quarta-feira, 12 de outubro de 2022

Diásporas imaginadas: Atlântico Negro e histórias afro-brasileiras





DIÁLOGOS, EXPERIÊNCIAS E CONEXÕES DIASPÓRICAS NO ATLÂNTICO NEGRO

Fernando de Oliveira dos Santos

BUTLER, Kim D.; DOMINGUES, Petrônio. Diásporas imaginadas: Atlântico Negro e histórias afro-brasileiras. 1ª ed.São Paulo: Perspectiva, 2020. 360




Os temas relacionados ao período pós-abolição abarcam um campo de pesquisa que tem se consolidado vigorosamente na historiografia brasileira nas últimas décadas. Em trabalho publicado recentemente, o historiador Petrônio Domingues – um dos principais especialistas – apresentou um importante balanço acerca das novas abordagens, problemas, perspectivas teóricas e metodológicas abrangendo esse ascendente ramo da historiografia. Domingues evidenciou que – nesse amplo e diversificado campo temático – uma das principais tendências é composta pelos estudos das experiências da comunidade negra dentro de uma configuração transnacional. (DOMINGUES, 2019, p.119).



Desse modo, na esteira dessas pesquisas em desenvolvimento, a obra Diásporas imaginadas: Atlântico Negro e histórias afro-brasileiras oferece um valioso panorama das novas perspectivas analíticas. Petrônio Domingues e Kim D. Butler começaram a idealizar essa obra em conjunto, por volta de 2012, quando o historiador brasileiro realizou estágios de pós-doutoramento na Universidade de Rutgers, em Nova Jersey (Estados Unidos). A partir dos contatos no Departamento de Estudos Africanos, Domingues e a prestigiada historiadora estadunidense iniciaram uma fecunda interlocução intelectual, ensejando uma colaboração acadêmica que resultaria nessa obra recentemente publicada.



O livro possui nove capítulos e está dividido em duas partes. Os quatros primeiros foram escritos por Kim D. Butler e os outros cinco por Petrônio Domingues. Embora o fio condutor da obra seja os temas relacionados à diáspora africana, os autores escreveram os capítulos de forma independente. No que tange aos objetivos, os historiadores buscam explorar o conceito de diáspora como um aporte analítico conceitual. Dessa forma, a diáspora seria uma ferramenta teórica que subsidiaria as investigações das experiências da população negra em



“(...) diferentes contextos culturais marcados por deslocamentos dentro e entre fronteiras, reterritorializações, cruzamentos zonas de contato, fragmentação e reconstrução de identidades individuais e coletivas em sua interface glocal (local e global)” (BLUTER; DOMINGUES, 2020, p. 18).



Ademais, a abordagem diaspórica oferece fundamentos teóricos para analisar a história afro-brasileira, em uma perspectiva transnacional, revelando as múltiplas trocas, discursos, processos de resistência, a interlocução de ideias e projetos, envolvendo intelectuais, jornalistas, políticos, ativistas negros, entre outros.



No primeiro capítulo, Definições de Diáspora: articulação de um discurso comparativo, Butler procura dissecar o conceito de diáspora, revelando sua historicidade e a pluralidade de seus significados. A historiadora observa que, nas últimas décadas – à medida que o mundo se torna cada vez mais interconectado –, o termo diáspora tem sido, cada vez mais, apropriado por diferentes comunidades para modelar e remodelar suas identidades. Não obstante, Butler explica que, até por volta da década de 1980, a diáspora era um conceito associado quase exclusivamente à experiência judaica, a despeito de existirem outras tantas dispersões históricas, como a africana, a grega, a armênica, para citar algumas. Contudo, desde então, com o desenvolvimento das pesquisas sobre a diáspora, o conceito ganhou elasticidade, abrangendo novas acepções consoante às experiências de outros grupos (BLUTER; DOMINGUES, 2020, p.2).



Entretanto, a profusão e a heterogeneidade dos significados emergentes impuseram o desafio de uma conceituação que pudesse abarcar aspectos comuns das múltiplas experiências diaspóricas. Tendo em vista essa preocupação teórico-analítica, Butler sugere uma definição sucinta:



“As diásporas são um tipo dinâmico de comunidade, baseado na lógica primordial da família; diversas pessoas espalhadas por muitos lugares que, no entanto, se percebem unidas por uma ascendência comum e, em particular, conectadas a um local comum de origem” (BLUTER; DOMINGUES, 2020, p.3).



No decorrer do primeiro capítulo, a historiadora adensa sua análise das características das diásporas, indicando, de forma matizada, as diferentes bases que configuram essas identidades imaginadas, como lugar de origem, gênero, etnia, religiosidade (BLUTER; DOMINGUES, 2020, p.5-6). Ainda nesse tópico, tendo como lastro a literatura hodierna, Butler apresenta uma fértil sistematização dos atributos comuns das diásporas, envolvendo aspectos como: dispersão, terra de origem, identidade coletiva e relações de múltiplas gerações (BLUTER; DOMINGUES, 2020, p.8-9).



No segundo capítulo, Por que “Diáspora”? A migração do termo da experiência Judaica para a Africana e a sua utilidade universal, Butler procura reconstruir as origens da diáspora africana. A autora esmiúça vários contextos e processos históricos para evidenciar, como paulatinamente foi emergindo, um senso de comunidade entre os afrodescendentes no Mundo Atlântico entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Essa conjuntura foi marcada pelo fim do escravismo no Brasil e em países do Caribe e, também, pelo surgimento do movimento pan-africanista, no qual destacaram-se personagens como Marcus Garvey e Robert Abbot. Conforme Butler, o desenvolvimento das tecnologias de comunicação e o transporte favoreceram o intercâmbio de ideias entre comunidades negras em diferentes espaços. Os periódicos produzidos pelas associações do pan-africanismo, como o The Negro World e o Chicago Defender, passaram a circular por diferentes regiões do mundo afro-atlântico (incluindo o Brasil), ventilando projetos de expansão da cidadania plena e de resistência ao imperialismo na África (BLUTER; DOMINGUES, 2020, p.38).



Nesse contexto, o afloramento de sentimentos comunitários, ancorados na ancestralidade e na percepção de interesses em comuns, possibilitou a elaboração de estratégias e ações de ajuda mútua, tanto em nível local, quanto global. Segundo Butler, “Esse ‘momento da diáspora’ no mundo afro-atlântico foi transformador, foi quando se começou a se conceber e a funcionar uma comunidade da diáspora” (BLUTER; DOMINGUES, 2020, p.41). Contudo, o termo “diáspora” só passaria a ser empregado sistematicamente no discurso de intelectuais e militantes africanistas a partir de meados da década de 1960 (BLUTER; DOMINGUES, 2020, p.41). Essa conjuntura assinalaria uma inflexão, pois uma distinção foi sendo gradualmente estabelecida entre o ideário pan-africanista e a diáspora. Para a historiadora



“Ao contrário do pan-africanismo, uma política de solidariedade centrada na terra ancestral, conceitualmente, a diáspora permitiu a multiplicidade de políticas possíveis entre as várias comunidades da diáspora africana” (BLUTER; DOMINGUES, 2020, p.41).



Já no terceiro capítulo, A diversidade da Diáspora: Contribuições para o desenvolvimento da teoria política da Diáspora Africana, Butler explora a dimensão política das diásporas e suas múltiplas potencialidades. A autora demonstra como o conceito de negritude – em suas várias acepções – ajudou a cimentar uma consciência coletiva, abrangendo diversas nações e comunidades da diáspora africana em torno de projetos comuns na América. Forjado no contexto da escravidão atlântica, a negritude foi o resultado de um complexo processo de incorporação – pelos afro-americanos – de um conjunto de ideias, valores e concepções de mundo amplamente compartilhadas por vários povos e etnias na África (BLUTER; DOMINGUES, 2020, p.61)



Nos Estados Unidos, a negritude foi percebida como uma identidade socioétnica essencial para os afrodescendentes. Por conseguinte,



“Embora a importância e os contornos difiram significativamente de país para país, ela permaneceu, após o fim da escravidão, como uma identidade de solidariedade e uma base para políticas coletivas transnacionais” (BLUTER; DOMINGUES, 2020, p.61).



Outro mote esmiuçado nesse tópico são as múltiplas configurações que as novas diásporas têm assumido no contexto das emigrações recentes do continente africano, bem como seus desafios e possibilidades de articulação política. Butler assinala que as diásporas hodiernas são caracterizadas por sua maior diversidade e complexidade. Isso porque, tanto os deslocamentos intercontinentais, quanto a migração interna na África, não são motivados mais apenas por circunstâncias de perseguições, guerras e pobreza. Tendo como base as pesquisas atuais, a historiadora pondera que grande parte das migrações africanas pós-coloniais foram estimuladas pelo sucesso econômico da emergente classe média, que possibilitou a esse segmento viajar e empreender (BLUTER; DOMINGUES, 2020, p.66). Portanto,



“A recente diáspora africana inclui profissionais e empresários qualificados, assim como os migrantes por razões econômicas e as vítimas de guerra, de instabilidade política e de tráfico” (BLUTER; DOMINGUES, 2020, p.67).



