou as semelhanças e continuidades, mais intensas que as rupturas, no âmbito da cultura religiosa em que as mulheres reclusas estavam imersas, tanto lá como aqui.

Livros de devoção e atos de censura são a face e contra-face de um mesmo universo social e cultural, assentado em um catolicismo barroco e no absolutismo português. Segmento dos livros religiosos, os de devoção englobam os livros de horas, os folhetos de orações, as obras místicas e as vidas de santos. As duas últimas, de grande popularidade na época, marcaram presença nas bibliotecas dos recolhimentos e dos conventos localizados na América Portuguesa. Um dos poucos espaços de leitura disponível para as mulheres, destinados à preservação da honra feminina, ao acolhimento de órfãs pobres ou da nobreza, e, em alguns casos, de mulheres que desafiavam os códigos de conduta e de moralidade do período, era ali também que elas liam, em voz alta ou em silêncio, no caso das mais letradas e não por acaso mulheres de elite, as obras místicas e as vidas de santos. Leitoras disciplinadas e fervorosas, essas mulheres fizerem um uso singular desses livros. Tomaram-nos como modelo narrativo para escreverem autobiografias ou as biografias daquelas que mais se destacaram entre elas, com a finalidade de enaltecer também os recolhimentos que as acolheram, no caso das leigas, ou os conventos a que pertenceram, no caso das religiosas professas. Modelos de escrita que serviam para potencializar modelos de virtude, calcados na vivência de uma religiosidade funda, os livros de devoção são produtos de uma dupla convenção: narrativa e moral. É esta convenção que confirma e conforma as vidas virtuosas dessas mulheres que foram mais que consumidoras passivas das obras que liam. Confinadas nesses espaços exclusivamente femininos, elas usaram a leitura e a escrita como meios para discorrer sobre suas missões na terra, a união com Deus, o significado de suas vidas, expressando, assim, uma subjetividade que não se separava da afirmação, ainda que enviesada, de um poder político rarefeito. Neste compasso, desenharam uma escrita própria (feminina?), a única possível no interior da Igreja que, dando aos homens o direito de falar nos sermões e na confissão e de se pronunciarem por escrito nos estatutos, regulamentos e nas obras de teologia, negava-o às mulheres.

Conjugando, no plano analítico, as convenções do gênero literário que presidiam a escrita da vida dos santos, às convenções de gênero que modelavam as relações sociais da época, Leila Algranti escrutinou a biblioteca e a vida interessantíssima da mística Jacinta de São José. Fundadora do convento de Santa Tereza no Rio de Janeiro, ela foi denunciada à Inquisição de Lisboa como falsária, em 1753 pelo bispo da cidade, Dom Antonio de Desterro. Revirando pelo avesso a documentação disponível sobre ela e sobre o imbróglio em que se metera (aqui e em Portugal), mas do qual sairia vitoriosa, Leila a transforma na personagem paradigmática do livro. Jacinta era leitora da obra mística de Santa Tereza e nutria por ela uma devoção a tal ponto intensa, que não apenas "via" e "conversava" com a santa, como tinha visões semelhantes às dela. Espelhando-se nela, ou melhor, no que lera sobre ela, tomou-a como modelo para guiar a si própria nos assuntos terrestres e principalmente nos de ordem divina. À luz dos trabalhos de Raymond Williams, diríamos que a leitura das vidas de santo fornecia a "estrutura dos sentimentos" que modelava não apenas a narrativa como a biografia dessas mulheres reclusas.

A vida e a biblioteca de Jacinta ampliam os temas analisados pela historiadora, permitindo-nos um entendimento mais nuançado da experiência tortuosa da religiosidade barroca e de seu entrelaçamento aos livros lidos. Mas se a literatura de cunho religioso marcou a vida dessas mulheres e o século em que viveram, com o passar do tempo e conforme avançava o processo de laicização da sociedade portuguesa e, por extensão, de sua principal colônia, ela foi perdendo força. A censura aos livros e a sua circulação, porém, no lugar de arrefecer só aumentou com a transferência da corte portuguesa para o Rio de Janeiro, em 1808. Duplamente censurados – primeiro em Portugal onde eram editados, em seguida no Rio de Janeiro, ao desembarcarem nas malas de comerciantes ou viajantes – os livros passavam pelo crivo da Real Mesa Censória e depois pela Mesa do Desembargo do Paço, órgão censor de D. João VI.

Censura régia e eclesiástica, exercida por um corpo qualificado de funcionários - leitores vorazes, em sua maioria, tendentes a concordar quando se tratava de censurar obras que atentassem contra a religião ou a política absolutista, mas menos consensuais sobre aquelas que incidiam sobre a moral – ela fornece à historiadora o enlace necessário para articular a prática da leitura ao domínio da circulação dos livros. Seletiva e discricionária, como tudo no Antigo Regime – onde os homens e as mulheres da aristocracia e da nobreza se viam como pessoas melhores e definitivamente não se pensavam como iguais aos outros, os 'inferiores" – a censura é devassada em seus bastidores por Leila Algranti. Tanto pela análise do perfil social, intelectual e político dos funcionários encarregados de exercê-la aqui, os chamados "homens bons", como pelo exame da lista de livros que chegavam à cidade de navio. Como nenhum material impresso podia circular sem antes passar pelo olhar vigilante desses censores, Leila encontra nessa fonte o elo que faltava para vislumbrar as modificações mais importantes no perfil das obras lidas pelos habitantes da América Portuguesa.

