sábado, 18 de julho de 2009

O saci branco


O saci branco
PAULO VENÂNCIO FILHO
Numa terra triste vivia um povo sedentário, aí chegou o poeta Blaise Cendrars e botou o pessoal para viajar. Assim parafraseado, o início de ''Retrato do Brasil'', de Paulo Prado, um dos grandes amigos brasileiros de Blaise, poderia bem ilustrar o que foi a presença deste descobridor moderno do Brasil.
Tal qual uma figura de Saci Pererê branco, europeu, moderno, vestido de terno e gravata, sem o braço direito que perdeu na Primeira Guerra Mundial e, à guisa de pito, um toco de cigarro sempre pendente do canto da boca, Blaise não parava quieto. Também, como o Saci, parecia viver dentro de um rodamoinho ou provocar rodamoinhos a sua volta. Foi o que fez aqui com os nossos pioneiros da Semana de 22. E não só aqui; Blaise influenciou artistas de duas Américas. Nesse ir e vir é que se prolongaram amizades, firmou-se uma influência, estabeleceu-se um estímulo intelectual e artístico recíprocos. Blaise Cendrars foi uma ponte de mão-dupla Brasil-Europa, Paris-São Paulo, passado-futuro.
Cendrars foi um descobridor recente, mas de uma época ainda de muito desconhecimento e de preconceito nosso contra nossas coisas. É o que os paulistas testemunharam: ''Cendrars exultava, constantemente comunicava-lhes as novidades que eram inéditas para os paulistas também: o ver como novo, de repente, aquilo que temos na calçada de nossa rua, na esquina mesma de nossa casa; a sensação de fazer turismo olhando com olhos novos a sua própria terra''. O poeta franco-suíço não só nos descobriu, como também foi um dos que nos colocou a par de um novo mundo: o da arte moderna européia.
Aqui faz conferências, visita as fazendas de café do interior paulista que inspiram seu livro ''A Metafísica do Café'', além de ter um encontro bastante inamistoso com o futurista Marinetti. Incentiva a famosa viagem dos modernistas paulistas a Minas, passando antes pelo Carnaval do Rio. Dessa viagem Tarsila reconheceu mais tarde que, ''sem premeditação, sem desejo de fazer escola, realizei, em 1924, a pintura a que chamaram Pau-Brasil''. Tudo leva a crer que a presença de Blaise é decisiva neste novo modo de ver as coisas brasileiras, presentes e passadas. É exatamente o que nota Brito Broca: ''O que merece reparo nesta viagem é a atitude paradoxal dos viajantes. São todos modernistas, homens do futuro. E a um poeta de vanguarda que nos visita, escandalizando os espíritos conformistas, o que eles vão mostrar? As velhas cidades de Minas, com suas igrejas do século 18, seus casarões coloniais e imperiais, numa paisagem tristonha, onde tudo é evocação do passado e, em última análise, tudo sugere ruínas. Parecia um contra-senso apenas aparente. Havia uma lógica interior no caso''. Moderno era o ponto de vista, ''o genuinamente brasileiro e, ao mesmo tempo, o exótico, que atraía o alegre grupo de excursionistas'', desses ''precursores brasileiros do turismo doméstico''.
Nos EUA ou no Brasil, Blaise era o mesmo, ávido, irrequieto, curioso, vibrante. Esteve na América antes e, quem sabe, trouxe algo de lá. A imagem que Blaise suscita é a de estar sempre à vontade, nunca o desconforto, o estranhamento. Era um viajante nato, sempre em trânsito, adaptável a qualquer situação. Viajar significava provavelmente o modo de tornar sua vida compatível com sua poesia. Rápida, sintética, instantânea.
A Utopialândia, como chamou o Brasil, era um país transportável para onde estivesse. Se o mundo não era mais pequeno naquela época, a viagem ainda tinha algo do prazer aventureiro. Este é o sabor propriamente exótico de seus poemas _a realidade já captada na velocidade da máquina fotográfica que o turista traz a tiracolo. Seus versos têm o ritmo frenético-fotográfico do turista disparando sua câmera a todo instante, sem parar. Antecipava assim uma necessidade que foi mecanicamente se banalizando com o tempo. A máquina fotográfica tranquilizou a inquietação do turista que Blaise traduzia em seus poemas. No poema-instantâneo _o poema-registro, o poema-observação_, no poema-reportagem; em todos os modos poéticos de registrar as impressões do momento. Não por acaso um livro seu se intitula ''Kodak''.
Agora que a obra de Cendrars vem sendo redescoberta pelo mundo afora, esta nova edição de um estudo exemplar, cuidadosa e repleta de reproduções de desenhos de Tarsila, de documentos, de fotos, servirá também para melhor conhecer o personagem fascinante que foi este poeta. Aqui ele está revelado do jeito que talvez gostasse: à vontade e próximo de nós. Reconstituiu o testemunho de um indivíduo entre nós nos anos 20; algo como as ''Memórias Sentimentais Brasileiras de Monsieur Blaise Cendrars''. Traduz no tom, na forma como organiza os depoimentos, na escrita precisa e econômica, um painel de uma época e, mais do que isso, o início da experiência moderna no Brasil, por meio de um personagem decisivo. Pois, se Cendrars viu o Brasil com olhos modernos, aqui ele é visto, apropriada e criteriosamente, com olhos brasileiros.
D.H. Lawrence, outro grande e inquieto viajante, que também andou por alguns dos mesmos lugares e na mesma época que Cendrars, embora não tenha conhecido o Brasil, terminava suas cartas invariavelmente da mesma maneira: ''This place is no good''. Não seria nunca o caso de Blaise: ''O— aimeriez vous vivre?'', perguntaram-lhe certa vez. ''Partout, partout, à la fois,'' respondeu. Em todos os lugares, em todos os lugares. E aí o Brasil tinha um lugar especial.

Paulo Venâncio Filho é crítico de arte e professor de história da arte na Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Folha de São Paulo

