quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Antropologia da criança

Com a palavra, as crianças
Livro discute diferentes visões sobre a infância apresentadas pela antropologia

Mário Cesar Filho

O universo infantil pode surpreender muitos adultos. Afinal, o que é ser criança? Um ser imaturo ou um sujeito social, capaz de atuar ativamente nas relações em que se engaja? Para a antropóloga Clarice Cohn, autora do livro Antropologia da criança , reconhecê-la é assumir que não se trata de um “adulto em miniatura” ou de alguém que se treina para a vida adulta. É entender que, onde quer que esteja, ela interage ativamente com os adultos, outras crianças e com o mundo, sendo parte importante na consolidação dos papéis que assume e de suas relações.

Este livro traz um mapeamento das várias abordagens sobre antropologia da criança, desde os primeiros estudos dos anos 1930 até os mais recentes. A autora discute ainda algumas questões pré-concebidas, como a imagem de que a criança é um ser incompleto, a ser formado e socializado. A partir dos anos 1960, os antropólogos perceberam que a diferença entre crianças e adultos não estaria na quantidade do saber, mas na qualidade – ou seja, a criança não sabe menos, sabe outra coisa.

Outra discussão central da obra envolve a definição do que chamamos de infância. Para muitos especialistas, como o historiador francês Philippe Ariès, essa noção é uma elaboração social e histórica do Ocidente. Ela foi construída ao longo dos séculos na Europa, simultaneamente com mudanças na composição familiar, nos conceitos de maternidade e paternidade, no cotidiano das crianças e principalmente na fase da educação escolar.

A criança e a infância têm sido foco de análise de vários campos do conhecimento, como pedagogia ou psicologia. O olhar antropológico pode ajudar a fundamentar essas pesquisas, rever os modelos pedagógicos vigentes e oferecer novos parâmetros para a educação escolar. A antropologia se dedica a compreender o ponto de vista do objeto estudado – no caso, ela busca saber como as crianças vivem e pensam o mundo, respeitando seu contexto sócio-cultural. Para isso, o antropólogo recorre a técnicas como a etnografia, passa a conviver com seu objeto de estudo e experimenta as mesmas situações.
Em seu mestrado em antropologia pela USP, a autora de Antropologia da criança estudou a concepção de infância e aprendizado entre os Xikrin (fotos: Clarice Cohn).

A obra mostra ainda como diferentes culturas lidam com a criança e o sentimento de infância. A autora oferece diversos exemplos vivenciados por ela durante o trabalho de campo realizado entre os Xikrin, no Pará – a concepção de infância e aprendizado desses índios foi o tema de seu mestrado pela Universidade de São Paulo. No livro, ela conta que eles deixam de ser criança apenas quando têm seus próprios filhos.

Antropologia da criança faz parte da série ciências sociais da coleção Passo-a-passo, editada pela Jorge Zahar. Escrito em linguagem acessível, o livro se deixa ler com prazer e funciona como uma introdução ao tema para leigos e interessados em geral. Para quem quiser se aprofundar em algum dos temas abordados, a autora traz sugestões de leituras e referências bibliográficas comentadas.
Antropologia da criança
Clarice Cohn
Rio de Janeiro, 2005, Jorge Zahar Editor
60 páginas
Revista CIÊNCIA HOJE

Na trilha da humanidade

Uma viagem de milhares de anos
Livro conta expedição do brasileiro que refez trajetória do homem pré-histórico da África até o Brasil

Mariana Benjamin

Seguir as pistas da evolução humana e refazer o caminho do homo sapiens ao se espalhar pelo planeta, partindo da África até chegar ao Brasil. Essa foi a mais recente aventura encarada pelo jornalista Airton Ortiz, que utilizou apenas transportes públicos para fazer essa viagem inédita. As descobertas e os episódios vividos por ele lhe renderam o livro Na trilha da humanidade , que faz parte, junto com outras expedições do escritor, da coleção Viagens Radicais. Durante três meses, o autor cruzou fronteiras perigosas e conheceu novas culturas, ao mesmo tempo em que visitou os sítios paleontológicos onde foram encontrados os principais fósseis que contam a história de 7 milhões de anos da humanidade.

As páginas do livro se revezam entre informações sobre a evolução humana, como as descobertas das diferentes espécies até o homem moderno, e histórias da expedição. Para refazer o caminho do homo sapiens , o jornalista partiu do Quênia, no leste da África, desceu para o sul do continente, depois seguiu para o norte, dobrando à direita no vale do Nilo, até chegar à Ásia. Em seguida, voou para o Alasca, caminho que há milhares de anos era possível fazer por terra, onde hoje fica o estreito de Bering. Por fim, o autor cruzou as Américas até chegar ao Brasil.

