terça-feira, 13 de outubro de 2009

ILUMINISMO E IMPÉRIO NO BRASIL: O PATRIOTA (1813 - 1814)


ILUMINISMO E IMPÉRIO NO BRASIL: O PATRIOTA (1813 - 1814). Kury L, organizadora. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2007. 200 pp. (Coleção História & Saúde: Clássicos e Fontes).

ISBN: 978-85-7541-139-1

Eduardo Romero de Oliveira
Universidade Estadual Paulista, Rosana, Brasil.

Uma ciência para ilustração dos povos e civilização do Império

Em 1813, foi publicado pela primeira vez no Brasil um periódico que hoje chamaríamos de científico. O Patriota saiu dos prelos da Imprensa Régia, no Rio de Janeiro, recém-instalada, quando da chegada da corte joanina no Brasil. Sob a editoria de Manoel Araújo Guimarães (depois editor do jornal oficial Gazeta do Rio de Janeiro), teve colaboradores notórios como José Bonifácio e Silvestre Pinheiro Ferreira, dentre outros expoentes de um iluminismo português. Apesar disso, seus volumes tiveram tiragem limitada e a publicação durou dois anos. Quase duzentos anos depois, esse precioso material tem agora sua leitura multiplicada pela livre imprensa, em versão digitalizada. A edição é (re)apresentada ao público no livro Iluminismo e Império no Brasil: O Patriota (1813-1814), da Coleção História & Saúde, da Editora Fiocruz. Trata-se de uma coletânea de estudos sobre o periódico, organizada por Lorelai Kury, pesquisadora e professora na Casa de Oswaldo Cruz/Fundação Oswaldo Cruz (COC/FIOCRUZ) e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). São diversos e instigantes artigos que examinam a cultura letrada do período: seja por detalharem as relações sociais envolvidas na produção do periódico; ou ao procurarem a pertinência daquela produção científica e sua difusão.

Sob o aspecto das relações sociais, tome-se o artigo de Marcos Morel. O historiador faz um trabalho de investigação dos sentidos da palavra "pátria" em O Patriota, de modo a permitir acompanhar as mutações políticas e culturais da época. E observa que a semântica da palavra é mais restrita ao lugar de nascimento, enquanto espaço de atuação intelectual e fidelidade do súdito, do que os significados políticos. Estudos do vocabulário político já foram feitos por Roderick Barman e Telmo Verdelho, mas Morel considera as implicações políticas dos sentidos adotados. O associativismo literário do Setecentos teria dado lugar à "república das letras": constituía não somente espaço de sociabilidade mas de esfera pública, "pautando sua atuação política científica e intelectual pelo viés institucional, pela ampliação de poderes no interior do Estado" (p. 28). Os sentidos da "pátria" desdobram-se a partir de um grupo luso-brasileiro ligado a D. Rodrigo Coutinho, em torno de um projeto de império luso-brasílico que formulou (conforme exposto no notório trabalho de Lourdes Lyra). Numa tentativa de rearticulação desse grupo após a morte de D. Rodrigo, de produção científica e divulgação dentro destas relações sociais e políticas.

O detalhamento dessa rede social é efetuado por Tania Maria Ferreira, na compreensão sobre a imprensa no período da corte joanina na América portuguesa. Percebe-se assim as dificuldades e possibilidades de inserção deste periódico, que se dão num contexto em que a produção, venda e circulação estão sob censura rígida. Por isso, a tarefa de publicação é pretendida e exercida por uma elite letrada, que atribui valor propedêutico à divulgação científica em vista da "perfectibilidade" humana. E não por acaso, ao mesmo segmento social pertencem os seus leitores: homens e mulheres vinculados à Corte portuguesa.

Ressalvemos que o estudo das práticas de produção e circulação dos textos tem sido uma linha prolífera na historiografia brasileira para a compreensão da circulação de idéias desse início do Oitocentos na América Portuguesa - vide textos recentes como os de Guilherme das Neves, Lucia Maria das Neves, Isabel Lustosa, Luiz Villalta, entre outros. São esses estudos que nos permitem compreender um pouco da circulação das idéias no período: as implicações políticas dos textos; as redes de sociabilidade que mobiliza; as interações com instituições científicas e de ensino. Com isso se vislumbra a dimensão social do conhecimento científico, mas também convida ao exame desta produção textual nos aspectos formais, dos seus princípios.

É nesse último sentido que podemos entender o entrelaçamento da forma poética com as relações sociais, exposto no artigo de Sérgio Alcides ao se deter na poesia de Domingos Borges de Barros, colaborador d'O Patriota. Os temas da amizade, a companhia, o abandono têm correspondência com a biografia de Barros, e denota uma sociabilidade entre letrados e patronos. Ao mesmo tempo, indica um deslocamento do lugar social de criação poética: no lugar da Arcádia como ideal do mundo pastoril, lugar de eloqüência e bom gosto, temos a Academia das Ciências de Lisboa, no viés do controle da natureza e suas riquezas. O poeta está "identificado com o colono que explora a opulência da terra, mas também com o letrado que aspira a submeter essa exploração aos valores da Ilustração" (p. 122-3). Segue então o modelo de Virgílio, do elogio do trabalho agrícola e da poesia didática, a fim de pregar a virtude pública da agricultura. Uma tópica que se ajusta à divulgação técnico-científica e ao serviço à Pátria, tal como a propõe O Patriota.

Aliás, no artigo de Sérgio Alcides já se vislumbra o segundo ponto pelo qual este livro se destaca: compreender a pertinência da ciência naquele momento. Lorelai Kury atenta para o caráter dos textos no periódico. De um lado, destacando neles a presença de uma retórica da utilidade (conforme os padrões científicos do iluminismo), mas submetida à pretensão de "ser útil à Nação". E de outro, o caráter premeditado de organizar os conhecimentos disponíveis sobre a natureza no Brasil - para inclusive conceber uma "natureza brasílica". Esses dois aspectos coexistem, por exemplo, nos textos sobre cultivo agrícola, em que se sustenta a tese do trópico como lugar para o desenvolvimento humano. Ou ainda nas narrativas sobre as doenças no Brasil, que estabelecem relação entre o clima e as doenças - conforme a tradição hipocrática. De maneira que se percebe n'O Patriota a preocupação em coletar e organizar informações para "uma melhor extração das riquezas" e administração do território.

Atinando mais diretamente à produção do conteúdo científico, Manoel Luiz Salgado Guimarães discorre sobre as noções de história e progresso utilizadas n'O Patriota. Sob a rubrica "Histórica", são aglutinados corografias, descrições de populações indígenas. Todo um conjunto de textos e temas que se aproximam em função de um conhecimento sistemático sobre o território e a população do reino. E nos quais se reconheceria também o princípio da utilidade da ciência, uma percepção de universalidade (do Homem como parte da Natureza) e o método racional que aproxima a história humana e a história natural. Destaque-se que o periódico é herdeiro de um projeto editorial anterior, a Casa Literária do Arco do Cego (1799-1801), que traduziu e publicou textos de botânica, medicina, agricultura e matemática. Uma concepção de ciência iluminista que se articula ao projeto de império luso-brasílico e à geração envolvida com ele - muitos dos quais encontraremos como colaboradores d'O Patriota. Concebida enquanto uma narrativa universal, segundo Guimarães, a História faz o elogio da tarefa civilizatória da monarquia portuguesa. Por sua vez, os "conhecimentos úteis" de agricultura e medicina são publicados para exemplo e ilustração da elite e proprietários. Difusão do conhecimento científico que é ele mesmo uma "forma de civilizar e sustentar uma intervenção prática" (p. 94). Isso faz com que o periódico assuma a função de promover uma pedagogia política.

Enfim, Iluminismo e Império no Brasil: O Patriota (1813-1814) convida-nos a refletir sobre cultura e ciência. Sob a perspectiva da história cultura, os artigos descrevem as redes de sociabilidade e dinâmicas sociais envolvidas na produção e circulação dos periódicos no início do Oitocentos, no Brasil. Num viés próprio da história das ciências, discorre-se no livro sobre o lugar social e institucional da produção do conhecimento científico, como também a eficácia política da sua difusão.

Cadernos de Saúde Pública - FIOCRUZ

AVANCES RECIENTES EN INMUNIZACIÓN


AVANCES RECIENTES EN INMUNIZACIÓN. Andrus JK, de Quadros CA. 2ª Ed. Washington DC: Organización Panamericana de la Salud; 2007. 154 pp. (Publicación Científica y Técnica, 619).

Lucia Ferro Bricks

Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil.

ISBN: 92-7531619-8

Avances Recientes en Inmunización conta com a colaboração de renomados autores que expõem os aspectos considerados relevantes pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) para recomendar a introdução de novas vacinas nos programas dos países membros. Dentre eles, merecem destaque: carga das doenças, características das vacinas e seu impacto sobre os programas, percepção de risco, análise fármaco-econômica da intervenção, compromisso e respaldo político, alianças e sustentabilidade.

Nas últimas décadas, foram surpreendentes os avanços que possibilitaram a criação de novas vacinas e de recursos diagnósticos para identificar doenças antes não reconhecidas e formas atípicas de doenças bem conhecidas, aumentando os desafios para incorporar as vacinas contra estas doenças nos calendários vacinais 1,2,3,4,5,6,7. Também ficaram claras as necessidades de identificar e monitorar os sorogrupos e sorotipos de Streptococcus pneumoniae, Haemophilus influenzae e meningococo, bem como de realizar testes sorológicos para confirmar os casos de sarampo e rubéola para apoiar as decisões sobre futuras estratégias de vacinação 5,6. Os autores enfatizam a necessidade de dar mais atenção à vacinação de adultos e adolescentes e de aumentar as coberturas de vacinas recomendadas para grupos de risco e seus contatos, como influenza e pneumococo, que ainda são subutilizadas, assim como o desenvolvimento de vacinas combinadas com perfil de segurança e eficácia semelhante ao das vacinas monovalentes 5,6,7.

A opção por diferentes vacinas depende da conscientização sobre os riscos das doenças, bem como de aspectos relacionados à segurança, eficácia e riscos de eventos adversos associados às vacinas. Essa conscientização depende da qualidade da vigilância epidemiológica das doenças e dos sistemas que monitoram os eventos adversos das vacinas e, apesar das melhorias nestes sistemas, ainda faltam informações sobre muitas doenças, particularmente quando seus sinais e sintomas se confundem com os causados por outros agentes, a doença se apresenta de forma atípica ou suas manifestações graves ocorrem tardiamente 3,6,7,8,9.

Cada vez mais, a questão da segurança das vacinas é vista como essencial e, no caso da poliomielite, a eliminação regional da doença desde 1994 levanta a questão ética de manter o uso da vacina oral, após o reconhecimento de que sua utilização não permitirá a erradicação global da doença. Desde o ano 2000, tem sido crescente a preocupação com o uso da vacina oral contra a poliomielite, não apenas nos países onde a doença já não mais circula 3,10,11,12,13,14,15,16, mas também na Índia, onde já existem recomendações para planejar a mudança da OPV para IPV 17,18,19,20.

A percepção sobre os riscos das doenças e das vacinas é essencial para fazer mudanças, pois implica a aceitação e utilização das vacinas. A substituição das vacinas pertussis de células inteiras por vacinas acelulares ocorreu justamente devido à percepção de que a vacina DPT é reatogênica e associada a eventos neurológicos, que foram os responsáveis pela queda na sua aceitação no Japão e Europa 6,7,8,9. A proteção conferida pela doença ou pelas vacinas pertussis (celulares e acelulares) é parcial, com duração estimada entre 5 e 10 anos 7 e, atualmente, existe a necessidade de vacinar adolescentes e adultos para evitar a transmissão da Bordetella pertussis para lactentes jovens. A sugestão dos autores de que as vacinas de células inteiras seriam mais efetivas do que as vacinas acelulares não está de acordo com a posição da Organização Mundial da Saúde (OMS) 9, que aprovou e licenciou diversas vacinas acelulares 4, considerando que as "melhores vacinas acelulares têm eficácia comparável à das melhores vacinas de células inteiras" 9. Quase todos os países desenvolvidos atualmente adotam as vacinas acelulares, em geral combinadas com outras vacinas, devido à maior aceitação, menor reatogenicidade e melhoria nas coberturas vacinais quando se utilizam estas vacinas 1,2,3,5,6,7,8,9.

