terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Para desvendar o pensamento da psicanálise


Regina Herzog

Psicanalista, professora associada III do Programa de Pós-graduação em Teoria Psicanalítica, Instituto de Psicologia/UFRJ. rherzog@globo.com

As pulsões e seus destinos: do corporal ao psíquico, de Joel Birman. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009, 161p. (Para Ler Freud)

A proposta da coletânea Para ler Freud é a de apresentar os textos freudianos de maneira concisa e didática. Com relação a alguns trabalhos de Freud, trata-se de uma tarefa oportuna. Com relação a As pulsões e seus destinos, trata-se, mais do que de uma tarefa, de um desafio.

Primeiramente, por se tratar de um texto da maior importância no que se refere à densidade conceitual, sendo necessário, para percorrê-lo, estar familiarizado com vários outros conceitos, para não dizer com praticamente toda a trama psicanalítica.

Em segundo lugar, porque muitos são os que não lhe dão o devido relevo, por fazer parte do que Freud denominou "a metapsicologia", considerando que de pouco serve no âmbito da clínica o conceito de pulsão.

De fato, o objeto da investigação psicanalítica é o inconsciente e o conceito de pulsão é concebido como aquilo que dá fundamento ao inconsciente e às suas formações. Daí a considerar a teoria pulsional de pouca serventia no trato com o sofrimento psíquico, é um pequeno passo.

Ora, dentre os vários méritos desta publicação de Joel Birman, decerto o mais importante é o fato de ter justamente abalado esta ideia. Na verdade, poderíamos dizer que o modo como ele se propõe abordar o texto parece atender a este objetivo: mostrar que o ensaio "As pulsões e seus destinos" é um trabalho da maior relevância tanto no plano conceitual quanto clínico.

É claro que 'esta aventura', como afirma o autor, não é sem riscos. Ela implica uma tomada de posição, exigindo que se enfrente "as contradições, dúvidas, impasses e os vários paradoxos" nos quais o texto nos lança. Apenas a título de ilustração das dificuldades que este pequeno grande livro aponta no ensaio freudiano, coloca-se a pergunta: a teoria pulsional se insere em uma visada científica ou não passa de bruxaria? Freud, ele próprio, já se indagava sobre isso. E Birman, fiel ao texto freudiano, buscou mostrar como e por que este conceito foi forjado, com o intuito não de responder às questões colocadas por Freud, mas de refletir criticamente para permitir fazer o próprio texto trabalhar.

Assim, começando por situar este ensaio de 1915 no seio da proposta freudiana, Birman ressalta em que medida sua elaboração teórico-clínica se distingue do que vinha sendo feito, tanto no campo da medicina quanto no da psicologia em fins do século XIX, início do século XX.

Daí a importância não só de uma contextualização histórica, mas também epistemológica, tal como aparece nos capítulos II e III do livro. No capítulo II, Birman conduz o leitor aos primeiros textos freudianos para mostrar como o discurso do criador da psicanálise vai "realizar uma leitura outra da psicologia". E é com este intuito que vai forjar "a palavra e o conceito de metapsicologia". É a partir da crítica à psicologia que Freud vai forjar 'o sujeito no além da psicologia', empreendendo o que Birman designa como um "descentramento do sujeito dos registros do eu e da consciência". Com estas ferramentas, chegamos ao conceito de pulsão, o que dá fundamentação teórica aos fenômenos inconscientes.

Embora os primeiros capítulos tenham como objetivo maior esta contextualização, Birman já mostra, desde aí, que a ênfase deve ser colocada na "experiência clínica" como "condição concreta de possibilidade" da constituição da metapsicologia. Isso é demonstrado ao trazer a questão da 'histeria e anatomoclínica'.

No capítulo seguinte, 'Epistemologia freudiana', a discussão se centra no âmbito epistemológico propriamente dito, permitindo trazer para a cena o conceito de pulsão. A explanação de Birman sobre o discurso científico e sobre a preocupação de Freud em sustentar a cientificidade da psicanálise é extremamente rica, fornecendo a base para entender este complexo ensaio que será trabalhado nos dois capítulos seguintes.

Nestes, o autor oferece, ao mesmo tempo, todos os elementos para pensarmos a clínica quando descreve a montagem e o circuito pulsionais. Poderíamos dizer que sua exposição é muito mais que um simples resumo das ideias contidas no ensaio freudiano. Temas como sexualidade, excitações pulsionais, aparelho psíquico, questão corpo e psique ganham destaque nesta discussão.

Com o último capítulo, denominado 'Destinos', vamos encontrar uma leitura crítica da maior relevância para a clínica psicanalítica, mostrando como "o ensaio sobre as pulsões na Metapsicologia é uma passagem teórica fundamental no discurso freudiano que conduzirá inevitavelmente à segunda teoria das pulsões e à segunda tópica". Com isto, Birman avança no texto freudiano, trazendo uma problematização que só vai se dar depois de 1920 e que comporta, dentre várias, a questão do outro, do desamparo e do masoquismo.

Por tudo isto é lícito afirmar que, mais do que a "leitura de um clássico da psicanálise", conforme pretende o autor, este pequeno grande livro nos oferece a leitura do pensamento da psicanálise.

Revista Ágora - UFRJ

domingo, 17 de janeiro de 2010

Uma demão de verde: os laços entre grupos ambientais, governos e grandes negócios*


Uma demão de verde: os laços entre grupos ambientais, governos e grandes negócios*

Andréa Rabinovici

Professora da Universidade Federal de São Carlos - UFSCar, Campus Sorocaba, Doutoranda NEPAM-UNICAMP, Diretora de Projetos ONG Physis - Cultura & Ambiente

Sucesso e suspeita caminham juntos; a percepção, a análise e interpretação dos fatos relacionados ao sucesso às vezes demoram um pouco... O ambientalismo, seus protagonistas individuais e institucionalizados, principalmente em Organizações Não Governamentais (ONGs), têm ganhado importância e visibilidade crescentes desde a década de 1960.

Um campo por definição transversal, que lida com assuntos globais e com questões das quais depende o futuro de todos no planeta, tem merecido atenção. Muito difícil avaliar as ações... Deve-se escolher um ângulo, um ator para, a partir dele, tentar concluir algo. É o que faz Elaine Dewar, ao escolher as ONGs canadenses e seus principais participantes para compreender as conexões existentes entre elas, governos e empresas privadas em suas batalhas para salvar o planeta, tendo o Brasil importância crucial na trama.

Os laços entre esses atores e entidades não são novidade e têm sido tratados por diversos pensadores (vide sugestões de leitura ao final do texto), políticos, militares e militantes, muitas vezes em tons conspiratórios, como a publicação Máfia Verde, onde ambientalistas e ONGs são acusados de serem os maiores entraves ao progresso humano.

A desconfiança proveniente da visibilidade que as ONGs alcançaram, especialmente as transnacionais, pede investigações de todos os tipos e suscita questões interessantes.

No Brasil, vez por outra, tenta-se implementar uma CPI no Congresso Nacional para verificar o repasse de grandes quantias de recursos a algumas centenas de ONGs, especialmente na região Amazônica, onde, apesar da grande cobertura da mídia, do conhecimento científico amplamente divulgado, da crescente consciência da população, da presença militar, da legislação ambiental e dos mecanismos de proteção sofisticados, além de muito dinheiro para sua conservação, poucos resultados concretos são observados, como no caso emblemático do desmatamento crescente.

O livro de Elaine Dewar, uma renomada jornalista canadense que já havia escrito "Bones: Discovering the First Americans" (2001) e "The Second Tree: Of Clones, Chimeras and Quests for Immortality" (2004), é uma contribuição de fôlego para alertar e informar sobre essas conexões entre atores e instituições governamentais, não governamentais e empresariais.

Com suas quase 500 páginas, o livro demorou sete anos para ser escrito. De 1988 a 1995 a autora pôde acompanhar todos os tipos de articulações feitas para compor o que ela chama de "Agenda de Governança Global", incluindo o marco da Conferência RIO-92. A forma instigante como é escrito facilita sua leitura, mesmo havendo uma infinidade de minúcias, com detalhes de personagens e instituições canadenses desconhecidas para grande parte dos brasileiros, mas que espelham e, com certeza, influenciaram nossos protagonistas.

Todos os detalhes são fundamentais, inclusive os presentes nas extensas notas que aparecem no final do livro. Com as investigações da autora, descobrimos fatos e dados sobre nossas ONGs1, seus protagonistas, alguns conhecidos cientistas, universidades e instituições de pesquisa. Em sua visita ao Brasil ela pôde entrevistar lideranças que são citadas, às vezes compartilhando, ora endossando os interesses externos, talvez desconhecidos aos olhos dos brasileiros mais atentos.

As ciências sociais são provocadas para uma constante e necessária auto-reflexão, sobre o uso político da antropologia (organizar as comunidades para falar por si, elevar suas consciências, abrir oportunidades, criar espaços políticos, torná-las independentes financeiramente, atribuir novas bandeiras e ajudar a criar heróis entre os caiapós - como Paikan -, ou os seringueiros, como Chico Mendes, transformando-os em ambientalistas, oferecendo segurança...). No livro a autora descreve brevemente os perfis de antropólogos atuantes no Brasil ou que tangenciaram as questões ambientais, como Darrell Posey, Maybury Lewis, Terence Turner e Margaret Mead, traçando com isso um pequeno histórico da antropologia indígena e sua relação com o meio ambiente.

A formação de uma rede ampla, composta por um seleto grupo de protagonistas, se repete no Brasil, e é por isso que devemos dar atenção ao livro, tentando compreender quais são as pontas dessa rede que estão aqui. O que nossos atores sociais têm em comum? No que essa história influenciou nossas ONGs, à época sendo formadas, e quanto ainda influencia? Por quê houve (há) a criação de demandas ambientais a partir de outras tantas? Para quê? O que está por trás de tudo isso? Em ONGs não ambientalistas isso se repete? Essas são algumas questões derivadas que a autora prenuncia e que sugerem reflexão ao leitor, para algumas das quais ela própria esboça alternativas de respostas.