No quarto capítulo, Diálogos Diaspóricos: A Fantasia da África e o Internacionalismo Diaspórico no Carnaval da Bahia, Butler analisa de que modo, em dois contextos distintos – o Carnaval baiano ao incorporar e reelaborar elementos simbólicos da África e de outras comunidades diaspóricas –, converteu-se essa manifestação cultural, também em movimento político. No primeiro contexto, entre a última década do século XIX e a primeira do XX, a historiadora perscruta os primórdios do Carnaval na cidade de Salvador. É explicitado como os clubes recém-criados – como o Embaixada Africana em 1895 – utilizaram referências africanas como motes para abordar questões candentes naquela conjuntura, como a luta contra a marginalização cultural e os percalços para afirmação da cidadania dos afro-baianos no pós-abolição. O segundo contexto remete às décadas de 1970 e 1980, quando Butler recupera as origens e o papel político dos blocos afro, especialmente o Ilê Aiyê, considerado o pioneiro nessa modalidade do Carnaval (BLUTER; DOMINGUES, 2020, p. 95).



Uma das teses da autora é que, em ambas as conjunturas históricas, o Carnaval tornou-se uma estratégia de negociação de espaço social e liberdades, ou seja, um instrumento alternativo de reivindicação política não formalizado. Contudo, as perspectivas políticas não emergiam apenas do âmbito local, já que eram influenciadas pelas conexões estabelecidas com as diversas comunidades da diáspora no cenário Afro-Atlântico. Essas inúmeras interlocuções, em nível global, entre vários ramos da diáspora, foram consolidadas, a despeito das dificuldades no tocante ao idioma, à distância, às especificidades culturais e às disparidades de recursos econômicos. Conforme Butler,



“Os Clubes africanos da virada do século XX e os blocos afro que surgiram na década de 1970 procuraram o continente e a diáspora para contextualizar e articular suas próprias lutas” (BLUTER; DOMINGUES, 2020, p.134).



No quinto capítulo, “O Moisés dos Pretos”: Marcus Garvey no Brasil, Petrônio Domingues avalia como as ideias e os projetos desse emblemático líder do pan-africanismo repercutiram de formas variadas e dissonantes nos jornais da imprensa brasileira. Inicialmente, o historiador apresenta um breve itinerário da trajetória social de Garvey. São recuperadas as etapas marcantes da formação de sua consciência política e racial, abrangendo desde a infância pobre até a criação, em 1914, da UNIA (Universal Negro Improvement Association), ainda na Jamaica. Em um segundo momento, Domingues aborda o contexto no qual as ideias e a popularidade de Marcus Garvey se disseminaram vertiginosamente, após sua mudança para os Estados Unidos, em 1916, e a instalação da UNIA no Harlem em Nova Yorke (BLUTER; DOMINGUES, 2020, p.138).



Em seguida, o historiador traz a lume como os ideais de Garvey foram interpretados nos periódicos do Brasil na década de 1920, especialmente sua proposta para retorno dos afro-americanos para a África, a “terra da promissão”. No que tange à chamada grande imprensa, notadamente no eixo Rio de Janeiro-São Paulo, os projetos do líder negro foram percebidos como utópicos, radicais, mirabolantes, fantasmagóricos, para mencionar alguns adjetivos. Já na imprensa negra, as representações do jamaicano tendiam a ser positivas, embora nem todas as suas ideias fossem aprovadas, existindo também nuances de um periódico a outro. Em Campinas, o jornal O Getulino valorizou o engajamento de Garvey e sua capacidade de articular um movimento negro pujante com base em massas organizadas. Não obstante, a perspectiva internacionalista do líder jamaicano era rejeitada pelos líderes afro-campineiros (BLUTER; DOMINGUES, 2020, p.157).



Por outro lado, O Clarim da Alvorada, outro jornal da imprensa negra criado na capital paulista em 1924, exaltava os empreendimentos desenvolvidos por Garvey, enaltecendo seu espírito modernizador e progressista, visando à ascensão material, social e cultural do negro. No entanto, “Em contraste com o Getulino, o jornal paulistano foi mais receptivo ao internacionalismo negro de Garvey, ainda que de forma seletiva” (BLUTER; DOMINGUES, 2020, p.157-158).



Com a mesma perspectiva teórica, no sexto capítulo, A “Vênus Negra” Josephine Baker e a Modernidade Afro-Atlântica, Domingues também analisa as repercussões divergentes nos jornais brasileiros, de outra personagem ilustre no contexto da diáspora do Mundo Atlântico. Trata-se da consagrada artista estadunidense Josephine Baker que, por meio de seus múltiplos talentos e carisma, conquistou fama e prestígio no cenário internacional. Um dos pontos mais instigantes do capítulo é quando o autor dimensiona o enorme impacto causado por Baker – especialmente em seus fãs – durante as apresentações que a dançarina realizou nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo em 1929 (BLUTER; DOMINGUES, 2020, p.179).



Entretanto, a dançarina negra não foi vista com simpatia por alguns segmentos afro-brasileiros, tampouco pelos jornais de maior circulação. Conforme o historiador, isso ocorreu devido ao seu comportamento vanguardista e disruptivo, sua personalidade expressiva e, principalmente, por não se orientar pelos padrões de moralidade e sexualidade vigentes. (BLUTER; DOMINGUES, 2020, p.181). A despeito das críticas e controvérsias, para Domingues, Baker era um ícone de mulher afrodescendente: talentosa, brilhante, genial e que teve o mérito de alcançar o auge da consagração. Por isso, “Em última instância, ela simbolizava a vitória do conjunto dos descendentes de africanos enfeixados na diáspora atlântica” (BLUTER; DOMINGUES, 2020, p.184).



No sétimo capítulo, Como se fosse Bumerangue: Frente Negra Brasileira no Circuito Transatlântico, Domingues problematiza o modo como o Chicago Defender – o principal jornal da imprensa negra estadunidense – interpretou as estratégias, projetos e ações da mais relevante associação negra brasileira da primeira metade do século XX. Uma de suas preocupações foi refutar teses que identificam o movimento negro brasileiro – especialmente na década de 1930 – como mero receptor e reprodutor passivo das retóricas raciais, estratégias e conteúdos ideológicos forjados pelo movimento congênere dos Estados Unidos. Para tanto, Domingues destrincha as conexões e os intercâmbios entre o jornal Chicago Defender e a Frente Negra Brasileira, demonstrando que os dois movimentos se influenciaram mutuamente. Tendo como quadro panorâmico o circuito da diáspora afro-atlântica, o historiador aplica a metáfora do bumerangue para evidenciar que



“(...) informações, articulações, projetos ideológicos, sonhos, fé e esperança de ativistas e organizações afro-diaspóricas transitavam, e mesmo giravam, com idas e voltas, em movimentos multilaterais em vias de mão dupla” (BLUTER; DOMINGUES, 2020, p.216).



Outro aspecto esmiuçado nesse capítulo diz respeito à maneira apologética e laudatória pela qual o periódico estadunidense divulgava, em seu país, os projetos, conquistas e iniciativas da Frente Negra Brasileira. Em que pese as ações realizadas no campo cultural, educacional e político, o Chicago Defender superestimou as proezas da associação afro-brasileira. Domingues apresenta duas hipóteses para essa tendência. A primeira, em linhas gerais, postula que o periódico estadunidense, ao disseminar e enaltecer demasiadamente as façanhas da Frente Negra Brasileira, estaria valorizando a si próprio, angariando um certo capital simbólico. Isso porque, na visão dos membros do Chicago Defender, a entidade brasileira teria sido fundada sob os auspícios e inspiração de Robert S. Abbot, principal editor do jornal estadunidense (BLUTER; DOMINGUES, 2020, p. 208).



Entretanto, para Domingues, há uma explicação mais satisfatória quando essa tendência é analisada por outro ângulo. As ações, estratégias e conquistas da Frente Negra Brasileira reverberavam em todo o mundo afro-atlântico, engendrando repercussões e influenciado movimentos em escala transnacional. Daí origina-se seu prestígio diante dos seus “coirmãos” afroamericanos, tanto que o Chicago Defender considerava a Frente Negra Brasileira a maior organização do gênero da América do Sul (BLUTER; DOMINGUES, 2020, p. 208).