Aprender com a experiência de outros países, analisando os motivos que levaram às mudanças em seus calendários de vacinação, poderia poupar muitos problemas. Como exemplo, citamos as recentes epidemias de sarampo e rubéola, que poderiam ter sido evitadas se tivéssemos implantado duas doses da vacina tríplice viral há mais tempo no Brasil. Creio que os autores poderiam ter discutido com mais profundidade essa questão, assim como os fatos que motivaram o Reino Unido a adotar a dose de reforço da vacina de Hib em seu calendário em 2006, quando também substituíram as vacinas DPT e OPV por uma vacina combinada contendo IPV e acelular pertussis 4,21.

Uma das maiores dificuldades em termos de saúde pública é optar dentre as diferentes vacinas disponíveis por aquelas que deverão ser incluídas prioritariamente nos calendários, tendo em vista a escassez de recursos. O custo das novas vacinas deve ser avaliado em relação ao custo das doenças para as famílias e a sociedade, mas é importante lembrar que nenhuma análise fármaco-econômica será favorável à introdução de novas vacinas enquanto houver subnotificação das doenças, seja por falta de recursos diagnósticos ou por falhas no registro dos casos 14.

As sofisticadas tecnologias utilizadas no desenvolvimento das novas vacinas são caras e impactam no custo de produção, além disto, o desenvolvimento de novas vacinas requer anos de pesquisas e investimentos, e os países em desenvolvimento raramente têm condições de produzi-las em larga escala logo após seu licenciamento. A expectativa de que as novas vacinas terão o mesmo custo das já incorporadas aos programas de vacinação é pouco realista, mas é possível reduzir dramaticamente os custos de produção se houver planejamento para a aquisição de vacinas em grandes quantidades, como se observou após a introdução das vacinas de Hib, hepatite B, rotavírus e hepatite A nos programas de vacinação de diversos países 1,14,22,23,24.

Em média, o tempo necessário para introdução de novas vacinas na América Latina foi de 10 a 15 anos. No caso da vacina contra rubéola, foram quase três décadas, devido à falta de informação sobre a síndrome da rubéola congênita. Esperar até que sejam desenvolvidos e implantados testes diagnósticos que permitam conhecer a real carga das doenças significa deixar milhares de pessoas desprotegidas.

A leitura de Avances Recientes en Inmunización permite conhecer melhor a história da vacinação na América Latina, e o conhecimento e planejamento são essenciais para que não sejam repetidos os erros do passado.

Salientamos que a falta de informações sobre doenças não significa que elas não existam, e aconselhamos os leitores a consultar com freqüência as páginas de Internet da OPAS, OMS, Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC - Estados Unidos) e União Européia, onde constam informações atuais sobre doenças infecciosas, vacinas e calendários atualmente adotados nos diversos países 1,2,3,4.

O licenciamento de novas vacinas amplia a possibilidade de prevenir doenças e de evitar o ressurgimento daquelas ainda não erradicadas. A vacinação é uma das medidas mais custo-efetivas em saúde pública, mas é preciso utilizar dados fidedignos dos gastos diretos e indiretos associados às doenças 14.

O calendário do México, citado como exemplo pelos autores, foi modificado em 2008, e contém as vacinas rotavírus, pneumococo conjugada, IPV-DTPa-Hib, demonstrando que é possível incorporar mais rapidamente as novas vacinas aos calendários de vacinação dos países latino-americanos, desde que haja "vontade política combinada com estratégias inovadoras de financiamento e consolidação na região".

Concordamos com a conclusão dos autores "... o crescimento na demanda por vacinas torna necessária a colaboração entre órgãos públicos e privados para desenvolver novas estratégias de produção e distribuição em larga escala de vacinas, permitindo garantir o acesso às vacinas e a redução nos custos", e esperamos que nos próximos anos seja possível melhorar as relações entre órgãos públicos e privados, em benefício de toda a comunidade.

Cadernos de Saúde Pública - FIOCRUZ

A cidadã paradoxal: as feministas francesas e os direitos do homem


Feminismo: velhos e novos dilemas uma contribuição de Joan Scott*

Érica Melo
Mestre em Sociologia pela Unicamp. ericaisamel@hotmail.com


Em que corpo cabe o feminismo? Vamos ter que levantar as saias e abrir as calças para demonstrarmos que somos feministas? Todas que autodefinem como mulheres têm o direito de estar nos encontros feministas! O que é ser mulher?1

Essas questões foram levantadas por duas feministas brasileiras durante o 10º Encontro Feminista Latino-Americano e do Caribe, em outubro de 2005, por ocasião do debate sobre a inclusão ou não de transexuais em encontros feministas, revelando o peso que a questão identitária ainda tem para o feminismo.

Se a transexualidade é, por um lado, uma nova questão para o feminismo, por outro, é um rearranjo de velhos dilemas em torno do qual o feminismo sempre se deteve: o que é "diferença sexual"? Como e em nome de quem o feminismo se articula? Há estratégias políticas que possibilitem melhores resultados?

O interessante desse episódio é que o feminismo já tinha sido colocado em xeque anteriormente com relação às categorias de representação e de identidade estável, na medida em que não pôde mais ignorar as especificidades que atravessam a categoria "mulher": raça/etnia, geração, orientação sexual, classe. Dessa forma, não podemos mais falar em "mulher" e sim "mulheres". Entretanto, com essa polêmica das transexuais percebemos que, mesmo com a ampliação do termo, o feminismo (ou pelo menos uma parte dele) ainda considera a marca sexual como definidora de gêneros. Mais do que isso, a marca é definidora e inata, uma vez que transexuais mudam de sexo e, portanto, se enquadrariam na categoria "mulheres". Aparentemente, a polêmica reside na idéia de que a transexual um dia tenha sido "homem", retomando outra cara questão ao feminismo: a essencialização.

Esse fato ocorrido no Encontro Feminista ressalta a pertinência analítica do estudo sobre o passado e, ao mesmo tempo, absolutamente atual o trabalho de Joan Scott sobre o feminismo francês, do século XVIII ao início do XX - A Cidadã Paradoxal - as feministas francesas e os direitos do homem. Nesse estudo, Scott parte de biografias de quatro sufragistas francesas (Olympe de Gouges, Jeanne Deroin, Hubertine Auclert e Madeleine Pelletier) para discutir a história do feminismo, bem como os dilemas do feminismo contemporâneo.

De antemão, Scott rejeita uma perspectiva linear e contínua da história. Para ela, esse tipo de versão impede ver o reverso da experiência feminista e entender suas contradições internas, por exemplo, a repetição de suas lutas que condena a geração seguinte a se confrontar com os mesmos dilemas da geração anterior. Segundo a autora, o que interessa na análise história do feminismo é tentar entender porque tem sido tão difícil estender às mulheres as promessas da Revolução Francesa e a resposta não pode ser resumida à "crônica da luta heróica das feministas", tampouco à uma explicação que dependa de fatores precedentes e externos à política. Para Scott, os conflitos recorrentes do feminismo devem ser vistos como sintomas das contradições nos discursos políticos que produziram o próprio feminismo; em outras palavras, o feminismo nasce a partir das idéias do individualismo, dos direitos e das obrigações sociais do indivíduo e, ao mesmo tempo, critica esse mesmo corpus de idéias ao questionar a pretensa universalidade da noção de indivíduo que excluía as mulheres.

Scott afirma que a repetição na história feminista ultrapassa o conflito entre princípios universais e práticas de exclusão e atinge o problema da "diferença sexual". Este, mais que um fato natural, é uma justificativa ontológica para um tratamento diferenciado no campo político e social. E é a partir da questão da "diferença sexual" que se constituiu o paradoxo que permeou toda a história do movimento feminista:

a fim de protestar contra as várias formas de segregação que lhes eram impostas, as mulheres tinham de agir em seu próprio nome, invocando, dessa forma, a mesma diferença [sexual] que procuravam negar (18).
Dessa forma, a história do feminismo é paradoxal, não porque possui estratégias que se opõem entre si, os paradoxos são elementos constitutivos do próprio feminismo, pois é formado por práticas discursivas de política democrática que igualam individualidade e masculinidade, conforme veremos a seguir.

O significado de indivíduo é ambíguo. Pode significar tanto o protótipo abstrato do ser humano (muito usado em teoria política, por filósofos do Iluminismo e por políticos revolucionários da época), como pode significar um ser único, pessoa diferente das outras de sua espécie (conceito de filósofos como Rousseau e Diderot). Entretanto, a busca de uma base comum para a política rejeitou essa segunda noção de diferença. O indivíduo abstrato é a essência comum da humanidade e, assim, abstrai categorias diferenciadoras. Porém, a noção de individualidade, segundo Scott, só pode ser estabelecida por uma relação de contraste: por se referir a um tipo singular, invariável, essa abstração possibilitou a exclusão das/dos que não possuíam as características exigidas para um indivíduo. Nos séculos XVIII e XIX, por exemplo, o desenvolvimento da psicologia da cognição levanta o problema da diferença: órgãos do corpo, tomados como fonte de impressões e de experiências do indivíduo (cor da pele, órgãos de reprodução), sinalizavam a habilidade humana. Em outras palavras, sinalizavam quem poderia ou não ser incluído na noção de indivíduo e, nesse caso, mulheres e negros estavam fora. Temos, assim, uma contradição: o sistema de inclusão universal exclui o que não se enquadra como um indivíduo, o que não se encaixa em seu protótipo. O protótipo do indivíduo generaliza, e ao mesmo tempo invoca, uma noção única de indivíduo e a unicidade exige uma relação de diferença que a idéia de indivíduo pretendia negar (32). O conceito de indivíduo abstrato não levou em conta questões sobre o processo que estabelecia os limites da individualidade e não permitiu, portanto, a variedade de indivíduos.

A mulher não correspondia ao protótipo humano: era o outro que confirmava a individualidade; a masculinidade era prérequisito para a idéia de indivíduo e atribuir gênero à cidadania foi algo recorrente no discurso político francês, como percebemos em alguns autores retomados por Scott. Para Rousseau, a consciência da diferença sexual e, consequentemente, o desejo de possuir o objeto amado distinguia o homem civilizado do selvagem - esse desejo relacionava tanto o amor que liga um homem a uma mulher, quanto a discórdia política entre os homens. Cem anos mais tarde, Durkheim faz uma analogia entre sua idéia de "solidariedade orgânica" e a heterossexualidade. Para Lombroso, todas as mulheres estão em uma só categoria, mas cada homem é um indivíduo em si, um caso único.

Invocar a "diferença sexual" como explicação dos limites dos direitos individuais possibilitou historicamente o surgimento das feministas, que apontaram as incoerências dos supostos direitos universais (do homem): a noção republicana de indivíduo - sua definição universal e corporificação masculina - era, por elas, posta a nu. Ao questionar, as feministas também assumiam um discurso paradoxal, discutir, ao mesmo tempo, a relevância e irrelevância de seu sexo. A exigência de direitos universais negava a diferença sexual como critério de exclusão, entretanto, ao agir em seu próprio nome, as mulheres se utilizavam dessa mesma diferença que outrora não se deveria levar em conta.

A noção de coerência é fundamental para sistemas políticos e ideológicos, como os do republicanismo francês em questão. Ela é indispensável para que haja organização social e os sistemas se posicionem como competentes para praticar e exigir coerência. Na impossibilidade de sua real existência, tais sistemas políticos negam a contradição interna, a parcialidade ou a incoerência. Nesse sentido, a criação da "diferença sexual" foi uma forma de garantir a exclusão das mulheres.