A conclusão do livro nos apresenta, de forma negativa, as maiores ONGs Canadenses e coloca o Brasil como alvo prioritário do aparato internacional que orienta os padrões de desenvolvimento em seus benefícios particulares, ideológicos, políticos ou econômicos.

Ao investigar sete grandes ONGs Canadenses ou com sede no Canadá (WWF, Pollution Probe, Amigos da Terra, Comitê de Áreas Selvagens do Canadá Ocidental (WCWC), Fundação Harmonia, Sobrevivência Cultural, Energy Probe Research Foundation/Probe International), ela tenta descobrir, além de onde obtinham seu dinheiro, qual era o relacionamento delas com seus membros, se eram democráticas, representativas e/ou transparentes. A autora, decepcionada com as descobertas, conclui seríssimas questões.

As ONGs pesquisadas: apoiavam ativamente e promoviam facetas diversas da Agenda de Governança Global; em conjunto recebiam mais de 10 milhões de dólares anuais em donativos, bolsas e outros rendimentos, e gastavam grande parte defendendo interesses específicos junto a governos e ao público em geral; assumiam uma fachada de independência crítica de governos e negócios a despeito de serem estes os seus doadores; não praticavam democracia, participação e transparência em sua gestão e definições políticas; apresentavam relatórios descuidados com declarações financeiras incompletas; recebiam dinheiro de quaisquer doadores (inclusive dos que compram influência política); contrataram pessoas que trabalharam em agências de inteligência; eram dúbias em seus objetivos e missões que podiam ser lidos e interpretados de diversas maneiras; não tinham capacidade de testar os produtos e marcas que endossavam; desorientavam seus públicos com informações incorretas para obter fundos; tinham como protagonistas as mesmas pessoas, um grupo seleto e interligado; muitas mediam sua eficácia pelo número de vezes que apareciam na mídia ou respondiam às suas solicitações; todas apresentavam grande capacidade de arrecadar dinheiro e de se "transformar" num grupo de ativistas; e constituíam canais para repasse de dinheiro governamental para ONGs menores em outros países, tendo capacidade para apagar as linhas divisórias entre negócios, política e atividades beneficentes.

Afora isso, a autora questiona o significado do "ser membro de uma ONG", já que uma vez feita uma doação ou a filiação (amplio isso para o simples ato de "clicar em um site na internet" ou "usar o cartão de crédito em prol de alguma entidade ou campanha") o cidadão passa a ser considerado membro sem precisar nunca comparecer a uma reunião ou eleger os membros dirigentes. Esse fato é preocupante, na medida em que a apatia é apontada como um dos grandes problemas da atualidade, distanciando a população do prazer de ser protagonista em busca de soluções e desmobilizando quaisquer aspirações e utopias.

O livro, excelente registro histórico, constitui quase uma etnografia das ONGs canadenses focadas no Brasil e dá margem a muitas novas perguntas, sendo boa fonte para futuras pesquisas.

No Brasil (que, segundo a autora, definitivamente não é um "país de ingênuos") as ONGs funcionavam como membranas permeáveis por meio das quais governos e empresas podiam fazer acertos com tomadores de decisões na maior economia da América Latina, exercer pressão sobre autoridades com grandes e pequenas doações através das quais o seu comportamento podia ser administrado.

Para a "Agenda", importante era que os problemas locais fossem desvinculados do debate sobre o ambiente, dando espaço a grandes fenômenos ambientais globais aterrorizantes e impossíveis de serem resolvidos em escala local, tornando necessárias as alianças e a relativização das soberanias, e ampliando o poder das instituições supranacionais. Nessa Agenda tem espaço atores sociais previamente selecionados, tendo as ONGs brasileiras, mesmo as maiores, pouquíssima influência.

Na escala brasileira, as ONGs mais influentes, até hoje, obtêm dinheiro e orientação política (ou ambos) de governos e grandes doadores corporativos internacionais. Às vezes com poucos membros, e questionável legitimidade junto ao seu público, elas continuam a obter recursos. Por meio de uma constante atividade de propaganda, estabelecem as margens do debate público e suas idéias muitas vezes são reconhecidas e trabalhadas pelos governos, quando não são suas parceiras. São questionadas por grupos de base como entraves à sua existência.

A autora é profética ao escrever, na página 336 do livro:

Ao final de 1991, eu já me tornara altamente cética sobre os motivos dos que estavam no círculo. Eu havia chegado à conclusão de que a poluição transfronteiriça estava sendo usada como um instrumento de propaganda para vender aos descrentes a necessidade de níveis regionais e globais de governança. O "pensar globalmente, agir localmente", era apenas outra frase de efeito propagandística. O público estava sendo persuadido a aceitar a proteção do meio ambiente com base em um modelo de mercado: regulamentos seriam substituídos por leis permitindo o comércio de débitos e créditos de poluição. Se os associados de Strong tivessem sucesso, em breve, os débitos e créditos de poluição estariam sendo comercializados globalmente, da mesma maneira que pernis de porco e derivativos financeiros. Por volta do ano 2000, restariam poucas entidades nacionais independentes capazes de defender as comunidades locais dos leviatãs internacionais. As comunidades locais competiriam entre si pelos favores dos grandes interesses. Aqueles de nós que viéssemos nas margens brutais dessas novas potências mundiais nos veríamos gratos em comercializar com qualquer um a qualquer preço.

O que fazer então? O livro pode provocar no leitor uma desorientação, indignação e descrença. Quem vê (ou via) no fortalecimento do ambientalismo e das ONGs a única saída para o futuro viável, fica estimulado a pensar cuidadosamente sobre as conclusões da autora e a fazer a leitura crítica das pressões que bombardeiam e, muitas vezes, afastam-nos das soluções mais simples. Além disso, o leitor deve atentar às estratégias existentes, atores e entidades voltadas para uma efetiva mudança de valores e atitudes, para uma educação ambiental crítica, revolucionária e desvinculada dos paradigmas mercadológicos - incluindo aí o conceito de desenvolvimento sustentável. Deve conhecer ONGs e movimentos nos quais ainda exista a pretensão e o trabalho concreto de transformação do seu entorno.

A crítica construtiva à atuação das ONGs ambientalistas deve abrir espaço para o que o ambientalismo pode trabalhar: a solidariedade e o que Boaventura Souza Santos denomina de democracia de alta intensidade. Nesse contexto, as ONGs e os movimentos sociais teriam condições de atuar, inovar e criar alternativas, para uma real possibilidade de emancipação social, para a criação de uma cidadania pós-nacional, com o multiculturalismo, o direito difuso, a diversidade socioambiental, e a valorização de conhecimentos diversos ao científico, acessíveis a todos. Tudo isso constitui potencialidade, desafio enorme e uma real e necessária "Agenda".

Para saber mais

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-753X2008000100014&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt

Notas

1 SOS Mata Atlântica, IBASE, INESC são algumas que a autora visitou pessoalmente.

Autor para correspondência:
Andréa Rabinovici
Universidade Federal de São Carlos - UFSCAR
Campus Sorocaba
Rod. João Leme dos Santos, Km 110-SP-264, Bairro do Itinga
CEP 18052-780, Sorocaba, SP, Brasil
Fone: (15) 32022471
E-mail: andrea@ufscar.br

* Do original: Cloak if Green: the links between key environmental groups, government and big business; Elaine Dewar, 1995. Tradução de Yára Nogueira Muller, Gildo Magalhães, Geraldo Luís Lino. Rio de Janeiro, Capax Dei, 2007, 528 p.


Revista Ambiente e Sociedade - UNICAMP

"Amazônia: natureza e sociedade em transformação"*


"Amazônia: natureza e sociedade em transformação"*

Debora Pignatari Drucker

Mestre em Ecologia pelo INPA, Doutoranda em Ambiente & Sociedade pelo NEPAM/UNICAMP (Bolsista FAPESP)

A pesquisa da relação entre a ação humana e o ambiente natural abrange questões relevantes à busca pelo desenvolvimento sustentável e aos efeitos das mudanças ambientais globais. Um dos temas que está no centro do debate é a investigação de transformações em ecossistemas naturais, com destaque para a extensa área de floresta tropical da Amazônia. Essas alterações ocorrem de diferentes maneiras, uma vez que não há uma abordagem única ou linear que possa explicar a interação entre sociedade e ambiente. O diálogo entre pesquisadores em ciências naturais e humanas é necessário para avançar essa área do conhecimento, e a manutenção de serviços ambientais implica em relacionar resultados com políticas regionais e internacionais.

O livro "Amazônia: Natureza e Sociedade em Transformação", organizado por M. Batistella, E. Moran e D. Alves, apresenta uma síntese do conhecimento atual sobre as dimensões humanas das alterações ambientais na Amazônia. Boa parte desse conhecimento foi gerada no âmbito do Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA), evidenciando a evolução e o amadurecimento do programa com a ampliação do enfoque em ciências humanas. A bagagem interdisciplinar dos organizadores - Batistella é formado em biologia e filosofia, com doutorado em ciências ambientais; Moran é professor de antropologia, geografia e ciências ambientais; Alves é matemático e vem intensificando as pesquisas sobre filosofia e sociologia da ciência - permitiu um olhar amplo sobre a interação entre ambiente e sociedade na Amazônia.

O livro está divido em três partes. A primeira, composta por dois capítulos, trata da questão das Dimensões Humanas no LBA, trazendo uma análise sintética do histórico do programa, do estado atual do conhecimento e de perspectivas. No capítulo 1, Alves e colaboradores demonstram como as ciências humanas ganharam espaço ao longo da primeira fase do LBA, que completou dez anos de existência em 2007, quando se tornou programa de governo e renovou a agenda de pesquisas iniciada em 1998. Essa trajetória parte de um componente de uso e cobertura da terra, no início do programa, o que evidencia os fundamentos da pesquisa em ciências humanas que embasaram o componente Dimensões Humanas do LBA e o seu amadurecimento. Schor e Alves analisam, no capítulo 2, a evolução do componente sob a perspectiva da relação entre ciência e sociedade e consideram como o processo de produção de conhecimento ao mesmo tempo influencia e é influenciado pelos processos sociais.

