segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Uma história da ciência: experiência, poder e paixão


Grandes questões

Livro conecta descobertas emblemáticas do passado aos movimentos da ciência da atualidade, mostrando como o conhecimento científico caminha de forma dinâmica e conectada e é fruto de um contexto histórico específico.

Por: Daniela Oliveira



Por trás das buscas do Grande Colisor de Hádrons, maior acelerador de partículas do mundo, estão conhecimentos filosóficos milenares, que vêm desde Demócrito, o risonho, autor da primeira teoria atômica e retratado pelo pintor suíço Petrini. (foto: Cern)


A avidez para entender o mundo tem resultado em incontáveis descobertas científicas. Esse ‘jogo’ dinâmico de perguntas e respostas envolve inúmeros fatores: determinação, curiosidade, criatividade, dinheiro, empreendedorismo e até mesmo sorte. No entanto, um deles acompanha todo o processo de construção do conhecimento: o contexto histórico.

Essa íntima relação entre ciência e as transformações históricas vividas pelas sociedades está retratada em Uma história da ciência: experiência, poder e paixão, de Michael Mosley e John Lynch, respectivamente produtor executivo dos programas de divulgação da ciência e diretor da área científica da BBC, a emissora britânica de rádio e TV.


Lançado este ano pela editora Zahar, o livro teve origem em série homônima produzida em 2010 pela emissora, com seis episódios sobre as principais teorias e pensadores relacionados ao cosmo, à matéria, à vida, à energia, ao corpo e à mente.

Dividido nas mesmas categorias, Uma história da ciênciaconecta descobertas emblemáticas do passado aos movimentos da ciência da atualidade. Os autores lembram, por exemplo, que o telescópio espacial Hubble, cujas imagens revolucionaram a visão que se tem hoje sobre o cosmo, só pode ser posto em órbita, em 1990, graças à aplicação prática dos conhecimentos gerados por Galileu Galilei sobre mecânica dos projéteis, por Johannes Kepler sobre o movimento planetário e por Isaac Newton sobre a gravidade.

O mesmo se aplica a um dos mais portentosos projetos científicos em andamento: o Grande Colisor de Hádrons (LHC, na sigla em inglês), maior acelerador de partículas do mundo. Por trás da tentativa de recriar as condições logo após o Big Bang estão conhecimentos filosóficos milenares, que vêm desde Demócrito, o risonho, nascido por volta de 460 a.C. e autor da primeira teoria atômica de que se tem notícia. Assim como descobrir as substâncias que originaram e que sustentam o mundo foi também uma obsessão para alquimistas chineses de mais de dois mil anos.

O interesse pela matéria gerou a descoberta dos elementos, das substâncias e de compostos químicos de todos os tipos e para os diferentes fins, bem como a síntese de novos materiais. Nomes como Antoine Lavoisier, a quem se atribui a descoberta do oxigênio, Ernest Rutherford e Niels Bohr, precursores no estudo do átomo, ficaram para a história do estudo da matéria. Mas ainda não sabemos de que é feito o mundo – e, como observam Mosley e Lynch, talvez nunca saibamos.


E quanto a nós?

Se o mundo onde vivemos gera tanta inquietude, o que dizer das reflexões a respeito de nossa própria vida? Questionamentos sobre quem somos e como chegamos aqui começaram a aparecer principalmente após a descoberta do Novo Mundo.

Tal necessidade de entender melhor a vida acabou por gerar tentativas de ordenar o mundo natural. O sistema de classificação das plantas proposto por Carl Linnaeus no século 18, empregado até hoje, é um exemplo. Contra a ideia da intervenção de um criador divino para cada ser vivo do planeta, foi preciso formular teorias da evolução das espécies.

Já o interesse pela anatomia e pelo funcionamento do corpo humano, aliado ao advento do microscópio, permitiu chegarmos às células e à estrutura da molécula, o que gerou respostas e novas questões sobre o segredo da vida.
E não só o corpo, mas também a mente despertou o interesse da ciência desde a antiguidade, na tentativa de se compreender a identidade e as motivações humanas

E não só o corpo, mas também a mente despertou o interesse da ciência desde a antiguidade, na tentativa de se compreender a identidade e as motivações humanas. No entanto, essa busca só se concentrou no cérebro muito recentemente, com os avanços obtidos após a descoberta do neurônio e da complexa rede de sinais que compõem o sistema nervoso.