No oitavo capítulo, “Em Defesa da Humanidade”: A Associação Cultural do Negro na Arena do “Black Internacionalism”, Domingues analisa a trajetória de outra importante associação negra paulista em sua interface, com a diáspora africana. A Associação Cultural do Negro (ACN) foi idealizada por José de Assis Borba e José Correia Leite, dois militantes que possuíam vasta experiência e participação no associativismo afro-paulista nas décadas anteriores. Os dois amigos, ao se encontrarem fortuitamente na Pauliceia, iniciaram uma reflexão sobre a falta de representatividade dos negros na história de São Paulo, tendo em vista o modo como as autoridades paulistanas organizavam os preparativos do quarto centenário de São Paulo. Para ambos, a invisibilidade atribuída aos afro-paulistas ocorria por conta da ausência de uma associação que pudesse exigir maior participação simbólica da comunidade negra na referida celebração. Foi neste contexto em que outros adeptos foram se integrando ao movimento, por meio de conversas e debates, culminando na fundação da Associação Cultural do Negro em 28 de dezembro de 1954 (BLUTER; DOMINGUES, 2020, p.218).



Conforme Domingues, desde então, a ACN, em pouco tempo, tornou-se a mais importante associação afro-paulista das décadas de 1950 e 1960, embora sua existência oficial tenha se estendido até julho de 1976. Ao longo de sua trajetória, uma das principais características da militância da ACN foi o enorme engajamento dos seus associados no combate ao racismo e na luta pela igualdade de direitos, tanto no âmbito nacional, quanto no circuito da diáspora afro-atlântica. Na arena transnacional, assumiu um posicionamento ativo em processos históricos de envergadura, como no apoio aos afro-americanos na luta pelos direitos civis nos Estados Unidos, na crítica contundente ao apartheid na África do Sul, incentivando os processos de descolonização do continente africano, entre outras iniciativas.



Alguns episódios e ações ajudam a corroborar esse envolvimento da Associação Cultural do Negro no cenário internacional. Em 1957, quando se irrompiam diversos conflitos raciais nos Estados Unidos, provocados pela luta pelos direitos civis, a ACN remeteu uma carta ao governador do Arkansas, Orval Faubus, criticando-o pela truculência contra os negros que participavam das mobilizações. Nessa mesma ocasião, outra missiva foi endereçada a Dwight Eisenhower, quando o então presidente dos EUA teria sido saudado por posicionar-se, com veemência, contra aos atos violentos sofridos pelos negros (BLUTER; DOMINGUES, 2020, p.230).



Já em 1961, a ACN tomou uma atitude análoga ao encaminhar a John Kennedy outra carta, desta vez, enaltecendo o presidente por se opor ao regime segregacionista Jim Crown e, também, pela criação da Comissão para a Igualdade de Oportunidade no Emprego. Segundo Domingues, nessa conjuntura em que Kennedy passava a ser visto, inclusive no cenário internacional, como um aliado dos afro-americanos na luta pelos direitos civis, emergia-se, pela primeira vez, o termo affirmative action (BLUTER; DOMINGUES, 2020, p.230).



A inserção da Associação Cultural do Negro no circuito da diáspora afro-atlântica, ainda, é evidenciada em outros processos históricos relevantes. No dia 21 de março de 1960, em Joanesburgo, a maior cidade da África do Sul, houve um importante protesto contra uma medida que obrigava os negros a utilizarem cartões de identidade, circunscrevendo os lugares onde podiam transitar. A mobilização reuniu cerca de 20 mil manifestantes e, a despeito de ser pacífica, foi combatida com requintes de crueldade pelo Exército, que atirou sem piedade contra a multidão no bairro de Shaperville. Como resultado, 67 pessoas morreram e mais de 186 foram feridas. Esse fato causou enorme impacto na comunidade negra e mesmo na opinião pública internacional. Indignados, os membros da ACN convocaram um ato público em solidariedade às vítimas do Massacre de Shaperville. O protesto ocorreu em 25 de abril, na Associação Paulista de Imprensa, reunindo diversos segmentos da sociedade, como autoridades políticas e militares, entidades negras, grupos artísticos, lideranças sindicais e estudantis (BLUTER; DOMINGUES, 2020, p.232).



Nesse evento memorável, no qual vários oradores discursaram, além da condenação pública do massacre em Joanesburgo, também, foi manifestado apoio às comunidades negras de São Tomé, Angola e Moçambique, as quais lutavam pela independência contra Portugal. Não obstante, talvez, o mais significativo resultado dessa reunião foi o Manifesto, redigido ao final dos trabalhos, no qual os assinantes pressionavam o Governo brasileiro a romper relações diplomáticas com a África do Sul, por violar as Convenções internacionais (BLUTER; DOMINGUES, 2020, p.232).



Desse modo, no circuito da diáspora afro-atlântica, essas e outras ações implementadas pela ACN atestam que



“A associação buscou ficar em sintonia com tudo o que transcorria na vida do negro, em âmbito local e global, e, quando necessário, posicionou-se em defesa dele” (BLUTER; DOMINGUES, 2020, p.242).



No último capítulo do livro, Agenciar Raça, Reinventar a Nação: O movimento das reparações no Brasil, o historiador traz à tona a importância desse movimento no processo de luta por direitos da população negra, tendo como pano de fundo o cenário transatlântico. Domingues assevera que as reivindicações por políticas compensatórias no Brasil, embora tenham emergido com vigor apenas na década de 1990, já estavam entre as bandeiras do movimento negro brasileiro, pelo menos desde a década anterior. Essa luta foi inspirada na experiência estadunidense, pois o debate acerca das ações afirmativas nesse país vinha ocorrendo desde meados da década de 1960 (BLUTER; DOMINGUES, 2020, p.265).



Outra tese defendida pelo historiador é que o Movimento pelas Reparações dos afro-brasileiros, que se institucionalizou e se fortaleceu na década de 1990, manteve-se concatenado e inspirando-se nos fluxos de ideias, discursos, estratégias e lutas de outros movimentos no circuito transatlântico da diáspora negra (BLUTER; DOMINGUES, 2020, p.245). Além disso, apesar de o Movimento pelas Reparações não ter conquistado as indenizações exigidas, esse processo acumulado de lutas e experiências permitiram redefinir o racismo como problema público e, assim, abrir caminho para as atuais políticas de ações afirmativas (BLUTER; DOMINGUES, 2020, p.245).



Dessa forma, tendo em vista o que foi apresentado nessa sinopse, essa obra torna-se fundamental para os estudiosos e pesquisadores da história da escravidão, do pós-abolição e do movimento negro no Brasil contemporâneo. Esses são alguns dos motivos dentre tantos outros, porque a diáspora oferece um valioso aparato conceitual para se investigar as experiências da população afro-brasileira em uma perspectiva que abrange as múltiplas e intricadas conexões no plano global e local.

Referências bibliográfica
DOMINGUES, Petrônio. Protagonismo negro em São Paulo: História e Historiografia. São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2019.

REPENSAR A AMÉRICA LATINA NA GUERRA FRIA COMO PARTE DO SUL GLOBAL





REPENSAR A AMÉRICA LATINA NA GUERRA FRIA COMO PARTE DO SUL GLOBAL

Flóres Giorgini

FIELD, Thomas C. Jr; KREPP, Stella; PETTINÀ, Vanni. Latin America and the Global Cold War. The New Cold War history. Chapel Hill: The University of North Carolina Press, 2020. 440




Latin America and the Global Cold War foi publicado na coleção The new cold war history, dirigida por Odd Arne Westad, autor também do curto posfácio do texto. O objetivo dessa coletânea é publicar livros que proponham novas interpretações do período da Guerra Fria a partir de pesquisas em arquivos da China ou dos países da antiga URSS, entre outros. De forma mais geral, a new cold war history, é uma tentativa, formulada no final dos anos 90 do século passado, de repensar o paradigma que estava na base da maioria das pesquisas sobre o período que começa no pós-guerra e que o considera como caraterizado exclusivamente pelas principais tensões em termos militares e econômicos entre o bloco ocidental e soviético. Entre as várias implicações dessa perspectiva tem o fato de considerar tudo que aconteceu fora desses dois blocos, na “periferia” da Guerra Fria, como sendo sem importância para a compreensão histórica do período. Com relação a esse ponto, a perspectiva da Global Cold War mostra como, ao contrário, os países do Terceiro Mundo, ou mais recentemente, do Sul Global, foram os palcos de alguns dos principais conflitos do pós guerra, e como, ao mesmo tempo, é impossível entender as transformações políticas, econômicas, sociais e culturais nesses países sem levar em conta as intervenções internacionais das duas superpotências. Isso não significa, no entanto, considerar esses países como meras peças no tabuleiro da Guerra Fria. As políticas e iniciativas desses países eram, ao invés disso, fruto da articulação entre interesses nacionais, estratégias políticas dos governos locais e o contexto de tensão internacional. Nessa linha de pesquisa, o trabalho de Westad e seu livro, de 2005, The Global Cold War foram sem dúvida seminais (WESTAD, 2005).