A compreensão de que as mudanças climáticas suscitam questões que coligam ciências naturais e humanas ganhou força tanto nacionalmente, como evidenciado pela evolução do programa LBA - o qual abordou alterações ambientais desde sua concepção -, quanto internacionalmente. Não por acaso, o Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) também concentrou esforços primeiramente em ciências naturais, como foi demonstrado quando o grupo de trabalho I, The Physical Science Basis (IPCC 2007a), apresentou relatório demonstrando fortes evidências da existência de aquecimento global em conseqüência da ação humana. Os relatórios do grupo II, Impacts, Adaptation and Vulnerability (IPCC 2007b), e do grupo III, Mitigation (IPCC 2007c), apontam para a necessidade de pesquisas na interface das ciências climatológicas, biológicas, sociais e econômicas: sumarizam o estado do conhecimento atual e indicam lacunas que colaboraram para embasar a segunda fase do Programa LBA, iniciada em 2007. Conseqüentemente, embora as duas perguntas orientadoras do LBA tenham sido mantidas - Como a Amazônia funciona como uma entidade regional? Como as mudanças no uso da terra e no clima afetam as funções biológicas, químicas e físicas da Amazônia, incluindo a sustentabilidade da região e a influência da Amazônia no clima regional e global? -, na segunda fase as dimensões humanas foram incorporadas aos grupos de trabalho, os quais interagem em três focos de pesquisa principais:

1. O ambiente amazônico em mudança;

2. A sustentabilidade dos serviços ambientais e os sistemas de produção terrestres e aquáticos;

3. A variabilidade climática e hidrológica e a sua dinâmica: respostas, adaptação e mitigação.

A segunda parte do livro discute trajetórias, cenários e modelos para a Amazônia, abordando a interação entre homem e ambiente em cinco capítulos com diferentes enfoques metodológicos e, ao mesmo tempo, com uma característica em comum: apresentam análises embasadas por anos de pesquisa, incluindo contribuições que transcendem o Programa LBA, e ilustram o estado atual do conhecimento na região amazônica para os respectivos temas. No capítulo 3, Moran e colaboradores fazem uma análise multiescalar de fatores que afetam o desmatamento e o uso da terra na região amazônica. Os autores tratam de diferenças entre processos inter e intra-regionais e discutem as suas conexões com padrões regionais, ressaltando o caráter dinâmico dos fatores envolvidos com mudanças de uso e cobertura da terra na região. Hogan e colaboradores, no capítulo 4, apresentam análises da dinâmica demográfica no período desde a década de 1970 à de 2000 na Amazônia, nas quais discutem tendências de crescimento demográfico, mobilidade populacional e urbanização na região. No capítulo 5, Walker e colaboradores discutem mudanças na economia regional com uma análise histórica da produção regional, da composição setorial, da mão-de-obra, da infraestrutura e do bem estar social. Ainda com enfoque econômico, no capítulo 6, Costa usa dados censitários em análises quantitativas de propostas de trajetórias tecnológicas para os sistemas de produção da região. Leitores pouco familiarizados com modelagem matemática não terão dificuldades em compreender o modelo integrado proposto por Soares-Filho e colaboradores, no capítulo 7, para simular a dinâmica do desmatamento; enquanto iniciados em modelagem matemática encontrarão uma revisão sobre a evolução dessas ferramentas analíticas. Os autores encerram a segunda parte do livro apresentando trajetórias e cenários pessimistas e otimistas para o desmatamento da Amazônia brasileira até o ano de 2030 e discutem as suas implicações. Além disso, apontam para a necessidade da compreensão mais ampla de fatores socioeconômicos e os desafios de incorporá-los em análises numéricas. Ao mesmo tempo, ressaltam a importância de relacionar padrões de mudanças de uso e cobertura da terra com outros modelos biofísicos. Assim, os capítulos que compõem a segunda parte do livro apresentam resultados de pesquisas interdisciplinares e, além de demonstrar caminhos para se enfrentar desafios metodológicos, estimulam a formulação de novas perguntas em ambiente e sociedade, o que é uma contribuição para o avanço do conhecimento nessa área.

A terceira parte do livro, composta por quatro capítulos, aborda aspectos institucionais como fatores de compreensão das interações entre ser humano e ambiente na Amazônia, e discute o desafio de se associar ciência e formulação de políticas públicas. No capítulo 8, Santos e Alves debatem políticas internacionais e nacionais de conservação, refletindo, respectivamente, sobre a Convenção da Diversidade Biológica e as Reservas Extrativistas. Em ambos os casos, os autores tratam das dificuldades de se articular os interesses dos diferentes atores sociais envolvidos, desde os estados até as particularidades de cada grupo local, bem como as diferenças entre os seus instrumentos de organização. No capítulo 9, Costa analisa o ordenamento territorial na Amazônia, com ênfase nos desafios teóricos, metodológicos e operacionais de experiências do Zoneamento Ecológico Econômico (ZEE) desde 1986. Apenas dois estados da Amazônia Legal (Acre e Rondônia) implementaram o ZEE, e são apresentadas inúmeras particularidades de experiências em diferentes escalas, o que contribui para a compreensão mais abrangente das dimensões do planejamento regional.

No capítulo 10, Becker questiona a percepção de que a conservação da natureza seria um entrave ao desenvolvimento e reflete sobre o papel das cidades como núcleos de articulação do desenvolvimento regional não predatório, nos quais a meta é produzir para conservar. A autora argumenta que os serviços e o fortalecimento da ciência e da tecnologia são alguns dos elementos com os quais as cidades têm o potencial de contribuir para a maior conectividade entre as diversas realidades locais, de forma a constituir uma estrutura produtiva em rede. Nobre e Lahsen encerram o livro com uma reflexão sobre os desafios de se conectar os conhecimentos gerados no âmbito do LBA e de outros programas de pesquisa ambientais com aplicações para o desenvolvimento regional. Os autores contextualizam as pesquisas do LBA e outras iniciativas de pesquisa na Amazônia com programas internacionais, especialmente aqueles relacionados com mudanças climáticas globais, salientando a necessidade de promover o diálogo entre cientistas naturais e sociais.

O debate sobre como a pesquisa pode contribuir para a sustentabilidade do manejo de recursos naturais ganhou força desde o Relatório Brundtland (1987), o qual propagou o termo desenvolvimento sustentável. A evolução da ciência para a sustentabilidade evidenciou que a mesma não se trata simplesmente de uma abordagem reducionista como, por exemplo, determinar tamanhos ou quantidades ótimas de extração de determinado recurso. Ficou claro também que a análise da ação humana como parte dos processos dinâmicos envolvendo os recursos naturais é crucial para que pesquisas integradas sejam úteis ao gerenciamento ambiental. Uma via para estreitar a relação entre ciência e ações práticas em políticas de desenvolvimento regional é usar estimativas de incertezas como fontes de informação (BRADSHAW; BORCHERS, 2000). Isso significa que os resultados de programas de pesquisas como o LBA são úteis para melhorar a precisão de estimativas de incertezas, pois quanto mais conhecemos sobre a interação entre ser humano e ambiente na Amazônia melhor dimensionamos o que ainda não sabemos. Pesquisadores estão acostumados a lidar com incertezas em investigações científicas, porém, freqüentemente, apenas os aspectos deterministas dos resultados científicos são considerados quando usados em formulação de políticas públicas. A incorporação de componentes de incerteza associados aos resultados científicos fornece informação mais completa aos processos de tomada de decisão.

A busca pela sustentabilidade na Amazônia demanda conhecimento na interface das ciências climatológicas, ecológicas, sociais, políticas e econômicas, bem como relacioná-las com políticas locais, regionais e internacionais. Esta obra, por se tratar de uma coletânea, permite que o leitor identifique o diálogo entre diferentes autores e traz importante contribuição para a análise do que sabemos e do que não sabemos sobre a interação entre ser humano e ambiente na região amazônica.
Autor para correspondência:
Debora Pignatari Drucker

Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais
Rua dos Flamboyants, 155 - Cidade Universitária Zeferino Vaz
Campinas - CEP 13083-867, São Paulo - Brasil
Fones (19) 3521-5103, 3521-7690
E-mail: deboradrucker@gmail.com

* Organizado por Mateus Batistella; Emilio F. Moran; Diógenes S. Alves. Editora da Universidade de São Paulo (Edusp). Coleção Ciências Ambientais. ISBN: 8531411262. 304 pp. 2008.


Revista Ambiente e Sociedade - UNICAMP

Superalimentados, mas subnutridos - um diagnóstico do sistema alimentar industrial*


Superalimentados, mas subnutridos - um diagnóstico do sistema alimentar industrial*


André Luiz BiancoI; Ana Carolina Ribeiro Lobo de CassianoII

IMestrando do Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política na Universidade Federal de Santa Catarina e Bolsista do CNPq e Membro do Núcleo Interdisciplinar em Sustentabilidade e Redes Agroalimentares (NISRA)
IIGraduanda em Ciências Sociais na UFSC, Bolsista de Iniciação Científica (PIBIC/CNPq) da Dra. Julia S. Guivant e Membro do NISRA

Os produtos alimentares têm se multiplicado nas prateleiras dos supermercados mais rapidamente do que nunca. Apesar do intenso fluxo de informação proveniente de cientistas e marqueteiros da alimentação, jornalistas e diretrizes alimentares do governo, as pessoas parecem cada vez menos capazes de responder à simples pergunta: "O que devo comer?". Em meio à proliferação crescente de livros que procuram recomendar "A" dieta para se viver mais, para se ter mais beleza, para se ser sempre magro, e muitas outras promessas, destaca-se o lançamento do livro "Em defesa da comida: um manifesto" (Rio de Janeiro, Ed. Intrínseca, 2008, p. 272), do jornalista Michael Pollan. Este livro não foge da pergunta sobre o que devemos comer, mas, ao mesmo tempo, faz um diagnóstico preciso e bem documentado dos motivos que nos levaram a essa condição de desorientação. Assim, a contribuição de Pollan navega entre orientações práticas, jornalismo documental e também contribui com informações preciosas para áreas acadêmicas.