Com a independência e à medida que transcorria o século XIX, aquilo que a historiadora constatou em termos da importância crescente do romance, das obras de ciências, dos relatos de viagens e do visível retraimento dos livros religiosos, entre eles os de devoção, torna-se o assunto central da antropóloga Alessandra El Far. Não só em virtude da continuidade cronológica, mas, sobretudo, pela maneira como ela descortina a formação de um mercado editorial entre nós atrelado à produção e ao consumo de dois dos seus gêneros mais populares: os chamados "romances de sensação" e os livros "para homens". Estórias mirabolantes, repletas de mistérios, crimes, sangue, amores desencontrados, desejos irrealizados ou irrealizáveis davam o tom dos primeiros e "brotavam como cogumelos" nas edições da época. Ao lado delas, as publicações explicitamente destinadas aos homens, os tais dos livros que se lêem com uma só mão, que abusavam das cenas de sexo. Os ambientes e as personagens eram os mais diversos, de frades priápicos a freiras libidinosas, passando por mulheres sôfregas e por libertinos prontos a romper todas as regras. Mas o objetivo do enredo era sempre o mesmo: ampliar os estados de excitação que, consumados nos textos e nos corpos dos leitores, davam origem a rápidos períodos de calmaria imprescindíveis para a preparação do gozo que viria a seguir. Nesse compasso de espera por cenas de luxúria, valia tudo, inclusive a abolição temporária de diferenças sociais e de relações de poder.

Enquanto no trabalho de Leila, devoção e mulheres formam uma equação, no de Alessandra, pornografia e homens apelam-se mutuamente. Não por características intrínsecas aos gêneros. E sim por sua orquestração social e cultural. Se a biblioteca de Jacinta constitui a fonte privilegiada por Leila para acessar o universo de suas leitoras, a de Alessandra são os próprios livros. Taxados de pornográficos na época, eles, ao contrário das obras de devoção, não são fáceis de localizar nos acervos das bibliotecas públicas. E, por isto, foram sendo encontrados a esmo, graças à pesquisa obstinada da autora, aqui e em Portugal. Para interpretar os sentidos e os significados que os livros de "sensação" – voltados tanto para as mulheres como para os homens, lidos talvez mais por eles que por eles – e os de cunho pornográfico poderiam ter para os leitores do oitocentos, a antropóloga faz, de um lado, uma análise do conteúdo dos textos. De outro lado, refaz o contexto mais amplo da sociedade brasileira entre os anos de 1870 e 1920, com o propósito de destacar os valores e os conflitos que recobriam o plano da moralidade e a maneira como eles foram apropriados pelos leitores, pelas editoras e pelos editores empenhados na divulgação das obras em foco. Os últimos, como sabido, não mediram esforços para alardear o alcance popular de seus produtos, valendo-se inclusive de uma prática corrente no meio: adulterar o número de edições com a finalidade de dar aos livros uma visibilidade e repercussão maiores do que de fato tiveram. Números exagerados conviviam bem com essas narrativas mirabolantes, plenas de "sensação" ou de pornografia.

Com um texto ágil e bem torneado, Alessandra duplica o efeito do seu objeto. Páginas de sensação são a um só tempo os livros sob seu escrutínio e o resultado de sua narrativa. Se este é um dos grandes méritos do seu trabalho é também o lugar onde algumas arestas de ordem metodológica teimam em aparecer. Por não dispor de uma fonte tão rica para a reconstituição do universo dos leitores, como as bibliotecas examinadas por Leila, ou de dados confiáveis sobre a recepção, Alessandra ateve-se quase que exclusivamente ao conteúdo narrativo das obras, para ousar uma interpretação possível sobre os sentidos e os significados que elas teriam para os seus leitores. O problema espinhoso das mediações analíticas necessárias para "ler" o que se "lia" em épocas distintas da nossa - ou até mesmo na nossa, quando a leitura é feita por grupos sociais a que não pertencemos - é enfrentado por ela com o arsenal conceitual fornecido pela antropologia interpretativa e por intermédio da reconstituição dos grandes painéis e contextos de época. E ainda que a autora, na conclusão do seu trabalho, reitere a importância das convenções literárias e narrativas que presidiam a feitura das obras examinadas – o melodrama e a pornografia libertina do antigo regime – elas teriam ajudado, e muito, se exploradas no decorrer do trabalho, a dar mais fôlego ao esforço interpretativo da autora. Pois se é certo que essas publicações "dialogavam com os padrões sociais e culturais da época, colocando em pauta as expectativas, temores e ansiedades de uma parcela representativa da sociedade carioca" (p.310), é certo também que esse "diálogo" foi filtrado pelas convenções dos gêneros literários em tela. São elas que tornam possível burlar a moralidade autorizada e as expectativas concernentes à dinâmica das relações sociais, suspendendo-as temporariamente até que encerrada a leitura, todos voltem aos seus lugares devidos: os homens e as mulheres, os jovens e os adultos, os pobres e os ricos.