Como podemos ver, o caminho trilhado pelos grandes cientistas para chegar a respostas para as grandes perguntas da humanidade é longo e complexo, sujeito à ação de diferentes variáveis. Mas, como ressaltam Mosley e Lynch, cada explicação oferecida pela ciência – seja ao olharmos para o mundo lá fora ou para dentro de nós mesmos – é, em larga medida, produto de seu tempo.


Uma história da ciência: experiência, poder e paixão 
Michael Mosley e John Lynch 
Rio de Janeiro, 2011, Editora Zahar 
288 páginas – R$ 49,90


Daniela Oliveira
Especial para a CH On-line/ RJ

Genética: escolhas que nossos avós não faziam


Genes no banco dos réus

Novo livro da geneticista Mayana Zatz agita um debate que envolve escolhas baseadas em informações genéticas e em técnicas viabilizadas pela biotecnologia. A pesquisadora critica a falta de legislações específicas e de discussões éticas no campo.

Por: Gabriela Reznik


O livro aborda temas atuais ligados à biotecnologia, como a gravidez múltipla comum na reprodução assistida, e casos conflituosos, como o da mãe que queria ficar com dois dos três filhos gerados por meio da técnica. (foto: J. Star/ CC BY-NC-SA 2.0)


O que você faria se pudesse decidir sobre a cor dos olhos de seu filho, seu tipo físico ou até mesmo sua aptidão para determinada profissão?

Escolhas ainda inviáveis tecnicamente, mas que já suscitam profundas reflexões éticas, fazem parte dos tópicos levantados pela geneticista Mayana Zatz em seu livroGenÉtica: escolhas que nossos avós não faziam, lançado em setembro deste ano pela Editora Globo.

Coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano na Universidade de São Paulo (CEGH/USP), Zatz foi uma das pioneiras no uso de técnicas de biologia molecular para o estudo de genes humanos no Brasil. A geneticista também esteve à frente do debate no Supremo Tribunal Federal em defesa do uso de embriões humanos em pesquisas com células-tronco.


Por meio de uma escrita apaixonada, a pesquisadora elege temas atuais relacionados à biotecnologia e expõe conflituosos casos que vivenciou ao longo de sua trajetória. De linguagem acessível e envolvente, o livro é permeado por referências a filmes, livros de divulgação científica, notícias de grande destaque e artigos científicos.

Ao oferecer à população serviços de detecção de doenças com base genética no CEGH, a pesquisadora se defronta diariamente com dilemas que não têm uma resposta simples e correta. Os testes genéticos podem, por exemplo, revelar não apenas que o paciente é portador de doença grave, mas também que o seu suposto pai não é seu progenitor.

O médico, então, se vê diante de uma encruzilhada: contar ou não contar sobre a falsa paternidade ao paciente, uma vez que esse resultado não lhe foi solicitado? Como não há um respaldo legal para esse tipo de situação, a decisão fica a cargo da equipe médica.

No livro, Zatz critica essa falta de mecanismos legais para proteger os pacientes envolvidos em testes genéticos no Brasil. “A informação genética faz parte de nossa individualidade e deve ser tratada como qualquer outro tipo de informação pessoal”, defende. Um dos riscos de esses dados se tornarem públicos está na possibilidade de eles serem usados indevidamente por companhias de seguro de saúde e de vida. 


Escolhas informadas e esclarecidas

Informar, apoiar e ajudar a interpretar os testes genéticos junto ao paciente é tarefa de uma equipe interdisciplinar, que deve contar com geneticistas, psicólogos e médicos, e faz parte do chamado aconselhamento genético. Apesar do nome, “o geneticista não aconselha, ele deve apenas cuidar para que as possibilidades de escolha de seus pacientes sejam informadas e esclarecidas”.


Com o avanço da biotecnologia, aumenta a responsabilidade dos especialistas, que devem informar e esclarecer os pacientes para que estes tomem decisões embasadas. A fertilização ‘in vitro’, por exemplo, além de aumentar as chances de uma gravidez múltipla, traz certos riscos para os bebês. (ilustração: James Clayton/ CC BY-NC-SA 2.0)

O caso também serve de alerta para a questão da gravidez múltipla, comum na reprodução assistida devido à implantação de muitos pré-embriões no útero da mulher. Essa condição aumenta o risco de nascimentos prematuros e de recém-nascidos com problemas intelectuais e de saúde em geral.