A obra objetiva fazer uma crítica à dieta ocidental (alimentação industrializada), que minou a cultura alimentar americana, substituindo durante o século XX a "comida de verdade" por "produtos alimentares". Isto inclui a sugestão de uma percepção mais abrangente da saúde e da sua relação com a alimentação e com o ambiente. Tal temática já havia sido trabalhada pelo autor no livro "O Dilema do Onívoro" (Rio de Janeiro, Ed. Intrínseca, 2007, p. 480), considerado um dos 10 melhores do ano de 2006 pelo jornal The New York Times. Neste trabalho, resultado de cinco anos de pesquisa, Pollan analisou três cadeias alimentares: a industrial, a orgânica e aquela associada à caça e à coleta. O trabalho consistiu em esmiuçar como surgiram e como se dá o funcionamento de cada uma dessas cadeias. Enquanto "O Dilema do Onívoro" foca a questão da produção alimentar, "Em Defesa da Comida" explora os efeitos do conhecimento científico reducionista em toda a cadeia alimentar, porém com uma interface direcionada à prática de consumo. No livro "Em Defesa da Comida", sua posição é evidente já no subtítulo do livro: um manifesto (no original: An eater's manifesto). Seu objetivo principal é defender a comida e a alimentação da ciência da nutrição, da indústria alimentícia e do jornalismo (intermediário entre os cientistas e o público), e a sua argumentação é conduzida neste sentido: nas duas primeiras partes do livro, ele nos apresenta um diagnóstico do sistema alimentar ocidental atual e, na terceira, dá suas recomendações de como podemos nos alimentar da melhor forma possível dentro deste sistema - ou fugindo o máximo que podemos dele.

Esse sistema alimentar foi construído no século XX com base em uma ideologia do nutricionismo (p. 15), defendida pela indústria alimentar, que conseguiu ter poder e influência para gerar consenso em torno de três mitos: 1) o mais importante não é o alimento, mas sim o nutriente; 2) por ser este invisível e incompreensível, precisamos de especialistas para decidir o que comer; e 3) o objetivo da alimentação é promover a saúde física.

A primeira parte do livro, intitulada "a era do nutricionismo", visa entender como se chegou ao estado atual de confusão e ansiedade nutricional. Para isso, Pollan retoma o surgimento da ciência da nutrição. Desde o século XIX, a ciência procurou determinar os componentes fundamentais dos alimentos (macronutrientes: proteínas, gorduras e carboidratos) e, a partir do início do XX, passou a pesquisar os micronutrientes (vitaminas). Essas descobertas possibilitaram a cura quase imediata de doenças como escorbuto e beri-béri, legitimando a então incipiente ciência nutricional.

A partir dos anos 1950, difundiu-se a "hipótese lipídica" - isto é, a gordura e o colesterol oriundos principalmente de carnes e laticínios são responsáveis pelo aumento de doenças do coração -, que passou a influenciar decisões políticas. Pollan demonstra isso exemplificando o que aconteceu na Comissão Superior do Senado dos EUA para Nutrição e Necessidades Humanas. A Comissão organizou um documento contendo recomendações alimentares que foram orientadas por essa hipótese, mas ele teve que ser reformulado às pressas por conta de lobbies de indústrias de carne e laticínios que não gostaram do conteúdo. Substituiu-se a recomendação "reduza o consumo de carne" por "escolha carnes que reduzam o consumo de gorduras saturadas".

O efeito mais importante disso foi a mudança na linguagem: deixou-se de falar em alimentos e passou-se a falar em nutrientes. A "língua alimentar oficial" - falada em termos como poliinsaturado, colesterol, monoinsaturado, carboidrato, fibra, polifenóis, aminoácidos, flavonóis, etc. - logo passou a fazer parte "do espaço cultural previamente ocupado pelo material tangível, antes conhecido como comida" (p. 33).

O reflexo do nutricionismo no mercado é a eliminação da distinção entre natural e processado: mesmo um alimento altamente processado pode ser considerado "mais saudável" se possuir as quantidades apropriadas de nutrientes. O princípio nutricionista operacional é a capacidade científica de determinar a equivalência nutricional entre quaisquer alimentos, assim tornando-os substituíveis. Enquanto os alimentos naturais sobem e descem de acordo com o que é convencionado pela ciência da nutrição, os alimentos processados podem ser continuamente reformulados pela indústria.

Como Pollan evidencia, a "hipótese lipídica" é exemplo da instabilidade, controvérsia e incerteza dentro da ciência da nutrição, como um paradigma desta ciência. Os cientistas têm reconhecido que, já no princípio da formulação dessa hipótese, os fundamentos eram insuficientes. Apesar do esforço nas últimas décadas para a redução do consumo de gordura, os problemas de saúde relacionados não diminuíram. Deixa-se de consumir gorduras, mas se consome mais carboidratos.

Segundo Pollan, "o resultado de trinta anos de conselhos nutricionais fez as pessoas mais gordas, mais doentes e mais mal nutridas" (p. 95). A segunda parte do livro discute este aspecto: a relação entre a dieta ocidental e as doenças de nossa civilização. O autor aponta que hoje se sabe que um conjunto de doenças, chamadas de ocidentais (obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares, hipertensão e tipos de câncer ligados à dieta), aparece quando um povo abandona a sua dieta e adota a dieta ocidental. Pollan apresenta estudos das primeiras décadas do século XX que já identificavam essa relação. Cita, por exemplo, estudos de médicos europeus e americanos que trabalharam com populações nativas em diversos lugares do mundo e notaram os malefícios da "dieta industrializada". Entretanto, as críticas que fizeram à "civilização industrial" não sobreviveram à Segunda Guerra Mundial. Durante a guerra, as pessoas dependiam da indústria para sobreviver, o que a consolidou e contribuiu para que os estudos desses médicos fossem, em sua maioria, esquecidos.

A dieta ocidental como conhecemos hoje se constituiu de mudanças radicais nos alimentos e em nossas relações alimentares ao longo dos últimos 150 anos (p. 121). Pollan apresenta cinco transformações fundamentais:

I) Dos integrais aos refinados: os grãos de cereais vêm sendo refinados desde a Revolução Industrial e passaram a ter mais prestígio por conta da imagem, higiene e durabilidade. Além disso, facilitavam o comércio por não estarem presos às amarras de tempo e lugar;

II) Da complexidade à simplicidade: em cada nível, do solo ao prato, a industrialização alimentar envolveu um processo de simplificação química e biológica (p. 129);

III) Da qualidade à quantidade: com a industrialização dos alimentos se produz muito mais calorias, mas com menor valor nutritivo. Como resultado da superprodução, o preço cai, possibilitando que as pessoas comam mais, porém com menos qualidade;

IV) De folhas a sementes: os grãos passaram a compor a maior parte dos alimentos industrializados. Além disso, a superprodução de grãos simplifica a paisagem agrícola, reduzindo a disponibilidade de uma variedade maior de alimentos;

V) Da cultura à ciência do alimento: com a era da alimentação moderna, a orientação sobre o que se deve comer deslocou-se da cultura étnica e regional para a ciência nutricional.

Essas mudanças tiveram consequências para a saúde humana, para as práticas sociais e para o ambiente. O argumento da simplificação está presente nas cinco transformações. A simplificação da paisagem agrícola tem reflexos diretos na dieta humana. Os seres humanos são onívoros, necessitando de aproximadamente cem compostos químicos e elementos diferentes para uma boa saúde. No entanto, milho, soja, trigo e arroz processados compõem a maior parte da dieta ocidental.

Além dessa pequena variedade, o refino moderno retira dos alimentos nutrientes e outros elementos importantes para a nutrição humana, o que faz crescer a incidência de doenças causadas por deficiências. Mesmo com a estratégia de adição de nutrientes por parte da indústria, os alimentos refinados não contêm o mesmo valor nutricional que os integrais. E, ao mesmo tempo em que perdemos elementos fundamentais para a dieta, aumentamos o consumo de calorias: podemos estar superalimentados, mas subnutridos - e, ainda assim, não necessariamente saciados.

Outra perda grave para a saúde humana é a redução no consumo de folhas a favor do elevado consumo de grãos. Deixamos de consumir elementos essenciais (ou seja, que nosso corpo não pode produzir por si só), por exemplo, os ácidos graxos ômega-3. Além das consequências ambientais e biológicas, a mudança na cultura alimentar causou desorientação e ansiedade nas decisões de consumo alimentar, pois elas são baseadas em ciências cujo conhecimento é constantemente revisto e está sujeito a falhas.

Frente ao quadro apresentado sobre o sistema alimentar moderno, Pollan faz sugestões para orientar as escolhas, a fim de priorizar a história, a cultura e a tradição. As doze propostas tratam de ações que envolvem a produção, a compra, o preparo e as circunstâncias de consumo. O autor sugere que a alimentação seja entendida como mais do que meramente "nutrir-se", ligando-a às possíveis consequências de nossas decisões de consumo no que diz respeito a questões éticas, ambientais, culturais e à própria saúde individual. Por exemplo, deveríamos evitar produtos que nossos avôs não reconheceriam como comida ou que contenham mais de três ingredientes cujos nomes não conseguimos pronunciar. Ao mesmo tempo, ele procura esclarecer que não pretende um retorno a um contexto pré-moderno, que negue completamente a sociedade industrial.