Contra o absolutismo crítico


Contra o absolutismo crítico
LUIS RONCARI
A publicação do conjunto dos estudos e da crítica literária de Sérgio Buarque de Holanda tem uma importância que levará um tempo ainda para ser precisada. Pode-se adiantar que poucos fatos nessa área, nos últimos anos, foram tão significativos, entre outras coisas, pelo seu poder de orientação. Quer dizer, esses escritos, além de preocuparem-se com a revelação do valor da obra literária e o aguçamento do olhar para a sua boa apreciação, apontam também caminhos para a crítica e a investigação e, por isso, interessam particularmente ao pesquisador e ao estudante de letras.
Com os inéditos de ''Capítulos de Literatura Colonial'' (Brasiliense, 1991), organizado por Antonio Candido; com a reunião das várias introduções feitas pelo autor no ''Livro dos Prefácios'' (Companhia das Letras, 1996), que resgata escritos importantes; com o precioso trabalho feito por Antonio Arnoni Prado, que coligiu, preparou, organizou e anotou _com o cuidado e a competência de quem tinha inteira consciência do valor do material que preparava_ quase toda sua colaboração de crítica literária para jornais e revistas, de 1920 a 1959; e com o que já havia sido publicado, ''Cobra de Vidro'' (Perspectiva, 1978) e ''Tentativas de Mitologia'' (Perspectiva, 1979), temos facilmente acessível o mais importante dos escritos de Sérgio Buarque sobre literatura.
Os ''Capítulos de Literatura Colonial'', seguidos da ''Dialética da Colonização'' (Companhia das Letras, 1992), de Alfredo Bosi, vieram complementar e complexificar o quadro apresentado por Antonio Candido na ''Formação da Literatura Brasileira'' (Martins, 1959). Trazem, ao mesmo tempo, concordâncias e discordâncias, mas variam sobretudo no modo de apreciar a aclimatação dos cânones da literatura ocidental num contexto novo e colonial e na forma de explorar a relação entre a literatura e a história. Eles compõem três leituras fortes, apoiadas em pressupostos teóricos perfeitamente assimilados e pesquisa de fontes primárias, o que permite investigar e interpretar as difíceis relações entre o processo histórico colonial e a constituição de uma literatura brasileira.
Apreciados agora os escritos literários de Sérgio Buarque no seu conjunto, a primeira coisa a notar é que, se ele não tivesse escrito uma só linha do seu trabalho historiográfico, com o qual foi sempre identificado, ainda assim estaria entre os grandes estudiosos da literatura no Brasil. O mais notável é que os seus estudos e críticas não são só os de um historiador tratando da literatura, mas também trabalhos típicos de um estudioso dela, que domina as bibliografias, as teorias e os métodos.
Assim, ele parece ter realizado algo raro nas ''ciências humanas'' do século 20: dominava e acompanhava, com extrema acuidade, tudo o que se publicava nos campos distintos, no da história e no da literatura. Não é difícil encontrar quem se desdobra em múltiplas atividades e em diferentes campos, principalmente no Brasil, país de cultura desorganizada e exuberância amazônica. Mas geralmente o faz um tanto descompromissadamente, quando não sectariamente, como forma de suprir os vazios da formação, sem se sentir na obrigação da sistematicidade do estudioso, postura que sempre assumiu Sérgio, para quem nada que fosse de sua esfera do saber deveria passar despercebido. Se dar conta de uma só é cada vez mais difícil, de duas, então, parece humanamente impossível. Mas não o foi para ele.
Se Sérgio Buarque não pode ser visto como um historiador falando da literatura, e sim como um estudioso com formação específica, não quer dizer que a história estivesse ausente das suas apreciações literárias, ao contrário. Também esta não se fazia presente no modo como a referência literária, estilística ou temática estava nos seus trabalhos historiográficos, como ciência auxiliar, socorro e apoio a que se recorria, como às demais ciências, para o entendimento dos fatos históricos, segundo os bons exemplos da escola dos ''Annales''.
A história parece ocupar uma dimensão maior que a de simples ciência auxiliar na sua abordagem da literatura. Ela fornece-lhe também algo da perspectiva e da concepção geral de como tratar do fenômeno literário. Assim, mesmo ausente, ela parece sempre presente. Sérgio Buarque apreciava no fenômeno literário fundamentalmente dois aspectos. Um, o que lhe permitisse sua identificação e conceituação, no sentido de vinculá-lo a uma família e a um gênero ou então a um ''tipo ideal'', correspondendo à sua formação também weberiana. E outro, que o particularizasse e especificasse, buscando a apreensão do singular que o individualizava, seguindo sua adesão ao historismo (termo que considerava mais adequado que historicismo) moderno, expresso, entre outros, por Meinecke.
São esses dois grandes movimentos de tendências antagônicas, que pareciam impossíveis de se reunir, que aqui se compõem nas críticas e nos estudos do autor. São dois tipos de considerações que parecem advir da experiência do trabalho com fatos distintos. Uma, de que nada é inteiramente singular, guarda sempre fontes genéricas e matrizes arcaicas ou pode fornecer elementos de identificação com grupos de fenômenos; e outra, de que os casos individuais não são também simples reprodução ou imitação de modelos _se sobreviveram ao tempo, é porque contribuíram também para a sua formulação ou alteração.
A primeira consideração está mais próxima do ofício do historiador, acostumado a enfrentar o inusitado e concreto dos fatos históricos, que à primeira vista não lembram nada a não ser eles mesmos, mas que, com a distância, ao serem estudados, revelam repetições que permitem agrupá-los num conjunto de eventos semelhantes. A segunda está mais próxima do trato do fato literário, que logo de início nos lembra seu gênero ou família: como poesia, soneto, conto, romance histórico etc., e só depois desvela-se no que não o fará sucumbir na vala comum. Tanto num como noutro, defronta-se o estudioso com a questão da importância da ação do sujeito, a forma e grau da sua contribuição, seja como herói seja como autor.
A maior parte das suas críticas segue esse método: começa com uma conceituação geral _do romance, do romance histórico, do romantismo, da épica, do simbolismo, do expressionismo, da literatura do mal etc. Só depois de um exórdio, que conceitua as fontes genéricas às quais se filia a obra de que vai tratar, é que ele parte para a apreciação do fenômeno em questão.
Seguindo esse duplo movimento de orientações opostas, ele não se perde nem nas apreciações genéricas, que tendem a nivelar e tornar tudo indistinto e homogêneo, como costuma fazer a crítica retórica, nem na multiplicidade de fatos individuais e singulares, que nada devem à história e à tradição, como pretendiam os românticos. Ele também não transformava essa orientação eclética numa fórmula que deveria se repetir na apreciação de qualquer fato. A amplitude da formação e visão de Sérgio Buarque não permitiria isso. O exercício da dúvida, o espírito de pesquisa, a vontade de discernimento e o senso de objetividade impediam que qualquer formulação ou adesão teórica sobrepujasse a riqueza e singularidade do próprio fenômeno, o que fazia com que, em última instância, o que mais importasse fosse a especificação, o que singularizava determinada obra e a distinguia de todas as demais.
E para isso todo tipo de informação devia ser mobilizado; dependendo da obra e do autor, era tão importante distinguir os traços estilísticos como conhecer os dados da sua vida. Veja-se, por exemplo, o ensaio modelar, quanto ao uso de traços biográficos na análise literária, sobre um romance de Lima Barreto, ''Clara dos Anjos'', no qual examina o livro a partir de informações da vida atribulada do autor. O que não significa também que não errasse e tivesse sempre a medida certa em todas as avaliações.
Entre os muitos fios que percorrem e ligam o conjunto dos estudos, um dos mais fortes e recorrentes, e também atual, é a sua crítica ao que ele chama de ''absolutismo'' da crítica literária. Embora constante e formulado em muitos momentos, vale lembrar como ele aparece no primeiro de uma série de artigos que escreve sobre ''Poesia e Positivismo'', e que se constitui num verdadeiro núcleo conceitual dos volumes agora publicados: ''Um dos riscos a que andam mais constantemente expostos os críticos de livros e de idéias associa-se à crença na falibilidade insuperável e por isso na vaidade de seus julgamentos; estes podem dispensar, assim, qualquer prova objetiva e hão de valer, em realidade, como simples expressões de um temperamento. Outro risco provém, ao contrário, da surda confiança nos critérios usados pelo juiz. Os quais só poderiam verdadeiramente levar a alguma sentença cabal e inapelável.
Não parece difícil notar que nos achamos, aqui, em face de duas formas alternativas de absolutismo: uma vem da superestimação dos próprios juízes, outra da superestimação dos juízos; numa, o crítico faz-se valente por si só, tão valente que chega a despreocupar-se da valia dos argumentos de que se serve, pois sua só presença é argumento capaz. Na outra, tem a cautela de escudar-se por trás de certezas peremptórias e implacáveis''.
Tanto o relativismo quanto o dogmatismo, no fundo, aparecem como formas distintas de ''absolutismo'', conceito que, para o historiador, tem fortes consonâncias com o de autoritarismo. O primeiro, pelo reconhecimento da impossibilidade de superação do impressionismo, que acaba se transformando na exaltação dos próprios críticos, que raras vezes se conformam ''com o ofício de guias e intérpretes''. E o segundo, pela confiabilidade quase religiosa em princípios rígidos, aplicáveis em todas as situações. Tanto num como noutro caso não há mais o que discutir: para um, porque nunca se chega a nada; para o outro, porque já se chegou à verdade. A postura crítica de Sérgio Buarque é a de equidistância tanto de uma como de outra posição. Sabe olhar o fato literário sem posturas previamente tomadas, enxergá-lo nas suas relações internas e externas e reúne erudição bastante para apreciá-lo das suas ligações mais próximas e diretas às mais distantes e mediatas. É o que caracteriza a sua visão, que transpira inteligência e grandeza.

