terça-feira, 13 de janeiro de 2009

DESIGN NO BRASIL - ORIGENS E INSTALAÇÃO


Um tema, duas variações

Ana Luisa Escorel
DESIGN GRÁFICO; LUCY NIEMAYER /AUTORA/; DESIGN NO BRASIL - ORIGENS E INSTALAÇÃO /LIVRO/; ANDRÉ VILLAS-BOAS /AUTOR/; O QUE É (E O QUE NUNCA FOI) DESIGN GRÁFICO /LIVRO/


com propósitos, perspectivas e resultados diferentes, os livros de Lucy Niemayer e André Villas-Boas levantam questões que avivam o incipiente debate sobre design em nosso país. "Design Gráfico no Brasil" historia o nascimento e a afirmação da atividade na Europa, chegando até a sua implantação entre nós. "O Que É (e o Que Nunca Foi) Design Gráfico" se propõe a definir a natureza e o significado da especialidade.
Combinando descrição histórica e pesquisa, Lucy Niemayer descreve a instalação do ensino do design no Brasil, detendo-se na orientação da Esdi - Escola Superior de Desenho Industrial, fundada em meados de 60 no Rio de Janeiro, e de suas relações com o ambiente político, cultural e econômico da época. Didático e bem escrito, o livro permite uma aproximação fácil de seu tema. O mérito do trabalho, no entanto, não se restringe ao fato de ser uma descrição bem feita e despretensiosa. Também traz à tona a disputa pelo poder no interior do grupo responsável pela fundação da Esdi, mostrando como o destino de uma instituição pode ser ditado pelo jogo de influências.
Primeira escola de nível superior a se dedicar, na América Latina, ao ensino do design em suas modalidades principais -o design gráfico e o design de produto-, a Esdi foi responsável pela educação dos profissionais que constituíram boa parte da primeira geração com formação regular, erigindo-se como modelo para a maioria dos cursos que vieram a se instalar no Brasil.
A importância estratégica da Esdi fez com que a dinâmica de seu desenvolvimento se refletisse nos rumos tomados pelo design no Brasil. Portanto, é extremamente oportuna a outra faceta do livro de Lucy Niemayer. Nela, a autora revela a tensão, que se instalou desde o período de planejamento da escola, entre duas linhas pedagógicas. Uma, mais racional, de origem funcionalista, filiada à Escola de Ulm; outra, sem contornos nítidos nem ascendência precisa, que queria permear a rigidez das causas e dos efeitos com a fluidez da intuição e a tentativa de aculturar normas instituídas fora de nossas fronteiras. Lucy Niemayer mostra muito bem como a orientação funcionalista se impôs na Esdi desde o primeiro momento e como manteve seu lugar até nossos dias. Frisando a vocação endogâmica da escola, segundo a qual só ensinava nela quem já estava nela e fosse comprometido com seus pressupostos, a autora discute com lucidez as lacunas de formação dos jovens professores e as consequências daí decorrentes.
"O Que É (e o Que Nunca Foi) Design Gráfico", de André Villas-Boas, se insere noutro universo. Fecha o foco no design gráfico, tentando defini-lo e delimitar seu terreno. Mantendo esse traçado, o autor propõe uma aproximação não linear de seu objeto, usando uma tática de idas e vindas que pode deixar o leitor desnorteado, caso não possua alguma informação sobre o assunto.
O livro é organizado em três partes. Na primeira, o autor discute os aspectos "formais" e "funcionais" da atividade; na segunda, os "metodológicos" e, na terceira, os "simbólicos". Encerra suas assertivas afirmando o caráter interdisciplinar do design gráfico.
Por aspectos "formais" e "funcionais", André Villas-Boas entende a capacidade de ordenar, mediante um projeto, em um determinado espaço, elementos gráficos de natureza diversa com a finalidade de reproduzi-los por meio de processos industriais. Aspectos "metodológicos" seriam aqueles que dotariam o designer da capacidade de fazer aproximações sistemáticas dos problemas propostos, organizando seu processo de trabalho em: etapa de "problematização", etapa de "concepção" e etapa de "especificação". Essa metodologia daria ao designer o controle sobre seu arco de atuação, confundindo-se com o próprio ato de projetar. Ou seja, para André Villas-Boas metodologia de design é projeto. Finalmente, os aspectos "simbólicos" seriam conferidos ao design gráfico por sua filiação à sociedade de massa, sendo também aqueles que atuariam junto à subjetividade do usuário.