Outros trabalhos nessa linha tentaram sublinhar as articulações complexas entre políticas internacionais dos dois blocos, movimentos de emancipação e dinâmicas do desenvolvimento dos países do Terceiro Mundo através de perspectivas variadas, tanto transnacionais quanto internacionais (BLECHA, BREZINOVÁ, MANKE, 2017). Esses estudos apontam para a necessidade de descentrar o olhar histórico sobre o período da Guerra Fria para dar mais espaço aos territórios e aos atores nacionais e internacionais que até muito recentemente eram considerados como marginais pela estrutura da narrativa histórica canônica. Se a maioria das pesquisas não chega a recolocar em questão a legitimidade dessa narrativa para falar da história dos países não alinhados, como o fez Wallerstein (WALLERSTEIN, 2010), ela tenta mesmo assim enriquecê-la com as experiências dos países do Sul Global. Mas relativamente poucos estudos até hoje tentaram integrar a experiência dos países da América Latina nesse esquema conceitual.



Como o título do livro em questão indica, o texto organizado por Field Jr., Krepp e Pettinà se inscreve primeiramente nessa linha de pesquisa. As raízes do projeto estariam em um workshop organizado por Krepp, em 2014, em Berna, na Suíça, e do qual participaram também Pettinà e Field Jr.; assim como em uma apresentação conjunta dos três futuros editores do livro, em 2015, sobre a questão do desenvolvimento na América Latina durante a Guerra Fria. Foi nesses dois eventos que surgiu e tomou forma a ideia de um texto no qual a história contemporânea do continente latino-americano teria sido escrita a partir de uma perspectiva de história global (de uma perspectiva capaz de reconstruir a história da América Latina levando em conta as relações e interações múltiplas e complexas entre os diferentes atores, em contextos locais e internacionais, por cima e por baixo das fronteiras nacionais), que teria permitido, ao mesmo tempo, “provincializar” os estudos das superpotências – principalmente dos EUA – e pensar a América do Sul além do hemisfério ocidental.



Pois, uma das principais constatações dos editores na introdução do livro é que as múltiplas relações entre a América Latina e o resto do Sul Global teriam sido esquecidas pelos historiadores interessados na história contemporânea do continente. Isso seria em grande parte consequência de uma historiografia sobre o Terceiro Mundo, e sobre o terceiro mundismo, baseada na maioria dos casos apenas nas experiências dos países dos blocos socialista e afro-asiático; mas também de certa relutância dos historiadores latino-americanos em abandonar narrativas históricas fundadas na ideia da excepcionalidade nacional das evoluções econômicas, políticas e sociais de cada país. A essa perspectiva histórica soma-se outra, comum entre os historiadores das relações internacionais, interessados na Guerra Fria, centrada no impacto dos Estados Unidos no continente sul-americano. Como consequência, a história contemporânea da América Latina raramente é pensada para além de suas fronteiras e ainda menos como parte da história do Sul Global.



Dentre as iniciativas mais recentes, que permitiram reavaliar o lugar da América Latina nesse contexto mais amplo, os autores citam os estudos que repensaram o próprio conceito de Terceiro Mundo, sublinhando a sua dimensão política antes que territorial ou étnica. As contribuições do livro permitem ir mais longe na reformulação da história desse movimento histórico e – através do estudo das realidades locais, nacionais e regionais latino-americanas no período da Guerra Fria – mostrar as múltiplas e complexas “conexões e interações que existiam entre a América Latina e as outras regiões conhecidas coletivamente como o Terceiro Mundo” (p.7). Mais do que isso, o livro propõe repensar a “história da América Latina como parte da história do Terceiro Mundo”, estudando as várias manifestações do “terceiro mundismo latino americano” no período da Guerra Fria (Ibid).



Sem dúvida essa perspectiva constitui uma pista muito pouco explorada até agora no que diz a respeito à maneira de pensar a história do continente latino-americano no período pós-guerra e principalmente as imbricações complexas entre experiência latino-americana, movimento do Terceiro Mundo e lógicas próprias à Guerra Fria. No entanto, parece importante lembrar aqui o trabalho do historiador chileno Eduardo Devés Valdés que, apesar de partir de uma perspectiva histórica diferente, de história intelectual e de não se debruçar sobre às questões ligadas à Guerra Fria, já estuda há um tempo o “pensamento periférico” (VALDÉS, 2017) e as circulações intelectuais entre América Latina, África e Ásia, dentro do que ele chama de “mundo periférico” (VALDÉS, 2003). Vale mencionar também o trabalho de outro historiador chileno, German Fuschini Alburquerque que desde 2010 tem publicado vários artigos (ALBURQUERQUE, 2010; ALBURQUERQUE, 2011; ALBURQUERQUE, 2014) sobre o terceiro-mundismo e o não alinhamento de vários países da América Latina.



O livro conta com a participação de 15 pesquisadores, cujas contribuições foram selecionadas pelos editores e revisadas por pares. A maioria (9) deles obteve seu doutorado em uma Instituição nos Estados Unidos ou a ela está ligado atualmente. Se a esses adicionamos os que prepararam suas teses de doutorado ou trabalham em instituições do Reino Unido (3), vemos aparecer um grupo de autores em larga parte ligados ao mundo da pesquisa anglo-saxã. Apenas três, considerando as informações disponíveis, têm atualmente alguma ligação profissional com instituições latino-americanas ou realizaram parte de sua formação doutoral no continente.



Com relação à natureza multifacetada do livro, gostaria de chamar a atenção para o interesse de tratar de forma colaborativa o tema em questão. De fato, essa forma seja talvez a única que permite escrever uma história realmente global da América Latina, além de mostrar todas as potencialidades e o interesse da cooperação entre pesquisadores na produção do saber científico, ainda mais em áreas, como a das ciências humanas e sociais, onde o trabalho de pesquisa continua, às vezes, sendo muito centrado na produção individual.



Um dos méritos principais desse trabalho coletivo é o fato de as contribuições reconstruírem as histórias das múltiplas conexões entre os países latino-americanos e o Terceiro Mundo com base em fontes provenientes de arquivos situados em 19 países: Argélia, Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Cuba, Tchecoslováquia, República Dominicana, Alemanha, Guatemala, Rússia, França, Haiti, Índia, México, Nicarágua, Panamá, Reino Unido e Estados Unidos. Esse trabalho demanda o domínio de várias línguas e certa familiaridade com a organização dos arquivos nos diferentes países – além do tempo e dos recursos financeiros necessários para poder viajar até cada um deles. Tal conjunto de elementos, incontornáveis para tratar de uma coleção de documentos tão vasta, seria dificilmente acumulável por um só indivíduo.



Além disso, parece-me que cada contribuição adquire mais valor quando articulada com o conjunto das outras que podem explorar experiências similares, mas também diferentes, em outros países ou em momentos distintos ou ainda a partir de diversas perspectivas históricas, mostrando assim a complexidade e a riqueza do momento analisado.



Mas se a perspectiva proposta pelos editores e articulada pelos pesquisadores que participaram da escritura do livro constitui uma tomada de posição importante a favor da integração da América Latina na história do Sul Global, isso não deve nos fazer esquecer o valor de cada contribuição e do conjunto delas na historiografia sobre a inserção da América Latina na história do Terceiro Mundo ao longo do século passado.



O livro, desse ponto de vista, é uma contribuição fundamental, que traz histórias múltiplas e variadas sobre o assunto. Ele está dividido em duas partes, ambas muito bem equilibradas em termos de páginas e capítulos (7 para cada parte), intituladas respectivamente Third World Nationalism e Third World Internationalism. Digamos, logo de partida, que alguns artigos poderiam muito bem estar em uma ou outra seção, mostrando que as duas dimensões das interações entre experiências latino-americanas e Terceiro Mundo – lato senso – são muitas vezes complementares.



Na primeira parte, as contribuições tratam, em boa medida, do uso estratégico feito pelos governos latino-americanos do vocabulário terceiro mundista e do contexto internacional – da aparição do movimento dos países não alinhados (MNA) – para sustentar seus interesses políticos e econômicos nacionais, com relação aos diferentes blocos da Guerra Fria.



Um bom exemplo dessa dinâmica, apontada também por outros autores, é o estudo de Thomas C. Field Jr. (Capítulo 2) que analisa parte da experiência do Movimiento Nacionalista Revolucionario (MNR), partido que chegara ao poder na Bolívia em 1952 e que recebera centenas de milhões de dólares do governo estadunidense, apesar de conseguir nacionalizar as minas de estanho, implementar uma reforma agrária radical e manter relações com a Checoslováquia e com Cuba no começo dos anos 1960. Como entender essa experiência que parecia aproximar o país da postura dos países do MNA na procura de uma posição internacional de equidistância entre os dois blocos da Guerra Fria?



Para tentar responder a essa pergunta o autor analisa a política internacional e o contexto nacional do segundo governo Paz Estenssoro através do estudo conjunto de fontes bolivianas, mas também de fontes produzidas por agentes dos Estados checo, cubano e estadunidense, durante suas respectivas tentativas de atrair o Estado boliviano em suas áreas de influência. A experiência boliviana é um bom exemplo dos limites das tentativas dos governos nacionalistas latino-americanos em desenvolver uma política externa de não alinhamento e da tensão entre a implementação dessa lógica na esfera internacional e a pregnância do esquema da oposição entre os blocos da Guerra Fria na mentalidade dos atores implicados no contexto latino-americano.