Luiz Roncari é professor de literatura brasileira na USP e autor de ''Literatura Brasileira - Dos Primeiros Cronistas aos Últimos Românticos'' (Edusp).

Folha de São Paulo

Doces-de-sinhá e doces-de-rua


Doces-de-sinhá e doces-de-rua
LEILA MAZAN ALGRANTI
Como o produto que lhe confere o título, "Açúcar" é um livro que agrada aos mais variados paladares. Atrai tanto os sociólogos, etnólogos, historiadores da cultura e folcloristas, pelas análises e informações detalhadas sobre as raízes longínquas de nossa doçaria, quanto o leitor menos especializado que procure uma boa receita de doce, atraído pela curiosidade de desvendar os segredos de alguma sobremesa de todo dia, como arroz-doce, goiabada ou cocada.
Publicado pela primeira vez em 1939, reeditado em 1968 e 1986, a edição que acaba de chegar às livrarias é acompanhada de dois estudos (o prefácio à terceira edição e uma introdução), ambos de Gilberto Freyre, e também de vários anexos interessantes. A maior parte da obra, entretanto, é composta por receitas que agradam ao paladar, mas que se comem também com os olhos, com o olfato, pois, como diz o autor, "a receita de doce é quase que só arte", o que lhe confere "constante mocidade".
O objetivo do livro é recuperar essa arte simbólica mediante receitas do período patriarcal, originárias das cozinhas das casas-grandes do Nordeste, da fase de esplendor da cultura açucareira. Agrupadas em três capítulos _"Alguns Bolos", "Alguns Doces" e "Alguns Sorvetes"_ encontram-se variadíssimas receitas, resultado exótico da feliz combinação do açúcar com frutos tropicais, mandioca e especiarias.
A alimentação é um tema vasto, e a sua história e sociologia no Brasil não têm sido exploradas com a atenção que merecem. É certo que não faltam ótimos e múltiplos livros de receitas; refiro-me não apenas a elas, mas às práticas antigas, à forma de preparar e decorar os doces, aos utensílios utilizados e à própria geografia e usos do açúcar, questões que são discutidas em "Açúcar". Talvez um dos méritos do livro de Gilberto Freyre seja empreender, segundo suas próprias palavras, uma "sociologia do açúcar", apresentando ao leitor os doces que saem de moda ou permanecem, as preferências infantis e adultas, o doce de rua e de confeitaria, a arte das quituteiras negras e das sinhás brancas, sempre assinalando seu objeto de estudo como elemento de uma cultura específica: a cultura do açúcar.
O leitor encontrará no livro, além de apetitosas receitas, outros pratos para saborear, como a escrita impecável de Gilberto Freyre, repleta de metáforas e frases únicas que só sua sensibilidade soube eternizar, ou então certos conceitos criados às pressas, movido como ele era pela constante necessidade de definir algo que observava e sentia, mas para o qual não encontrava palavras exatas para exprimir. Por exemplo, "simbiose eurotropical", termo utilizado para definir o estágio final de adaptação atingido por alguns doces meio-portugueses, meio-brasileiros, temperados com pitadas da cozinha africana, indígena e portuguesa.
Não falta tampouco ao livro o ar familiar da obra mais vasta de Freyre, como as generalizações, a imprecisão temporal _uma vez que não é possível afirmar se se trata de receita do século 16 ou 18_, o vaivém nos assuntos, e seu modo de dizer as coisas mais complexas e sofisticadas como se estivesse brincando com as palavras. Enfim, muitas das genialidades e qualidades _e alguns dos defeitos_ de sua obra, tantas vezes assinalados por comentadores criteriosos, podem ser observados nos dois ensaios introdutórios.
Por outro lado, nota-se também que o modelo analítico de "Casa-Grande & Senzala" foi transposto para "Açúcar". Poucos anos separam as duas obras, e muitas das idéias e explicações que sustentaram a famosa análise sobre a origem, o desenvolvimento e a decadência do patriarcalismo encontram-se reproduzidas neste livro, no contexto da alimentação brasileira. O binômio "casa grande e senzala", por exemplo, transforma-se em "doces-de-sinhá e doces-de-rua" (estes feitos pelas negras quituteiras). A escravidão continua amalgamando os costumes e acentuando nossos traços culturais, pois, para Gilberto Freyre, ela explica inclusive a arte brasileira do doce (trabalhosa, minuciosa), receitas no seu dizer quase impossíveis para os dias de hoje (1937!), dada a trabalheira e o fator econômico, pois são muito dispendiosas. Por outro lado, assim como procedeu em relação às raças, que para ele acabaram se fundindo numa democracia racial na América portuguesa, também os doces deste lado do Atlântico abandonaram suas origens aristocráticas e populares para se fundir simplesmente em "doces".
A modernização e a transição do mundo rural para o mundo urbano, que levaram à decadência do patriarcalismo, também afetaram a confecção dos doces, e o doce de rapadura e de melado dos engenhos acabou dando lugar, com o tempo, ao biscoito de fábrica e ao doce de padaria, o que leva o autor a sugerir que, se não é possível frear a industrialização, que pelo menos se industrializem os doces regionais do Nordeste. No auge do entusiasmo, não resiste e chega mesmo a citar certas passagens presentes em sua primeira obra, lembrando as habilidades das freiras portuguesas e brasileiras como exímias doceiras.
Por fim, ao considerar o doce brasileiro excessivamente doce, explica que o paladar é condicionado à cultura, e o nosso, predisposto a abusar do doce, herança moura que os portugueses trouxeram para a América, o que lembra certamente sua explicação da facilidade com que os portugueses se misturavam com as índias e com as negras, pelo gosto das mulheres de pele escura, as "mouras encantadas". Ou seja, no esquema analítico de Gilberto Freyre tudo nos trópicos é levado ao exagero: a sexualidade, a natureza, a aventura e, no caso deste livro, até mesmo o uso do açúcar. Seu olhar sobre o Brasil a partir do Nordeste também não poderia estar ausente. Assim, embora essa tradição cultural do açúcar não seja específica do Nordeste, é ali que ela se acentua. A cozinha de Pernambuco, para o autor, tem o equilíbrio quase perfeito das nossas três tradições (européia, indígena e africana). É também lá que melhor se resistiu à influência dos doces franceses e italianos.
Portanto, como se vê, a originalidade do livro fica por conta das receitas, da cuidadosa coleta de dados, e do valor desse material empírico oferecido ao estudioso da vida material, dos costumes e do cotidiano do Nordeste.
Ainda como em "Casa Grande", Gilberto Freyre inova em muitos sentidos. Primeiramente, ao abordar as técnicas de fazer doce e de enfeitar os tabuleiros, destacando a importância do aparato material e o caráter lúdico dos doces. Depois, ao apontar os usos dos doces e ao procurar fazer uma análise do ponto de vista pictórico, sociológico. E, por último, nas fontes utilizadas. Se no conjunto sua obra é um manancial inesgotável de referências para novos estudos, esta breve compilação de receitas abre um sem-número de possibilidades para análises históricas e antropológicas. Sempre apontando para novas fontes, a introdução de 1939 já chama a atenção para dois livros raros de receitas portuguesas e semelhantes ao que publica: "A Arte de Cozinha", de Domingos Rodrigues, de 1692, e o "Livro de Cozinha da Infanta Dona Maria", datado do século 14, ambos recentemente também reeditados em Portugal, sinal de que o assunto, como diz Freyre, é eternamente jovem, moderno e continua a atrair os leitores ao longo dos anos, até mesmo dos séculos. Este o segredo de "Açúcar", depois de 50 anos, um livro inovador e extremamente instigante. Vale a pena lê-lo, pois se trata de um passeio pelo que há de melhor na doçaria e nos costumes da região Nordeste, tudo temperado com a arte e o sabor do estilo de Gilberto Freyre.