As feministas aceitaram essa necessidade de coerência e reclamaram que o sistema não cumpria suas próprias exigências. Entretanto, elas também se deram conta que, ao adotar esse mesmo sistema político-ideológico, elas também teriam suas próprias incoerências. Foi então que começaram a questioná-lo e admitir a necessidade de repensá-lo, segundo Scott, "Essa foi (e é) a força e o perigo do feminismo, a razão por que se provocava não apenas medo como também desprezo" (39). As feministas desenvolveram a habilidade de identificar e explorar as ambigüidades nos conceitos fundamentais da filosofia, da política e do senso comum.

Ainda que a noção de um padrão repetido de paradoxos pareça ser intemporal, os conceitos utilizados pelas feministas são frutos de uma época. As reivindicações por direitos por elas formuladas tiveram como base epistemologias diferentes e não devem ser lidas como uma consciência transcendente e contínua da Mulher, tampouco como uma experiência comum de todas as mulheres.

As feministas negavam a idéia de "diferença sexual" como resposta à exclusão da participação política das mulheres. Entretanto, ao agir em nome das mulheres, invocavam a mesma diferença que pretendiam negar (sendo a idéia de "diferença sexual" parte desses mesmos discursos), um paradoxo que desafia a tradição, acentua suas contradições, sem, contudo, abalar as crenças ortodoxas.

Essa contradição é atualmente perceptível nos debates sobre "igualdade" ou "diferença" no feminismo: as mulheres são iguais aos homens e por isso devem reivindicar os mesmos direitos ou são diferentes e, por causa ou apesar das diferenças, exigem os mesmo direitos? Essa dicotomia, segundo Scott, invisibiliza que ambas as posições atribuem identidades fixas e análogas a homens e mulheres e, implicitamente, endossam a existência de uma definição de diferença sexual. A conseqüência desse raciocínio é que, mais uma vez, a diferença sexual é percebida como um fenômeno da natureza (reconhecível, mas mutável) quando, no entanto, é mais um fenômeno indeterminado, como etnia, cujo significado está sempre em discussão.

Ainda que o período estudado por Scott pareça distante, 1789 a 1944, é inegável a contemporaneidade da luta política dessas primeiras feministas, por exemplo, a luta pela paridade na representação política das mulheres, mesmo que as feministas tenham opiniões distintas sobre a questão. A polêmica sobre a entrada ou não das transexuais no feminismo é outro exemplo e mais uma vez, a natureza - a "diferença sexual" - é invocada para fundamentar o debate.

A política feminista é marcada por essa indefinição do que vem a ser "diferença sexual". Entretanto, para Scott, essa ambigüidade não se caracteriza como um problema para o feminismo. Ao contrário, é o que lhe dá intensidade:

se por um lado, pareciam aceitar definições de gênero como verdadeiras; por outro, elas as recusavam. Aceitação e recusa simultâneas punham a nu as contradições e omissões nas definições de gênero que eram aceitas em nome da natureza e impostas por lei. As reivindicações feministas revelaram os limites do princípio de liberdade, igualdade e fraternidade e levantaram dúvidas em relação a sua aplicabilidade universal (19).
Através da teoria pós-estruturalista, Scott encontra uma forma mais apropriada para criticar a história do feminismo e ao feminismo em si, que permitiu analisar as construções de significado e as relações de poder, uma vez que essa teoria questiona categorias unitárias e universais que naturalizam conceitos históricos, como "homem" e "mulher".

O pós-estruturalismo e o feminismo contemporâneo são movimentos de fins do século XX que compartilham uma certa relação crítica auto-consciente diante das tradições política e filosófica estabelecidas (Scott, 2000:204).
O conceito de diferença, seguindo a linha da lingüística estruturalista de Saussure, baseado na noção de que o significado é construído através do contraste (que pode ser implícito ou explícito), trabalha com a idéia de que uma definição positiva se apóia em sua negação ou repressão de algo que se representa como antitético a ela, é o que baliza toda a discussão do feminismo como paradoxal. Para Scott, essas oposições fixas ocultam que os termos apresentados como opostos são, na verdade, interdependentes e hierárquicos: o significado de um termo depende de um contraste estabelecido, não de algo inerente ou de uma simples antítese. Essa idéia permeia toda a análise de Scott sobre as sufragistas francesas.

Além da contemporaneidade das reivindicações dessas feministas históricas, uma outra possibilidade que a análise histórica oferece é a de rever como a história do feminismo tem sido percebida e construída, afetando as práticas atuais. Scott rejeita a abordagem teleológica2 por ser uma versão que apenas permite saber que as feministas usaram uma ou outra estratégia (no caso, a estratégia da "diferença" ou da "igualdade"), mas não como foram construídas - saber de sua existência permite uma crítica das práticas normativas, mas não a extensão dessa crítica. A experiência não é evidente, e tratá-la como tal impede a análise de sua historicidade, pois a reproduz em seus termos (Scott, 1999:5).

As narrativas biográficas das feministas francesas, feita por Scott, também não guardam uma relação de causa e efeito, entre experiência pessoal e atividade individual. O enfoque biográfico parece reafirmar a noção de que a ação é uma expressão autônoma, mas, na verdade, é o efeito de um processo historicamente definido. Ainda que a noção do agir seja, com freqüência, apresentado como condição da natureza humana, é um conceito específico, ligado historicamente às mesmas idéias que negavam à mulher individualidade, autonomia e direitos políticos.

Dois principais argumentos são desenvolvidos ao longo do livro. Primeiro, a ação feminina se expressa paradoxalmente, conformada pelos discursos do individualismo universal que elege a "diferença sexual" como justificativa para a exclusão da mulher. Segundo, a história da militância feminista não é um conjunto fixo de comportamentos da mulher, mas uma conseqüência de ambigüidades e contradições dentro de epistemologias específicas. Através dos paradoxos historicamente específicos, Scott se propõe a (re)escrever a história do feminismo.

Em última instância, tratar a história do feminismo como paradoxo também contesta as histórias da democracia que atribuem à exclusão da mulher ao voto a falhas temporárias dos sistemas políticos em contínua expansão e que, na medida em que elas foram incluídas posteriormente, era um indicador de ausência de desigualdade social.

Sem entrar na análise da vida de cada uma das feministas que compõe o livro, pontuo suas investidas políticas na "perspectiva paradoxal" proposta por Scott.

A Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, escrita por Olympe de Gouges, em 1791, pode ser considerada a primeira manifestação feminista. Ao reivindicar que as mulheres fossem representadas como cidadãs, utilizando-se dos limites da pretensão universal da definição de indivíduo abstrato da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, Gouges expôs a primeira contradição da proposta revolucionária de igualdade, fraternidade e liberdade. A saída para os revolucionários de sua época foi a justificativa da "diferença sexual", que, por si só, explicaria a relação mulher/espaço privado e homem/espaço público. A idéia de uma mulher atuando na política provocou nos revolucionários da época uma imagem de ambigüidade, de androginia. Fora de seu domínio "natural", a mulher se torna um ser indefinido.

Olympe de Gouges rompeu com vários papéis atribuídos às mulheres: foi uma escritora que produziu intensamente, recusou o nome paterno e do marido, escreveu peças teatrais feministas e abolicionistas e, acusada de viver excessos da imaginação, foi condenada à morte pela guilhotina em 1793.

Jeane Deroin, militante socialista, se candidata ao parlamento com o intuito de desmascarar a lei, que excluía as mulheres de votar e serem votadas, ainda que sua existência fosse baseada na idéia de "igualdade" dos cidadãos. Assim como Gouges, recusou o sobrenome do marido. Sua luta pela inclusão política das mulheres foi marcada por idéias sobre a maternidade que, para ela, tratava-se de um trabalho social e não de um destino biológico, - a mãe é a idealização máxima da cidadania, pois os filhos são obra da mulher. Deroin foi presa em 1850 e, em 1851, partiu para o exílio na Inglaterra, onde permaneceu militando pelo feminismo e pelo socialismo até sua morte em 1894.

Hubertine Auclert atuou intensamente no debate político do final do século XIX, no qual o significado de cidadania estava definido em relação ao direito ao trabalho como condição ao direito à propriedade. Auclert insistia na necessidade das mulheres trabalharem e no reconhecimento do trabalho doméstico como "sagrado", já que seu valor econômico era essencial para a sociedade. Ela afirmava a existência de interesses particulares das mulheres, justificando seu ingresso no mundo da política. Para ela, interesses masculinos e femininos seriam opostos. Refletir sobre o significado da linguagem e a falta, na língua francesa, de nominações no feminino de determinadas profissões, questão extremamente atual, questionava como as mulheres poderiam exercê-las se elas sequer existiam nos dicionários.

Madeleine Pelletier, outra feminista analisada por Scott, foi atuante no início do século XX. Marcada pela descoberta do inconsciente, para ela, a identidade feminina era uma forma de opressão interiorizada. A diferença sexual seria um conjunto de fenômenos psicológicos, não físicos. Na tentativa de abolir qualquer diferenciação entre masculino e feminino, ela tentava desconstruir a idéia de diferença sexual e eliminar a subordinação imposta às mulheres se comportando de forma "masculinizada", por exemplo, vestir-se com trajes masculinos. Tal atitude, novamente, provocou no imaginário dos intelectuais da época a idéia de androginia, fato que agradava Pelletier por perceber que, de fato, desafiava as normas de exclusão.

A idéia de ambigüidade ou indefinição sexual acompanhou, em maior ou menor grau, as investidas de todas as feministas aqui tratadas. Num outro estudo sobre a natureza imaginária do gênero, a antropóloga Mariza Corrêa (2003) também discute a questão. Para ela,

a trajetória de algumas personagens femininas põe em xeque a suposta impermeabilidade das categorias masculino/feminina no sistema de classificações de gênero. Quando seres socialmente definidos como parte da cena privada são encontrados na cena pública, a ambigüidade de sua posição os coloca numa categoria anômala, como integrantes de uma espécie de "natureza imaginária.
A autora analisa o caso de mulheres que, ao ocuparem o espaço público, ou seja, fora do seu "espaço natural", têm seu estatuto definido de forma ambígua, não são nem homens, nem mulheres, mas andróginos. Separando-se sexo de gênero, fica claro que as definições de feminino e masculino são explicitadas em disputas pelo poder, pelo prestígio ou por privilégios.

Ao final, Scott retoma algumas questões, apresentadas no início da obra, sobre o feminismo contemporâneo, relacionando-o às questões políticas das militantes apresentadas ao longo dos três séculos. O debate atual na França em torno das lutas pela paridade na representação política das mulheres demonstra a contemporaneidade das feministas históricas.

Sua intenção em expor a disputa feminista em torno de posições de igualdade ou de diferença foi demonstrar um sintoma da dificuldade que a diferença sexual representa para se chegar a uma concepção de singularidade do indivíduo. O feminismo, construído numa relação paradoxal com esse conceito de indivíduo singular, reproduz, inevitavelmente, os termos contraditórios de sua própria construção. E é próprio da natureza do paradoxo ser insolúvel, portanto, as feministas não resolveram os paradoxos de suas épocas, como também não podem resolvêlos atualmente, nem mesmo torná-los mais fáceis de resolver.



Referências bibliográficas

CORRÊA, Mariza. Antropólogas e antropologias. Belo Horizonte, Editora da UFMG, 2003

SCOTT, Joan W. A cidadã paradoxal - as feministas francesas e os direitos do homem. Florianópolis, Ed. Mulheres, 2002 [Trad.: Élvio Antônio Funck]

______. Igualdade versus diferença: os usos da teoria pósestruturalista. Debate Feminista (Cidadania e Feminismo), nº especial, 2000, pp.207-218.

______. Experiência. In: SILVA, Alcione da. et alli. Falas de Gênero. Florianópolis, Ed Mulheres, 1999, pp.21-55.



* Resenha de SCOTT, Joan. A cidadã paradoxal: as feministas francesas e os direitos do homem. Florianópolis, Ed. Mulheres, 2002 [Trad.: Élvio Antônio Funck].
1 http://www.10feminista.org.br/pt-br/node/170
2 Scott utiliza o termo para se referir à forma, herdada das feministas do século XIX, como a história do feminismo é apresentada: "Elas [as feministas do séc. XIX] construíram uma história que não poderia ter se afastado das grandes metas de evolução do seu tempo; uma história teleológica, que progride cumulativamente em direção a um objetivo ainda não atingido; uma história na qual as mulheres, inevitavelmente, encontraram dentro de si próprias os meios para lutar contra sua exclusão das políticas democráticas; uma história na qual as feministas tranformaram, por força de sua imaginação, as ações caóticas e disparatadas das mulheres do passado em uma tradição organizada e contínua" (23).