Em relação a este último ponto, o texto de David M. K. Sheinin (Capítulo 7) coloca em questão a ideia geralmente aceita pela historiografia nacional e pela opinião comum argentina de que o país teria se mantido à margem dos conflitos entre as grandes potências da Guerra Fria e de suas estratégias internacionais por causa de sua implementação, na esfera internacional, da tercera posición elaborada por Juan Perón nos anos 1950. O autor, na contramão desse lugar comum da historiografia nacional, considera que a “tercera posición da Argentina” nunca foi mais do que “uma vaga declaração de intenção” (p. 194) e que as convergências ocasionais entre os interesses dos governos argentinos e dos membros do MNA nunca “comprometeram uma sólida e vital política externa em favor de Washington” (p.176), fruto também do forte anticomunismo das elites políticas argentinas.



Os dois artigos que tratam do Brasil, escritos por Miguel Serra Coelho (Capítulo 1) e Stella Krepp (Capítulo 4), situam-se também nessa primeira seção do livro e estudam as relações bilaterais do país com a Índia independente após 1947 e sua participação nos dois primeiros encontros do MNA, em 1961 e 1964. Ambos consideram que o interesse do Brasil pelo bloco dos países afro-asiáticos e por sua política de não alinhamento estava, na maioria dos casos, ligado a interesses nacionais imediatos – como o eventual apoio desses novos países aos projetos brasileiros na Organização das Nações Unidas – ou econômicos de “renegociação da ordem econômica global” (p.118). O subdesenvolvimento econômico e suas causas internacionais teriam sido assim o principal ponto de encontro entre os interesses do Estado brasileiro e o movimento do Terceiro Mundo.



Os dois autores sublinham como de fato os representantes internacionais brasileiros pensavam o país como profundamente ligado ao bloco ocidental, política e culturalmente. A esse respeito, seria interessante saber até que ponto essa representação da identidade brasileira pode ser considerada como expressiva da autoimagem nacional de outros setores da sociedade brasileira ou se, ao contrário, ela estaria ligada à origem socioeconômica bastante homogênea dos funcionários e diplomatas do Itamarati nesse período (1940 – 1970).



Outro estudo, que parte da concepção econômica do Terceiro Mundo para pensar as ligações entre suas diferentes partes é o de Sarah Foss (Capítulo 5) sobre a experiência do National Program of Community Development, lançado pelo governo da Guatemala, em 1964. A partir da implementação dessa política na cidade de Tactic, a autora pôde observar interesses e objetivos divergentes perseguidos pelos diferentes atores implicados nesse projeto, assim como o uso estratégico feito por alguns deles da identidade com o Terceiro Mundo. Em uma perspectiva parecida, Miriam Elizabeth Villanueva (Capítulo 13) estuda também, na segunda parte do livro, os usos estratégicos da retórica anti-imperialista e terceiro mundista pelo general Omar Torrijos Herrera e o governo militar panamense (a partir de 1968). O líder militar e a elite no poder teriam de fato se aproveitado da retórica terceiro mundista e anti-imperialista para incentivar ao mesmo tempo o apoio popular ao novo governo e o apoio internacional a suas tentativas de negociar com os Estados Unidos a restituição do Canal do Panamá, inserindo-se em discussões globais sobre o anticolonialismo e a libertação do Terceiro Mundo (p. 345).



Completam essa primeira parte do livro mais dois artigos escritos por Vanni Pettinà (Capítulo 3) e por Michelle Getchell (Capítulo 6) sobre, respectivamente, as relações entre México e URSS no final dos anos 1950 e começo da década seguinte, e a política externa cubana, promovida por Fidel Castro, de inserção no bloco afro-asiático. O texto de Pettinà aponta para uma questão importante, que é a de considerar as relações entre a América Latina e os países do bloco socialista para estudar as formas de identificação do continente americano com o Terceiro Mundo – assim como suas tentativas de aproximação dos países do MNA – e vice-versa. No caso específico do México, de fato, a tentativa do governo López Mateos no final dos anos 1950 em construir pontes com a URSS era parte de um projeto mais amplo de recolocar em questão a rígida aliança entre o país e o vizinho norte-americano no contexto da Guerra Fria (p.74) Como afirma também Field Jr., uma das melhores maneiras de identificar os interesses da América Latina para o não alinhamento do Terceiro Mundo é explorar as relações com os países socialistas do Leste Europeu e Cuba (p. 46).



Com relação ao papel de Cuba, o texto de Michelle Getchell aponta, por sua vez, para as tensões que existiam entre a política externa desse país e a da URSS com relação ao restante do continente latino-americano, atritos que minavam os esforços do bloco socialista em atrair os outros países da região para sua órbita no campo na Guerra Fria. Além disso, a autora sublinha também o papel central de Cuba no processo de assimilação do continente latino-americano ao Terceiro Mundo (tanto no nível político, como nas representações sociais), através de suas tentativas de defender os interesses nacionais e de se emancipar da dependência com a União Soviética – dependência econômica e política às vezes especular àquela de outros países latino-americanos com os Estados Unidos.



A centralidade de Cuba como ponte entre os países afro-asiáticos e os ibero-americanos é também sublinhada por Eric Gettig, que escreveu o outro texto do livro sobre a política externa do governo castrista com relação aos principais fóruns do “projeto do Terceiro Mundo”, segundo a expressão de Vijay Prashad, citada pelo autor (Capítulo 10). Nesse capítulo, já na segunda parte do livro, o autor afirma que o impacto cubano sobre as formas de associação entre os países da América Latina e o projeto do Terceiro Mundo foi, ao mesmo tempo, “direto, influenciando a forma como os indivíduos e governos latino-americanos agiram com relação ao Terceiro Mundo e suas instituições emergentes”, mas também indireto, pois Cuba se tornou o motor dos esforços correspondentes dos Estados Unidos para moldar o envolvimento latino-americano com esse movimento internacional (p. 241).



Na segunda seção do livro, encontramos pesquisas sobre as diversas, e interessantíssimas, iniciativas de atores latino-americanos para construir redes de solidariedade internacionais em apoio às lutas travadas no nível nacional, como é o caso da Frente Sandinista de Liberación Nacional e de seus esforços para construir uma base de legitimação e apoio internacional para sua revolta contra a dinastia Somoza, tema estudado por Eline Van Ommen (Capítulo 14).



Essa seção explora as múltiplas interações entre os diferentes atores latino-americanos, o mundo socialista, os Estados Unidos e o Terceiro Mundo, como no texto de Tobias Rupprecht (Capitulo 9). Rupprecht estuda os relatos de viagem de alguns intelectuais latino-americanos considerados como terceiro-mundistas que viajaram à URSS entre 1950 e 1970, para mostrar as múltiplas imbricações entre terceiro-mundismo e fascínio pela experiência socialista-soviética entre os atores latino-americanos. Seu texto recoloca em questão a ideia de que o socialismo soviético teria perdido interesse para os intelectuais latino-americanos ao longo da década de 1960, mostrando como vários deles, de origem social simples e membros de grupos marginalizados no nível nacional, continuavam vendo a União Soviética como um modelo positivo de construção de uma sociedade mais justa – pelo menos no que dizia respeito à questão da redistribuição das riquezas.



Outros textos nessa segunda parte do livro exploram as circulações de indivíduos e ideias e sua importância para a construção de identidades supranacionais e de redes de solidariedade transnacionais. Esse é o caso do texto de Alan McPherson (Capitulo 8) que lembra como vários atores políticos e sociais latino-americanos, desde o começo do século XX, imaginavam comunidades – para retomar a clássica ideia de Benedict Anderson (ANDERSON, 2008) – mais amplas do que as delimitadas pelas fronteiras nacionais e como nessas construções imaginárias a questão “racial” era central ainda no período entre as duas guerras mundiais. No estudo sobre a constituição de redes transnacionais de oposição à ocupação norte-americana no Haiti e na República Dominicana (1916–1934), o autor aponta também o papel dos Estados Unidos no surgimento da identificação das populações locais com narrativas mais amplas, como a do pan-africanismo para a sociedade haitiana. O papel dos Estado Unidos na consolidação do Terceiro Mundo já tinha sido apontado por Westad (WESTAD, 2005), e McPherson mostra mais uma de suas facetas com relação ao nascimento de uma consciência racial no Haiti em oposição à ocupação norte-americana claramente marcada por essa questão.



A importância das origens étnicas, como canal de aproximação privilegiado a ser tomado em consideração para entender o interesse das sociedades latino-americanas pela causa dos países afro-asiáticos e sua identificação, ou não, com essas populações, é também apontada por Eugenia Palieraki no único texto do livro sobre o Chile (Capítulo 11). Neste, a autora explora as relações entre os movimentos de esquerda e os governos chilenos e algerianos, entre 1956 e 1973, mostrando como a qualidade dos contatos entre os dois países evoluíram nesse período, passando de alguns encontros informais, através do Comité Chileno Pro-Autodeterminación da Argélia, à abertura da embaixada chilena em Argel, em 1963. O Comité pela autodeterminação da Argélia foi fundado em 1956 dentro da comunidade da diáspora árabe no Chile, com o apoio de partidos políticos nacionais de centro e de esquerda.