Leila Mezan Algranti é professora do departamento de história da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e autora de "Honradas e Devotas - Mulheres da Colônia" (José Olympio-Editora da Universidade de Brasília).

Folha de São Paulo

Um militante do livro


Um militante do livro
CARLOS GULHERME MOTA

''A primeira vítima da televisão vai ser a velha e boa Saudade, que no fundo é filha da lentidão e da Falta de Transportes. A Saudade desaparecerá do mundo.'' (Nova York, 1928)

Ao encerrar-se o século 20, é tempo de indagar sobre os caminhos que a vida intelectual tomou neste país. Um século fecundo em projetos, diretrizes, plataformas, novos rumos, desconstruções, utopias, pos-modernidades. Mas o que fica? Fica muito, ficam as idéias de Euclides, dos Freyres, dos Sérgios, dos Andrades, de Guimarães, dos Prados e Veríssimos, as marinhas do Pancetti e muito mais. Mas fica também a obra de Monteiro Lobato, que atravessou esse tempo todo, indo para os livros, editoras, jornais, revistas, cinema (Lobato fala disso já em 1919) e depois para a TV.
Nos EUA, Lobato se impressionaria com o advento da TV, tecendo comentários que o situam no pensamento de vanguarda de seu tempo. Quem mais, além dele? Hoje, quando parece esboçar-se, em tempos de globalização, uma desencontrada civilização que busca sua verdade (tropical), vale reler este inovador, para verificar-se quão pouco inovamos, e ainda temos a percorrer na construção de uma cultura.
Em ''Furacão na Botocúndia'', desenha-se mais nitidamente a presença do escritor na cena brasileira. Nascido em 1882 em Taubaté, sua trajetória pessoal e sua obra são acompanhadas até a morte em 1948 no apartamento cedido por Caio Prado Júnior, no último andar do prédio da Editora Brasiliense. Após tantos estudos sobre a ''Belle Époque'' no Brasil e nossas tímidas vanguardas, este livro bem pesquisado e inspirado traz uma revisão importante. Ou melhor: correção. Lobato não era tão antimoderno como virou moda dizer-se. Ao contrário, ao iluminar nossa história intelectual, política e empresarial da primeira metade do século 20, ''Furacão'' provoca uma rotação de perspectivas, abrindo novas hipóteses para estudos sobre o nacionalismo, o papel dos intelectuais, a vida editorial, as relações com os EUA, a ''identidade cultural brasileira'', os livros para crianças, o impacto de inovações tecnológicas e a dimensão cultural do capitalismo e do Estado em nosso meio. Sobre choques de mentalidades, enfim.
Os autores aceitaram o desafio de escrever uma biografia de Lobato que fosse além da produzida por Edgard Cavalheiro, em dois volumes, clássica. E conseguiram. ''Furacão na Botocúndia'' é pertinentemente bem ilustrado e bem escrito, com excelentes notas biobibliográficas e índices, além de revelar novos aspectos da época e de sua vida intensa. Perscrutam seu modo de ser, sua imagem pública, levando o leitor a constatar que o fato de comportar-se como um iracundo, mal-humorado, ranheta mesmo, se devia à inconformidade com o ''mores'' e com o atraso de seu país. Lobato irritava-se com aqueles que viviam no ''Brasil maravilha'', marcados pela ''descuriosidade'' em conhecer dados básicos de nossa formação. Isso o estimula a traduzir e editar textos, como os de Hans Staden e Jean de Léry, no mesmo impulso que o leva a participar da criação de editoras, como Monteiro Lobato & Cia. e logo depois a Companhia Editora Nacional (1926), com Octalles Marcondes Ferreira. A Nacional seria uma referência, com suas coleções, traduções e ''bibliotecas universitárias'' que agregariam nomes como os de Fernando de Azevedo e Anísio Teixeira e, depois, Florestan Fernandes. Militante do livro, escrevia em 1926 ao recém-eleito presidente Washington Luís, pedindo providências contra a ''guerra fiscal contra a cultura'': ''Não há cultura possível sem livro e livro barato, livro que penetre nas massas populares e lhes erga o nível mental. Que nos vale ter picos como Rui Barbosa, se a planície apresenta um dos mais baixos níveis culturais do mundo?''.
No ano seguinte Lobato se transferia para Nova York, como adido comercial, tornando-se admirador de Henry Ford e Mencken, leitor do ''New York Times''... O traçado da modernidade já não passava apenas pelas letras e pelo prestígio estamental, mas também por uma concepção empresarial da cultura. E nesse sentido suas experiências nos EUA seriam da maior importância, inclusive a convivência com Anísio.
Os autores mostram seus encontros e desencontros com os modernistas de 22, e depois com o Estado Novo e com o Conselho Nacional de Petróleo, acusando este de agir a favor dos ''interesses do imperialismo da Standard Oil e da Royal Dutch, perpetuando a nossa situação de colônia econômica dos trustes internacionais'', o que provoca a ira do general Horta Barbosa, um dos dirigentes do regime, que o levaria à cadeia.
Tecendo a trama que ligava escritores e editores, grupos de opinião e tendências políticas e empresariais, ''Furacão na Botocúndia'' fixa o painel cultural de uma época decisiva na constituição de um mercado e de um sistema cultural. Quando do Primeiro Congresso dos Escritores em 1945, Lobato é aclamado por seus pares, consolidando a imagem do intelectual público. Entende-se assim que Lobato, associado a Octalles, tenha editado passadistas como Vicente de Carvalho, mas ao mesmo tempo livros como ''Máscaras'', de Menotti del Picchia, e ''Nós'', de Guilherme de Almeida. Sua vida se misturava com a das vanguardas, tendo mesmo frequentado a ''garçonnière'' de Oswald _onde ''o homem do dia'' esqueceria as provas de seus ''Urupês'' sobre o sofá... Mais: Lobato deu toda força à publicação da obra de Lima Barreto.
Ao percorrer estas páginas, vamos descobrindo gradativamente um Lobato nada cinzento. E, como escreve José Mindlin na ''Apresentação'', tendo surpresas inesperadas, que reaquecem uma admiração que já não se mantinha com a mesma intensidade de antes. Esta parece ser a intenção dos autores, pois as imagens ''conversam'' com o texto, com as legendas e com as cronologias inteligentes desde o início, no esforço de aproximar-nos do personagem. Como se não bastasse, ao mesmo tempo em que restituem Lobato ao seu tempo histórico, ''conversam'' também com o nosso, sem anacronismos, porém com firme propósito de aproximações, notando permanências dos mesmos problemas.
Não por acaso abrem o livro com um comentário sobre Lobato feito por Alberto Conte (''É simpaticíssimo''). Depoimento seguido de uma mini-autobiografia irônica, em terceira pessoa, acompanhada de uma autofoto em Rolleyflex, já na maturidade: ''Mudou de classe. Passou ao paraíso dos intermediários. Começou editando a si próprio e acabou editando aos outros. Escreveu umas tantas lorotas que se vendem _''Urupês'', gênero de grande saída, ''Cidades Mortas'', ''Idéias de Jeca Tatu,'' subprodutos, ''Problema Vital'', ''Negrinha'', ''Narizinho''. Pretende publicar ainda um romance sensacional que começa por um tiro:
-Pum! E o infame cai redondamente morto... Nesse romance introduzirá uma novidade de grande alcance, qual seja, a de suprimir todos os pedaços que o leitor pula'' (1921).
Observe-se que, antes da Semana de Arte Moderna, essa auto-ironização não era desprezível, como não é desprezível o fato de Monteiro Lobato ter editado obras de Oswald de Andrade e outros, além de abrir para o público brasileiro um vasto leque de autores norte-americanos e europeus em suas inúmeras traduções. Essa atividade febril de grande divulgador de outros autores que formariam gerações seria criticada mais de uma vez, dada a quantidade e a variedade da produção, levantando-se mesmo suspeita quanto à autoria.
Não se tratava apenas de um excesso de energia, mas de um novo conceito de cultura, menos paulopradeanamente nostálgico e aristocrático, mais militante e ativo. Conceito aliás presente em outros intelectuais de seu tempo, como o último Mario de Andrade, ou mais jovens, como Caio e Drummond. Ou Florestan, que, preocupado com a ''ação prática'', cobriu para a ''Folha da Manhã'' o Primeiro Congresso de Escritores em 1945.