Não quero com essa ponderação negar a dimensão subversiva contida nos livros – disso dão testemunho os tais dos "homens bons" analisados por Leila Algranti. Zelosos em impedir a proliferação do romance no início dos Oitocentos, pelos malefícios que esse gênero literário poderia causar em criaturas tão "frágeis" e "sugestionáveis" como as mulheres, esses funcionários eram taxativos quando se tratava de censurar obras de cunho pornográfico. Se com o fim do sistema de censura, essas obras puderam circular mais livremente, não deixaram, contudo, de visar um público específico, majoritariamente masculino, como mostra Alessandra. E mesmo que as mulheres pudessem lê-las às escondidas e também com uma só mão, poucos são os indícios disponíveis para cercar essa suposição com evidências mais sólidas. Nesse ir e vir do texto ao contexto interpõem-se os problemas da recepção e das convenções. Impossibilitada pela ausência de fontes seguras de enfrentar o primeiro, a autora passou de raspão pelo segundo.

Reparo à parte, o livro de Alessandra é um belo exemplo do quanto a antropologia tem a contribuir para o adensamento da história social do livro. Sua leitura em conjunto com o primoroso trabalho da historiadora Leila Algranti mostra o vigor desse cruzamento interdisciplinar, sobretudo quando atento às pistas e às marcas deixadas pelas relações de gênero.


* Resenha dos livros de ALGRANTI, Leila Mezan. Livros de devoção, atos de censura. Ensaios de história do livro e da leitura na América Portuguesa (1750-1821). São Paulo, Hucitec/Fapesp, 2004; e de EL FAR, Alessandra. Páginas de sensação: literatura popular e pornográfica no Rio de Janeiro (1870-1924). São Paulo, Companhia das Letras, 2004.

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Arlie Russell Hochschild e a sociologia das emoções


Arlie Russell Hochschild e a sociologia das emoções

Maria da Gloria Bonelli

Professora de Sociologia do Departamento de Ciências Sociais, da Universidade Federal de São Carlos. gbonelli@uol.com.br



Em 2003, Arlie Hochschild está publicando seu sétimo livro acadêmico, The commercialization of intimate life: notes from home and work1, consolidando o campo da Sociologia das Emoções que ela começou a cavar mais fundo em seu livro The Managed Heart: commercialization of human feelings, em 1983.2

Já se passaram 20 anos desde que a autora cunhou o termo trabalho das emoções para referir-se ao processo no qual as pessoas tomam como referência um padrão de sentimento ideal construído na interação social, e procuram manusear e administrar suas emoções profundas para adequá-las a essa expectativa quando não estão sentindo assim internamente. Como a autora observa, o trabalho das emoções é mais acentuado entre os subalternos do que entre os senhores, entre os dominados do que entre os dominantes. Assim, em uma perspectiva de gênero, ele é mais acentuado entre as mulheres do que entre os homens.

A análise de Arlie Hochschild sobre a divisão de gênero no trabalho emocional3 focaliza como as mulheres administram as emoções, quais os custos e benefícios de fazer isso em público e na vida privada. As emoções4 funcionam como um mensageiro do self, um agente que relata instantaneamente a conexão entre o que estamos vendo e o que esperávamos ver, informando-nos sobre o que nos sentimos preparados para fazer sobre isso. Na visão da autora, os sentimentos não estão guardados dentro das pessoas, como na abordagem organicista, mas a administração das emoções pode contribuir para a própria criação de sentimentos, de acordo com o olhar interacionista.5 Entretanto, muito do que ela observa sobre os dilemas desse processo nas sociedades capitalistas avançadas resulta em sentimentos de perda de autenticidade. Tal percepção gera um paradoxo: quanto mais se busca recuperar os sentimentos verdadeiros ou entrar em contato consigo mesmo, o que é valorizado na modernidade, mais os sentimentos são submetidos ao comando, à manipulação e a serem administrados .

Sua proposta é enfatizar a perspectiva sociológica das emoções, relacionando os sentimentos como raiva, luto, deferência, inveja, afeto, alegria, culpa, entre outros, a fatores e contextos sociais, adquirindo características externas em vez da visão que os mantêm isolados no interior das pessoas. A forma consciente como os seres humanos atuam para suprimir a distância entre o que estão sentindo e o ideal que têm do que deveriam sentir é o trabalho emocional, que em muitas situações assume a característica de uma jornada de trabalho extra.

A montagem de sua abordagem parte principalmente das influências de Goffman e de Freud. Hochschild retira do primeiro a interação dos atores, mas critica Goffman por não ter dado uma psique a eles, e nem ter explicado de onde vinham os sentimentos que eles demonstravam nas representações.6 Ela extrai essa psique de Freud, mas discorda da concepção deste autor sobre o self sendo emocional e inconsciente. Para ela, o self é "sentiente", capaz de sentir e consciente de ser assim, contrastando também com a visão de Goffman sobre o self consciente e cognitivo.7

A autora dá densidade ao longo de sua carreira à contribuição que faz para a Sociologia das Emoções. Seu enfoque será apresentado aqui através da exposição resumida de quatro de seus livros: The managed heart, The second shift, The time bind e The commercialization of intimate life.8