Outro texto nessa seção do livro explora a estruturação de redes de solidariedade internacionais em torno de interesses convergentes de atores latino-americanos e afro-asiáticos. Um exemplo é o esforço conjunto desses países para construir a Nova Ordem Econômica Internacional (NIEO em inglês) e para reduzir as desigualdades nas relações econômicas entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos. Dentre os documentos que formavam o núcleo desse projeto internacional estava a Carta de Direitos e Deveres Econômicos dos Estados, adotada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 1974, e elaborada a partir de uma iniciativa do governo mexicano e de seu presidente na época, Luis Echeverría. Estudando as origens dessa proposta, Christy Thornton (Capitulo 12) considera que os seus princípios estariam na experiência do México revolucionário dos anos 1910 e em seus planos, desde então, para reestruturar a organização da esfera internacional. Essa perspectiva, segundo Thornton, permitiria rescrever a história de uma iniciativa fundamental dos países subdesenvolvidos mostrando a importância da participação latino-americana e sua gênese além das lutas do bloco afro-asiático e do contexto histórico de crise do sistema capitalista dos anos 1970.



Infelizmente não é possível, no espaço desta resenha, analisar de forma mais detida todas as contribuições que traz esse livro, a meu ver incontornável para quem se interessa pelas relações entre América Latina e Terceiro Mundo na segunda metade do século XX, ou simplesmente pela história da inserção do continente sul-americano na Guerra Fria. Em conclusão, podemos dizer que pensar a história contemporânea da América Latina como parte do Sul Global permite aos diferentes autores recolocar em questão várias interpretações canônicas sobre o passado recente desses países. Além disso, algumas questões recorrentes nos capítulos do livro, e que tentei apontar no meu texto, permitem balizar sendas para futuros estudos sobre a inserção da América Latina na história do Terceiro Mundo. Por fim, pensamos que as numerosas questões e reflexões que surgem durante a leitura mostram ainda mais a necessidade de continuar pesquisando esse período formador de nossa realidade contemporânea a partir do esquema conceitual proposto pelo livro.

Referências bibliográficas
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ALBURQUERQUE, German Fuschini. Tercer Mundo y tercermundismo en Brasil: hacia su constitución como sensibilidad hegemónica en el campo cultural brasileño - 1958-1990. Estudos ibero-americanos, v. 37, n. 2, p. 176–195, 2011. Disponível em: https://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?codigo=5967920 Acesso em: 02 mar. 2021 DOI: https://doi.org/10.15448/1980-864X.2011.2.10021
ALBURQUERQUE, German Fuschini. Tercermundismo en el Cono Sur de América Latina: ideología y sensibilidad. Argentina, Brasil, Chile y Uruguay, 1956 - 1990. Tempo e Argumento, v. 6, n. 13, p. 140–173, 2014. Disponível em: https://www.revistas.udesc.br/index.php/tempo/article/view/2175180306132014140 Acesso em: 02 mar. 2021. DOI: http://dx.doi.org/10.5965/2175180306132014140
ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo Tradução: Denise Bottman. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
BREZINOVÁ, Katerina; BLECHA, Laurin; MANKE, Albert. Conceptual reading into the Cold War: towards transnational approaches from the perspective of latin american studies in eastern and western Europe. Estudos Históricos, v. 30, n. 60, p. 203–218, 2017. Disponível em: https://www.scielo.br/j/eh/a/nKtJ8FCwn8mFyp7nT8MQqZx/?lang=en Acesso em: 10 mar. 2021. DOI: http://dx.doi.org/10.15907S2178-14942017000100011
VALDÉS, Eduardo Devés. La Circulación de Ideas en el Mundo Periférico: Algunas presencias, influencias y reelaboraciones del pensamiento latinoamericano en África. Anos 90, v. 10, n. 18, p. 88–98, 2003. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/anos90/article/view/6328 Acesso em: 02 mar. 2021. DOI: https://doi.org/10.22456/1983-201X.6328
VALDÉS, Eduardo Devés. Pensamiento periférico: Una tesis interpretativa global 2a ed. Santiago de Chile: Ariadna Ediciones, 2017.
WALLERSTEIN, Immanuel. What cold war in Asia? An interpretative essay. In: ZHENG, Yangwen.; LIU, Hong; SZONYI, Michael. (Eds.). The cold War in Asia: The Battle for Hearts and Minds Leiden-Boston: Brill, 2010. p. 15–24.
WESTAD, Odd Arne. The Global Cold War: Third World Interventions and the Making of Our Times. 1a ed. New York: Cambridge University Press, 2005.

O INESPERADO NO ESTUDO DA ÁFRICA ROMANA





O INESPERADO NO ESTUDO DA ÁFRICA ROMANA

Pedro Paulo A. Funari

Sociedade e cultura na África romana: oito ensaios e duas traduções. .OLIVEIRA, Júlio César Magalhães de. São Paulo: Intermeios, 2020




Júlio César Magalhães de Oliveira, professor do Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP), apresenta uma original coletânea de ensaios sobre a sociedade e a cultura na África romana, após sua tese já clássica Potestas populi: participation populaire et action collective dans les villes de l’Afrique romaine tardive (vers 300-430 apr. J.-C.), de 2012, coincidindo com a publicação de Late antiquity: the age of crowds?, um artigo que, apesar de recém-divulgado – 2020 – no periódico Past & Present, já repercute. O aparecimento do volume em português deve ser saudado por permitir o acesso de um público mais amplo ao tema, em particular de estudantes ávidos de leituras recentes, inovadoras e produzidas aqui mesmo, no Brasil. Neste aspecto, convém enfatizar a clareza e a facilidade da leitura, assim como o seu estilo envolvente. Mapas, plantas, imagens de época e fotos completam a preocupação de Oliveira com a fácil compreensão do leitor, assim como o uso de notas de pé de página, que apresentam referências e comentários de aprofundamento, mas podemos ler o texto principal de forma direta para melhor aprendermos os argumentos. Tais recursos incentivam a tão necessária segunda leitura, que possibilita o aproveitamento pleno das informações e discussões trabalhadas pelo autor.



Em termos teóricos ou de perspectiva, são discutidas seis polaridades, que estão disseminadas por todo o volume:

Resistência/integração;


Estudo da tradição textual/cultura material (Arqueologia);


Modelos normativos/teoria pós-colonial (conflitos);


Restrição às elites/subalternos vistos de baixo;


Historiografia: produção mais antiga/recente;


Modelos baseados em dicotomias/ênfase na interação.



Nem sempre os estudiosos do passado – historiadores, arqueólogos, classicistas etc. – explicitam a variedade de interpretações e apresentam, de forma explícita, as escolhas interpretativas adotadas. Isso pode induzir ao engano, na medida em que o leitor, ao ser privado de um contexto interpretativo claro, pode iludir-se e acreditar que o que está a ler é o que de fato ocorreu e/ou o estado atual e consensual dos temas tratados. Fatos e consensos são sempre inefáveis, e quanto maior for a maestria retórica do autor, mais alto é o risco de o leitor ser ludibriado. A explicitação epistemológica, por outro lado, induz o leitor a refletir sobre a documentação e os seus limites, bem como sobre os argumentos apresentados e a sua variável capacidade de persuasão. A adoção bem-sucedida desta estratégia de inclusão do leitor demonstra a destreza incomum de Oliveira e constitui excepcional característica de sua obra.



Caminhemos pelos capítulos. No primeiro, Oliveira questiona a oposição entre nômades e sedentários em relação simbiótica ao relacionar pastoreio e comércio caravaneiro pela junção de fontes literárias e arqueológicas, como as prensas de azeite. Em seguida, o forte romano de Gholaia – atual Bu Njem – agencia conceitos recorrentes, como simbiose e história social. Esta liga-se ao estudo das relações sociais, aos conflitos e às lutas. Já a simbiose, “vida em comum”, segundo o sentido original, ressalta a interação de diferentes. O uso de medidas de volume indígenas, do latim coloquial e do recrutamento local de tropas se insere em um contexto em que os habitantes locais não são passivos, mas ativos. No estudo das grandes inscrições sobre colonos e arrendatários de domínios imperiais, adquirem relevo camponeses e meeiros indígenas. A diversidade de aspectos e interpretações constitui uma lição metodológica da abordagem que perpassa todo o livro. A respeito da legislação imperial sobre o cultivo da terra e a sua gestão, analisada no terceiro capítulo, Oliveira apresenta quatro diferentes explicações ou objetivos das medidas imperiais, complementares em princípio:

Incentivar um aumento de produtividade;


Vigilar o interesse da humanidade em uma lógica humanista;


Responder a uma pressão demográfica e a uma demanda dos próprios colonos;


Preservar os interesses de longo prazo de colonos e do imperador frente àqueles imediatos dos arrendatários.