Carlos Guilherme Mota é historiador e autor, entre outros livros, de ''Ideologia da Cultura Brasileira'' (Ática)

Folha de São Paulo

Três mulheres


Três mulheres
CLAUDIA R. CALLARI
A aproximação entre os campos da antropologia e da história, esboçada em trabalhos pioneiros como ''Os Reis Taumaturgos'', de Marc Bloch (1924), se efetivou decididamente com a chamada terceira geração da Escola dos Annales, sobretudo a partir do final da década de 70. Influenciados pela ''antropologia simbólica'', os historiadores desde então têm se voltado para o estudo dos gestos, dos mitos, das crenças mágicas e dos elementos cotidianos, procurando esquadrinhar práticas culturais relegadas pela historiografia tradicional. Desde então esse casamento não deixou de render bons frutos e, extrapolando a historiografia francesa, bafejou, de maneiras distintas, os trabalhos de Carlo Ginzburg, na Itália, Peter Burke, na Inglaterra, e Robert Darnton e Natalie Davis, nos EUA, para lembrar alguns dos nomes mais conhecidos do público brasileiro.
''Nas Margens'' é o terceiro trabalho de Davis publicado no Brasil. Antes dele vieram ''O Retorno de Martin Guerre'' (1987) e ''Culturas do Povo'' (1990), ambos pela Paz e Terra. ''O Retorno de Martin Guerre'' destaca-se pelo seu percurso incomum: inicialmente roteiro de filme elaborado pela própria Davis, superou os limites da linguagem cinematográfica e acabou por se transformar em trabalho acadêmico; ''Culturas do Povo'', na realidade sua primeira obra, publicada nos EUA em 1975, reúne um conjunto de ensaios em que são esmiuçadas diversas experiências culturais do povo francês _camponeses, artesãos e arraia miúda urbana_ no século 16.
Em ''Nas Margens'' Natalie Davis nos traz a história de três mulheres do século 17: Glikl bas Judah Leib, uma judia de Hamburgo; Marie de l'Incarnation, mística que se torna ursulina em Tours, mas troca a segurança da Europa pelos desafios de fundar um convento no Canadá; e Maria Sibylla Merian, pintora e entomologista protestante de Frankfurt, que se instala aos 52 anos, acompanhada unicamente por sua filha, no Suriname, onde produz sua obra.
Qual seria o denominador comum entre essas três mulheres, portadoras de experiências tão diversas e que, além disso, nunca se encontraram, a não ser no ousado prefácio do livro (ousado sim, pois Davis subverte a lógica do discurso científico e acadêmico, colocando-se como autora que conversa com suas personagens, cruzando os limites que separam a narrativa histórica da ficção)?
Não é necessário esperar pela conclusão para intuir a resposta _aliás, sugerida no título: todas as três moveram-se com desenvoltura dentro de um universo em que lhes eram dadas restritas possibilidades de ação. Em comum também possuíam o amor incondicional à palavra: Glikl escreveu para os filhos sua autobiografia, em que se mesclam aos fatos pessoais fábulas e conselhos; também Marie de l'Incarnation deixou um relato autobiográfico para seu filho, em que a tônica é a questão religiosa; Sibylla Merian foi a única que não produziu um texto biográfico, mas em sua obra, na qual se destaca ''Metamorfose dos Insetos Surinameses'', pode-se entrever algo de sua personalidade. Principalmente, a história dessas três mulheres não pode ser dissociada de suas experiências religiosas, que lhes forneceram o suporte cultural em que seriam construídas suas visões de mundo.
Embora o trabalho esteja alicerçado sobre uma estrutura simples _cada capítulo é consagrado ao estudo de uma dessas mulheres_, à medida que o texto avança a autora vai tecendo sutis comparações entre as que já foram enfocadas, impossibilitando a leitura aleatória dos capítulos. Com extrema habilidade e fina erudição, Davis manipula uma documentação eclética, complementada aqui e ali por outras fontes, como correspondência pessoal e dados esparsos fornecidos por contemporâneos. Outro ponto forte do seu trabalho é a delicadeza com a qual se desloca do universo pessoal para o global. Em nenhum momento as experiências individuais existem fora do quadro social e cultural que as engendra, sem se pretenderem, por outro lado, típicas ou representativas. Impossível visualizar com clareza Glikl sem ter em mente a situação dos judeus europeus na época moderna (o que talvez lhe assegurasse uma posição ainda mais restrita às franjas da sociedade). É só mediante esse enquadramento que essas mulheres emergem do passado, tomando contornos definidos.
Por trás da malha narrativa tecida pela autora _ela própria uma hábil contadora de histórias_ se depreende um arguto senso de interpretação. As premissas teóricas estão dissolvidas ao longo do texto e, aplicadas ao estudo de caso, rendem algumas das mais belas passagens do trabalho. Penso particularmente na identificação do imbricamento das diversas tradições que compõem os relatos de Glikl, apropriadas e retraduzidas para o seu contexto; também na acomodação entre crenças européias e ameríndias a partir dos textos da ursulina Marie de l'Incarnation; e ainda no diálogo estabelecido por Merian com a realidade cultural sul-americana. Trata-se, em suma, de um belo livro, que, longe de ser um manifesto feminista, mostra como três mulheres diferentes criaram estratégias possíveis de sobrevivência nas margens da sociedade e, por isso mesmo, muitas vezes acabaram cruzando fronteiras.