O estudo sobre aeromoças e pessoal de cobrança de companhias de transporte aéreo feito em The managed heart é crucial em sua empreitada. Ela focaliza como predomina a expropriação das emoções "profundas" nessas atividades ocupacionais, através do aprendizado social de como controlá-las. Mostra que ser aeromoça é aprender o trabalho emocional de administrar os sentimentos, através da separação entre o "eu" e "meus sentimentos". Contrastando com a visão de Goffman que analisa como essa separação dá-se na superfície (nas expressões do corpo), no trabalho das emoções definido por Hochschild a separação dá-se na profundidade, no esforço de sentir, de treinar-se para isso e de mostrar esse sentimento. Trata-se de uma representação profunda distinta da representação teatral comum ou da manipulação consciente. A pessoa atua sobre si mesma para se adequar ao sentimento que julga importante sentir e não só mostrar aos outros. Para ela, a administração institucional das emoções é uma expropriação do indivíduo porque a finalidade da representação no trabalho emocional é fazer dinheiro.

Já na pesquisa com as aeromoças a autora identificou como funciona a transposição do sistema emocional construído na vida privada para a vida pública e o mundo do trabalho. Essa passagem baseia-se nas regras de sentimentos que guiam o trabalho da emoção, estabelecendo um sentido de obrigação moral e/ou de direito que orienta a troca emocional. Quanto mais profundo o laço, mais se faz trabalho da emoção e menos consciente se é disso.

Nos anos 60, as regras de sentimentos vinculados aos papéis sociais de noiva, esposa, mãe, foram transpostas com sucesso para as atividades das aeromoças, através da representação profunda na qual agiam como se o avião fosse a sua casa, e os passageiros seus convidados. A partir dos anos 70, essa transposição fracassa porque as aeromoças são forçadas a acelerar o ritmo de trabalho, com turnos mais longos, e aumento no número de passageiros a serem atendidos em vôos mais rápidos. A representação profunda passa a ocorrer na superfície, como resistência. As contradições nas condições de trabalho comparadas com a imagem da casa são registradas através do tratamento irônico sobre a atividade, como se ela não fosse séria, fabricando ilusões.

Segundo Hochschild, a conduta adotada pelas aeromoças é uma forma de preservar a auto-estima com um reflexo menor do trabalho sobre o eu. Outra forma de lidar com essa situação é o distanciar-se, negando-se a fazer o trabalho emocional através do uso de máscaras, agindo como se fosse um robô. A conseqüência nesse caso é o fracasso tanto do profissional em envolver-se e realizar-se no trabalho quanto em convencer o outro, o cliente, a audiência.

A autora apresenta as seguintes características do trabalho emocional: 1) requer contato com o público; 2) o trabalhador precisa produzir um estado emocional em outra pessoa – gratidão, medo (no caso dos cobradores), etc.; 3) permite que o empregador exerça algum controle sobre a atividade emocional do empregado, através de treinamento e supervisão.

Entre os custos humanos do trabalho emocional estão o estresse, o estranhamento de si e a perda da capacidade de sentir. Uma forma adotada pelas aeromoças para evitar o estresse é recorrer ao "falso self", despersonalizando o trabalho e parando de preocupar-se com ele. Entretanto, a redução do estresse causa também a diminuição do sentimento, o que acarreta uma perda do significado que se atribui à interpretação do mundo.9 A tendência observada atualmente das pessoas buscarem a autenticidade e o sentimento espontâneo, através de terapias de ajuda para entrar em contato com os seus próprios sentimentos, é analisada como decorrência crítica da administração das emoções.

Através do trabalho emocional, Hochschild mostra como a empresa interfere na interpretação dos próprios sentimentos de seus funcionários e redefine-os. Eles, por sua vez, separam o significado dos sentimentos dado pela empresa, de seus próprios sentimentos e interpretações. Outra constatação é que essas emoções estão sujeitas às regras de produção em série, em massa. O sorriso e os sentimentos são expropriados do indivíduo e passam a pertencer à organização.

Depois de deter-se sobre essas duas ocupações em The managed heart, Hochschild muda seu foco de pesquisa para as relações conjugais entre casais que trabalham fora, têm filhos pequenos e precisam lidar com a chamada revolução em casa, impossibilitados de contratar serviços domésticos fixos, devido aos custos. Como os casais lutam para achar tempo e energia para o trabalho, as crianças e o casamento são abordados pela autora, em dois momentos: em The second shift e The time bind. No primeiro, ela acompanha o cotidiano de famílias de classe alta, média, trabalhadora e baixa na segunda metade dos anos 1980, identificando divisões na ideologia de gênero entre um ideal tradicional de cuidados familiares e um ideal igualitário. A autora observa que os conflitos entre o ideal tradicional, no qual a mulher assume a jornada da casa e da profissão e o ideal igualitário, no qual os cônjuges partilham as tarefas, estão relacionados com a divisão entre as classes favorecidas e desfavorecidas, com as tensões entre os parceiros no relacionamento, e até nas angústias internas à consciência polarizada entre os dois modelos.10