Ao tratar de camponeses e da cultura escrita, no quarto capítulo, o autor explicita a teoria pós-colonial em novas formas de articulação reivindicativas, tendo a escrita e o protesto no campo como sinais da difusão da alfabetização, assim como o uso do latim, eivado de indigenismo, na luta por direitos, em solidariedade entre si. Trabalho e sociabilidade plebeia, título do capítulo seguinte, mostra como a Arqueologia ultrapassa os limites da aristocracia. A resistência a um Estado totalitário sobre o mundo do trabalho, proposta por H. R. Hurst (1994, p. 109-116), pode ser contraposta à atenção às formas populares de cooperação e de sociabilidade, como nas termas. Os vestígios arqueológicos nos permitem ir além dos limites das fontes aristocráticas e dos preconceitos de classe da própria historiografia moderna.



O sexto capítulo, ao tratar de grupos, identidades e estratégias sociais, principia pela discussão da teoria social e da crítica aos modelos normativos, às identidades fixas e ao nacionalismo moderno. Sobressai-se a passagem do modelo de benemerência cívica do período imperial dos primeiros séculos, para aquele cristão, voltado aos pobres e à Igreja, a partir do século IV, como propõem Paul Veyne (1976), Évelyne Patlagean (1977) e Peter Brown (1982). “Povo” e “pobres” não eram alternativas irreconciliáveis, mas definições estratégicas. Foi a ação popular autônoma e agressiva a constranger Agostinho de Hipona a demandar ações contra os pagãos, visto que Santo Agostinho não queria perder o controle da situação. Não persuadiu, foi forçado a agir.



No estudo das Atas de Munácio Félix e da perseguição de Diocleciano, ressalta-se a presença de uma comunidade cristã em Cirta – pequena, mas rica e despreparada para a perseguição. Oliveira explicita aqui, assim como alhures, os critérios de tradução, algo de particular importância do ponto de vista histórico, pois justifica o uso de termos como triclínio, em vez de sala de jantar, ainda que prefira “vocês”, não “vós”, como em outras ocasiões. Os arquivos da Perseguição e as histórias dos mártires – hagiográficas, produzidas a partir do século III – serviram tanto a católicos quanto a donatistas como fontes de autenticidade. Oliveira não hesita em lembrar das guerras de religião na época moderna (DAVIS, 1973), dialogando com Natalie Zemon Davis, para estudar as basílicas cristãs e a violência religiosa, muito menos de recorrer a estudiosos da pré-história, como Chris Gosden (2003). Recorre, ainda, ao aspecto indutor da ação da cultura material na forma do hábito (habitus), conceito sociológico tratado por Pierre Bourdieu (BOURDIEU, 1972) cuja origem está no frequentativo do verbo haver aplicado à materialidade para Daniel Miller e Lynn Meskell (MILLER, 1987; MESKELL, 2005). Ademais, menciona o caráter multissensorial dos edifícios de culto. Na basílica donatista, Domus Dei (Casa de Deus) e Aula Pacis (Morada da Paz) são inscrições que denotam a separação dos seguidores dos testemunhos – ou mártires – e donatistas dos universalistas - ou católicos. Domus não se restringe ao sentido de edifício, podendo se referir a uma comunidade – p. ex., a expressão domi militiaeque – e à vida comum civil dentro das muralhas da cidade e em meio aos soldados, para além dos muros. Aula remete a um lugar ao ar livre, em que sobra espaço, como que a dizer que a comunidade não se limita às paredes do edifício, mas compreende as suas testemunhas donatistas, onde quer que estejam. Há, pois, dois aspectos: um interno aos muros do edifício (domus) e o outro em meio aos outros (aula). No primeiro se encontra Deus, enquanto entre os outros resta a junção (pax) dos crentes, frente aos que cederam: os católicos comprometidos, segundo eles, com o exercício do poder terreno e temporal.



No último capítulo, Oliveira considera a mobilização popular nos conflitos religiosos da África vândala e conclui que os clérigos nicenos ou católicos não estavam mais em condições de organizar uma resistência efetiva apelando à mobilização popular, visto que considera a conquista dos vândalos como o marco de uma nova era na África do Norte.



Talvez a palavra que possa captar o conjunto da obra de Oliveira seja fluidez, uma vez que ele sempre apresenta análises abertas a revisão e tem constante atenção ao que muda na documentação, na sua interpretação, na historiografia e na teoria social. Aspectos sociais, culturais, religiosos ou econômicos da África romana aparecem complexos, contraditórios, conflitivos e em simbiose. Dicotomias como vontade de integração e resistência se apresentam como polos de uma gradação contínua e em variação perpétua. Ademais, conceitos como nomadismo, sedentarismo, pastoralismo, alfabetização, solidariedade, autonomia e arrendamento nunca aparecem rígidos ou imutáveis, mas em fluxo, sujeitos a revisão. Vem-me à mente as palavras conclusivas do coro de As Bacantes, de Eurípides:



Eurípedes, As Bacantes 1388-1392:

ΧΟΡΌΣ

πολλαὶ μορφαὶ τῶν δαιμονίων,

πολλὰ δ᾽ ἀέλπτως κραίνουσι θεοί.καὶ τὰ δοκηθέντ᾽ οὐκ ἐτελέσθη,

τῶν δ᾽ ἀδοκήτων πόρον ηὗρε θεός.

τοιόνδ᾽ ἀπέβη τόδε πρᾶγμα.



CORO

Muitas as formas das divindades, os deuses ordenam muito imprevisto. O esperado não chegou, Deus encontrou passagem para o inesperado. Assim, sobreveio o fato.

(trad. de Pedro Paulo A. Funari)



COROMuitas são as formas do divino, e muitas as ações imprevistas dos deuses. O que esperávamos não se realizou; para o inesperado o deus achou caminho. Assim terminou este drama. (trad. de João Batista de Mello e Souza)



A palavra-chave é ἀδόκητος, derivada de ΔΟΚΈΩ, que significa esperar, pensar – δόξᾰ (opinião) –, significa o improvável, o não aparente ou o impensável – traduzida por mim como inesperado – e talvez resuma, de alguma maneira, a abertura ao imprevisto sugerida pela abordagem de Júlio César Magalhães de Oliveira. Ao final da leitura, sai-se com a sensação de expectativa por outras inesperadas páginas, ainda em gestação.

Referências bibliográficas
BOURDIEU, Pierre. Esquisse d’une théorie de la pratique, précédée de trois études d’ethnologie kabyle. Paris: Seuil, 1972.
BROWN, Peter. Dalla plebs romana all plebs dei: aspetti della cristianizzazione di Roma. In: BROWN, P.; CRACCO RUGGINI, I.; MAZZA, M. Governanti e intellecttuali: popolo di Roma e popolo di Dio (I-VI secolo) Torino: Giappichelli Editore, 1982, pp. 124-145.
DAVIS, Natalie Zemon. The Rites of Violence: religious riot in 16th.c. France. Past & Present, 59, pp. 51-91, 1973.
EURÍPEDES. As Bacantes. Trad. Eudoro de Souza. São Paulo: Duas Cidades, 1974.
EURÍPIDES. As Bacantes. Tradução de João Batista de Mello e Souza. http://www.filosofia.seed.pr.gov.br/arquivos/File/classicos_da_filosofia/as_bacantes.pdf
GOSDEN, Chris. Prehistory: a very short introduction. Oxford: Oxford University Press, 2003.
HURST, H. R. Excavations at Carthage. The British Mission II/1, The Circular Harbour, North Side. The site and finds other than pottery (British Academy Monographs in Archaeology, 4). Oxford: Oxford University Press, 1994.
MESKELL, Lynn. Introduction: object orientations. In: MESKELL, Lynn. (org.). Archaeologies of Materiality. Malden, Mass.: Blackwell, 2005, p. 1-17.
MILLER, Daniel. Material Culture and Mass Consumption. Oxford: Wiley-Blackwell, 1987.
PATLAGEAN, Évelyne. Pauvreté économique et pauvreté historique d’um pluralisme politique à Byzance (4e.-6e. siècles). Paris: Mouton, 1977.
VEYNE, Paul. Le pain et le cirque. Sociologie historique d’un pluralisme politique. Paris: Le Seuil, 1976.

O que é história do conhecimento?

 





O que é história do conhecimento?

Romélia Mara Alves SOUTO

BURKE, Peter. .O que é história do conhecimento?. Tradução de. Freire, Cláudia. .São Paulo: :. Editora UNESP, ,2016. .211p. .