O trabalho de Pollan é interessante tanto para leituras acadêmicas como extra-acadêmicas, trazendo contribuições significativas para diversas áreas da Sociologia. Para a Sociologia do Conhecimento e da Ciência contribui com uma análise histórica e sociológica do nutricionismo, que demonstra como o conhecimento é construído, legitimado e questionado em uma determinada comunidade científica; como uma hipótese (como a lipídica) pode ser mantida por décadas, apesar de não possuir evidências suficientes. Para a Sociologia Ambiental, traz como contribuição a análise das transformações recentes nas cadeias produtivas e as suas implicações para o ambiente. Em "O Dilema do Onívoro", ele acompanhou, por exemplo, o percurso do milho na cadeia industrial desde a produção até seu consumo final. A produção de alguns hectares de milho começa com a extração de petróleo, necessário para tornar utilizável o nitrogênio não reativo encontrado na natureza, que, por sua vez, será utilizado na fabricação de fertilizantes artificiais. Aliando-se isto à manipulação dos cruzamentos genéticos, é possível aumentar a produção de milho por hectare, cujo excedente torna-se tão barato que é usado de alimento para animais ruminantes, e assim por diante.

Além disso, Pollan pode contribuir para os interessados em Sociologia Política, ao demonstrar como a produção alimentar e a produção dos conhecimentos científicos estão entrelaçadas com questões políticas.
* Em defesa da comida. Michael Pollan. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2008
Autor para correspondência:
André Luiz Bianco
Universidade Federal de Santa Catarina
Universidade Federal de Santa Catarina e Bolsista do CNPq e Membro do Núcleo Interdisciplinar em Sustentabilidade e Redes Agroalimentares (NISRA)
e-mail: amdreluiz@gmail.com

Revista Ambiente e Sociedade - UNICAMP

sábado, 9 de janeiro de 2010

As grandes ONGs ambientalistas em questão*


As grandes ONGs ambientalistas em questão*

Andréa Rabinovici

Professora da Universidade Federal de São Carlos - UFSCar, Campus Sorocaba, doutoranda NEPAM-UNICAMP, Diretora de Projetos da ONG Physis - Cultura & Ambiente

Antonio Carlos Diegues, docente da USP e Diretor Científico do Núcleo de Apoio à Pesquisa sobre Populações Humanas em Áreas Úmidas Brasileiras (NUPAUB)1, lança o livro A Ecologia Política das Grandes ONGs Transnacionais Conservacionistas, no qual aborda tema mais do que oportuno, num momento em que as Organizações Não Governamentais (ONGs) transnacionais conservacionistas crescem em complexidade, apresentam contradições antes impensáveis, começando a ser questionadas por vários segmentos sociais. O livro contém introdução de Diegues e traduções dele de autores diversos tais como MacChapin, David B. Ottaway, Joe Stephens, Daniel Compagnon, Mariteuw Chimère-Diaw, Mark Dowie, Jim Igoe e Dan Brockington. Os alvos das críticas são as grandes ONGs conservacionistas, especialmente WWF, The Nature Conservancy (TNC) e Conservation Internacional.

As Big International Non Governamental Organizations (BINGOS) conservacionistas vêm instalando-se no Brasil desde 1970, investindo recursos financeiros, humanos e tecnológicos.

As causas às quais se dedicam e o investimento na sua imagem costumam imprimir uma aura de legitimidade, simpatia, respeito e poucas críticas. É raro serem questionadas pelos cidadãos, que, ao contrário, aplaudem suas iniciativas, apóiam-nas e as agradecem por cuidarem da sobrevivência e da segurança de todos os seres vivos. O livro de Antonio Carlos Diegues vem em ótimo momento, na medida que apresenta sérias críticas, no intuito de aprofundar o debate, de rever aspectos que precisam ser mais bem desenvolvidos, de modo a recuperar o significado da necessária mobilização para conduzir ações que visam garantir o futuro do planeta. O livro é corajoso, pois ao denunciar as ONGs, simultaneamente, desaponta os simpatizantes. A crítica é dura, e, mais do que avaliar as BINGOS em geral, são feitas críticas às grifes do ambientalismo, acima de qualquer suspeita, aquelas que divulgamos em nossos carros, camisetas, bonés... As principais críticas feitas pelos autores destacam que as BINGOS conservacionistas são pouco transparentes, e que existem lacunas no tocante à avaliação e ao controle das suas ações pelos beneficiários e pela sociedade como um todo. Também não estão abertas à participação pró-ativa de seus militantes, muitas vezes distanciando-os das ações. Se não são democráticas internamente ou com o seu público, o que propõem?

Recebem grandes somas de dinheiro que, às vezes, perdem-se na própria estrutura da grande ONG transnacional, chegando em quantidades menores do que as esperadas pelos seus atendidos. Outro aspecto apresentado pelo livro diz respeito à invenção e à aplicação de uma ciência conservacionista, criada e disseminada pelas BINGOS. Essa "ciência" em muitas situações é contrária ao que dita o conhecimento e as metodologias utilizadas por comunidades atendidas, impondo um conhecimento distinto, distante e que, para ser aplicado, depende da ONG. Assim, uma tutela imposta obriga a continuidade dos trabalhos, que passa a ser exigida pela ONG, pelo seu público alvo e pelos seus patrocinadores. Os autores deste livro sustentam que essa "ciência da conservação" é criada por pesquisadores do Norte, cabendo aos do Sul apenas a transferência de informações. Essa "ciência" trabalha com modelos que são continuamente ajustados em função de injunções e financiamentos que são mais políticos do que científicos ou sociais. Algumas das questões foram discutidas por Goldman (2001), que acusa BINGOS e especialistas de estudarem a conservação e as possíveis soluções para os problemas socioambientais dentro de uma ótica desenvolvimentista, buscando a reestruturação das capacidades e relações sociais-naturais dos países em desenvolvimento para acomodar a expansão do capital transnacional. Assim, as BINGOS seriam uma forma de dominação e imperialismo (neocolonialismo ou colonialismo ambiental). Assunto em tela na imprensa brasileira, trazido pelos autores, é a aquisição por algumas BINGOS de porções de florestas ao redor do mundo, com o incentivo às modalidades privadas de proteção da natureza. Isso se vê nos incentivos que governo e ONGs têm dado para a criação e manutenção das Reservas Particulares de Patrimônio Natural (RPPNs). Outras questões levantadas pelos autores individualmente são:

MacChapin, no seu capítulo "Um desafio aos conservacionistas" (bastante polêmico quando publicado na imprensa norte-americana, e que tem algumas respostas a ele registradas no livro), afirma que é comum as grandes ONGs conservacionistas negociarem territórios e biomas a proteger entre elas. Assim também competem entre si, muitas vezes perdendo financiamentos, acarretando novos conflitos nas comunidades nas quais atuam. O autor também observa o enriquecimento e o crescimento rápido das BINGOS; acusa o desaparecimento gradual das metodologias participativas, com o decorrente enfraquecimento da relação ONG/comunidade. Novos conflitos nas comunidades resultam, portanto, da não consideração das realidades locais, prevalecendo estratégias científicas na determinação da Agenda de trabalho preservacionista, muitas vezes oposta à comunitária. David B. Ottaway & Joe Stephens, em seu texto "Por dentro da TNC - Nature Conservancy: arrebata milhões. Filantropia faz ativos em parceria com corporações", falam da dificuldade em se caracterizar as ONGs conservacionistas na medida em que estas têm funcionado como grandes empresas transnacionais. Daniel Compagnon, em "Administrar democraticamente a biodiversidade graça às ONGs?", questiona a legitimidade e a representatividade das entidades, na medida em que elas se auto-denominam "guardiãs da natureza". Líderes, elas se auto-avaliam, dificilmente prestam contas efetivamente, divulgam seus feitos e repassam à mídia. A imprensa, superficial e ingênua, não tem condições de avaliar criticamente o que publica. Os pesquisadores raramente o fazem, na medida em que é comum terem ligações diversas com as ONGs. Segundo esse autor, assim como no caso dos pesquisadores, a manutenção do domínio e da influência das grandes ONGs transnacionais passa, muitas vezes, pela cooptação de funcionários públicos e de cientistas. Com apoio à pesquisa, a seminários e a treinamentos gratuitos a eles, as BINGOS veiculam conceitos e métodos próprios. Na medida em que trabalham junto aos governos e às empresas privadas, a crítica aos mesmos desfaz-se nas parcerias em projetos e programas. Nesse sentido, a ONG minimiza críticas ao governo, populariza suas ações, dilui responsabilidades e oposições às políticas oficiais. Algo muito sutil observado por Compagnon é que algumas bandeiras, não diretamente ligadas à criação de Parques, são criadas para obter apoio social a projetos preservacionistas. Projetos e ações são lançados, desviando os comunitários de seus interesses sociais, transformados em ambientais. Mariteuw Chimère-Diaw, em seu artigo "Escalas nas teorias da conservação: um outro conflito de civilizações?", faz uma reflexão sobre a necessidade de se reinventar a solidariedade e a governança global. Recomenda repensar as escalas, a desterritorialização que o trabalho das BINGOS pode acarretar. O autor afirma que, quando é invertida a relação de ação local à global, ocorre o enfraquecimento dos potenciais da atuação comunitária. As BINGOS, muitas vezes, tornam-se porta-vozes dos problemas ambientais e com isso monopolizam a formação da opinião mundial. Bentes (2005) ressalta que o nível de interferência das grandes ONGs transnacionais, nos pensamentos e processos decisórios, parece natural devido à desigualdade política internacional que lhes confere o poder de influenciar. Mark Dowie, em seu "Refugiados da Conservação", trata de milhões de pessoas levadas à marginalidade, às periferias em nome de uma suposta preservação ambiental. Essa, muitas vezes sem eficácia alguma em termos de conservação dos recursos naturais. O autor comprova, ao contrário, que, em muitos casos, populações expulsas de suas moradias, recuperam o ambiente novo, degradado, que pode ficar mais bem conservado do que dentro das Unidades de Conservação. Essa questão também já tinha sido exposta por Goldman (1998), ao problematizar teorias sobre os processos de gestão da natureza, que excluem as populações da condução dos destinos dos recursos naturais. Diegues (1998) dá exemplos de comunidades que reassumem, com sucesso, o controle dos bens comunitários com a possibilidade de grandes transformações de perspectivas, ideologia e cultura. Jim Igoe e Dan Brockington, em "Expulsão para a conservação da natureza: uma visão global", também refletem sobre os "expulsos pela conservação". Assim como Dowie, alertam para as conseqüências não estudadas da exclusão de moradores de áreas naturais. As políticas que resultam na exclusão são amplamente influenciadas pelas BINGOS, em campanhas indiretas que defendem a natureza em sua integridade.