Claudia Regina Callari é doutoranda em história social na USP.

Folha de São Paulo

Nem Estado, nem mercado


Nem Estado, nem mercado
BRASILIO SALLUM JR.
O dilema Estado/mercado tem dominado os estudos sobre o desenvolvimento capitalista desde a Segunda Guerra Mundial. Até os anos 70, tinha hegemonia a perspectiva que via no Estado o meio principal de evitar/controlar os efeitos nefastos dos dinamismos puramente mercantis, aos quais se atribuía a responsabilidade pela crise de 1929 e, indiretamente, pelo conflito mundial. Tratava-se, pois, de uma visão benfazeja do Estado e cautelosa em relação ao mercado. Quer dizer, o mercado era percebido positivamente, desde que operasse dentro de certos limites.
Da década de 70 em diante, ocorre uma inversão completa de perspectiva. A ideologia neoliberal se difunde de forma crescente, o Estado passa a ser demonizado e o mercado ganha foros de panacéia universal. Em vez de ser considerado instrumento para evitar crises produzidas pelo mercado, o Estado passa a ser apontado como causa principal de eventuais dificuldades de operação dos sistemas econômicos. Desde então, o remédio indicado para sanar as dificuldades tem sido ''menos Estado e mais mercado''_privatização, desregulamentação etc.
É claro que o domínio da perspectiva neoliberal não vem ocorrendo sem resistência. Há uma enorme literatura, acadêmica ou não, que denuncia o caráter ''antipopular'', ''antinacional'', ''socialmente excludente'' das reformas propostas e implementadas pelos liberais. Denuncia-se, além disso, a subestimação do papel desempenhado pelo Estado na estabilidade e bem-estar dos países avançados e no desenvolvimento dos países da periferia.
No entanto, quase toda esta literatura ''crítica'' ou ''de protesto'' aceita os termos do ''mainstream'' político e acadêmico _Estado versus mercado_ e combate no seu terreno, com a diferença de que vê o mundo e suas transformações com os sinais invertidos, os sinais imperantes no período pós-guerra.
Talvez a principal qualidade do livro organizado pelo sociólogo J. Rogers Hollingsworth e pelo economista Robert Boyer seja fugir a esse feitio. Não há dúvida de que é decididamente um livro de crítica à ideologia neoliberal e, mais especificamente, à perspectiva neoclássica em relação à sociedade contemporânea. Mas, ademais, muda as regras do jogo para combatê-la. Não trata, apenas de mostrar _contra a dogmatismo de mercado dos economistas neoclássicos_ que o Estado ainda tem um papel importante a desempenhar na conformação da sociedade contemporânea. Antes de tudo, o livro mostra que a velha dicotomia Estado/mercado ''tem que ser descartada, para ser substituída por um amplo conjunto de arranjos institucionais que misturam em grau variável a busca de interesse próprio e obrigação social, relações entre iguais e assimetrias de poder''.
Pode parecer estranho afirmar ''o livro mostra'' a respeito de uma publicação coletiva como é esta, que reúne textos de mais de uma dezena de autores de renome, como Benjamin Coriat, Paul Hirst, Charles Sabel, Philippe Schmitter e Wolfgang Streeck. Mas a existência de um argumento central é outra das características que distinguem a presente coletânea de outras que têm sido publicadas sobre o capitalismo atual. De fato, Hollingsworth e Boyer esforçaram-se para articular os diferentes capítulos segundo um projeto comum, o de mostrar que o mercado não pode ser considerado a forma ideal e universal de organização da atividade econômica. Pelo contrário, os vários capítulos analisam os diversos arranjos institucionais que coordenam a atividade econômica, sua interdependência, as deficiências de cada um, como surgem e como se mantêm.
Já de início os organizadores desenham o elenco de arranjos institucionais que têm importância na conformação das atividades econômicas (''governance mecanisms'') e os classificam segundo o motivo predominante da ação dos participantes e a distribuição do poder entre os agentes. Assim, por exemplo, no mercado concorrencial dominaria o interesse próprio e uma distribuição relativamente igual de poder. Nas comunidades, a obrigação social orientaria a conduta dos agentes, entre os quais não haveria desigualdades significativas de poder. Por outro lado, em arranjos hierárquicos, como empresas privadas, dominam os interesses próprios de agentes desiguais em poder. Associações, redes (''joint ventures'', alianças estratégicas) e Estado ocupam posições intermediárias nas duas dimensões de variação (motivo e distribuição de poder). Mas o processo de globalização não tenderia a submeter todos esses vários arranjos institucionais aos mecanismos homogeneizadores do mercado mundial?
Os autores respondem a isso com um claro não. Mostram, pelo contrário, que mesmo mudando os mecanismos de coordenação não deixarão de se articular em totalidades institucionais _os sistemas sociais de produção_ que podem variar de região para região, de país para país, mas não de maneira ilimitada. Assim, o antigo sistema dominante de produção, o fordismo, que produzia bens muito padronizados, em larga escala e com equipamento muito especializado, com a ajuda de operários semi-qualificados vem sendo substituído por vários tipos de sistemas flexíveis de produção, ancorados em força de trabalho qualificada e cada um tendendo a produzir um amplo leque de produtos em resposta a diferentes demandas dos consumidores.
O livro aprofunda a perspectiva de que as instituições se ''encaixam'' nas atividades econômicas conformando os atores na busca dos seus objetivos. Vários capítulos são dedicados à análise de como as formas de coordenação operam e se articulam nos vários níveis ''sócio-espaciais'' _regiões subnacionais (exemplos: Vale do Silício, a ''terza'' Itália), Estados nacionais, regiões transnacionais (exemplos: União Européia, Nafta, Mercosul) até o nível global.
Qual a tese essencial aqui? É que, apesar das instituições nacionais terem perdido parte de sua capacidade de determinação sobre as atividades econômicas, não foram substituídas pelas ''forças do mercado'', entendidas de forma abstrata e naturalizada. Outras instituições, de base supranacional e infranacional, passaram a concorrer com elas na conformação das atividades econômicas. Assim, ao contrário das crenças mais difundidas, o processo tendencial de globalização não conduz à simplificação das formas de regulação das atividades econômicas, mas a um outro tipo de complexidade, em que as instituições reguladoras se aninham nos vários níveis de organização da sociedade (do local ao global), entre os quais, segundo alguns dos autores, não é possível estabelecer hierarquia de determinação.
Entretanto não se espere dele uma nova ''teoria'' do capitalismo contemporâneo, embora suas páginas contenham novos conceitos, reconstruções brilhantes de fenômenos econômicos particulares e sugestões de teorias parciais. É claro que alguns dos conceitos _como o de sistema social de produção_ ou formas de classificação dos fenômenos podem ser questionados por imprecisão. E, por vezes, causa mal-estar deparar com velhas ''verdades'' sociológicas enunciadas como se fossem novas. Esses pequenos senões não tiram, no entanto, o mérito de um empreendimento ousado como o que se materializa no livro.
De fato, não deixa de ser uma ousadia que um grupo de sociólogos, cientistas políticos e economistas heterodoxos, em vez de submeter-se à ciência ''oficial'' ou às suas regras de discurso, tente jogar no campo do adversário, analisando os fenômenos econômicos contemporâneos com lentes diferentes das usadas pelos economistas do ''mainstream'' neoclássico. Se não for tudo o mais, por isso o livro já vale a leitura.