Na primeira pesquisa sobre as relações conjugais ela constatou que a maioria das mulheres não pressionava seu companheiro para mudar e ajudar nos cuidados da casa e dos filhos. A mulher experimenta diversas estratégias ao longo do tempo para lidar com os dilemas e a tensão decorrente da dupla jornada: "de início procura ser supermãe, depois reduz o número de horas em casa, precipitando uma crise, e então ou diminui as horas dedicadas ao trabalho ou limita seu tempo de trabalho em casa. Fazendo isso, as esposas freqüentemente precisam de um grande empenho em termos de trabalho emocional para sustentar a ideologia e/ou o mito de que o relacionamento é, de fato, bom. Dentro dessa estratégia, ressentimento e cinismo voltam à tona em diferentes áreas da relação; custo emocional suportado tanto pelos maridos quanto pelas esposas".11

As mudanças na esfera pública e no mundo do trabalho repercutem na esfera privada e na vida íntima colocando uma cunha no relacionamento dos casais. A casa que eles habitam transforma-se em amortecedor das pressões contraditórias vindas de fora, reproduzindo em seu interior a coexistência entre tradição e modernidade. O trabalho das emoções feito principalmente pela mulher para lidar com a dupla jornada, e o custo emocional que ele representa tanto na negação do problema quanto nas separações conjugais que causam, tornam-se uma terceira jornada de trabalho na vida cotidiana.

Cinco anos depois desse estudo, Hochschild retorna ao problema no livro The time bind, abordando nesse segundo momento o ambiente de trabalho em vez do dia-a-dia das famílias com filhos pequenos visto a partir da casa. A empresa escolhida é a Amerco, por estar entre as dez mais bem avaliadas em termos de políticas para funcionários com filhos, visando facilitar o desempenho profissional e os cuidados com a família. Além de creche e atividades recreativas para as crianças até o final da tarde, a fábrica permitia a adoção de tempo parcial, jornada partilhada com outro empregado, afastamentos não-remunerados, licença maternidade e paternidade, além de outros benefícios que tornam o emprego na Amerco muito concorrido no mercado de trabalho e valorizado pelos funcionários. É nessa firma "family friendly" que a autora detém-se sobre o trabalho das emoções junto ao self em torno da dupla e da tripla jornadas, e as conseqüências não intencionais da administração da vida íntima, na relação com filhos, cônjuge e no emprego. Na pesquisa realizada entre 1990 e 1993, ela entrevista diretores, gerentes, funcionários de escritório e trabalhadores de chão de fábrica, num total de 130 informantes. Também acompanha o cotidiano de seis famílias, quatro delas compostas de cônjuges que trabalham fora e duas de mães solteiras empregadas na Amerco.

Hochschild observa uma inversão nos sentimentos em relação ao trabalho e à casa, para homens e mulheres. Na empresa, elas sentem-se mais realizadas, pela percepção de que essa jornada não é uma obrigação, como é a jornada da casa, que surte mais estresse às mulheres do que o trabalho profissional. Assim, a primeira jornada para as mulheres é aquela feita na firma e a segunda é a feita em casa. Já os homens ficam mais à vontade em casa do que no trabalho, que lhes gera maior estresse.

O apego, a valorização e a satisfação no trabalho fazem com que as mulheres prefiram suas atividades profissionais e dediquem a ela uma grande parte de seu tempo, mesmo em uma empresa que permite a adoção de jornadas flexíveis. "A falta de tempo para a família e a taylorização do pouco tempo destinado aos filhos está forçando os pais a fazerem ainda mais de um novo tipo de trabalho: o trabalho emocional necessário para reparar o dano causado pelas pressões do tempo em casa".12 As crianças resistem a esse ritmo de vida familiar não se ajustando. Elas fazem birra quando querem dormir e precisam acordar cedo para cumprir o horário da mãe, resistem a comer nos poucos minutos reservados para isso, querem brincar fora da hora que a mãe dispõe livre. O dilema também irrita e angustia a mãe que faz seu filho viver a mesma ligação com o tempo que a dela. "O trabalho emocional sujo de ajustar as crianças à casa taylorizada e compensá-las pelo estresse e o esforço é a parte mais dolorosa da crescente terceira jornada".13

A maioria dos pais que trabalha na Amerco tem a fantasia de ter uma vida familiar mais gratificante e com mais lazer. Tanto homens como mulheres lutam com o problema de estarem atados ao tempo, dentro de uma empresa cobiçada no mercado de trabalho. Em vez de aderirem a jornadas flexíveis ou reduzidas, o que Hochschild constata é que os homens temem o rótulo de "homem de família", que no passado significou ser bom provedor, mas hoje estigmatiza-os como pouco dedicados ao trabalho, fragilizando a masculinidade.

Pais e mães evitam o conflito com o fato de estarem presos ao tempo através de três estratégias. Na primeira reduzem o tempo que acham que a família realmente precisa deles, da convivência, segurança e proximidade, fazendo uma espécie de downsize emocional em relação à vida familiar. Crianças de 6 a 13 anos ficam sozinhas depois da escola e os pais negam que elas sintam a necessidade de tê-los mais presentes, caracterizando o que Hochschild chama de ascetismo emocional. A segunda estratégia adotada é a de comprar bens e serviços que economizam o tempo das mães. Essa prática alimenta as estratégias de marketing que prometem produtos que facilitam a vida corrida das mães. São anúncios de ferro de passar roupa com multa por excesso de velocidade, de alimento infantil que promete que a criança vai comer o café da manhã em 90 segundos, etc. O papel simbólico que cabe às mulheres de dispor de tempo para os laços pessoais é substituído pelo gasto de dinheiro com isso. A terceira estratégia é a dos pais imaginarem que, se tivessem tempo, atenderiam as necessidades de seus entes queridos, criando-se assim uma divisão entre a identidade atual e a identidade potencial.