Em todo o livro, Ortiz se preocupa em manter uma linguagem clara e simples, sem muitos termos científicos, de modo a permitir o entendimento do leitor comum sobre o assunto. O escritor também se atém à descrição da cultura e dos hábitos dos lugares que visitou. Ele aproveita para ressaltar algumas questões que dominam os debates no mundo atual, como a mutilação genital de mulheres, os altos índices do vírus HIV na África e a miséria em que vive a maioria da população mundial.

Por concentrar temas polêmicos, a parte africana de sua trajetória é uma das que mais prendem a atenção do leitor. Ortiz retrata a extrema pobreza da região e suas conseqüências na vida das pessoas: corrupção, assalto, violência, fome etc. O que pensar, por exemplo, de um jovem que estava triste porque trocou duas de suas vacas por uma moça que, segundo ele, não correspondia ao valor dos animais? Ou como reagir diante de uma senhora com quatro filhos que viu pela primeira vez o seu rosto ao olhar uma fotografia tirada na máquina digital de Ortiz? São histórias como essas que fazem de Na trilha da humanidade mais do que um mero livro sobre a evolução humana para leigos, mas também uma publicação que estimula a reflexão crítica em seus leitores.

O texto é repleto de humor, o que faz com que a leitura se torne agradável, apesar do tema complicado e da necessidade de detalhes científicos, como o tamanho do crânio dos fósseis e as características diferenciadoras de cada espécie humana. Mas o autor às vezes exagera um pouco na tentativa de fazer piadas em seu texto. Escrever que, se um homo sapiens de cerca de cem mil anos estivesse “vestido à moda rastafári, poderia tranquilamente assistir a um jogo de futebol no Maracanã sem chamar a atenção dos demais torcedores” é um pouco demais.

No mais, o livro é uma boa opção para aqueles que desejam ter acesso a informações detalhadas sobre a história da evolução da humanidade em uma linguagem coloquial, ao mesmo tempo em que aprendem – e muitas vezes se chocam com – um pouco da cultura de diferentes lugares do mundo.

Na trilha da humanidade
Airton Ortiz
Coleção Viagens Radicais
Rio de Janeiro, 2006, Record
277 páginas
Revista Ciência Hoje

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A nova des-ordem mundial



Um momento de desordem mundial
Livro discute reformulação de territórios diante de novas influências políticas, econômicas e culturais
Fabíola Bezerra

Neste começo de século, assistimos a uma reformulação de fronteiras e influências político-econômicas no mundo. Essa nova forma de organização mundial, baseada na existência de redes, fluxos e conexões, exige mudanças no método geográfico tradicional de agrupar e separar territórios. O livro A nova des-ordem mundial apresenta propostas para entender a estrutura do espaço contemporâneo sob as dimensões econômica, política, cultural e ambiental e tece as causas dessa reconfiguração territorial com base em argumentos históricos.

Segundo os autores do livro, os geógrafos Rogério Haesbaert e Carlos Walter Porto-Gonçalves, os conceitos básicos de estudo da geografia vêm mudando por causa de uma série de acontecimentos que, nos últimos 15 anos, alteraram os rumos da humanidade. Para eles, o melhor exemplo para representar essa reformulação mundial seria o fato de que, enquanto as torres gêmeas do World Trade Center foram derrubadas nos Estados Unidos em 2001, as torres Petronas permanecem firmes em Kuala Lumpur, capital da Malásia, o que, de forma simbólica, revela a ascensão de um novo poder no Oriente. A tarefa de reorganizar as regiões do planeta em função dessas mudanças para fins de estudo torna-se então o grande desafio da geografia pós-moderna.

Haesbaert e Porto-Gonçalves afirmam no livro que a hegemonia do Ocidente e o pensamento moderno são incompreensíveis sem o conceito de colonização. No entanto, o mecanismo de exploração da Ásia e da África iniciado pelos europeus com a expansão marítima e comercial mudou a partir da Primeira Guerra Mundial. A busca por novas fontes de matéria-prima e mercados consumidores impulsionada pelo imperialismo gerou uma nova ordem, encabeçada pela Europa, pelos Estados Unidos e pelo Japão. Enquanto o comércio internacional crescia no início do século 20, a África, a Ásia e a América Latina viviam devastações ecológicas e sociais, por causa da nova divisão internacional do trabalho, que atribuiu aos países “centrais” a produção de tecnologia e a exploração dos recursos naturais e da mão-de-obra dos países “periféricos”. Essa geografia imperialista regeu o mundo por muito tempo, até o período em que os teóricos chamam de Pós-modernidade.