Zatz relata ainda que, nos próximos anos, será possível sequenciar genomas individuais por apenas mil dólares. Se à primeira vista a notícia soa como um avanço, a pesquisadora alerta para o excesso de confiança depositado no material genético como única forma de determinar as características futuras do indivíduo.

O livro deixa mais perguntas que respostas e nos faz refletir sobre a importância da discussão mais ampla sobre decisões que já vêm sendo tomadas no dia a dia, mas que ainda se encontram no limbo da legislação.

Nesse sentido, um último alerta da pesquisadora: “Enquanto as questões éticas são pensadas e discutidas depois de anunciadas as novas descobertas, o comércio anda sempre na frente”. Nem sempre a favor dos mais afetados. 

Genética: escolhas que nossos avós não faziam
Mayana Zatz
São Paulo, 2011, Editora Globo
Revista Ciência Hoje

domingo, 28 de outubro de 2012

TRABALHO E VADIAGEM

Marco Aurélio Garcia
Professor do Departamento de História da Unicamp, onde dirige o Arquivo Edgard Leuenroth e consultor do CEDEC

TRABALHO E VADIAGEM - A origem do trabalho livre no Brasil - Lúcio Kowarick, Brasiliense, São Paulo, 1987.

O povo brasileiro, que já "assistiu bestializado"a proclamação da República e que hoje é convidado a "trabalhar mais"para resolver os graves problemas que afetam seu cotidiano, tem sido objeto de sucessivas configurações por parte das classes dominantes. Não só das nacionais. Às vésperas da República, como lembra José Murilo de Carvalho, em seu Os Bestializados (Companhia das Letras), o embaixador francês no Brasil escrevia a seu governo, afirmando que a rigor não se podia falar em povo no Brasil.

O que sobrou de tudo isso foi o "populacho", a "ralé", a "malta"e tantas outras formas pelas quais as ideologias dominantes tentaram dar conta daqueles "resíduos sociais"que, na bipolaridade de classes da sociedade escravocrata não cabiam nem entre os senhores, nem entre os escravos.

É sobre estes "resíduos sociais"que Lúcio Kowarick se debruça em seu Trabalho e Vadiagem - A origem do trabalho livre no Brasil. Versão destinada ao grande público de trabalhos acadêmicos realizados aqui e no exterior (incluindo sua tese de livre-docência), o livro busca captar no curso da história social brasileira aquilo que a sociologia dos anos 60/70 estudou sob o conceito de "marginalidade".

O propósito sem dúvida é ambicioso, tendo em vista o amplo período compreendido. Kowarick percorre-o no entanto com segurança ainda que os especialistas pudessem exigir aqui e ali maior profundidade.

Não se lhe negará, porém, familiaridade com a historiografia do período que ele utiliza para desmontar uma série de idées-reçues a partir das quais se tratou de dar conta dos complexos fenômenos sociais advindos da transição do trabalho escravo para o trabalho livre no Brasil.

Desta crítica historiográfica emerge uma tese central do livro: as distintas configurações do fenômeno social aludido pela expressão "marginalidade", não são mais do que o resultado das metamorfoses do capitalismo brasileiro desde o período colonial até os pródromos da industrialização, onde a análise se interrompe. Metamorfose que se dá dentro de uma constante: a sistemática e permanente desconfiança vis-à-vis do trabalhador livre nacional, que só é convocado para tarefas secundárias e aviltadas, recebendo aí um tratamento à imagem e semelhança daquele dispensado aos escravos. Socialmente este trabalhador-livre é visto como vadio, indolente, preguiçoso. Estes e outros adjetivos não estarão, no entanto, encobrindo, formas particulares de resistência a um trabalho que é socialmente desvalorizado e materialmente brutal? Kowarick não nos dá uma resposta mais explícita a esta crucial pergunta. A necessidade de uma explicação macro-histórica, cuja importância é bom não esquecer, afasta o arguto analista da pesquisa empírica de certas dinâmicas sociais, sobretudo no fim do século XIX e princípios deste, que seriam necessárias para uma compreensão do período a partir dos dominados.

O resultado do trabalho no entanto é significativo e ilumina em forma definitiva o ethos capitalista brasileiro. As estratégias patronais respondem a interesses imediatos e corporativos, o que explica a "vitalidade"da escravidão, bem maior do que certa historiografia fez supor, da mesma forma que esclarece melhor as opções em termos de imigração estrangeira, o pequeno papel conferido ao trabalho-livre nacional, associado às particularidades (até tecnológicas) do processo de industrialização no país, são responsáveis pelo desenvolvimento de um capitalismo"atípico"no Brasil que permite saltar por cima do artesanato como momento da industrialização.