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@s Outr@s Cariocas. Interpelações, Experiências e Identidades Homoeróticas no Rio de Janeiro


@s outr@s cariocas: homoerotismo, hegemonia e história*


Osmundo Pinho


Professor Adjunto do Centro de Artes, Humanidades e Letras Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, Campus de Cachoeira. osmundop@ig.com.br

Aceitar que as formas de opressão sexual, ou melhor, que os modos históricos de construção de sujeitos sexualizados, são modos concretos de exercício de poder e de construção de hegemonia, seria condição preliminar para compreender como o sexo e o desejo têm sido socialmente significados. As desigualdades de gênero, classe e raça, assim, eroticamente conectadas, ganham uma outra face, eventualmente negligenciada, que as faz adquirir densidade corporal e materialidade histórica. A injustiça erótica e a injustiça social partilham, nesse caso, o mesmo leito. E aqueles sujeitos "abjetos", codificados e circunscritos, estiveram, e ainda estão, sujeitos à violência, à exploração (inclusive sexual) e ao apagamento.

Ao realizar uma "genealogia crítica do homoerotismo" no Rio de Janeiro, Carlos Figari, nos convida a aprofundar essa compreensão, de como o desejo se conecta à ideologia e esta se consolida como formação hegemônica. Não que ele pressuponha um sujeito homossexual a-histórico e prévio à sua elaboração/sujeição pelo discurso médico e pelas forças patriarcais do estado moderno, mas, de modo inverso, justamente nos revela os campos de força discursivos e históricos, que circunscrevem, como "bordas", as possibilidades de significação para a prática homossexual. Aquilo que está indicado neste livro como um campo de "conformação" para a experiência vivida homossexual. Tal campo foi instituído, no Rio de Janeiro, assim como na América Latina, sob a forma de uma hegemonia colonial, caracterizada por estruturas sociais altamente hierarquizadas e violentas e, em termos discursivos, tenderia para a constituição de unidade ou fechamento, contra a existência hiper-proliferante das diversas e prometéicas formas do desejo.

A intenção manifesta da pesquisa1 foi produzir uma "fenomenologia" dos comportamentos homoeróticos no Rio de Janeiro no curso de quatro séculos. É bem evidente, então, que o problema histórico do anacronismo deveria ser criticamente considerado. E assim o foi, com originalidade e rigor pelo autor. Na medida em que é através da reconstrução discursiva de vozes apagadas, definidas como Outras por outros, que Figari pode desenhar sua cartografia histórico-fenomenológica. Ora, justamente porque esses sujeitos e suas práticas aparecem inscritos pela voz ideológica hegemônica, que os re-interpreta e, na verdade, os produz discursivamente, é que é possível interpelá-los2 em seu caráter de contra-ideológico.

A ideologia, que fixa o significante sobre o sexo como uma imposição discursiva, é instrumento e meio de uma hegemonia, que manifesta seu poder não exatamente sobre os corpos, mas propriamente os constituindo discursivamente. Ao garantir que o Outro da representação não seja capaz, não encontre meio, espaço ou linguagem para representar a si mesmo, essa mesma representação constitui uma impossibilidade lógica, histórica e política a um só tempo. Porque, diríamos, como, sob o peso do silenciamento e da irredutibilidade, as "vozes nativas" dos "tiviras", "cudinas", "quimbandas" e "jimbandas", sujeitos de uma sexualidade dissidente, poderiam ser ouvidas? Ainda assim, e com grande mérito, Carlos pode desencavar fissuras, "nodos de não-sutura", que permitem flagrar a existência contra-hegemônica e problemática desses corpos e desejos.

Remetendo-se aos primórdios da colonização, ele define, em primeiro lugar, o que chama de texto "nativo-brasileiro" e "nativo-africano", desentranhados dos registros históricos da alteridade, realizados pelos cronistas-escribas da época. De tal forma, somos surpreendidos pela aparição dessas figuras sedutoras e obscuras dos sodomitas "nativos", selvagens infensos a partição ocidental entre corpo e alma (Focault, 2004). Do interior das vozes autorizadas pela História, Carlos faz emergir, assim, o texto "colonial subalterno", como palimpsesto dessas vozes parcialmente assujeitadas. O fundamental parece ser, nesse caso, a visualização da economia política colonial, baseada no trabalho escravo e na sujeição dos corpos Outros, no ambiente da plantation e dos mercados transatlânticos. Ora, como coloca Young (2002), o comércio dos corpos (pré)racializados, e o comércio sexual entre os corpos, no ambiente da desigualdade radical, é o núcleo duro dessa economia política, que aparece sob a forma ideológica da miscigenação colonial:

É claro que as formas de troca sexual desenvolvidas pelo colonialismo eram elas próprias, tanto reflexo como conseqüências, dos modos econômicos de troca, constitutivos da base das relações coloniais.3
A alteridade radical entre, inicialmente, cristãos (europeus) e gentios (nativos), pode subsumir, dessa forma, a multidão de identidades pré-coloniais, com sua coorte de comportamentos e desejos "abjetos", diz o autor.

Nos demais capítulos de @s Outr@s Cariocas. Interpelações e Identidades Homoeróticas no Rio de Janeiro, Carlos Figari, aplica, com método e graça, esses pressupostos delineados nas páginas iniciais, aos subseqüentes períodos históricos, do século XVII ao XX, discutindo e revelando práticas, sujeitos e personagens tão diversos quanto o "fanchono" Luiz Delgado de Quintal e seu romance com jovem e "trigueiro" ator carioca Doroteu Antunes; bispos e prelados "somitigos" e suas libertinagens conventuais; mancebos travestidos e "ninfas andróginas"; e mesmo a "homoafeição" entre a Imperatriz Maria Leopoldina e Maria Graham.

Tal percurso, soberbamente povoado, permitiu ao autor explorar e pôr relevo em eixos fundamentais dessa genealogia do homoerotismo na maravilhosa Sodoma tropical. Notadamente, a predominância e gênese do padrão atividade/passividade, que Figari descreve como "uma formação discursiva hegemônica" que, após trinta anos da publicação de Da Hierarquia à Igualdade (Fry, 1982) e seus agudos insights, permanece poderosamente explicativo das dinâmicas sexuais de poder e de imposição de hierarquias. De tal forma que o padrão que liga "masculinidade/poder/atividade" revela sua verdadeira articulação como uma "qualidade política" de extrema persistência e extensão, posicionando, assim, a sexualidade como uma metáfora operativa do poder, que se serve, abusa e assujeita os corpos Outros, reduzidos à sua passividade. Como, aliás, Figari desenvolve na análise da obra de Gilberto Freyre, de quem me permito citar mais uma vez, um trecho muito conhecido: "Através da submissão do muleque, seu companheiro de brinquedos expressivamente chamado 'leva-pancadas', iniciou-se muitas vezes o menino branco no amor físico" (Freyre, 1995 [1933]:50).

O autor também pôde considerar a constituição de uma esfera púbica no Rio de Janeiro e sua imbricação com a experiência homoerótica, a circulação de mercadorias e ideais, o amor romântico e o individualismo, os salões de leitura e fortalecimento do Estado, constituindo a separação entre esfera pública e privada. Assim, a ilusão da liberdade e a primazia do "Eu" abriram um campo de disciplinamento para o Estado republicano. E aí entram a "filosofia burguesa" e as disciplinas médicas e da psicanálise no século XX, cuidando de medicalizar a dissidência sexual como uma forma de controle social. Produzindo um ambiente ao mesmo tempo, e paradoxalmente, claustrofóbico e obsessivo no que se refere à sexualidade, contradição representada brilhantemente, por exemplo, em Nelson Rodrigues: "Cada um de nós, individualmente, pode não ter o sexo na cabeça; mas o povo o tem. O pobre pra sobreviver precisa da pornografia" (Rodrigues, 1980:14).

Nas décadas finais do século passado, o autor retrata o momento, ainda recente e "quente", de reinvenções identitárias, que emergiu da decomposição do regime militar de 64, com seus impasses e linguagens políticas contestatórias. "Bichas" e trotkistas reúnem-se a feministas e negros, no bojo da reinvenção da política nos anos 70. Os impasses da instituição de uma identidade homossexual politizada são considerados, em torno da proposição contestada do "ser" homossexual. Sob o advento da AIDS, da consolidação da democracia, do neoliberalismo e da chamada "globalização", a proliferação de identidades homossexuais no alvorecer do século XXI é estarrecedora e desconcertante - as paradas do orgulho gay, o mercado GLS e suas "tribos", a crescente organização política em bases identitárias e a internet. Tudo isso talvez revele uma derivação rumo à "assimilação", encarnada na figura respeitável do "gay cidadão", não diferenciado dos heterossexuais, a não ser pelo desejo, que seria apenas um detalhe, um elemento a mais na bricolagem das identidades na modernidade tardia. É claro que permanece um ruído de dissidência, inconformismo e exclusão. Porque esse "gay cidadão", como o cidadão médio, é idealizado como branco, de classe média, "bem-sucedido", straight acting, cosmopolita e liberal.

E aqui, por fim, me permitiria um breve comentário sobre a consolidação de novas hegemonias e normatividades homossexuais, que parecem possíveis apenas porque fingem esquecer as historicidades que as constituíram. O papel da teoria social crítica deveria ser desconfiar desses ufanismos de ocasião, que parecem empolgar o dance floor e a Universidade. O "eterno presente" e o paroxismo dos individualismos não deveriam nos enganar, fazendo-nos tomar as identidades como meros equivalentes intercambiáveis, num jogo de aparências e sinais que se conectam como peças coloridas de um brinquedo de criança. Como se não houvesse determinações em última instância, estruturas sociais opressivas, a desigualdade e o racismo. A performação estilizada de identidades sexuais, iluminadas pela luz âmbar da "noite GLS", não esgota as interrogações sobre a experiência das sexualidades homoeróticas e nem sobre a opressão social que forma seu cenário diuturno.



Referências bibliográficas

ALTHUSSER, Louis. Aparelhos Ideológicos do Estado. Notas sobre Aparelhos Ideológicos de Estado. Rio de Janeiro, Graal, 1992.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. História da Violência nas Prisões. Petrópolis, Vozes, 2004.

FREYRE, Gilberto. Casa Grande & Senzala. Introdução à História da Sociedade Patriarcal no Brasil. 30ª edição. Rio de Janeiro, Editora Record, 1995 [1933]

FRY, Peter. Da Hierarquia à Igualdade: A Construção Histórica da Homossexualidade no Brasil. In: Pra Inglês Ver. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1982, pp.87-115.

RODRIGUES, Nelson. Asfalto Selvagem - I. Engraçadinha. Seus amores e seus pecados dos 12 aos 18 anos. São Paulo, Círculo do Livro S.A., 1980.

YOUNG, Robert J. C. Colonial Desire. Hibridity in Theory, Culture and Race. London/New York, Routledge, 2002.





* Resenha de FIGARI, Carlos. @s Outr@s Cariocas. Interpelações, Experiências e Identidades Homoeróticas no Rio de Janeiro. Século XVII ao XX. Belo Horizonte/Rio de Janeiro, Editora da UFMG/IUERJ, 2007.
1 Que deu origem a tese de doutorado defendida no IUPERJ em 2003, e que é a forma original deste livro.
2 A idéia de interpelação advém, obviamente, de Althusser, para quem ideologias só existem através de práticas, envolvidas na dinâmica concreta de relações sociais, só existindo e "funcionando" através dos sujeitos, constituindoos e interpelando-os individualmente, ou melhor, construindo-os através dessa interpelação (Althusser, 1992).
3 "It is clear that the forms of sexual exchange brought about by colonialism were themselves both mirrors and consequences of the modes of economic exchange constituted the basis of colonial relations" (Young, 2002:181).