Muitos dos trabalhadores entrevistados por Hochschild recorrem ao desenvolvimento do self potencial como estratégia para evitar o conflito com a falta de tempo, enquanto outros fazem alguma combinação entre as três estratégias. Se na fábrica predomina as virtudes da produção just-in-time, em casa os pais lidam com as pressões de tempo reelaborando o que realmente significa ser responsável pela casa, ser marido, mulher, pai ou mãe. Uma vez que os pais entendam o problema como sendo de eficiência, eles começam a moldar a casa de acordo com isso, encontrando soluções cotidianas para a falta de tempo que aumentam a vida taylorizada da família.

No livro recém-publicado The commercialization of intimate life, a autora junta seu olhar sobre o mundo do trabalho e a vida familiar, dando mais ênfase à construção de conceitos para o campo da Sociologia das Emoções. Assim, sintetiza a trajetória intelectual dos últimos 20 anos, que ora se deteve sobre o trabalho emocional em atividades profissionais ora no cotidiano dos casais com filhos pequenos, e avança na densidade teórica de sua concepção, articulando cultura, emoção, família, trabalho, cuidados e personalidade.

O livro fornece uma visão geral da obra da autora, expondo argumentos e conclusões detalhados nos três livros anteriores e traz novas investigações, introduzindo uma perspectiva que permite comparar o trabalho das emoções em outras culturas mais estranhas ao ideário norte-americano dominante. É o caso, por exemplo, dos capítulos em que contrasta manuais americanos e japoneses de auto-ajuda para mulheres. O olhar sobre o não-familiar também está presente nos capítulos em que focaliza as relações entre mães e filhas na Índia, e no qual aborda as relações entre babás filipinas nos Estados Unidos com as crianças sob seus cuidados e com seus filhos que ficaram no país de origem.

Um aspecto que unifica o livro é o do trabalho emocional sobre os cuidados, que tem sido tradicionalmente responsabilidade das famílias e passam a ser comercializados, requerendo que os sentimentos sejam trabalhados para adequar-se ao modelo do cuidado consumido/pago, ou pela visão que justifica emocionalmente um cuidado menor ou um descuido com crianças e velhos.

No capítulo em que analisa os manuais de auto-ajuda americanos ("O espírito comercial da vida íntima e a abdução do feminismo"), a autora classifica-os segundo a forma como burilam os sentimentos para enquadrar a mulher no padrão ideal tradicional ou no padrão moderno. O manual ajuda na construção do trabalho emocional de sentir-se, seja apegada a um homem (tradicional), seja distinguindo-se e descolando-se dele (moderno frio). Segundo a autora, há uma analogia entre o protestantismo e o espírito do capitalismo e o feminismo e o espírito comercial. O espírito do capitalismo é transferido para o âmbito da vida íntima através do espírito comercial. A auto-disciplina ascética é aplicada ao apetite, ao corpo e ao amor da mulher. A devoção ao chamado para ganhar dinheiro é aplicada pelas mulheres ao "ter e fazer tudo".14

O modelo oferece como ideal um self defendido contra ser machucado. O trabalho emocional é o de controlar os sentimentos de medo, vulnerabilidade e desejo de conforto. O self ideal não precisa de muito e o que precisa pode ser obtido por si mesmo. A idéia de independência e liberação que as feministas adotaram para o direito do voto, direito de aprender e de trabalhar, as "modernas senhoras de si" aplicam ao direito de se desprender emocionalmente. Para Hochschild esta é uma visão instrumentalista e assimila a percepção masculina sobre as regras do amor. Ela observa que o movimento foi da existência de dois códigos emocionais – um masculino e um feminino – para um código unisex, baseado no código masculino antigo. As mulheres assimilaram as regras masculinas dos velhos tempos rapidamente, enquanto os homens têm mudado muito devagar em relação aos códigos femininos. Isso resulta em um cenário onde as mulheres estão no trabalho, os homens estão fora de casa e as crianças e os velhos providenciam seus próprios cuidados ou estão entregues aos cuidados comerciais.

Na visão da autora, o capitalismo está competindo não só no mundo das empresas, mas também com a família e, em especial, com o papel de mãe e esposa. A família vai se tornando mínima e recorrendo ao mercado por causa disso, o que o fortalece e torna-a mais mínima ainda.