Aspecto que ressalta na análise de Kowarick é o peso que têm nessa configuração particular do capitalismo brasileiro as políticas das classes dominantes. O autor se desfaz dos reducionismos economicistas que procuram nas estruturas a chave dos comportamentos sociais, reduzindo os atores a meras projeções delas.

Detendo-se nas primeiras décadas do século, o livro é de uma surpreedente atualidade. É impossível não detectar nas condições de trabalho atuais, onde não faltam inclusive as denúncias de ressurgências de formas de escravidão ou semi-escravidão ou no discurso empresarial dominante que se faz ouvir no debate constitucional, ecos das falas e práticas patronais de muitas décadas passadas. Ou não haverá uma continuidade entre o desprezo patronal pelo trabalho ontem como hoje (apesar da sua valorização retórica), ou uma continuidade entre políticas salariais de arrocho, ou estratégias que visavam estimular a rotatividade da força de trabalho já no século passado?

Trabalho e vadiagem apresenta os ingredientes de uma boa análise social, lançando simultaneamente luzes sobre o passado e sobre o presente.
REVISTA LUA NOVA

O ESPAÇO DO CIDADÃO

Milton de Abreu Campanário
Prof. da Faculdade de Economia e Administração - USP

O ESPAÇO DO CIDADÃO - Milton Santos, NOBEL, São Paulo, 1987.

No momento em que novas formas de convívio social são debatidas na Constituinte, a questão da cidadania ganha um novo relevo com a publicação de O Espaço do Cidadão do Professor Milton Santos. Trata-se, a bem da verdade, de um texto que aponta a indignação de um cidadão perante a falta de integralidade de sua própria condição e a simples inexistência da mesma para milhões de brasileiros.

O grande mérito do livro está em procurar inserir a espacialização da cidadania no contexto da redemocraticação brasileira. Parte-se, então, para a defesa de um "modelo cívico-territorial"onde a gestão democrática do uso do espaço, construído ou não pelo homem, sirva de instrumento para políticas efetivamente redistributivistas e que promovam a justiça social. Em defesa desta tese, a arma utilizada é a denúncia. Inúmeros são os aspectos da vida nacional denunciados pelo autor e que comprometem o exercício da cidadania. A começar pela pergunta: há cidadãos neste País? A resposta está contida na própria definição de cidadania como uma conquista social. A sociedade brasileira ainda não aprendeu a conquistá-la. A cultura não foi impregnada com direitos e deveres de respeito à dignidade e à liberdade humanas.

A cidadania é uma conquista pouco conhecida no País. De fato, a partir de uma história onde o destaque maior é para os escravos e párias do que para proletários, a cidadania assumiu, inicialmente, a forma de trabalhismos onde obviedades como direito a férias e de voto para mulheres foram "conquistados"juntamente com o direito do trabalhador de possuir e vender sua capacidade de trabalho no espaço urbano tomado pela indústria. A espacialidade da cidadania brasileira, até hoje eminentemente urbana, foi instrumentalizada na formação de força de trabalho industrial, confundindo-se com a urbanização da acumulação primitiva que deu popularidade aos seus padrinhos políticos, particularmente Getúlio Vargas e herdeiros.

O Professor revolta-se contra aquela origem do modelo cívico e do arquétipo político brasileiros: "Numa democracia verdadeira, é o modelo econômico que se subordina ao modelo cívico. Devemos partir do cidadão para a economia e não da economia para o cidadão". Tal subordinação encontraria no consumismo exacerbado de épocas recentes o maior obstáculo ao exercício da cidadania. O consumismo é o ópio do povo, insinua o Professor. Criticá-lo é auxiliar o aprendizado da cidadania. Socializar a informação, a educação e o consumo do espaço (acessibilidade compulsória aos bens e serviços sociais) são itens imprescindíveis do modelo cívico-terrítorial proposto.

Em torno desta utopia, cuja armação teórica envolve uma dose bastante forte de idealismo, a cidadania aparece, aos olhos do autor, como que inviabilizada pela divisão da sociedade em classes e pela subordinação do trabalho ao capital. Convém aleitar, contudo, que é precisamente na busca da cidadania, na busca da sociedade civil, que descobriremos as diferenciações sociais, territoriais e de classe, que estiveram encobertas tanto tempo pelo populismo e pelo arbítrio. Procurar identidades políticas e desvendar desigualdades sociais é a prática da dernocracia e a conquista permanente da cidadania.