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O negócio do michê: a prostituição viril em São Paulo


O negócio do desejo*


Júlio Assis Simões

Doutor em Ciências Sociais pela Unicamp, Professor do Departamento de Antropologia da USP e pesquisador-colaborador do Núcleo de Estudos de Gênero - Pagu/Unicamp. juliosimoes@uol.com.br

"Quando vou transar com um cliente" - diz um garoto de programa entrevistado por Nestor Perlongher em O negócio do michê - "eu não sou eu; eu sou a fantasia do cliente". O desejo fora da ordem se vê emaranhado, de saída, nas demandas da troca material e do imaginário que o provoca e regula. Práticas apaixonadamente transgressivas vêm de braço dado com os imperativos categóricos do comércio e da identidade. Arrebatamento e regra, acaso e cálculo, prazer e prescrição são reunidos de forma tensa e indissolúvel, não como pares de opostos bem comportados em suas casinhas, mas como vivências alternadas, simultâneas, embrulhadas umas nas outras. Na enunciação do rapaz se condensa o complexo de questões que a prostituição homossexual masculina abarca e projeta para além dela própria, e que formam a matéria desse notável trabalho, reeditado em boa hora. Trata-se de uma etnografia substancial e de um ensaio brilhante de interpretação teórica, que não apenas se destaca no importante acervo de estudos socioantropológicos de sexualidade feitos no Brasil, em sua época, como se mostra altamente proveitoso e relevante à luz dos debates atuais.

O negócio do michê é fruto de uma dissertação de mestrado em Antropologia Social defendida na Unicamp em 1986 e publicada pela primeira vez no ano seguinte. Considerando as condições e rotinas dos programas de pós-graduação hoje em dia, pode espantar que há pouco mais vinte anos fosse possível alguém desenvolver um trabalho de tal envergadura durante um mestrado. Eram outros tempos, sem dúvida, menos ansiosamente produtivistas do que os atuais, em que o mestrado era um momento privilegiado de formação. Mas é fato, também, que estamos diante de um talento excepcional. Perlongher já tinha uma carreira em construção na Argentina, como promissor poeta, além de pesquisador e ativista político, antes de migrar para o Brasil, na virada dos anos 1980, e se refugiar, como ele dizia, no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Unicamp. Com efeito, alguns dos insights teóricos que o autor desenvolveu na dissertação e no livro já tinham sido exercitados anteriormente em uns poucos artigos por ele publicados ainda em seu país natal.

De todo modo, o produto final tem muito a ver com as influências recebidas e reelaboradas no Brasil. Traz ele a marca da pesquisa etnográfica na Unicamp dessa época, atenta às interações e negociações de sentido que se processavam em campos delimitados e, ao mesmo tempo, aberta à transposição criativa das fronteiras disciplinares em favor da compreensão mais ampla das múltiplas dimensões envolvidas em temas particulares. Essa marca é ainda evidente na conexão crítica que o trabalho desenvolve em relação ao investimento nas temáticas de sexualidade e gênero, implantado na Unicamp por dois de seus decanos da área de Antropologia Social, Peter Fry e Verena Stolcke, e que continuava (e continua) a ser cultivado, entre outros, por Mariza Corrêa, a orientadora final da dissertação de Perlongher. É importante realçar também o cenário políticocultural da época, mais especificamente de 1982 a 1986, anos em que Perlongher realizou sua pesquisa e escreveu seu trabalho. Era o começo da transição democrática, quando os primeiros grupos políticos organizados em defesa da homossexualidade, criados no bojo da abertura política no final da década anterior, estavam às voltas com impasses e desafios postos pelo cenário paradoxal de retomada das liberdades políticas e agravamento da crise econômica. A expansão do espetáculo e do consumo voltado às homossexualidades deparava-se então com a terrível irrupção da pandemia da Aids, cuja magnitude trágica apenas se desenhava e da qual o próprio Perlongher veio a ser uma das vítimas.

Nesse quadro, a discussão em torno da homossexualidade masculina, tanto na academia como na política, problematizava a questão das emergentes políticas de identidade. Havia naquele momento uma grande inquietação quanto à possibilidade de essencialização (ou "reificação", para usar uma expressão mais comum à época) da oposição hetero/homossexualidade e da conseqüente instituição de novas formas de rotulação, estigmatização e marginalização. A base era a conhecida reflexão de Peter Fry acerca de dois modelos classificatórios da sexualidade masculina em disputa. De um lado, o modelo "hierárquico-popular", de profundas e persistentes raízes históricas e culturais, que distinguia "homens" e "bichas", respectivamente "ativos" e "passivos", segundo uma hierarquia de gênero articulada ao papel esperado no ato sexual. De outro, o modelo "igualitário-moderno", que distinguia "homossexuais" ("entendidos" ou "gays") e "heterossexuais" a partir de concepções de orientação do desejo sexual, cuja origem estaria nos discursos médicos e psicológicos do final do século XX, crescentemente adotado pelos movimentos em defesa dos direitos homossexuais e pelos setores mais intelectualizados das classes médias das grandes cidades. Uma preocupação central que decorria dessa reflexão era a relação vertical instaurada entre os próprios modelos, transformados em signos de distinção de classe. Tal "hierarquia" reforçava o estigma e a reprovação social de que já eram alvo os praticantes das "homossexualidades populares", bichas e travestis, marcando-os com a pecha do "atraso", da "falta de consciência", da "incorreção política", etc.

A reflexão de Fry mantinha-se no plano dos "modelos" - isto é, das idéias, valores, representações e de suas conexões lógicas, por meio das quais comportamentos e identidades ganhavam inteligibilidade social, demarcando as regras e suas contravenções. Ao se engajar nos termos desse debate, Perlongher recompôs a formação histórica das taxonomias operantes no seu contexto de pesquisa e transfigurou-as por meio do mergulho nas condutas e atribuições identitárias acionadas nas sociabilidades homoeróticas masculinas. Sua etnografia valeu-se de uma leitura de conceitos desenvolvidos por Gilles Deleuze e Felix Guattari (bem anterior ao atual frisson antropológico em torno desses autores, no qual, aliás, Perlongher costuma ser ignorado), articulando a "cartografia" dos territórios existenciais atravessados por "segmentaridades binárias", da "ordem do molar", que cindem os sujeitos segundo oposições de gênero, idade, classe e cor/raça, dentre outras, com o plano da "ação molecular", das experiências e trajetórias despertadas pelo agenciamento do desejo segundo as tensões instauradas pelas oposições acima referidas. Nesse movimento, efeitos transgressivos são capturados nos códigos de atribuição de categorias e valores operantes no mercado da paquera homossexual masculina e, mais especificamente, no próprio mercado da prostituição. O leitor é, assim, conduzido pela apresentação detalhada de territórios, classificações e corporalidades em direção às trajetórias de michês e clientes, aos meandros e possibilidades de relacionamento entre eles, numa demonstração da proposição de Deleuze e Guattari, com grande efeito e sólida base etnográfica, de que segmentaridades "molares" e "moleculares" são inseparáveis, coexistem, se atiçam e se excitam umas às outras, misturando prazeres e perigos, possibilitando controles e fugas.

O negócio do michê apresenta-se como um paradoxo: por um lado, põe em movimento uma fuga desejante que enlaça os corpos (uniões de órgãos, mais do que conjugalizações personalizadas). Por outro, uma diversidade de dispositivos se instaura para canalizar, veicular essa eclosão desejante, de modo a evitar, esmagar ou neutralizar os perigos de fuga. Perigos estes que podem aparecer sob diversas formas: perigo de morte ou violência corrido pelo cliente; perigo de paixão ou efeminamento vivido pelo prostituto (250).
Como alternativa ao foco nas identidades sociossexuais, Perlongher elaborou a idéia de "territorialidade", com a qual seria possível compreender as categorias de autodefinição sexual como "pontos" dentro de redes circulatórias, os quais estariam numa relação de contigüidade e mesmo de mistura. A territorialidade é assim pensada em termos de um "código-território", que atualiza uma lógica peculiar de distribuição de atribuições categoriais a corpos e desejos em movimento, estipulando a fixação a um gênero, uma postura, uma aparência, uma gestualidade, uma discursividade, uma corporalidade - tatuagens e outras marcas corporais, tipificação da indumentária, modelização de tiques, trejeitos e gestuais -, que operam como indícios de um desempenho sexual esperado ou proclamado segundo os critérios de seleção e valorização de parceiros do mercado homoerótico masculino. Na compreensão das trajetórias e transas entre michês e clientes, Perlongher recorreu ainda às noções deleuzeguattarianas de "desterritorialização" e "reterritorialização", as quais correspondem, respectivamente, a afastamentos em relação às sociabilidades respeitáveis, moralmente reconhecidas, e a aproximações aos códigos do "submundo"; no caso, da homossexualidade e da prostituição. Territorialidades envolvem, portanto, mais do que representações ou projetos: dizem respeito às mobilizações e deslocamentos espaciais e categoriais, bem como à materialidade de corpos e partes de corpos ressaltados e valorizados, incluindo os próprios lugares que esses corpos percorrem e dos quais auferem parte de sua legibilidade.

A profusão de classificações identitárias, que Perlongher encontra em operação nos circuitos de sociabilidade homossexual masculina e, particularmente, nos circuitos de trocas eróticas envolvendo michês, expressa o complexo sistema de atribuição de posições e valores no mercado homossexual. Haveria, de um lado, uma distribuição básica de territórios, que seriam atribuições sempre tentativas, designando mais arquétipos do que sujeitos reais, na medida em que estes oscilam de um ponto a outro e podem receber qualificações diferentes conforme o lugar em que se exibem. De outro, há atribuições que fazem referência, sobretudo, a quatro tipos de variantes ou séries - três explícitas: de gênero, idade, classe; e uma mais oculta, indireta ou subentendida, que é a de cor/raça. Perlongher chama essas variantes de "tensores libinais", marcadores que operariam tanto como veículos de atribuições classificatórias quanto como estimuladores de fugas desejantes.

Assim, a transação entre garotos de programa e clientes tende a conectar, de um lado, rapazes jovens, de desempenho de gênero masculino, "ativos", mais pobres e tendencialmente mais escuros; e, de outro, homens mais velhos, feminizáveis, "passivos", mais ricos e tendencialmente mais brancos. No entanto, as categorias de classificação que operam nessas transações, a partir de combinações e recombinações desses "tensores libidinais", são inúmeras e diversificadas. Perlongher observa que a profusão de categorias exprime, em parte, a fratura e a competição entre os modelos "hierárquico-popular" e "igualitário-moderno", apontadas por Fry. Acrescenta também que ela se constitui como um "fenômeno barroco" por excelência - isto é uma proliferação de significantes que visariam coordenar e orientar o "movimento pulsional" segundo uma multiplicidade de perspectivas, sofisticando as codificações e fazendo o próprio sistema parecer cada vez mais turvo, hermético, obsessivo. Ao mesmo tempo, essa proliferação e superposição de múltiplos significantes possibilitariam a emergência de múltiplos pontos de fuga libidinal. Ainda assim, conforme o autor, trata-se de um "multiformismo de condutas e representações", e não da construção de identidade de uma minoria desviante.