Obviamente, é difícil distinguir os padrões de influência nesses relacionamentos, as ações são policêntricas, as responsabilidades idem, porém, numa época em que se fala de refugiados ambientais, incluindo agora os refugiados e expulsos da ou pela conservação, há a necessidade urgente de se dar atenção às populações, caso sejam atingidas as metas traçadas para a conservação, pois se corre o risco de haver expulsões em números recordes, com danos ambientais e sociais gravíssimos.

Avolumam-se os problemas, mas não proporcionalmente à prática de se pesquisar os seus impactos, nem no tocante à conservação ambiental nem nos efeitos e riscos sociais. Os autores chamam essa prática da "ecologia da expulsão", ao mesmo tempo em que observam e questionam o silêncio total de todos sobre essa grave questão.

Ainda que ocorram as expulsões, as áreas protegidas nunca serão suficientes. A estratégia de conservar a despeito das pessoas deve ser repensada. Sem uma ampla discussão social, as ações das ONGs não podem ser classificadas como demandas sociais, nem ambientais.

Todos os autores do livro convidam a uma crítica construtiva das ONGs. A maioria dos artigos já foi publicada internacionalmente e causou impacto, recebeu respostas das BINGOS, talvez as tenha feito repensar práticas e filosofias. Essa é a idéia: provocar.

O tom da provocação, no entanto, é diferente do que se observa recentemente na imprensa, dito por militares, empresários, visando desqualificar o trabalho das ONGs.

As acusações comuns às BINGOS no Brasil referem-se à ameaça à soberania, à sua situação fiscal, ao controle de suas receitas, aos supostos entraves à sua atuação empresarial, ou desenvolvimentista, a uma legislação pouco eficaz. Não chegam nem perto das discussões travadas no livro ora apresentado e por isso a sua leitura é fundamental. Servirá para ampliar e qualificar os debates sobre o tema de forma mais reflexiva, menos ideológica.

O alerta é para não se estereotipar as ONGs, colocando-as em oposição, simplificando temas sociais e políticos complexos, e deslegitimando demandas socioambientais. Caso contrário, o debate sobre direitos será transformado em uma disputa estéril de interesses, dará margem à construção de teorias conspiratórias, que impedem o avanço de consciência, fundamental para que ocorram mudanças.

Diegues recomenda que a questão torne-se objeto de pesquisas sérias, e já existem excelentes contribuições sobre ONGs e movimentos sociais.

Este livro é um convite e um estímulo a um debate teórico relevante sobre o papel dessas ONGs conservacionistas transnacionais, especialmente as que atuam no Brasil, e sobre os seus objetivos e ações, na expectativa de que, com o processo de debate, possa haver uma reconstituição dos atores mobilizados, institucionalizados ou não, em torno da questão ambiental.



Referências bibliográficas

BENTES, R. A intervenção do ambientalismo internacional na Amazônia. Estudos Avançados, São Paulo, v. 19, n. 54, p. 225-240, 2005.
DIEGUES, A. C. Social Movements and the remaking of the Commons in the Brazilian Amazon. In: GOLDMAN, M. (Ed.). Privatizing Nature. London: Pluto Press/TNI, 1998. p. 56-74.
GOLDMAN, M. Introduction: The Political Resurgence of the Commons and Inventing the Commons. In: GOLDMAN, M. (Ed.). Privatizing Nature. London: Pluto Press/TNI, 1998. p. 01-53.
______. Inventando os comuns. In: DIEGUES, A. C.; MOREIRA, A. C. C. (Orgs.). Espaços e recursos naturais de uso comum. São Paulo: NUPAUB-USP, 2001. p. 43-78.

Notas

1 http://www.usp.br/nupaub

Autor para correspondência:
Andréa Rabinovici
Rodovia João Leme dos Santos, Km 110, SP-264
Bairro do Itinga
CEP 18052-780, Sorocaba - SP, Brasil
E-mail: andrea@ufscar.br

* DIEGUES, A. C. (Org.) A ecologia política das grandes ONGs transnacionais conservacionistas. São Paulo: NUPAUB-USP, 2008, 193 p. ISBN: 978-85-87304-08-7
Revista Ambiente e Sociedade

"Amazônia: natureza e sociedade em transformação"*


"Amazônia: natureza e sociedade em transformação"*

Debora Pignatari Drucker

Mestre em Ecologia pelo INPA, Doutoranda em Ambiente & Sociedade pelo NEPAM/UNICAMP (Bolsista FAPESP)

A pesquisa da relação entre a ação humana e o ambiente natural abrange questões relevantes à busca pelo desenvolvimento sustentável e aos efeitos das mudanças ambientais globais. Um dos temas que está no centro do debate é a investigação de transformações em ecossistemas naturais, com destaque para a extensa área de floresta tropical da Amazônia. Essas alterações ocorrem de diferentes maneiras, uma vez que não há uma abordagem única ou linear que possa explicar a interação entre sociedade e ambiente. O diálogo entre pesquisadores em ciências naturais e humanas é necessário para avançar essa área do conhecimento, e a manutenção de serviços ambientais implica em relacionar resultados com políticas regionais e internacionais.

O livro "Amazônia: Natureza e Sociedade em Transformação", organizado por M. Batistella, E. Moran e D. Alves, apresenta uma síntese do conhecimento atual sobre as dimensões humanas das alterações ambientais na Amazônia. Boa parte desse conhecimento foi gerada no âmbito do Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA), evidenciando a evolução e o amadurecimento do programa com a ampliação do enfoque em ciências humanas. A bagagem interdisciplinar dos organizadores - Batistella é formado em biologia e filosofia, com doutorado em ciências ambientais; Moran é professor de antropologia, geografia e ciências ambientais; Alves é matemático e vem intensificando as pesquisas sobre filosofia e sociologia da ciência - permitiu um olhar amplo sobre a interação entre ambiente e sociedade na Amazônia.

O livro está divido em três partes. A primeira, composta por dois capítulos, trata da questão das Dimensões Humanas no LBA, trazendo uma análise sintética do histórico do programa, do estado atual do conhecimento e de perspectivas. No capítulo 1, Alves e colaboradores demonstram como as ciências humanas ganharam espaço ao longo da primeira fase do LBA, que completou dez anos de existência em 2007, quando se tornou programa de governo e renovou a agenda de pesquisas iniciada em 1998. Essa trajetória parte de um componente de uso e cobertura da terra, no início do programa, o que evidencia os fundamentos da pesquisa em ciências humanas que embasaram o componente Dimensões Humanas do LBA e o seu amadurecimento. Schor e Alves analisam, no capítulo 2, a evolução do componente sob a perspectiva da relação entre ciência e sociedade e consideram como o processo de produção de conhecimento ao mesmo tempo influencia e é influenciado pelos processos sociais.

A compreensão de que as mudanças climáticas suscitam questões que coligam ciências naturais e humanas ganhou força tanto nacionalmente, como evidenciado pela evolução do programa LBA - o qual abordou alterações ambientais desde sua concepção -, quanto internacionalmente. Não por acaso, o Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) também concentrou esforços primeiramente em ciências naturais, como foi demonstrado quando o grupo de trabalho I, The Physical Science Basis (IPCC 2007a), apresentou relatório demonstrando fortes evidências da existência de aquecimento global em conseqüência da ação humana. Os relatórios do grupo II, Impacts, Adaptation and Vulnerability (IPCC 2007b), e do grupo III, Mitigation (IPCC 2007c), apontam para a necessidade de pesquisas na interface das ciências climatológicas, biológicas, sociais e econômicas: sumarizam o estado do conhecimento atual e indicam lacunas que colaboraram para embasar a segunda fase do Programa LBA, iniciada em 2007. Conseqüentemente, embora as duas perguntas orientadoras do LBA tenham sido mantidas - Como a Amazônia funciona como uma entidade regional? Como as mudanças no uso da terra e no clima afetam as funções biológicas, químicas e físicas da Amazônia, incluindo a sustentabilidade da região e a influência da Amazônia no clima regional e global? -, na segunda fase as dimensões humanas foram incorporadas aos grupos de trabalho, os quais interagem em três focos de pesquisa principais:

1. O ambiente amazônico em mudança;

2. A sustentabilidade dos serviços ambientais e os sistemas de produção terrestres e aquáticos;

3. A variabilidade climática e hidrológica e a sua dinâmica: respostas, adaptação e mitigação.

A segunda parte do livro discute trajetórias, cenários e modelos para a Amazônia, abordando a interação entre homem e ambiente em cinco capítulos com diferentes enfoques metodológicos e, ao mesmo tempo, com uma característica em comum: apresentam análises embasadas por anos de pesquisa, incluindo contribuições que transcendem o Programa LBA, e ilustram o estado atual do conhecimento na região amazônica para os respectivos temas. No capítulo 3, Moran e colaboradores fazem uma análise multiescalar de fatores que afetam o desmatamento e o uso da terra na região amazônica. Os autores tratam de diferenças entre processos inter e intra-regionais e discutem as suas conexões com padrões regionais, ressaltando o caráter dinâmico dos fatores envolvidos com mudanças de uso e cobertura da terra na região. Hogan e colaboradores, no capítulo 4, apresentam análises da dinâmica demográfica no período desde a década de 1970 à de 2000 na Amazônia, nas quais discutem tendências de crescimento demográfico, mobilidade populacional e urbanização na região. No capítulo 5, Walker e colaboradores discutem mudanças na economia regional com uma análise histórica da produção regional, da composição setorial, da mão-de-obra, da infraestrutura e do bem estar social. Ainda com enfoque econômico, no capítulo 6, Costa usa dados censitários em análises quantitativas de propostas de trajetórias tecnológicas para os sistemas de produção da região. Leitores pouco familiarizados com modelagem matemática não terão dificuldades em compreender o modelo integrado proposto por Soares-Filho e colaboradores, no capítulo 7, para simular a dinâmica do desmatamento; enquanto iniciados em modelagem matemática encontrarão uma revisão sobre a evolução dessas ferramentas analíticas. Os autores encerram a segunda parte do livro apresentando trajetórias e cenários pessimistas e otimistas para o desmatamento da Amazônia brasileira até o ano de 2030 e discutem as suas implicações. Além disso, apontam para a necessidade da compreensão mais ampla de fatores socioeconômicos e os desafios de incorporá-los em análises numéricas. Ao mesmo tempo, ressaltam a importância de relacionar padrões de mudanças de uso e cobertura da terra com outros modelos biofísicos. Assim, os capítulos que compõem a segunda parte do livro apresentam resultados de pesquisas interdisciplinares e, além de demonstrar caminhos para se enfrentar desafios metodológicos, estimulam a formulação de novas perguntas em ambiente e sociedade, o que é uma contribuição para o avanço do conhecimento nessa área.

A terceira parte do livro, composta por quatro capítulos, aborda aspectos institucionais como fatores de compreensão das interações entre ser humano e ambiente na Amazônia, e discute o desafio de se associar ciência e formulação de políticas públicas. No capítulo 8, Santos e Alves debatem políticas internacionais e nacionais de conservação, refletindo, respectivamente, sobre a Convenção da Diversidade Biológica e as Reservas Extrativistas. Em ambos os casos, os autores tratam das dificuldades de se articular os interesses dos diferentes atores sociais envolvidos, desde os estados até as particularidades de cada grupo local, bem como as diferenças entre os seus instrumentos de organização. No capítulo 9, Costa analisa o ordenamento territorial na Amazônia, com ênfase nos desafios teóricos, metodológicos e operacionais de experiências do Zoneamento Ecológico Econômico (ZEE) desde 1986. Apenas dois estados da Amazônia Legal (Acre e Rondônia) implementaram o ZEE, e são apresentadas inúmeras particularidades de experiências em diferentes escalas, o que contribui para a compreensão mais abrangente das dimensões do planejamento regional.

No capítulo 10, Becker questiona a percepção de que a conservação da natureza seria um entrave ao desenvolvimento e reflete sobre o papel das cidades como núcleos de articulação do desenvolvimento regional não predatório, nos quais a meta é produzir para conservar. A autora argumenta que os serviços e o fortalecimento da ciência e da tecnologia são alguns dos elementos com os quais as cidades têm o potencial de contribuir para a maior conectividade entre as diversas realidades locais, de forma a constituir uma estrutura produtiva em rede. Nobre e Lahsen encerram o livro com uma reflexão sobre os desafios de se conectar os conhecimentos gerados no âmbito do LBA e de outros programas de pesquisa ambientais com aplicações para o desenvolvimento regional. Os autores contextualizam as pesquisas do LBA e outras iniciativas de pesquisa na Amazônia com programas internacionais, especialmente aqueles relacionados com mudanças climáticas globais, salientando a necessidade de promover o diálogo entre cientistas naturais e sociais.

O debate sobre como a pesquisa pode contribuir para a sustentabilidade do manejo de recursos naturais ganhou força desde o Relatório Brundtland (1987), o qual propagou o termo desenvolvimento sustentável. A evolução da ciência para a sustentabilidade evidenciou que a mesma não se trata simplesmente de uma abordagem reducionista como, por exemplo, determinar tamanhos ou quantidades ótimas de extração de determinado recurso. Ficou claro também que a análise da ação humana como parte dos processos dinâmicos envolvendo os recursos naturais é crucial para que pesquisas integradas sejam úteis ao gerenciamento ambiental. Uma via para estreitar a relação entre ciência e ações práticas em políticas de desenvolvimento regional é usar estimativas de incertezas como fontes de informação (BRADSHAW; BORCHERS, 2000). Isso significa que os resultados de programas de pesquisas como o LBA são úteis para melhorar a precisão de estimativas de incertezas, pois quanto mais conhecemos sobre a interação entre ser humano e ambiente na Amazônia melhor dimensionamos o que ainda não sabemos. Pesquisadores estão acostumados a lidar com incertezas em investigações científicas, porém, freqüentemente, apenas os aspectos deterministas dos resultados científicos são considerados quando usados em formulação de políticas públicas. A incorporação de componentes de incerteza associados aos resultados científicos fornece informação mais completa aos processos de tomada de decisão.

A busca pela sustentabilidade na Amazônia demanda conhecimento na interface das ciências climatológicas, ecológicas, sociais, políticas e econômicas, bem como relacioná-las com políticas locais, regionais e internacionais. Esta obra, por se tratar de uma coletânea, permite que o leitor identifique o diálogo entre diferentes autores e traz importante contribuição para a análise do que sabemos e do que não sabemos sobre a interação entre ser humano e ambiente na região amazônica.



Referências bibliográficas

BRADSHAW, G. A.; BORCHERS, J. G. Uncertainty as Information: Narrowing the Science-policy Gap. Conservation Ecology, v. 4, n. 7, p. 1-10, 2000.
BRUNDTLAND, G. Our Common Future: From One Earth to One World. Nova York: Oxford University Press, 1987.
Intergovernmental Panel on Climate Change - IPCC. Summary for Policymakers. In: SOLOMON, S. et al. (Eds.). Climate Change 2007: The Physical Science Basis. Contribution of Working Group I to the Fourth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change. Cambridge: Cambridge University Press, 2007a. p. 2-18.
Intergovernmental Panel on Climate Change - IPCC. Summary for Policymakers. In: PARRY, M. L. et al. (Eds.). Climate Change 2007: Impacts, Adaptation and Vulnerability. Contribution of Working Group II to the Fourth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change. Cambridge: Cambridge University Press, 2007b. p. 7-22.
Intergovernmental Panel on Climate Change - IPCC. Summary for Policymakers. In: METZ, B. (Eds). Climate Change 2007: Mitigation. Contribution of Working Group III to the Fourth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change. Cambridge: Cambridge University Press, 2007c. p. 2-24.

Autor para correspondência:
Debora Pignatari Drucker
Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais
Rua dos Flamboyants, 155 - Cidade Universitária Zeferino Vaz
Campinas - CEP 13083-867, São Paulo - Brasil
Fones (19) 3521-5103, 3521-7690
E-mail: deboradrucker@gmail.com

* Organizado por Mateus Batistella; Emilio F. Moran; Diógenes S. Alves. Editora da Universidade de São Paulo (Edusp). Coleção Ciências Ambientais. ISBN: 8531411262. 304 pp. 2008.

Revista Ambiente e Sociedade

Superalimentados, mas subnutridos - um diagnóstico do sistema alimentar industrial*


Superalimentados, mas subnutridos - um diagnóstico do sistema alimentar industrial*

André Luiz BiancoI; Ana Carolina Ribeiro Lobo de CassianoII

IMestrando do Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política na Universidade Federal de Santa Catarina e Bolsista do CNPq e Membro do Núcleo Interdisciplinar em Sustentabilidade e Redes Agroalimentares (NISRA)
IIGraduanda em Ciências Sociais na UFSC, Bolsista de Iniciação Científica (PIBIC/CNPq) da Dra. Julia S. Guivant e Membro do NISRA

Autor para correspondência

Os produtos alimentares têm se multiplicado nas prateleiras dos supermercados mais rapidamente do que nunca. Apesar do intenso fluxo de informação proveniente de cientistas e marqueteiros da alimentação, jornalistas e diretrizes alimentares do governo, as pessoas parecem cada vez menos capazes de responder à simples pergunta: "O que devo comer?". Em meio à proliferação crescente de livros que procuram recomendar "A" dieta para se viver mais, para se ter mais beleza, para se ser sempre magro, e muitas outras promessas, destaca-se o lançamento do livro "Em defesa da comida: um manifesto" (Rio de Janeiro, Ed. Intrínseca, 2008, p. 272), do jornalista Michael Pollan. Este livro não foge da pergunta sobre o que devemos comer, mas, ao mesmo tempo, faz um diagnóstico preciso e bem documentado dos motivos que nos levaram a essa condição de desorientação. Assim, a contribuição de Pollan navega entre orientações práticas, jornalismo documental e também contribui com informações preciosas para áreas acadêmicas.

A obra objetiva fazer uma crítica à dieta ocidental (alimentação industrializada), que minou a cultura alimentar americana, substituindo durante o século XX a "comida de verdade" por "produtos alimentares". Isto inclui a sugestão de uma percepção mais abrangente da saúde e da sua relação com a alimentação e com o ambiente. Tal temática já havia sido trabalhada pelo autor no livro "O Dilema do Onívoro" (Rio de Janeiro, Ed. Intrínseca, 2007, p. 480), considerado um dos 10 melhores do ano de 2006 pelo jornal The New York Times. Neste trabalho, resultado de cinco anos de pesquisa, Pollan analisou três cadeias alimentares: a industrial, a orgânica e aquela associada à caça e à coleta. O trabalho consistiu em esmiuçar como surgiram e como se dá o funcionamento de cada uma dessas cadeias. Enquanto "O Dilema do Onívoro" foca a questão da produção alimentar, "Em Defesa da Comida" explora os efeitos do conhecimento científico reducionista em toda a cadeia alimentar, porém com uma interface direcionada à prática de consumo. No livro "Em Defesa da Comida", sua posição é evidente já no subtítulo do livro: um manifesto (no original: An eater's manifesto). Seu objetivo principal é defender a comida e a alimentação da ciência da nutrição, da indústria alimentícia e do jornalismo (intermediário entre os cientistas e o público), e a sua argumentação é conduzida neste sentido: nas duas primeiras partes do livro, ele nos apresenta um diagnóstico do sistema alimentar ocidental atual e, na terceira, dá suas recomendações de como podemos nos alimentar da melhor forma possível dentro deste sistema - ou fugindo o máximo que podemos dele.