REVISTA LUA NOVA

sábado, 18 de agosto de 2012

DEFESA DO MARXISMO


DEFESA DO MARXISMO
José Carlos Mariátegu, Ed. Boitempo


Referência do pensamento marxista na América Latina, José Carlos Mariátegui continua atual quase um século após sua morte. Apesar do recorte de época da obra Defesa do Marxismo, o intelectual aponta elementos essenciais para se analisar a atual crise do capitalismo. Ao refutar teses de pensadores europeus antes e depois da Primeira Guerra Mundial, utiliza fundamentos econômicos e políticos relevantes para qualquer análise de conjuntura. A psicologia e filosofia também são utilizadas pelo autodidata para dar consistência ao seu materialismo histórico.
Naquela época o autor já detectou a formação do império norte-americano, que, segundo ele, necessitava de uma grande força de expansão e domínio para cumprir o seu destino histórico. Criticava o “processo de concentração capitalista que confere o mais decisivo poder às oligarquias financeiras e aos trustes internacionais”. Para ele, por outro lado, o socialismo não poderia ser a consequência automática de uma bancarrota do capitalismo. Crítico ferrenho dos reformistas, defendia uma revolução como resultado de um tenaz e esforçado trabalho de ascensão.
Mariátegui unia o pensamento à ação. Foi fundador do partido socialista em seu país, era militante ativo e sempre teorizou sobre temas relacionados. Nesta obra, analisa a Revolução Russa, a Primeira Guerra Mundial, o surgimento dos partidos comunistas na Europa, dentre outros aspectos históricos do período, e ainda propõe o feminismo como instrumento revolucionário. A mídia também não foge de sua visão: “a impressora rotativa é um indústria reservada aos grandes capitais”, sentencia.
Seus ensaios não se limitam a críticas. Mariátegui aponta caminhos na perspectiva de uma nova ordem revolucionária que racionalizará e humanizará os costumes. O socialismo vem a ser um renascimento de valores espirituais e morais oprimidos pela organização e pelos métodos capitalistas. É na disputa de classes, abordada em toda a obra, que seu espírito crítico se revela em linguagem clara e precisa.

Eduardo Sá
Jornalista e editor do Fazendo Media (www.fazendomedia.com)
Le Monde Diplomatique

sábado, 11 de agosto de 2012

Luiz Gama, contemptor de nossas falsas elites


Fábio Konder Comparato
Professor emérito da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, doutor Honoris Causa da Universidade de Coimbra. @ –fkcomparato@gmail.com


Durante muito tempo, historiadores e sociólogos consideraram ter havido um claro contraste entre a escravidão de africanos nos Estados Unidos e no Brasil. Enquanto lá os escravos foram tratados cruelmente, aqui os cativos receberam tratamento benigno, senão francamente protetor.
A meu ver, na origem dessa suposta contradição de atitudes, encontramos uma diferença radical de mentalidades. Os americanos não costumam dissimular suas convicções, e dizem francamente o que pensam. Nós, ao contrário, timbramos em proclamar nossos bons sentimentos em relação aos pobres e infelizes.
Sob esse aspecto, encarnamos à perfeição o poeta fingidor de Fernando Pessoa. Fingimos tão completamente, que chegamos por fim a nos convencer de nossa "índole reconhecidamente compassiva e humanitária", como afirmou o autor do único tratado jurídico sobre a escravidão brasileira.1 Aliás, na Exposição Internacional de Paris de 1867, o nosso governo informava, oficialmente, que "os escravos são tratados com humanidade e são em geral bem alojados e alimentados... O seu trabalho é hoje moderado... ao entardecer e às noites eles repousam, praticam a religião ou vários divertimentos".2
Nesse contexto nacional de permanente autoelogio coletivo, a personalidade de Luiz Gama, retratada neste livro muito bem organizado pela professora Lígia Fonseca Ferreira, aparece como realmente excepcional. O menino negro, vendido como escravo pelo próprio pai quando tinha dez anos, tendo aprendido a ler e escrever somente aos dezessete anos, tornou-se um intelectual apurado e o maior advogado de escravos que este país conheceu. Praticamente sozinho, logrou livrar do cativeiro ilegal mais de quinhentos negros – fato sem precedentes na história mundial da advocacia. Mas, sobretudo, Luiz Gama, muito mais do que qualquer abolicionista brasileiro, não hesitou em desmascarar pela imprensa – o grande instrumento de contrapoder da época – a falsidade de nossas pretensas elites.