No capítulo "Códigos de gênero e o jogo da ironia", Hochschild aborda a problemática das regras de sentimentos que considera pouco teorizada na obra de Goffman. Assim, ela constrói códigos de gênero apoiando-se nos recursos culturais dos quais as mulheres extraem, combinam, misturam e equilibram códigos mais ou menos femininos e masculinos de forma semiconsciente. A tipologia formada a partir desses recursos contrasta o tipo tradicional (hierárquico) e o moderno (uma forma de igualitarismo), tendo por base diferentes aparências, jeitos de vestir, estilos de interação, expressões e posturas do rosto, do corpo, das mãos, da fala, das regras de sentimentos e da administração das emoções. Experimentar como esses códigos são sentidos pelas mulheres leva ao processo de encaixar ou não o código com o self essencial. A ironia é o tom que eclode quando a pessoa não consegue reter aquele código nem pode deixá-lo ir embora. Os livros de auto-ajuda baseiam-se nos dois códigos arquetípicos: o tradicional e o igualitário. Seguindo a sugestão de Ann Swidler, Hochschild também considera que as mulheres constróem sua identidade através das formas como combinam e equilibram os códigos esquematizados na tipologia. A ironia feminina é a forma de lidar com as ambigüidades e contradições de um mundo moderno regido por velhas regras.

A comparação entre os manuais de auto-ajuda americanos e japoneses permite vislumbrar o espaço que as mulheres encontram na cultura (cultural room) para se mexer dentro dos códigos de gênero. A cultura de gênero

está impregnada por: a) um senso de conexão entre o passado e o presente (peso cultural), b) uma conexão com outros desconhecidos na sua própria cultura (elasticidade cultural), c) uma conexão com outros no próprio lugar que a pessoa ocupa na cultura (enraizamento cultural).15

A análise dos manuais japoneses e americanos leva essas três dimensões em conta ao focalizar como as mulheres agem e o espaço cultural que têm para agir. A cultura é concebida pela autora como resultado de acordos continuamente renegociados. Ela constata que os manuais japoneses dão mais peso às tradições e os americanos tratam o passado como algo leve. Não só a tradição é distinta em termos de conteúdo, como também é sentida de forma diferente, sendo pesada para as japonesas e leve para as americanas. A maior parte dos manuais japoneses lida com práticas culturais e virtudes morais das mulheres, que se refletem em qualquer coisa que elas estejam fazendo. Os manuais americanos focalizam mais o amor entre homens e mulheres e o casamento.

Segundo Hochschild, os manuais americanos que enfatizam o tradicionalismo fazem-no como se este fosse divertido em vez de ser o certo, que predomina nos manuais japoneses. Outras diferenças que ela observa são: a) que os manuais americanos enfatizam o individualismo e os japoneses dão destaque aos laços sociais; b) que os japoneses definem o espaço cultural como o que é ou não é virtuoso (moralmente) ou em termos de boas ou más maneiras, e os americanos definem-no em termos do que uma pessoa sente ou não sente autenticamente.

Devido ao enfoque comparado, a autora conclui que:

Paradoxalmente, para começar uma revolução de gênero, nós precisamos de uma cultura "leve", que dê espaço cultural para as mulheres moverem-se ao redor, mas para completar essa revolução, nós precisamos basear-nos em uma cultura "mais pesada" da qual é feito o apoio social.16

Os quatro livros resumidos acima evidenciam como o olhar interacionista de Hochschild articula o impacto macrossocial do capitalismo nas sociedades avançadas sobre a dimensão microssocial do trabalho das emoções que os seres humanos realizam. Essa análise torna ultrapassada a crítica que rotula as abordagens interacionistas simbólicas de não levarem em conta a dimensão estrutural da vida social, ao priorizarem a interação face-a-face, ignorando os condicionantes sociais pré-existentes como a dominação.

A forma como a autora percebe as conseqüências da modernidade sobre as relações de gênero diferencia-se tanto da visão de Giddens quanto do olhar de Bourdieu.17 Giddens vincula a modernidade ao elevado grau de mudança social, o que caracteriza a ruptura do presente com a tradição. Ao analisar as transformações da intimidade na cultura moderna, ele aponta o papel fundamental que as mulheres exerceram nesse processo, viabilizando a possibilidade de uma democratização da esfera pessoal. Destaca como as mudanças na vida privada ganharam espaço navida pública, alterando as relações entre os gêneros. Para esse autor, na alta modernidade os relacionamentos íntimos tendem na direção do relacionamento puro. Este refere-se à relação social que é mantida apenas por ela mesma, que só continua enquanto as partes acreditam que extraem satisfações suficientes para cada um individualmente para nela permanecerem. No relacionamento puro, os envolvidos vinculam o amor à sexualidade, que é parte de uma reestruturação genérica da intimidade não se restringindo ao casamento heterossexual.18

Giddens argumenta que as últimas décadas são marcadas pelas conquistas femininas, com destaque para as liberdades sexuais. As mulheres ficaram encarregadas da administração da intimidade, esfera que a modernidade colocou em andamento. A reivindicação do prazer sexual feminino transformou-se em um elemento básico da insubordinação das mulheres, e sua emancipação sexual tende a refletir-se na reorganização emocional mais abrangente da vida social. Considera que a democratização da ordem privada nas sociedades ocidentais abre a possibilidade da democratização na esfera pública, já que para esse autor a mudança na esfera íntima é um requisito fundamental para a mudança nos outros campos sociais.