No território da perversão, os movimentos de desterritorialização e reterritorialização são relativos. Há, permanentemente, mobilizações nos dois sentidos. Assim, desterritorialização a respeito da ordem familiar e do bairro, mas reterritorialização no circuito do mercado sexual; desterritorialização na abertura do corpo à perversão, mas reterritorialização na interdição do ânus e da boca, etc. A partir desta fluidez de base, o sistema é altamente instável. De alguma maneira, a proliferação e complexificação, especialização e "localismo" das nomenclaturas classificatórias, podem estar dando conta dessa dificuldade de "organizar a desordem" ou "sistematizar o acaso" (250).
Vale notar que a operacionalização etnográfica, por Perlongher, dos conceitos de Deleuze e Guattari, passava pela incorporação germinativa de uma insuspeitada ligação entre essas preocupações teóricas e certos pontos de vista da célebre "Escola de Chicago", sobretudo no que diz respeito ao esforço de jogar luz sobre a fragmentação ou segmentaridade do sujeito urbano que, como ressalta Perlongher, teria sido assinalada pioneiramente pelos clássicos dessa tradição. Recordar essas releituras parece importante também para fazer pender a balança avaliativa das pesquisas inspiradas pelos desdobramentos da Escola de Chicago em favor do ponto de vista que as considera precursoras importantes (e injustamente desvalorizadas) de muitas das questões centrais dos atuais estudos sobre sexualidade - como a que se refere, por exemplo, aos modos contextualizados de operação das convenções associadas a práticas, papéis e identidades sexuais.

Perlongher procedeu a uma particular apropriação do conceito de "região moral", que, na acepção de Robert Park, designava um território residual para o qual convergiam interesses, gostos e temperamentos ligados à boêmia, ao desejo nãoconvencional, o lugar onde as paixões indisciplinadas, reprimidas, sublimadas encontrariam vazão. Perlongher valeu-se também da noção de "gueto", como área de convergência e circulação, mais do que de fixação residencial. Desse modo, também procedeu à crítica à transposição mecânica da noção de "gueto gay" - com seu compromisso de uma pretensa "universalização" da política de identidade gay - para a caracterização socioantropológica das territorialidades homossexuais nas cidades brasileiras.

Outra releitura rentável feita por Perlongher foi sobre a noção de "zona de deriva", retirada da crítica de David Matza, de dentro do campo estudos do "desvio", aos problemas envolvidos na noção de "carreira desviante" elaborada por Becker e Goffman, entre outros, também como desdobramentos do esquema analítico proveniente da Escola de Chicago. Da crítica de Matza, Perlongher acolheu os argumentos sobre a imprevisibilidade dos mecanismos que levavam sujeitos a ingressar em sociabilidades desviantes, e também o questionamento à suposição de que as sociabilidades desviantes desenvolvam por si algum sentido de "contracultura". Zonas de deriva, na visão de Matza, seriam espaços de controle social afrouxado, que permitem a adesão temporária a normas, valores e condutas associados que caracterizariam as "subculturas de delinqüência" presentes de forma subterrânea na própria sociabilidade chamada de "normal". Nas zonas de deriva os sujeitos responderiam alternadamente às demandas da "norma" e do "desvio", adiando compromissos e evitando decisões definitivas em relação a uma ou a outra. O próprio ingresso nas zonas de deriva dificilmente poderia ser caracterizado como uma decisão consciente: seria, antes, acidental, imprevisível e até mesmo não percebido, assim como seriam imprecisas e borradiças as próprias fronteiras entre norma e desvio. Perlongher aproximou esse movimento em zonas de deriva ao conceito de "devir", termo pelo qual Deleuze e Guattari designariam formas de deslocamento de identidades sociais "majoritárias" mediante o ingresso em linhas de fuga "minoritárias".

As noções de deriva e devir, articuladas ao jogo persistente de fuga e captura, "nomadismo" e "sedentarização" orientam a leitura que Perlongher faz das trajetórias de vida e das categorizações dos garotos de programa e dos clientes em sua pesquisa. A própria paquera homossexual masculina é apresentada como uma prática de deriva, à maneira do trottoir da prostituição feminina. As interações entre michês e seus clientes com vistas à procura e escolha de parceiros sexuais não faria mais do que refinar a combinação de acaso e cálculo, desejo e interesse, como aspectos constitutivos e indiscerníveis da deriva da paquera. Trata-se da disponibilidade para encontros mais ou menos fortuitos, que acendem desejos, os quais são submetidos às regras de cálculo do próprio campo. A sexualização do ato aparentemente casual de deslizar por entre a multidão põe em movimento um complexo sistema de cálculo de valores atribuídos ao que é capturado pelo olhar desejante. Assim, mais uma vez, desejo e interesse, "coordenadas libidinais e coordenadas socioeconômicas" aparecem inextricavelmente ligados no "agenciamento coletivo" que atualiza o negócio da prostituição masculina.

A fluidez de base orienta-se e atualiza-se pela força dos tensores libidinais na conformação de determinados padrões de transação. Do ponto de vista dos michês, a exploração do cliente mais velho aparece como uma espécie de demanda do mercado e como uma forma de tirar vantagem da dificuldade desses clientes de conseguir parceiros não-remunerados que reúnam as condições eróticas dos prostitutos (juventude, masculinidade), assim como de aproveitar a carência sexual dos mais idosos em geral. Da parte dos clientes, há o recurso do exercer algum controle do jovem por meio do poder de distribuição do dinheiro e de outras recompensas materiais e simbólicas. Em contrapartida, essas dimensões de cálculo e interesse vêm necessariamente articuladas às dimensões de desejo e fascínio. Do lado dos clientes, desejo e fascínio por parceiros de classe baixa, jovens e rudes, que representariam a masculinidade inculta e autêntica, "homens de verdade". Do lado dos michês, desejo e fascínio pelo desfrute de uma série de objetos materiais, assim como das possibilidades de aquisição de novos círculos de relacionamentos e do acesso a informações e "cultura".

A tradução das tensões de distribuição desejante em termos monetários é a operação central da prostituição. A equação entre desejo e dinheiro completa o trabalho de reterritorialização categorial que anula as diferenças, impondo a identidade do equivalente geral. O outro lado da moeda, no caso da prostituição viril, é que o dinheiro fetichiza e preserva a masculinidade diante das ameaças da perversão. Apegar-se à aventura circunstancial, à paga, ao "elogio do nomadismo", torna-se também uma forma extrema e, de novo, paradoxal, de resistir ao primado da identidade e da generalidade, repondo a diferença. Daí o horror expressado pelos garotos de programa às possíveis formas de conjugalidade: "Michê que gosta é bicha, michê não pode gostar". Por caminhos inesperados, vemos o raciocínio analítico de Perlongher aproximar-se de uma teoria crítica da ideologia, quase à moda de um marxismo reelaborado.

De outra parte, os michês pesquisados por Perlongher mostravam tolerância para com relações afetivas e sexuais prolongadas onde as diferenças de idade, de classe, de gênero, continuavam vigentes e reguladas pela retribuição, especialmente as que lhes possibilitavam adquirir certo "verniz cultural". São os casos em que o cliente se converte numa espécie de "tio", que pode até virar o melhor amigo e conselheiro da eventual mulher de seu parceiro, ajudar seus familiares, etc. São essas relações, aliás, que podem "dar certo" por assim dizer:

aquelas em que as condições de troca, que configuram uma imisção inextricável de amor e comércio, desejo e dinheiro, são mantidas e viabilizadas frouxamente, afetuosamente, sob a forma de uma dação pederástica (241).
Perlongher provocativamente sugere que certas transações entre michês e clientes poderiam iluminar uma espécie de relação fundante da sexualidade ocidental - a conexão pederástica/pedagógica - e suas possibilidades de realização nas condições peculiares da troca capitalista.

As preocupações de Perlongher podem ser assimiladas ao que talvez se chamasse, hoje, de "virada pós-estruturalista" nos estudos de gênero e sexualidade, em que modelos classificatórios passam a ser pensados como formas instáveis de categorias flutuantes, que circulam por diferentes relações. Uma preocupação correlata de Perlongher, que o faz também aproximar desses debates contemporâneos, é pensar os sujeitos fragmentados em diversas segmentaridades, como "divíduos", em lugar de vê-los como unidades totais não-ambíguas, e assim reagir ao imperialismo conceitual e existencial da identidade. Outra conceituação inspiradora é a dos "tensores libidinais", como marcadores de diferença que operam em articulação tanto para desencadear as fugas desejantes como para recapturá-las nos códigos, prescrições e dispositivos de controle operantes no mercado do sexo. Também é instigante a sugestão sobre os sentidos das relações que as pesquisas atuais no âmbito do mercado do sexo denominariam de "transacionais".

Mais do que estas e várias outras ressonâncias no debate contemporâneo, porém, fica a referência de um trabalho de pesquisa sólido, de escrita eloqüente, que enfrentou questões de agência, perigo, dissenso e desigualdade, de uma perspectiva antropológica revigorada, ousada e criativa, numa temática ainda não plenamente legitimada nas nossas ciências sociais. Longe de um retrato aventuroso e exotizante, orientado por algum fascínio ingênuo pela marginalidade, o "negócio do michê" é mostrado como agenciamento complexo

de fluxos de dinheiro e desejo, de paixão e de morte, de corpos clientes (homossexuais marginalizados pela idade e pelo estigma), de corpos prostituídos (adolescentes minoritarizados pela juventude e pela miséria) (254).
A estrutura virada ao avesso expõe sem escamoteações estéticas sua molecularidade dura de afetos, carências, violências e desigualdades, de carne, sangue e demais fluidos.

A reedição ora lançada acrescenta um novo e alentado prefácio, escrito por Richard Miskolci e Larissa Pelúcio, e corrige vários pequenos equívocos no texto original, inclusive atualizando o mapa do "gueto gay paulistano". Trata-se de um trabalho editorial bastante elogiável e competente, ao qual, porém, caberiam duas ressalvas: a ausência de créditos aos dois prefaciadores, que se envolveram diretamente com o trabalho de preparação dos originais para publicação; e a escolha (a meu ver equivocada) de um não-lugar urbano como imagem de capa, substituto inexpressivo da vigorosa imagem da edição original, dos dois rapazes recostados num poste, na noite de uma rua reconhecivelmente paulistana.

* Resenha de PERLONGHER, Nestor. O negócio do michê: a prostituição viril em São Paulo. 2ª ed. São Paulo, Fundação Perseu Abramo, 2008.

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As mulheres ou os silêncios da história


A discreta e sedutora "História das mulheres"*


Diogo da Silva Roiz

Mestre em História pela UNESP, Campus de Franca. Coordenador do curso de História da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), Campus de Amambai. diogosr@yahoo.com.br

As mulheres conquistaram o direito de terem a sua história também escrita no século XX. A "história das mulheres" é hoje um campo de pesquisa consolidado em universidades do mundo todo (ainda que em cada país ocorram níveis diferenciados de desenvolvimento e aceitação do campo). Percebe-se, cada vez mais, que a mulher não apenas tem história, mas também fez e faz (a sua) história. De um lado, a conquista do direito ao voto, ao trabalho (e a uma carreira profissional), a uma igualdade de direitos entre os sexos, portanto, buscados com afinco pelos movimentos feministas, a partir do início do século XX, deram margem aos estudos produzidos (em maior escala) – a partir dos anos de 1960. De outro, com os movimentos de massa daquela década, que repercutiram em todo o mundo, ganhando ainda maior repercussão com os movimentos estudantis de "Maio de 1968", vieram também a justificar ainda mais os estudos sobre a mulher, principalmente, com a abertura dos campos de pesquisa produzidos nos anos de 1970.

Mas nem sempre foi assim. Pelo contrário, durante muito tempo as mulheres, e a escrita de sua história, foi um tema opaco e sem sentido, particularmente para pesquisadores do sexo masculino. Tanto nas fontes, quanto nas pesquisas, o que se via era o silêncio, delas e sobre elas, que se prolongava ainda mais com a escassez de documentos, os quais, quase sempre, não demonstravam a sua presença. O que torna imprescindíveis os seguintes questionamentos: Como a mulher começou a aparecer nos estudos históricos como tema de pesquisa? O que é a "história das mulheres"? Quais os procedimentos e documentos mais adequados para perceber sua presença na história? Porque é importante escrever a "história das mulheres"?

Por mais de três décadas, a historiadora Michelle Perrot, uma das maiores estudiosas desse tema na França (e reconhecida no mundo todo), sentiu-se incomodada (e inspirada) por esses questionamentos, geralmente efetuados por colegas do sexo masculino, que a levaram a se engajar política e intelectualmente nesse projeto de escrita de uma "nova" história, onde as mulheres fossem incluídas (por direito e por importância) e não ficassem mais em silêncio.