Gama escolheu como principais alvos de seus ataques desmascaradores os dois grupos que mais se distinguiram no triste papel de legitimar a escravidão negra: os clérigos e os magistrados.3
Já no século XVI, os jesuítas de Angola distinguiram-se na coordenação do tráfico negreiro de Angola para o Brasil. À ordem de cessação desse comércio de carne humana, baixada pelo Geral da Companhia em 1590, os padres de Angola responderam que "não é escandaloso de pagar as nossas dívidas em escravos, pois eles são a moeda corrente no país, assim como o ouro e a prata o são na Europa e o açúcar no Brasil".4
No curso dos séculos seguintes, várias ordens religiosas passaram a possuir grandes fazendas, onde acumulavam milhares de escravos. Em algumas delas, instituíram-se criatórios de escravos. O norte-americano Thomas Ewbank, que visitou o Brasil em meados do século XIX, informou que num "grande estabelecimento" que a ordem beneditina possuía na Ilha do Governador, no Rio, "numerosas gerações de rapazes e moças de cor são lá criadas até terem idade suficiente para serem enviadas ao trabalho nas propriedades do interior".5
Na verdade, os escravos eram também numerosos dentro dos próprios conventos de frades e freiras. Em meados do século XVIII, no Convento do Desterro da Ordem das Suplicantes, em Salvador, 75 religiosas eram servidas por 400 escravas.6
Fato é que a Igreja Católica não manifestou, até as vésperas do 13 de maio, o menor empenho pela abolição da escravatura.
Ao ser promulgada a Lei do Ventre Livre em 1871, D. Pedro Maria de Lacerda, bispo do Rio de Janeiro, em linguagem retorcida, fez questão de se pronunciar contra a abolição total e imediata. "Os revolucionários que profanem o nome da liberdade", escreveu ele em carta pastoral. "Nós, porém, mostremos que por ela, quando justa, como em nosso caso, sabemos fazer algum sacrifício, principalmente sendo este compensado por bem de ordem mais elevada, sem exclusão dos bens materiais e pecuniários." No Pará, na mesma ocasião, o bispo d. Antonio de Macedo Costa dirigiu enérgico protesto contra aquela Lei ao presidente da província, arguindo que se tratava de violação dos direitos da Igreja por uma medida "irregular e anticanônica".7
Quanto aos magistrados, as providências de justiça que deles podiam esperar os cativos eram praticamente nulas; não só pelo velho costume da corrupção, mas também por serem eles, quase sem exceção, proprietários de escravos.
A corrupção geral da Justiça no Brasil foi atestada pela maior parte dos viajantes estrangeiros.
No relato de sua viagem ao Rio de Janeiro e a Minas Gerais, Saint-Hilaire observou: "Em um país no qual uma longa escravidão fez, por assim dizer, da corrupção uma espécie de hábito, os magistrados, libertos de qualquer espécie de vigilância, podem impunemente ceder às tentações".8
No mesmo sentido, John Luccock: "Na realidade parece ser de regra que no Brasil toda a Justiça seja comprada. Esse sentimento se acha por tal forma arraigado nos costumes e na maneira geral de pensar, que talvez ninguém o considere danoso (a tort); por outro lado, protestar contra a prática de semelhante máxima pareceria não somente ridículo, como serviria apenas para provocar a completa ruína do queixoso".9
E Charles Darwin, por ocasião da estadia do Beagle em nosso país: "Não importa o tamanho das acusações que possam existir contra um homem de posses, é seguro que em pouco tempo ele estará livre. Todos aqui podem ser subornados".10
Compreende-se, assim, o grau de destemor e pertinácia, demonstrados por Luiz Gama, quando se opôs sem meias palavras, em mais de uma ocasião, a juízes pusilânimes e servis diante de senhores de escravos.11
Ao assim proceder, seguiu ele as lições de Cícero no De Oratore, sobre a conduta e as qualidades intrínsecas daquele que pleiteia no foro ou na tribuna política. Em primeiro lugar, o que o grande romano chamou de acumen, vale dizer a argúcia em argumentar. Em segundo lugar, a diligentia, ou seja, o zelo e aplicação constantes na defesa das causas confiadas ao seu patrocínio. Além disso, o probare, ou destreza em provar a verdade, aliado ao conciliare, ou arte de atrair simpatia. Por fim, o movere, isto é, a capacidade de suscitar a emoção no espírito dos ouvintes.
Vamos, portanto, ler os libelos contidos neste livro, como se estivéssemos a ouvir o maior defensor de escravos que este país jamais conheceu.