Assim como o livro, os intelectuais, as ciências e as culturas, também os processos de produção, armazenamento e disseminação de conhecimentos têm uma história. Esse tema, que já interessava a psicólogos, antropólogos e sociólogos, passou, desde os anos de 1990, a ocupar o centro de interesse de historiadores. A história do conhecimento, hoje institucionalizada como disciplina, desenvolveu-se como consequência da história da cultura, do livro e de outros tipos de história, mas principalmente da história dos intelectuais e da história da ciência. Peter Burke, um dos grandes historiadores de nosso tempo, presta sua relevante contribuição acerca desse tema com o livro O que é história do conhecimento?, publicado em 2015 pela Universidade de Cambridge, Inglaterra, e no Brasil, em 2016, pela Editora UNESP. Depois de abordar a história do conhecimento nos últimos quinhentos anos em Uma história social do conhecimento: de Gutenberg a Diderot (2000) e Uma história social do conhecimento: da enciclopédia à Wikipédia (2012), Burke retorna com uma brilhante exposição das origens e dos fundamentos desse novo domínio da ciência histórica, distinguindo-o da história da ciência e da história dos intelectuais. ­Propondo um alargamento do campo da história da ciência, Burke argumenta que não existe história do conhecimento, existem apenas histórias, no plural, de conhecimentos, também no plural. Ao refletir sobre o que chama de movimento universal do “aprendizado coletivo”, o autor elabora conceitos fundamentais para elucidar os processos de criação, armazenamento e difusão do conhecimento. Ao longo do texto, Burke apresenta uma variada gama de exemplos de épocas e lugares para traçar o percurso das histórias dos conhecimentos, e as notas explicativas fornecem significativas sugestões de leituras complementares. O livro está organizado em quatro capítulos:


“Conhecimentos e suas histórias”;


“Conceitos”;


“Processos”; e


“Problemas e perspectivas”.


No primeiro capítulo, o autor traz uma historiografia do conhecimento, faz distinção entre “informação” e “conhecimento” e apresenta a história e seus “vizinhos”. Lançando mão de uma metáfora para distinguir “informação”, como algo relativamente cru, de “conhecimento”, como algo que foi processado, “cozido”, Burke propõe um conceito amplo de conhecimento para “abarcar tudo aquilo que os indivíduos e os grupos-alvos de seus estudos considerarem como conhecimento” (p. 19).



O interesse pela produção histórica e pelo seu oposto complementar, a retenção histórica, cujo foco são os registros intencionalmente omitidos ou eliminados, tem permitido estudos tanto da memória quanto do esquecimento. No bojo desse movimento, Burke contempla a diversidade das histórias dos conhecimentos, destacando até mesmo a importância dos estudos da ignorância, do conhecimento que foi perdido ou conscientemente refutado. Ainda nesse capítulo, o autor adverte sobre a necessidade de evitar o “paroquialismo”, no que diz respeito a espaço - que estabelece uma clara divisão entre Nós e Eles e todos os demais; e no que diz respeito a tempo - um simples contraste entre a Nossa Era e todo um passado sem distinções. Por essa perspectiva, faz mais sentido aos interessados pelos percursos da humanidade em seu longo aprendizado partir da história da ciência para a história mais ampla dos conhecimentos. De fato, não se pode utilizar genericamente o termo “ciência”, que na acepção atual foi cunhado no século XIX, sem incorrer em um anacronismo. Burke destaca ainda outros fatores que ajudaram a impulsionar a guinada para a história do conhecimento com base na história da ciência: o surgimento do interesse acadêmico na cultura popular, permitindo incluir os conhecimentos práticos de outros sujeitos, o fato de que os métodos ditos científicos muitas vezes se desenvolveram fundamentados em práticas cotidianas menos formais e a crescente necessidade de discutir as conquistas intelectuais das culturas não ocidentais como contribuições ao conhecimento.



O segundo capítulo trata de um conjunto de termos úteis para elucidar os processos que permitem transformar informação em conhecimento, tais como conhecimentos localizados e conhecimentos subjugados, gestão do conhecimento, práticas, sistemas de ignorância, sociedade do conhecimento e cientificação. ­Destacaremos aqui um conceito-chave tratado nesse capítulo: as “ordens de conhecimento”, definidas geralmente por lugar (por exemplo, ocidental, islâmico) ou por período (por exemplo, medieval, moderno). As formas e as instituições de conhecimento, assim como as interações entre elas associadas aos valores da cultura, constituem uma ordem ou sistema: escolas, universidades, arquivos, laboratórios, museus, redações de jornal, entre outros. Para exemplificar, Burke cita o sistema dominado pelo confucionismo e pelos concursos públicos na China tradicional; ou o sistema dominado pelo Islã, no Império Otomano; ou ainda, na União Soviética, onde o sistema era dominado pelo marxismo e pela Academia de Ciências. Assim, o sistema de conhecimento é percebido como algo atrelado a determinado tempo, lugar e comunidade, embora não seja impermeável e seja difícil falar em uma única ordem dominante. O conceito de ordem do conhecimento implica a consideração de seu oposto: o não conhecimento ou ignorância, que, no dizer do autor, refere-se àquilo que não é do conhecimento de diferentes tipos de povos em determinados lugares ou épocas.



No terceiro capítulo são examinados os diferentes processos pelos quais passa a informação até ser transformada em conhecimento, para ser disseminado e utilizado em várias situações. Burke destaca, então, quatro estágios na sequência da obtenção ao uso da informação: coleta, análise, disseminação e utilização. No momento da coleta, o processo de “cozimento” já se iniciou, pois os princípios sob os quais se dá a seleção são culturalmente determinados. A coleta estende-se à observação, feita de questionamentos e de escutas. O advento da plataforma on-line provocou uma mudança drástica no modo como procuramos informações. O autor afirma a necessidade de uma “alfabetização em mecanismo de busca”, dado que saber onde encontrar informações sobre determinado assunto é tão importante quanto o conhecimento do assunto. Já a análise consiste em transformar a informação em conhecimento por meio de práticas como descrição, quantificação, classificação e verificação. Ao tratar da disseminação do conhecimento, o autor discute o valor do testemunho oral, o problema relativo à variedade e ao caráter irreconciliável dos pontos de vista humanos e a transferência ou circulação do conhecimento, lembrando que o conhecimento recebido não é igual ao conhecimento emitido, em virtude de mal-entendidos, de adaptações deliberadas e de traduções culturais. Com sua aguda percepção e capacidade de delinear com clareza questões muito complexas, Burke conclui que, apesar da relevância das novas formas de comunicação, o meio mais eficaz de disseminação continua sendo o antigo, ou seja, o encontro com as pessoas - “as ideias circulam por aí dentro das pessoas” (p. 114).



O último capítulo do livro é dedicado aos problemas e perspectivas da história do conhecimento como área disciplinar. O autor examina questões relacionadas ao contraponto entre histórias internas e externas; continuidades e revoluções; agentes e sistemas; discutindo também questões de gênero, anacronismo, relativismo, triunfalismo e construtivismo. Consideramos importante destacar aqui o dilema vivido por historiadores dos conhecimentos por terem que escolher entre pressupor a superioridade da tradição científica ocidental ou tratar de forma igualitária todos os enfoques de conhecimento. No primeiro caso, são acusados de etnocentrismo. No segundo, de relativismo ou niilismo. Considerando que a maioria dos estudiosos do assunto escolheu a segunda opção, Burke concentra-se, então, na análise dos problemas decorrentes dessa escolha. Por fim, o autor apresenta suas perspectivas para as abordagens das histórias dos conhecimentos nas próximas décadas. Para ele, haverá uma tendência de se avançar dos estudos que tratam da difusão do conhecimento ocidental para os que tratam dos encontros, choques, traduções e hibridizações, caracterizando uma abordagem global. Haverá também uma guinada social focando uma história do conhecimento a partir das camadas inferiores com um crescente e já notório interesse nos conhecimentos cotidianos e tácitos. Finalmente, Burke acredita em uma tendência de ênfase nos estudos do conhecimento em longuíssimo prazo, na tentativa de responder à grande questão feita pelo historiador David Christian (2011): “Como esse acúmulo e compartilhamento de conhecimento geram as mudanças de longo prazo que distinguem a história dos seres humanos da história de espécies intimamente relacionadas?”



Para terminar, Burke ainda apresenta uma cronologia selecionada de estudos do conhecimento e uma curta leitura complementar, na qual são mencionados alguns estudos acerca do conhecimento realizados em outras disciplinas que ele considera essenciais para os historiadores. Por fim, uma extensa lista de referências bibliográficas e um índice remissivo encerram esse belo trabalho que, a nosso ver, constitui uma importante contribuição e valiosa leitura a todos os interessados pelas histórias dos conhecimentos produzidos e disseminados pela humanidade em sua larga trajetória de aprendizado coletivo.

REFERÊNCIAS
Burke, P. Uma história social do conhecimento: de Gutenberg a Diderot. Tradução de Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.
Burke, P. Uma história social do conhecimento II: da enciclopédia à Wikipédia. Tradução de Denise Bottmann. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor , 2012.
Christian, D. Maps of time: an introduction to big history. Berkeley: University of California Press, 2011.

terça-feira, 4 de outubro de 2022

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VAMOS SEGUIR RUMO A APROVAÇÃO....

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