Partindo das principais afirmações de "O Que É (e o Que Nunca Foi) Design Gráfico", contraporíamos uma argumentação um pouco diferente, numa tentativa de precisar os conceitos.
Aspectos formais e aspectos funcionais são propriedades diferentes de um mesmo produto e não deveriam ser associadas, como se fossem uma coisa só. Aspectos formais dizem respeito a decisões de caráter estético, traduzindo necessidades expressivas. Aspectos funcionais se referem ao uso, traduzindo necessidades de caráter prático. Também não procede a afirmação de que metodologia e projeto se confundem. Embora constitua seu momento decisivo, o projeto não é senão uma das etapas da metodologia de trabalho do designer. É por meio do projeto que as necessidades levantadas são resolvidas e encaminhadas para a reprodução em série, mediante originais elaborados para a fabricação industrial. Mas também fazem parte dessa metodologia o levantamento e a análise dos dados, por exemplo, etapas anteriores ao projeto e que servem a ele como base de informação.
A metodologia de trabalho em design pressupõe uma maneira própria de abordar e resolver problemas. O designer pode usá-la para atuar também como planejador e como assessor, funções que nada têm a ver com a atividade de projeto. É um engano, portanto, afirmar que metodologia e projeto são uma coisa só. Por sua vez, a afirmação de que só é design gráfico o produto que se enquadre na teoria do fetiche de Marx é, no mínimo, temerária. Os aspectos simbólicos de um produto dizem respeito à sua capacidade de suscitar associações sucessivas. Não é a natureza dessas associações que confere ao objeto sua dimensão simbólica, mas, sim, a simples propriedade de suscitá-las. Finalmente, não procede a afirmação de que o design gráfico é uma atividade interdisciplinar. O design gráfico possui contornos próprios e que, quando atua na solução de problemas de alta complexidade, pode fazê-lo no interior de equipes multidisciplinares.
A maneira dogmática com que André Villas-Boas tinge sua argumentação compromete muito o livro. Além do mais, ao desdobrar sua definição de design gráfico, o autor talvez superestime a elasticidade do tema. Na verdade, definir design gráfico não é complicado. Design gráfico é uma linguagem que viabiliza o projeto de produtos industriais, na área gráfica. É curiosa essa resistência às explicações simples que os textos que tratam do assunto frequentemente revelam, caindo, por exemplo, na tentação de definir a atividade pelo que ela não é. Seguindo essa tendência, André Villas-Boas estabelece uma série de relações entre o design gráfico e atividades próximas: arquitetura, artes plásticas e publicidade, como se, sem a referência a elas, o campo do design gráfico não pudesse se constituir.
Para terminar, fica a observação de que os textos que historiam o design tendem a ser mais bem sucedidos do que aqueles que se propõem a refletir sobre sua natureza. A descrição é uma forma de abordagem menos complexa do que a elaboração de conceitos e categorias. Principalmente se admitirmos que ainda não houve tempo para a constituição de um corpo de idéias realmente consistente em design e, em particular, em design gráfico. Considerando, no entanto, que essa área desponta como uma das mais procuradas pelos jovens em busca de profissionalização no Brasil, é fundamental que os textos que tratem dela sejam claros e bem fundamentados. Portanto, afirmações arbitrárias, associações indevidas, citações equivocadas, como as que pontuam "O Que É (e o Que Nunca Foi) Design Gráfico" certamente não configuram o melhor caminho para atender a essa crescente demanda de informação.
Ana Luisa Escorel é designer e integra a equipe de projeto do escritório 19 Design.

Folha de São Paulo

Um comentário:

Andre Luiz disse...

boa argumentação. realmente o texto do Villas Boas é meio confusa.