Brasilio Sallum Jr. é autor de ''Labirintos - Dos Generais à Nova República'' (Hucite)

Folha de São Paulo

O fim dos anos dourados


O fim dos anos dourados
PAUL SINGER
Este é um livro a respeito da globalização, em sua modalidade neoliberal, que vem se impondo nas últimas décadas na maior parte do mundo e mais recentemente também no Brasil. José Luis Fiori examina criticamente as políticas exigidas pela globalização e o pensamento doutrinário que as racionaliza e justifica. Nada é mais importante e urgente.
As políticas de globalização, também conhecidas como de ''ajuste estrutural'', redesenham por completo os limites entre o público e o privado, reformulam o papel do Estado na economia e na sociedade e modificam o relacionamento econômico entre os cidadãos de nações diferentes. Elas são justificadas como imposição da modernidade e do progresso econômico e social, embora representem um recuo histórico a meados do século passado. Fiori se lança ao combate a estas políticas, com o denodo de quem sabe que nada contra a corrente.
''Os Moedeiros Falsos'' é composto por oito ensaios, sete entrevistas e três conferências, todas feitas entre julho de 1994 e agosto de 1997. O primeiro ensaio, que dá nome ao livro, foi publicado em 3 de julho de 1994 e inspirou-se obviamente no lançamento do Plano Real e na ascensão vitoriosa da candidatura de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Este ensaio enquadra o Plano e o candidato no movimento mais geral de inserção do Brasil e do resto da América Latina no campo hegemônico do neoliberalismo. Fiori mobiliza seu largo conhecimento histórico para dar o sentido maior dos embates então vividos pelo país.
Não esconde que a figura do atual presidente o fascina como dublê de intelectual e político. Grande parte dos ensaios e entrevistas ocupam-se dele. Fiori conhece bem a obra de FHC e utiliza a teorização da dependência e da vocação política da burguesia brasileira pelo sociólogo para explicar a trajetória política recente de FHC, o senador, o ministro e o presidente. A explicação faz sentido. Em meados dos 60, FHC descobriu que a burguesia brasileira, e por extensão dos países subdesenvolvidos, procura viabilizar a industrialização não pelo enfrentamento da competição dos capitais do mundo desenvolvido, mas mediante a associação com eles.
Nesta teorização, de clara inspiração marxista, FHC critica e desvenda o desenvolvimento associado. Mas, 25 anos depois, o sociólogo tornou-se um dos principais líderes políticos do Brasil. Cumpria posicionar-se diante da crise econômica e política, que tomava a forma de superinflação incontrolável e ruptura potencial entre a classe dominante e o aparelho de estado, então objeto de saque e desmonte por parte de Collor e companhia.
E Fiori aponta a continuidade oculta entre a teorização de FHC e o seu posicionamento posterior: ''E frente a esse desafio tomou sua primeira e fundamental decisão: resolveu acompanhar a posição do seu velho objeto de estudo, o empresariado brasileiro, e assumiu como fato irrecusável as atuais relações de poder e dependência internacionais. Deixou o seu idealismo reformista e ficou com seu realismo analítico abdicando dos 'nexos científicos' para propor-se como 'condottiere' da sua burguesia industrial, capaz de reconduzi-la a seu destino manifesto de sócia-menor e dependente do mesmo capitalismo associado...'' (pág. 17).
Há sempre certa presunção na tentativa de desvendar motivações alheias. Se Fernando Henrique Cardoso abandonou ou não seu idealismo reformista, jamais saberemos. Mas é inegável que resolveu ligar seu destino ao da burguesia brasileira (e internacional) e que obrigou o PSDB a acompanhá-lo neste caminho, fazendo-o abandonar o percurso anterior de ''centro-esquerda'', em que posturas e interesses antiburgueses ocupavam certo espaço.
Neste sentido, Fiori pôs o dedo na ferida. E é preciso notar que aproximar-se do empresariado era mais fácil no período anterior, em que a resistência ao regime militar reunia no mesmo barco a esquerda e setores importantes da burguesia. Mas Fernando Henrique Cardoso fez sua opção, como bem mostra o livro de Fiori, quando a burguesia já tinha aderido ao neoliberalismo, colocando-se em confronto direto com todos os setores populares, inclusive com a parte do empresariado que não queria ou não podia se internacionalizar.
As análises de Fiori percorrem com a mesma desenvoltura e competência a história econômica e política e a evolução das doutrinas econômicas, mostrando o permanente entrelaçamento entre prática e teoria. É interessante observar como a história é indispensável ao labor crítico e como, pelo contrário, é inteiramente dispensável ao pensamento apologético da tendência dominante.
O neoliberalismo e seu núcleo duro _o pensamento neoclássico_ tomam por base a natureza humana e o comportamento racional dos agentes. Não sentem necessidade de demonstrar empiricamente que os mercados, entregues à sua própria dinâmica, sempre otimizam a alocação dos recursos e liquidam todos as mercadorias oferecidas. Conseguem demonstrá-lo mediante um recurso conceitual: tudo o que não se vende simplesmente não atingiu o preço desejado pelo vendedor. E todas necessidades não satisfeitas resultam de opções racionais dos sujeitos, que preferiram utilizar seus recursos para outras finalidades.
Com estes pressupostos é possível sustentar ''cientificamente'' que o desemprego, por exemplo, é sempre voluntário. Os desempregados o são porque não aceitam o salário que os empregadores podem lhes pagar, dada a produtividade potencial dos primeiros. E os pobres, desde que não tenham sido roubados ou escravizados, devem sua condição apenas às suas próprias opções. Portanto, numa economia ''livre'', em que cada indivíduo é dono de seu destino, o desemprego e a pobreza não são males sociais, mas resultados inevitáveis do acaso e das opções individuais.