Fruto direto dessas pesquisas, As mulheres ou os silêncios da História reúne parcela significativa de sua contribuição sobre o tema. Ao longo de seus 23 capítulos1 publicados entre 1974 e 1998 em revistas especializadas e em livros, a autora passa em revista as principais pesquisas, abordagens e documentos (pesquisados) sobre a "história das mulheres". Aí incluindo sua trajetória no interior desses debates (em que esteve desde o final da década de 1960) e sua contribuição para o tema, em que ainda se destaca a obra A história das mulheres no Ocidente (publicada originalmente entre 1990 e 1992), organizada em cinco volumes com Georges Duby (e a contribuição de outros pesquisadores e pesquisadoras) entre o final dos anos de 1980 e início dos anos de 1990.

De forma didática, a autora dividiu a obra em cinco partes: a) na primeira, Traços, em que aparece a discussão de diários e correspondências do século XIX (por ela pesquisados), em quatro capítulos (29-146), nos quais, segundo ela, a "dificuldade da história das mulheres deve-se inicialmente ao apagamento de seus traços, tanto públicos quanto privados"; b) na segunda, Mulheres no trabalho, principalmente o do lar e o das fábricas, com seis capítulos (149-258), em que, segundo ela, a "questão do trabalho constituiu um front pioneiro da pesquisa sobre as mulheres"; c) na terceira, Mulheres na cidade, apresenta-se sua ação na política e nos debates sobre gênero, cidadania e direitos, em cinco capítulos (261-360), que segundo a autora,

a história das mulheres interessou-se inicialmente por seus papéis privados, observando-os, de certa forma, lá onde elas estavam, em seus corpos, sua casa, seus gestos cotidianos, correndo o risco de fechá-los em uma repetição (...) [mas] a questão do poder colocou-se rapidamente, pois ela funda a relação entre os sexos (261);

d) na quarta, Figuras, Perrot estuda o perfil de Flora Tristan e George Sand, em dois capítulos (363-424), tendo em vista que:

Flora Tristan e George Sand não gostavam muito uma da outra. Elas se impacientavam com seus respectivos comportamentos. Flora invejava George, que já era célebre, enquanto ela penava para poder publicar. George se irritava com as recriminações de Flora. Na verdade, estas contemporâneas mal se cruzavam. Flora morreu em 1844 e George, trinta e dois anos mais tarde (1876). No entanto, diversos traços as aproximam, a ponto que se pôde falar de 'vidas no espelho': sua revolta contra a condição das mulheres, que ambas experimentaram na carne; sua vontade de justiça social (...) sua idêntica preocupação com a moral em política (363);

e) finalmente, na quinta parte, Debates, ela apresenta alguns dos principais debates e abordagens sobre o tema, ao longo de seis capítulos (427-503), que avaliam, principalmente, as obras de Georges Duby, Mona Ozouf e Michel Foucault, pois, como diz a "história 'das mulheres' coloca numerosas questões, a começar por seu título, constituindo as mulheres em objeto (...) [que] é também um tanto fragmentado" (427-8).

O livro é, portanto, uma exposição amadurecida e articulada, por mais de trinta anos, sobre o que é, e como deve e pode ser feita, a "história das mulheres". Mas para poder atingir todos os objetivos almejados na obra, a autora diz que, antes, foi necessário definir por que houve tamanho silêncio sobre a questão, e como o tema passou a ser de interesse de pesquisadoras no mundo todo. Para ela,

a irrupção de uma presença e de uma fala feminina em locais que lhes eram até então proibidos, ou pouco familiares, é uma inovação do século 19 que muda o horizonte sonoro. Subsistem, no entanto, muitas zonas mudas e, no que se refere ao passado, um oceano de silêncio, ligado à partilha desigual dos traços, da memória e, ainda mais, da História, este relato que, por muito tempo, 'esqueceu' as mulheres, como se, por serem destinadas à obscuridade da reprodução, inenarrável, elas tivessem fora do tempo, ou ao menos fora do acontecimento (9).

Isso quer dizer que durante muito tempo

as mulheres [foram] mais imaginadas do que descritas ou contadas, e fazer a sua história é, antes de tudo, inevitavelmente, chocar-se contra este bloco de representações que as cobre e que é preciso necessariamente analisar, sem saber como elas mesmas as viam e as viviam (11).

De acordo com ela, esse

...defeito de registro primário é agravado por um déficit de conservação dos traços. Pouca coisa nos arquivos públicos, destinados aos atos da administração e do poder, onde as mulheres aparecem apenas quando perturbam a ordem, o que justamente elas fazem menos do que os homens, não em virtude de uma natureza rara, mas devido à sua fraca presença, à sua hesitação também em dar queixa quando elas são as vítimas. Conseqüentemente, os arquivos de polícia e de justiça, infinitamente preciosos para o conhecimento do povo, homens e mulheres, devem ser analisados até na forma sexuada de seu abastecimento" (12).

Por outro lado, diz a autora, "a consideração crescente da vida privada, familiar ou pessoal, modificou o olhar negligente que se tinha sobre as correspondências ou os diários íntimos" nos estudos históricos. No entanto, o

volume e a natureza das fontes das mulheres e sobre as mulheres variam conseqüentemente ao longo do tempo. [Por isso] longe de ser fruto do acaso, a constituição do Arquivo, da mesma forma que a constituição ainda mais sutil da memória, é o resultado de uma sedimentação seletiva produzida pelas relações de força e pelos sistemas de valor [e o] mesmo ocorre no que concerne à narrativa histórica, outro nível destes silêncios encaixados uns nos outros (14).

Não era por acaso que a autora se questionasse como esse silêncio foi rompido e, em seguida, se debruçasse em como as coisas aconteceram na França, lugar onde ela atua como pesquisadora do tema desde a década de 1960. Como esclarece, em cada país houve especificidades quanto ao desenvolvimento e a valorização dos estudos sobre a mulher. No caso da França, foi fundamental a contribuição da obra pioneira de Georges Duby, a partir dos anos de 1970. No campo das Ciências Humanas, os estudos sobre o sexo e a sexualidade humana também foram centrais para o desenvolvimento deste campo de pesquisa. De acordo com ela, três fatores foram fundamentais: a) os científicos "ligados à crise dos grandes paradigmas explicativos e à renovação dos contatos disciplinares nas décadas de 1960-70"; b) os sociológicos, em função da

feminização da universidade, inicialmente no nível do público, e depois, mais tardiamente, dos professores, favoreceu o nascimento de novas expectativas, de questionamentos diferentes, e conseqüentemente o desenvolvimento de cursos e pesquisas sobre as mulheres. As paixões e os interesses se conjugam, de maneira mais clássica, na constituição de um novo "campo" (17);

c) e os políticos, pois, "o movimento de liberação das mulheres – o MLF – surgido nos anos 70 dos silêncios (mais um deles) de Maio de 1968 sobre as mulheres". Nesse sentido, Perrot indica sua própria trajetória e como percorreu esses caminhos na França, no decorrer de suas pesquisas. Em suas palavras:

Experiência insubstituível para aquelas e aqueles que a fizeram, a história das mulheres (...) [no entanto] não mudou nem a atitude histórica, ainda reservada, nem as instituições universitárias, que se opõem a lhe dar um lugar, ainda que modesto. Os inevitáveis conflitos de território conduzem às vezes a tensões, internas e externas aumentadas, e cuja conta pode vir a ser paga pelas pesquisadoras mais jovens. E a França, sob este ângulo, parece mais arcaica do que a maioria de seus vizinhos. A história das mulheres também não mudou muito o lugar ou a "condição" destas mulheres. No entanto, permite compreendê-los melhor. Ela contribui para sua consciência de si mesmas, da qual é certamente ainda um sinal (26).

Assim, compreender, os percalços que ainda subsistem na pesquisa que empreende a escrita da história das mulheres não é uma tarefa nada fácil. Ao percorrer, no século XIX, as razões que levaram aos silêncios sobre as mulheres e, parcialmente, inviabilizaram a escrita de sua história, indica que:

Da História, a mulher é diversas vezes excluída. Ela o é, inicialmente, na narrativa, que, passadas às efusões românticas, constitui-se como encenação dos acontecimentos políticos. O positivismo opera um verdadeiro refluxo no tema feminino e, mais amplamente, no cotidiano. O austero Seignobos, grande mestre dos estudos históricos na Universidade, expulsa Eva, ao passo que as paredes da Sorbonne cobrem-se de afrescos em que flutuam diáfanas alegorias femininas (...). A "profissão de historiador" é um trabalho de homens que escrevem a história no masculino. Os campos que eles abordam são os da ação e do poder masculino, até mesmo quando eles se aventuram por novos territórios (...). Também – e esta é a segunda volta da chave – os materiais utilizados pelos historiadores (arquivos diplomáticos, ou administrativos, documentos parlamentares, biografias ou publicações periódicas...) são o produto de homens que têm o monopólio da escrita tanto quanto da coisa pública (...). Essa exclusão é, aliás, apenas a tradução, redobrada, de uma outra exclusão: a das mulheres da vida e do espaço público na Europa Ocidental no século XIX (197-8).

Para ela, uma exceção no século XIX sobre essa questão foi Jules Michelet, que empreendeu uma exaustiva pesquisa sobre a feitiçaria. Ressalta que as raras exceções de pesquisa e trabalhos sobre a mulher no período se devem ao próprio tipo de temas e abordagens então praticados nos estudos históricos que inviabilizavam a presença feminina no processo histórico e a percepção de sua existência.

Por outro lado, Perrot observa como a sociedade (entendida aqui no masculino) se preocupava em pensar o que era o "trabalho de mulher":

Os homens do século 19 europeu tentaram, de fato, isolar a força crescente das mulheres, tão fortemente sentida na era das Luzes e nas Revoluções, cujas infelicidades lhes seriam muitas vezes atribuídas, não somente enclausurando-as em casa, e excluindo-as de certos domínios de atividade – a criação literária e artística, a produção industrial e as trocas, a política e a história – mas também, e ainda mais, canalizando sua energia para o doméstico revalorizado, e até mesmo para o social domesticado (279).

Para ela, a "história das mulheres escreve[u]-se inicialmente sobre o modo da exceção: exceção das pioneiras que quebram o silêncio". Por isso, é possível entender porque ao longo de muitos destes ensaios, a autora volta a ressaltar incansavelmente os tipos de silêncio impostos às mulheres do passado – e a escrita de uma história das mulheres no século XX – enfatizando os detalhes, como os olhares sobre o corpo feminino, os espaços de fala e debates femininos, e a função da política, da cidadania e das guerras sobre a ação feminina. Por isso também, se preocupa tanto em equacionar os debates sobre a "história das mulheres" e os avanços alcançados pelas pesquisas ao longo do tempo. Em função de todas essas qualidades, este livro é uma bela contribuição para o tema, tema este que está em permanente processo de construção.


* Resenha do livro de Michelle Perrot, As mulheres ou os silêncios da história, 2005. 1 A edição francesa conta com 25, mas a tradução brasileira da obra não conseguiu a concessão de direitos para a publicação de dois ensaios.

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Les hommes aussi changent... - Das transformações da dominação masculina


Das transformações da dominação masculina*


Danilo Climaco

Mestrando no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina. daniloclimaco@yahoo.com.br

Hoje é amplamente aceito pelos estudos feministas o fato de os homens mudarem – da mesma maneira que o fazem as mulheres. No entanto, como bem mostrará Welzer-Lang na primeira parte de Les hommes aussi changent..., isto não foi sempre uma evidência, mas sim o resultado de décadas de discussões. Agora bem, toda classe de mudança digna de seu nome deve ser, em si, imprevisível. As reticências que fecham o título do livro apontam que as mudanças dos homens não são mais do que pontos de partida, cabendo às/aos cientistas sociais compreendê-las. No entanto, dado o vazio de pesquisas neste sentido, o livro toma como seu objetivo "repassar a dominação masculina" e "oferecer ferramentas teóricas para pensar a questão do homem e do masculino dentro da perspectiva das relações sociais de sexo" (13).