Segundo ele, a busca pela democracia no domínio público foi de início um projeto masculino. A inclusão das mulheres e de outras minorias na reflexividade da modernidade deveu-se às lutas que elas travaram. Ao mobilizar-se por direitos de igualdade política e econômica, o movimento feminista subverteu os elementos constitutivos das relações ente os gêneros, discutindo características básicas da identidade pessoal. As questões levantadas pelo feminismo e pelo homossexualismo estão interligadas ao tema do eu como um projeto reflexivo. O poder de mudança atribuído a esses movimentos na modernidade expõe a visão de Giddens sobre como a dualidade dessa estrutura gera constrangimentos, mas também oportunidades de ação para sujeitos desencaixados em um presente rompido com o passado.

Já para Bourdieu a modernidade não rompe com o passado. O velho e novo convivem no habitus. Isso tem enormes conseqüências na forma como o autor vê a persistência da desigualdade entre os gêneros, mesmo com toda a mudança. Homens e mulheres inserem-se nas relações de dominação, reproduzindo-as na intimidade. Bourdieu concebe o

desejo masculino como desejo de posse, como dominação erotizada, e o desejo feminino, como desejo da dominação masculina, como subordinação erotizada, ou mesmo, em última instância, como reconhecimento erotizado da dominação.19

A violência simbólica é a adesão do dominado ao dominante.

Analisando os fatores de mudança nas relações de gênero, o autor ressalta o trabalho crítico feito pelo movimento feminista. Aponta também a função da instituição escolar na reprodução da diferença entre os gêneros, aumento do acesso das mulheres à instrução e, correlativamente, à independência econômica e à transformação das estruturas familiares, incluindo o divórcio. Entretanto,

as mudanças visíveis que afetaram a condição feminina mascaram a permanência de estruturas invisíveis que só podem ser esclarecidas por um pensamento relacional, capaz de pôr em relação a economia doméstica, e portanto, a divisão do trabalho e de poderes que a caracteriza, e os diferentes setores do mercado de trabalho (os campos) em que estão situados homens e mulheres.20

Ao contrário de Giddens, a esfera íntima não consegue romper com o habitus sozinha e ajudar a democratizar outros campos. Bourdieu considera que essas lutas pertencem à lógica mais tradicional da política, e que estão ligadas às estruturas dos inconscientes masculinos e femininos, contribuindo para a perpetuação das relações sociais de dominação entre os sexos.

Para Hochschild, a intimidade na alta modernidade está longe de representar o relacionamento puro e o amor confluente na relação entre os gêneros, quando os pais trabalham e criam filhos. Em vez da igualdade na esfera privada expandir-se para outros campos, ela identifica o ritmo do trabalho impondo-se sobre a vida familiar e a intimidade. Embora sua posição seja mais próxima da concepção de Bourdieu ao identificar a coexistência da tradição e do novo nas relações entre os gêneros, ela se diferencia na visão sobre o habitus, através da construção da tipologia dos códigos de gênero. Assim, reconhece que há na realidade recursos culturais de gênero tradicionais e modernos, que permitem às mulheres combinarem os códigos construindo para si um mix cultural com o qual se identificam. O trabalho emocional é uma forma de burilar o self para a interação em uma sociedade na qual regras típicas do passado persistem no presente. Hochschild demonstra como as pessoas criam sentimentos através dessa forma de agir, não se limitando à contenção ou liberação das pulsões.


1 HOCHSCHILD, Arlie R. The commercialization of intimate life: notes from home and work. Berkeley, The University of California Press, 2003.
2 HOCHSCHILD, A. R. The managed heart: commercialization of human feeling. Berkeley, University of California Press, 1983.
3 Para a autora "trabalho emocional significa a administração dos sentimentos para criar uma exposição facial ou corporal publicamente observável; o trabalho emocional é vendido por um salário e, assim, tem um valor de troca. (...) Os termos sinônimos trabalho das emoções ou administração das emoções referemse a esses mesmos atos em um contexto privado onde eles têm valor de uso.” ID., IB., p.7.
4 Emoção é conceituada como a consciência da cooperação do corpo com uma idéia, um pensamento ou atitude e o rótulo posto nessa consciência. Sentimentoé definido como uma emoção amena. HOCHSCHILD, A. R. The managed heart... Op. cit., p.75.
5 ID., IB., p.88.
6 ID., IB., p.7.
7 ID., IB., p.77.
8 HOCHSCHILD, Arlie R. The second shift. New York, Avon Books, 1989; e The time bind: whem work becomes home and home becomes work. New York, Metropolitan Books, 1997.
9 ID., IB. p.188.
10 WILLIAMS, Simon J. Arlie Russell Hochschild. In: STONES, Rob. (org.) Key sociological thinkers. NY, New York University Press, 1998.
11 ID., IB., p.244.
12 HOCHSCHILD, A. The time bind... Op. cit., p.51.
13 ID., IB., p.51.
14 HOCHSCHILD, Arlie R. The commercialization of intimate life... Op. cit., p.24.
15 ID., IB., p.58.
16 ID, IB., p.72.
17 GIDDENS, Anthony. A transformação da intimidade: sexualidade, amor e erotismo nas sociedades modernas. São Paulo, Ed. Unesp, 1993; e BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1999.
18 GIDDENS, A. A transformação da intimidade... Op. cit., pp.68-89.
19 BOURDIEU, P. A dominação masculina... Op.cit., p.47.
20 ID., IB., p.126.

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