Notas
1 Dr. Agostinho Marques Perdigão Malheiro, A Escravidão no Brasil – Ensaio Histórico-Jurídico-Social. Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1866. t.II, p.61 e 114. 
2 Citado por Celia Maria Marinho de Azevedo, Abolicionismo: Estados Unidos e Brasil, uma história comparada (século XIX). São Paulo: Annablume, 2003. p.63.     
3 Em relação aos primeiros, leia-se, nas p.95 e ss., o artigo "Apontamentos Biográficos", publicado no Radical Paulistano, onde é descrita sarcasticamente a pessoa de um bispo diocesano de São Paulo. Quanto aos magistrados, leiam-se todos os artigos de jornal reproduzidos nas p.101 a 129.
4 Cf. História da Igreja no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1979. t.2, p.200.
5 Thomas Ewbank, Vida no Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; Livraria Itatiaia, 1976. p.102.  

6 Cf. Pedro Calmon, História social do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, s. d. 1º t., p.74.       
7 História da Igreja no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1980. t.II/2, p.277-8.
8 Auguste de Saint-Hilaire, Viagem pelas províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; Livraria Itatiaia, 1975. p.157.    
9 Notas sobre o Rio de Janeiro e partes meridionais do Brasil, São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; Livraria Itatiaia, 1975. p.321.
10 O Diário do Beagle. Editora UFPR, 2006. p.100.
11 Leia-se o artigo "O Novo Alexandre", às p.121 e ss.
 Instituto de Estudos Avançados

Grundise - Manuscritos Econômicos de 1857:58: Esboços da Crítica da Economia Política

Grundise - Manuscritos Econômicos de 1857:58: Esboços da Crítica da Economia Política
Karl Marx, Ed. Boitempo


Obra póstuma de Marx, publicada pela primeira vez em 1939 na extinta URSS, constitui esboço fundamental do que o autor desenvolveria, de modo sistematizado, em Para a crítica da Economia Política (1859) e o livro I de O capital (1866). Trata-se de um estudo inacabado, um manuscrito crítico de Economia Política não destinado a publicação. Sua leitura, fundamental para os estudiosos do marxismo, “é como ter acesso ao laboratório de estudos de Marx”, como sublinha a apresentação de Duayer da presente edição. Mergulhando em pesquisa de grande amplitude, é possível interpretar de modo direto o método de investigação e pesquisa de Marx, distinto, como é sabido, de seu método de exposição científica.
Objetivamente, a presente edição dos Grundrissedivide-se em três importantes textos. O primeiro, “Batiat e Carey”, apresenta uma análise crítica de importantes expoentes da economia moderna, representativos da teoria da harmonia das classes: um protecionista, outro livre-cambista. Traz ainda um pequeno excerto sobre a fonte de renda do trabalhador. Já o segundo texto, “Introdução”, também conhecido pelo título de “Introdução à contribuição à crítica da Economia Política”, além de uma contribuição metodológica, aborda a relação de interação entre produção, distribuição, troca (circulação) e consumo, como constitutivos de uma unidade dentro da totalidade da estrutura de produção. A última parte, “Elementos fundamentais para a crítica da Economia Política”, consiste nosGrundrisse propriamente ditos.
Aqui, o autor analisa a universalidade das categorias da Economia Política – a teoria do valor, relação trabalho material e imaterial, tempo de trabalho necessário e tempo livre, dinheiro, produção e circulação do capital, lucro e juros –, além da luta de classes e outros temas fundamentais. Projeta, a partir disso, o desenvolvimento do indivíduo social no quadro de uma sociedade de transição socialista.
Pela primeira vez em português, a recente edição que o leitor brasileiro tem agora à disposição vem preencher uma lacuna histórica na literatura marxista divulgada no Brasil.


Michelangelo Marques Torres 
Mestrando em Sociologia na Unicamp e professor da Escola Técnica Estadual de São Paulo.

Le Monde Diplomatique Brasil