Esse sistema alimentar foi construído no século XX com base em uma ideologia do nutricionismo (p. 15), defendida pela indústria alimentar, que conseguiu ter poder e influência para gerar consenso em torno de três mitos: 1) o mais importante não é o alimento, mas sim o nutriente; 2) por ser este invisível e incompreensível, precisamos de especialistas para decidir o que comer; e 3) o objetivo da alimentação é promover a saúde física.

A primeira parte do livro, intitulada "a era do nutricionismo", visa entender como se chegou ao estado atual de confusão e ansiedade nutricional. Para isso, Pollan retoma o surgimento da ciência da nutrição. Desde o século XIX, a ciência procurou determinar os componentes fundamentais dos alimentos (macronutrientes: proteínas, gorduras e carboidratos) e, a partir do início do XX, passou a pesquisar os micronutrientes (vitaminas). Essas descobertas possibilitaram a cura quase imediata de doenças como escorbuto e beri-béri, legitimando a então incipiente ciência nutricional.

A partir dos anos 1950, difundiu-se a "hipótese lipídica" - isto é, a gordura e o colesterol oriundos principalmente de carnes e laticínios são responsáveis pelo aumento de doenças do coração -, que passou a influenciar decisões políticas. Pollan demonstra isso exemplificando o que aconteceu na Comissão Superior do Senado dos EUA para Nutrição e Necessidades Humanas. A Comissão organizou um documento contendo recomendações alimentares que foram orientadas por essa hipótese, mas ele teve que ser reformulado às pressas por conta de lobbies de indústrias de carne e laticínios que não gostaram do conteúdo. Substituiu-se a recomendação "reduza o consumo de carne" por "escolha carnes que reduzam o consumo de gorduras saturadas".

O efeito mais importante disso foi a mudança na linguagem: deixou-se de falar em alimentos e passou-se a falar em nutrientes. A "língua alimentar oficial" - falada em termos como poliinsaturado, colesterol, monoinsaturado, carboidrato, fibra, polifenóis, aminoácidos, flavonóis, etc. - logo passou a fazer parte "do espaço cultural previamente ocupado pelo material tangível, antes conhecido como comida" (p. 33).

O reflexo do nutricionismo no mercado é a eliminação da distinção entre natural e processado: mesmo um alimento altamente processado pode ser considerado "mais saudável" se possuir as quantidades apropriadas de nutrientes. O princípio nutricionista operacional é a capacidade científica de determinar a equivalência nutricional entre quaisquer alimentos, assim tornando-os substituíveis. Enquanto os alimentos naturais sobem e descem de acordo com o que é convencionado pela ciência da nutrição, os alimentos processados podem ser continuamente reformulados pela indústria.

Como Pollan evidencia, a "hipótese lipídica" é exemplo da instabilidade, controvérsia e incerteza dentro da ciência da nutrição, como um paradigma desta ciência. Os cientistas têm reconhecido que, já no princípio da formulação dessa hipótese, os fundamentos eram insuficientes. Apesar do esforço nas últimas décadas para a redução do consumo de gordura, os problemas de saúde relacionados não diminuíram. Deixa-se de consumir gorduras, mas se consome mais carboidratos.

Segundo Pollan, "o resultado de trinta anos de conselhos nutricionais fez as pessoas mais gordas, mais doentes e mais mal nutridas" (p. 95). A segunda parte do livro discute este aspecto: a relação entre a dieta ocidental e as doenças de nossa civilização. O autor aponta que hoje se sabe que um conjunto de doenças, chamadas de ocidentais (obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares, hipertensão e tipos de câncer ligados à dieta), aparece quando um povo abandona a sua dieta e adota a dieta ocidental. Pollan apresenta estudos das primeiras décadas do século XX que já identificavam essa relação. Cita, por exemplo, estudos de médicos europeus e americanos que trabalharam com populações nativas em diversos lugares do mundo e notaram os malefícios da "dieta industrializada". Entretanto, as críticas que fizeram à "civilização industrial" não sobreviveram à Segunda Guerra Mundial. Durante a guerra, as pessoas dependiam da indústria para sobreviver, o que a consolidou e contribuiu para que os estudos desses médicos fossem, em sua maioria, esquecidos.

A dieta ocidental como conhecemos hoje se constituiu de mudanças radicais nos alimentos e em nossas relações alimentares ao longo dos últimos 150 anos (p. 121). Pollan apresenta cinco transformações fundamentais:

I) Dos integrais aos refinados: os grãos de cereais vêm sendo refinados desde a Revolução Industrial e passaram a ter mais prestígio por conta da imagem, higiene e durabilidade. Além disso, facilitavam o comércio por não estarem presos às amarras de tempo e lugar;

II) Da complexidade à simplicidade: em cada nível, do solo ao prato, a industrialização alimentar envolveu um processo de simplificação química e biológica (p. 129);

III) Da qualidade à quantidade: com a industrialização dos alimentos se produz muito mais calorias, mas com menor valor nutritivo. Como resultado da superprodução, o preço cai, possibilitando que as pessoas comam mais, porém com menos qualidade;

IV) De folhas a sementes: os grãos passaram a compor a maior parte dos alimentos industrializados. Além disso, a superprodução de grãos simplifica a paisagem agrícola, reduzindo a disponibilidade de uma variedade maior de alimentos;

V) Da cultura à ciência do alimento: com a era da alimentação moderna, a orientação sobre o que se deve comer deslocou-se da cultura étnica e regional para a ciência nutricional.

Essas mudanças tiveram consequências para a saúde humana, para as práticas sociais e para o ambiente. O argumento da simplificação está presente nas cinco transformações. A simplificação da paisagem agrícola tem reflexos diretos na dieta humana. Os seres humanos são onívoros, necessitando de aproximadamente cem compostos químicos e elementos diferentes para uma boa saúde. No entanto, milho, soja, trigo e arroz processados compõem a maior parte da dieta ocidental.

Além dessa pequena variedade, o refino moderno retira dos alimentos nutrientes e outros elementos importantes para a nutrição humana, o que faz crescer a incidência de doenças causadas por deficiências. Mesmo com a estratégia de adição de nutrientes por parte da indústria, os alimentos refinados não contêm o mesmo valor nutricional que os integrais. E, ao mesmo tempo em que perdemos elementos fundamentais para a dieta, aumentamos o consumo de calorias: podemos estar superalimentados, mas subnutridos - e, ainda assim, não necessariamente saciados.

Outra perda grave para a saúde humana é a redução no consumo de folhas a favor do elevado consumo de grãos. Deixamos de consumir elementos essenciais (ou seja, que nosso corpo não pode produzir por si só), por exemplo, os ácidos graxos ômega-3. Além das consequências ambientais e biológicas, a mudança na cultura alimentar causou desorientação e ansiedade nas decisões de consumo alimentar, pois elas são baseadas em ciências cujo conhecimento é constantemente revisto e está sujeito a falhas.

Frente ao quadro apresentado sobre o sistema alimentar moderno, Pollan faz sugestões para orientar as escolhas, a fim de priorizar a história, a cultura e a tradição. As doze propostas tratam de ações que envolvem a produção, a compra, o preparo e as circunstâncias de consumo. O autor sugere que a alimentação seja entendida como mais do que meramente "nutrir-se", ligando-a às possíveis consequências de nossas decisões de consumo no que diz respeito a questões éticas, ambientais, culturais e à própria saúde individual. Por exemplo, deveríamos evitar produtos que nossos avôs não reconheceriam como comida ou que contenham mais de três ingredientes cujos nomes não conseguimos pronunciar. Ao mesmo tempo, ele procura esclarecer que não pretende um retorno a um contexto pré-moderno, que negue completamente a sociedade industrial.

O trabalho de Pollan é interessante tanto para leituras acadêmicas como extra-acadêmicas, trazendo contribuições significativas para diversas áreas da Sociologia. Para a Sociologia do Conhecimento e da Ciência contribui com uma análise histórica e sociológica do nutricionismo, que demonstra como o conhecimento é construído, legitimado e questionado em uma determinada comunidade científica; como uma hipótese (como a lipídica) pode ser mantida por décadas, apesar de não possuir evidências suficientes. Para a Sociologia Ambiental, traz como contribuição a análise das transformações recentes nas cadeias produtivas e as suas implicações para o ambiente. Em "O Dilema do Onívoro", ele acompanhou, por exemplo, o percurso do milho na cadeia industrial desde a produção até seu consumo final. A produção de alguns hectares de milho começa com a extração de petróleo, necessário para tornar utilizável o nitrogênio não reativo encontrado na natureza, que, por sua vez, será utilizado na fabricação de fertilizantes artificiais. Aliando-se isto à manipulação dos cruzamentos genéticos, é possível aumentar a produção de milho por hectare, cujo excedente torna-se tão barato que é usado de alimento para animais ruminantes, e assim por diante.

Além disso, Pollan pode contribuir para os interessados em Sociologia Política, ao demonstrar como a produção alimentar e a produção dos conhecimentos científicos estão entrelaçadas com questões políticas.


Autor para correspondência:
André Luiz Bianco
Universidade Federal de Santa Catarina
Universidade Federal de Santa Catarina e Bolsista do CNPq e Membro do Núcleo Interdisciplinar em Sustentabilidade e Redes Agroalimentares (NISRA)
e-mail: amdreluiz@gmail.com


* Em defesa da comida. Michael Pollan. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2008


Revista Ambiente e Sociedade