Para quem acredita nestas proposições, a análise histórica é, na melhor das hipóteses, secundária. Mas, para quem não está convertido a elas e quer entender de que modo estruturas econômicas, políticas e jurídicas produzem hierarquias de poder e desníveis socioeconômicos, a análise histórica é imprescindível. E Fiori mostra bem como a tentativa anterior de aplicar o liberalismo na íntegra levou a crises, que fizeram a tentativa malograr. Seguiram-se décadas de depressão e uma guerra mundial, ao fim das quais o capitalismo entrou em seus ''anos dourados'', quando o crescimento atingiu o seu ápice, o desemprego quase desapareceu e construiu-se o ''welfare state'', ''a mais ambiciosa e bem-sucedida construção republicana de solidariedade e proteção social'' (pág. 88).
Em vários capítulos, Fiori aborda a crise e o fim dos ''anos dourados'', que originam a atual era de hegemonia neoliberal. Esta análise é crucial e está longe de ser completada. Fiori aponta os fatos essenciais: a liquidação do sistema internacional de pagamentos armado em Bretton Woods, nos 70, a desregulamentação financeira e a supremacia ganha pelo capital internacionalizado, o verdadeiro novo poder que emerge da globalização.
O atual confronto entre o grande capital internacionalizado e cada um dos estados nacionais só se explica por toda uma série de mudanças ''políticas'' _a tolerância do euromercado, a queda das barreiras tarifárias, o fortalecimento do FMI e do Banco Mundial, como executores dos ajustes estruturais_ que foram implementadas num período _os anos 80_ em que a social-democracia governava a França, a Espanha e numerosos outros países europeus. E em que ditaduras militares iam sendo substituídas por democracias em grande parte dos países hoje chamados de ''emergentes''.
Fiori dedica uma de suas páginas mais brilhantes à confusão ideológica que reinava até há pouco nas fileiras da social-democracia, dividida entre a necessidade de parecer confiável aos detentores do capital globalizável e os interesses objetivos de sua base social. É importante assinalar que esta confusão está começando a ser superada, o que permitiu o recente renascimento da social-democracia na Itália, Reino Unido e França. Pode parecer pouco, mas a denúncia do desemprego como ''horror econômico'' e o reconhecimento de que cabe aos governos eliminá-lo é essencial para escapar da tirania do ''pensamento único'' neoliberal.
Um dos elementos que Fiori maneja com sagacidade é o ''tempo''. Ele sabe muito bem que o tempo é inteiramente abstraído das análises neoclássicas do equilíbrio: forças exógenas perturbam o equilíbrio de mercado e aí _''desde que nenhum agente extra-econômico, como governo, sindicatos etc., interfira''_ os agentes executam uma série de tentativas, rejeitando as erradas e aproveitando as certas, até conseguirem definir novos comportamentos ótimos; deste ponto em diante, a conduta otimizadora é sempre reiterada, o que reconstitui o equilíbrio. Não se faz a pergunta embaraçosa: quanto tempo leva esta procura do ótimo? Será que as vítimas das tentativas erradas se dispõem a esperar todo este tempo, até que a otimização se complete?
A questão é crucial para viabilizar politicamente os ajustes estruturais. E Fiori aponta repetidamente que é considerável, para dizer o mínimo, o tempo que os efeitos benéficos levam para se fazerem sentir. ''No caso das experiências bem-comportadas, as etapas de estabilização e reformas tomaram de três a quatro anos cada uma, e até uma década para a retomada efetiva do crescimento. Neste quadro, como é óbvio, fica difícil obter credibilidade para políticas neoliberais junto ao empresariado, seu aliado indispensável e, pior ainda, junto aos trabalhadores'' (pág. 19). Convém notar que a maior parte das experiências não é bem-comportada e não somente pela resistência ou rebeldia dos excluídos, mas também pelas vicissitudes dos mercados financeiros literalmente desnorteados porque desregulamentados.
Por isso, o projeto de ajuste estrutural de certa maneira pressupõe uma longa permanência no poder da coligação neoliberal, o que parece ser pouco compatível com a democracia, para dizer o mínimo. Ao apontar para esta contingência, ainda em julho de 1994, Fiori antecipa brilhantemente a campanha pela reeleição, que domina o cenário político neste último ano. Em sua melhor tirada, diz: ''A dolarização inicial da economia será sempre um artifício inócuo se não estiver assegurada por condições de poder inalteráveis por um período considerával de tempo. Deste ponto de vista, aliás, o Plano Real não foi concebido para eleger FHC; FHC é que foi concebido para viabilizar no Brasil a coalizão de poder capaz de dar sustentação e permanência ao programa de estabilização do FMI e viabilidade política ao que falta ser feito das reformas preconizadas pelo Banco Mundial'' (pág. 14).
Convém assinalar, finalmente, que muitas análises em ''Os Moedeiros Falsos'' prevêem a atual crise financeira mundial em curso. Fiori mostra o tempo todo como os planos de estabilização apoiados em âncora cambial dependem crescentemente da disponibilidade de capitais externos, que de forma alguma estava e está garantida. O Plano Real não apresenta qualquer originalidade a este respeito e sua vulnerabilidade à especulação financeira está bem retratada.
A única restrição que se pode fazer a este livro, sob todos os aspectos brilhante, esclarecedor e oportuno, é a pouca atenção que dá à discussão de alternativas ao neoliberalismo. José Luis Fiori parece recusar-se a teorizar a este respeito, enquanto as condições políticas para inverter a hegemonia neoliberal ainda não estiverem à vista. Mas, para que possam surgir, é imprescindível a formulação de alternativas historicamente convincentes. Fiori parece resignado a uma luta de resistência contra a ofensiva do grande capital. Sem uma utopia alternativa à do neoliberalismo, esta luta não tem perspectiva.

Paul Singer é professor de economia na USP e autor, entre outros livros, de ''Um Governo de Esquerda para Todos'' (Brasiliense).

Folha de São Paulo