Ao redor deste objetivo, o livro desenvolve-se em quatro partes. A primeira é consagrada à criação do campo de estudos das relações sociais de sexo na França; a segunda à estruturação dos estudos sobre masculinidades; e as terceira e quarta compõem-se de resenhas sobre algumas das pesquisas mais relevantes do próprio Welzer-Lang.

O fato de a primeira parte referir-se à constituição do campo das relações sociais de sexo deve-se à necessidade, expressa por Welzer-Lang de deixar claro a dívida dos estudos das masculinidades para com o feminismo. Assim, após mencionar brevemente a importância de Simone de Beauvoir haver mostrado a impossibilidade de se definir o ser mulher e os trabalhos franceses influenciados pela teoria parsonniana, Welzer-Lang detém-se sobre as cientistas sociais francesas da década de 1970, especialmente Nicole-Claude Mathieu, Christine Delphy e Colette Guillaumin. Naquela década teria ocorrido uma série de mudanças nos estudos feministas: a ênfase parsonniana nas relações familiares é desmantelada e o sistema de relações sociais de sexo passa a ser compreendido como algo disseminado socialmente, que se mantém através de uma lógica de dominação que extrapola o familiar. No mesmo período, enfatiza-se a dinamicidade histórica e social das relações sociais de sexo e é neste contexto que, contra toda uma série de pesquisas que enfatizava a multiplicidade de resistências das mulheres contra uma opressão homogênea por parte dos homens, Mathieu expõe, em um artigo fundamental para os estudos das masculinidades, a necessidade de se compreender teoricamente a variabilidade própria também aos homens.

A década de oitenta solidificará essas tendências, refinando teorias e conceitos e ampliando progressivamente os âmbitos do social passíveis de serem compreendidos a partir da perspectiva das relações sociais de sexo. No entanto, os caminhos abertos por Mathieu para se estudar as masculinidades não foram trilhados dentro dos estudos acadêmicos feministas, ainda que sim por alguns daqueles que, não sem humor, Welzer-Lang denomina como "grands sociologues" franceses e, de forma não estritamente acadêmica, por homens pró-feministas. Damos entrada à segunda parte do livro.

Entre as décadas de 1970 e 1980, expõe Welzer-Lang, os homens pró-feministas franceses publicaram reflexões de caráter pessoal que abarcavam temas relacionados à identidade masculina, à sexualidade ou à paternidade. Apenas nos anos noventa haverá algumas poucas publicações científicas – nos círculos universitários feministas – que abarquem o dinamismo do masculino, "abrindo pistas para completar as análises em termos de relações sociais de sexo" (83).

Fora do círculo feminista, no entanto, três cientistas sociais renomados desenvolvem trabalhos contendo reflexões importantes para os estudos sobre as masculinidades: Maurice Godelier, Pierre Bourdieu e François de Singly. Eles não apenas contribuíram teoricamente ao campo de estudos aberto pelo feminismo, mas também institucionalmente: as relações sociais de sexo transcendem as fronteiras feministas, transformando-se em tema de relevância paras as ciências sociais.

O primeiro autor, Godelier, maior nome da antropologia econômica francesa, realizou ao longo de mais de uma década trabalhos de campo entre os Baruya de Nova Guiné e, em 1982, lança La production des grands hommes, livro que coloca como principal contradição social Baruya a dominação masculina e que descreve o processo de produção dos homens dessa sociedade. Este ocorre na "casa dos homens" que, vedada às mulheres, transforma-se em um espaço violentíssimo onde os mais jovens e fracos são associados ao feminino e, por isso, violentados de múltiplas maneiras pelos mais fortes. Os homens e o masculino constroem a si mesmos e constroem também as mulheres e o feminino, em um espaço mono-sexual, onde o feminino, encarnado nos mais jovens, submete-se ao masculino por meio da violência. Posteriormente, essa concepção é passada tal qual às relações entre homens e mulheres, sem que estas tenham conhecimento de determinados pactos realizados pelos homens. O que torna fundamental esta obra para Welzer-Lang é a possibilidade aberta pelo próprio Godelier de transpor a "casa dos homens" para espaços mono-sexuais de homens franceses, tais como bares ou clubes esportivos. Também na França, o masculino e os homens e o feminino e as mulheres aparecem como construídos por relações de violência entre homens.

A dominação masculina, de Bourdieu, para Welzer-Lang, supõe dois acontecimentos políticos de importância. O primeiro, a ausência de referência a grandes teóricas feministas que haviam configurado o campo que permitiu Bourdieu escrever seu livro. Ao distanciar-se das referências feministas, Bourdieu adota um tom professoral, ditando os caminhos a serem percorridos pelo feminismo e pela sociedade como um todo para que se alcance o fim da dominação masculina, e o faz sem demonstrar nenhuma consciência da contradição entre seu discurso e seu posicionamento como autor. O segundo acontecimento liga-se à força do nome próprio Bourdieu no meio acadêmico francês, o que permitiu uma visibilidade das relações sociais de sexo até então inaudita.

Teoricamente, no entanto, A dominação masculina evoca controvérsias. Em uma crítica que lembra aquela de feministas como Judith Butler à obra de Jacques Lacan, Welzer-Lang expõe como Bourdieu fica preso a uma "fixidez" simbólica e psicologizante, onde o feminino e o masculino são categorias dadas antes de qualquer interação social, o que impede uma compreensão da dominação masculina como fruto de práticas sociais (violentas) concretas e cotidianas e que as mudanças nestas práticas implicam mudanças no âmbito simbólico.

O último autor, Singly, principal nome da sociologia da família francesa, foi um dos poucos a se debruçar sistematicamente sobre situações concretas das relações entre homens e mulheres e suas transformações. Em sua vasta obra se encontram temas tão diversos como o individualismo, o amor e a memória conjugal. Sua contribuição mais destacada seria a interpretação das mudanças masculinas a partir da concepção de Simmel sobre a assimilação do neutro pelo masculino. Desse ponto de vista, a perda de valor em âmbitos estritamente masculinos, como o da força física, não teria provocado uma perda de intensidade na dominação masculina, mas um deslocamento para outros domínios de competições entre homens, os quais, em princípio neutros, tornam-se locais de resistência da masculinidade, tal como pode ser o mercado de trabalho.

Em termos gerais, Welzer-Lang acredita que os grands sociologues foram interpelados pelas teóricas feministas, mas diferentemente delas, não tiveram que construir uma área de estudos e não puderam sequer perceber o quanto teoricamente seus trabalhos devem ao feminismo. Haveria aqui um importante fator geracional. Ao contrário dos homens pró-feministas, que se encontraram nos anos setenta com o feminismo no plano pessoal e político, antes de eventualmente se formarem cientistas, os grands sociologues apenas se depararam com o feminismo no campo teórico, e isso os levou a preservar um traço androcêntrico fundamental – a assimilação do humano ao masculino e a conseqüente obliteração do feminino. Segundo Welzer-Lang, a conseqüência simples disso é a dificuldade dos homens compreenderem as mulheres e as situações sociais das quais elas participam. Assim, ele promulga uma ruptura epistemológica com o androcentrismo, que deve ocorrer no plano pessoal e científico e implica uma maior compreensão das mulheres, assim como uma explicitação dos segredos da "casa dos homens", fundamentais para a manutenção da dominação.

Um pequeno parêntese se impõe agora. Há um capítulo desta segunda parte dedicado aos homens pró-feministas e ao queer. O que chama a atenção é o fato de Welzer-Lang se aproximar do queer como se fosse um objeto de estudos e não uma área de interlocução possível. O que se evidencia aqui é o cerco disciplinar que Welzer-Lang articula em torno de seu próprio trabalho e que já deveria ter chamado a atenção do leitor quando, ao tematizar a história da formação dos estudos das relações sociais de sexo, não menciona autoras francesas feministas de maior repercussão: Luce Irigaray, Julie Kristeva e Hélène Cixous, que certamente produziram interessantes reflexões sobre as masculinidades. O domínio no qual se move Welzer-Lang, embora indubitavelmente enriquecedor, é científico, onde estudos literários, psicanalíticos ou filosóficos carecem de lugar.

A terceira parte do livro traz duas pesquisas de Welzer-Lang sobre "os homens em casa". A primeira incide sobre as representações da violência entre homens e mulheres e a segunda, de caráter etnográfico, sobre a convivência de homens e mulheres dentro do lar. A primeira trouxe como principal conclusão um duplo padrão de representação da violência. Os homens têm maior consciência da violência que exercem sobre as mulheres do que elas têm da que deles recebem.

A segunda pesquisa traz também um duplo padrão representacional, onde as mulheres compreendem o trabalho doméstico de maneira integral e preventiva: a casa como um todo deve estar organizada. Os homens, através de uma lógica curativa e específica, iniciam o trabalho doméstico no momento em que ocorre uma desordem em um lugar concreto da casa. Em ambos os casos, a dupla representação favorece os homens, que exercem violência com maior facilidade, dada a maior dificuldade das mulheres em reconhecê-la, e que se beneficiam da lógica de ordem preventiva das mulheres que, ao evitar a desordem, sequer provocam nos homens o sentido da necessidade de trabalhar em casa. Neste último ponto, no entanto, Welzer-Lang percebe uma modificação de padrão, ao menos um diálogo maior entre homens e mulheres que esboça relações mais eqüitativas.

A última parte do livro, sobre sexualidade masculina, é composta por oito capítulos, cada um dos quais contendo a análise de uma pesquisa levada a cabo por Welzer-Lang: violência e sexualidade, modificações nas formas de prostituição, clubes de swing, novas formas de oferta de trabalho sexual, homofobia, abusos e interditos em prisão, bissexualidade masculina e virilidade e virilismo (sobre jovens em bairros africanos marginais de Toulouse).

Essas temáticas parecem identificar uma multiplicidade das formas de sexualidade por parte dos homens, no entanto, muito raramente parecem indicar uma forma mais eqüitativa de relações com as mulheres. A pesquisa sobre o swing é a que melhor representa os aspectos desenvolvidos nesta parte.

O swing define-se como prática sexual na qual participam um casal e uma ou mais pessoas. Inicialmente, poderíamos pensar que se trata de uma relação de caráter igualitário, onde os desejos não-monogâmicos das mulheres são reconhecidos como tão legítimos quanto os dos homens e onde há um propósito de realizá-los de maneira simétrica. No entanto, malgrado a existência de casais que procuram levar a cabo essa simetria, a maioria não o faz: com freqüência, os homens, através de diferentes tipos de chantagens, conseguem que suas companheiras acatem o swing. Nos clubes de swing, o ambiente é construído em torno do imaginário pornográfico, as mulheres são trocadas pelos homens, sendo que eles procuram envolvimentos apenas sexuais, enquanto as mulheres gostariam também de trocas afetivas, há estupros velados, inclusive coletivos, penetrações enganosas sem camisinhas, dentre uma longa série de violências.

As novas formas de sexualidade continuam sendo pautadas por uma lógica construída entre homens e a conclusão do livro mostra que o mesmo ocorre na ordem social como um todo. Sem cair em uma ordem simbólica fixa, Welzer-Lang reconhece que as práticas sociais da "casa dos homens" continuam a organizar a ordem social mais ampla, mediante uma série de estratégias, das quais a assimilação do masculino ao neutro, descrita por Singly, parece ser a mais eficaz: "O homem permanece em uma posição de poder. A dominação é mais soft, mas perdura" (340). No entanto, há também mudanças sociais que, provocadas por mulheres e mais recentemente por homens pró-feministas, criam espaços livres de opressão. Como esses espaços intervêm na dominação masculina e como esta lhes responde, é algo que não pode ser previsto por nenhuma projeção teórica, mas que deve ser analisado em suas formas sempre inéditas pelas e pelos cientistas sociais.

* Resenha de do livro de Daniel Welzer-Lang, Les hommes aussi changent... Paris, Payot, 2004.

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