Essa nova era é marcada pelo advento da globalização e da internet, que permitiu maior integração internacional e criou um novo espaço público, o “território-mundo”, composto de uma sociedade mundial que compartilha os mesmos valores. A integração cada vez maior dos Estados e a soberania de um país através de um grupo – situação que os geógrafos chamam de capitalismo globalmente integrado – são demonstradas pela força dos blocos econômicos – como a União Européia –, que estabelecem uma concorrência acirrada entre si para manter a influência sobre seus parceiros comerciais. Nesse processo, interesses econômicos e políticos se mesclam o tempo todo.

No livro, os autores identificam um novo movimento de regionalização do espaço contemporâneo a partir de redes integradas ilegais de poder, como o tráfico de drogas e o terrorismo globalizado – por exemplo, a rede árabe Al Qaeda –, e de organizações não-governamentais (ONGs). Estas seriam talvez as melhores indicadoras da desordem na organização do território, por não atuarem em uma base específica. Segundo Haesbaert e Porto-Gonçalves, a existência dessas organizações civis comprova a crise do Estado, que não exerce o seu papel político em causas sociais.

O uso de termos mais complexos, além de referências constantes a teóricos, podem vir a confundir o leitor que não está habituado à linguagem acadêmica. No entanto, os próprios avanços e retrocessos do texto, bem amarrado pelos autores, transmitem a idéia principal do livro: a reconfiguração dos territórios devido a mudanças nas relações de poder e ao hibridismo cultural. Ler A nova des-ordem mundial pode ser um começo para entender esse movimento.

A nova des-ordem mundial
Rogério Haesbaert e Carlos Walter Porto-Gonçalves
São Paulo, 2006, Editora Unesp
160 páginas
Revista Ciência Hoje

Universo elétrico – a impressionante história da eletricidade



História eletrizante
Livro resgata a descoberta da eletricidade e a invenção dos aparelhos que exploram esse fenômeno
Igor Waltz




A eletricidade é algo tão presente na vida cotidiana que as pessoas mal atentam para a sua importância. Não param para perceber como um simples aparelho de celular permite a comunicação com pessoas em qualquer lugar do planeta, ou como, graças à tecnologia do radar, os aviões são capazes de percorrer sua rota sem colisões. Para discutir a importância da eletricidade na sociedade atual, o livro Universo elétrico, de David Bodanis, resgata a história desse fenômeno físico, desde as primeiras descobertas até os dias atuais.

Imagine que um belo dia uma pane elétrica geral assole o mundo. O problema seria resolvido nas primeiras horas com algumas velinhas e passatempos para compensar a falta de televisão. Se a crise fosse duradoura, no entanto, a situação logo ficaria traumática. Sem rádio, TV ou computador, não poderíamos receber notícias de lugares próximos; não seria possível ir muito longe de carro, pois os tanques dos postos de gasolina utilizam bombas elétricas; hospitais e aeroportos ficariam inoperantes. A internet ficaria inacessível. Em pouco tempo haveria fome, pois não seria possível estocar alimentos.

A relevância da eletricidade não se limita, porém, apenas ao progresso econômico e tecnológico. Sem a força eletromagnética a vida seria impossível, pois o oxigênio não seria capaz de se fixar na molécula de hemoglobina, as cadeias de DNA se romperiam facilmente e mesmo o Sol seria incapaz de brilhar.

As sucessivas descobertas que permitiram à humanidade entender e dominar o fenômeno da eletricidade são o eixo da narrativa de David Bodanis, professor de história da Universidade de Oxford, na Inglaterra, e autor de bem-sucedidos livros de divulgação científica. O autor explica de forma acessível as leis da eletricidade e mostra como elas viabilizam o funcionamento de diversos aparelhos.

Mas Universo elétrico vai muito além de um simples livro de divulgação científica. Não contente em explicar o desenvolvimento dos aparelhos elétricos, o autor relata ainda a história dos grandes inventores e o contexto social no qual viviam. Tal como em uma obra de literatura, Bodanis descreve histórias como a do escocês Alexander Graham Bell (1847-1922), que inventou o telefone para conquistar o amor de uma bela jovem surda; ou a do também escocês Robert Watson-Watt (1892-1973), que viu nos primeiros estudos sobre o radar a possibilidade de fugir de uma vida tediosa no interior da Inglaterra.

Compreensão incompleta
As primeiras invenções a explorarem a eletricidade, como o motor elétrico, o telégrafo e o telefone, foram feitas antes que a ciência pudesse compreender definitivamente esse fenômeno. O telégrafo, inventado na década de 1830, permitiu uma espécie de globalização precoce: as cidades distantes puderam se sincronizar, o que acabou por influenciar diretamente o mundo dos negócios. Jornais deixaram de se dedicar a fofocas e superficialidades e passaram a trazer noticias de correspondentes estrangeiros. Com a invenção do motor elétrico, elevadores permitiram o surgimento de grandes arranha-céus.

A história da eletricidade se desenvolve mais como uma teia do que de forma linear, e o vai-e-vem de personagens pode confundir o leitor mais distraído. Mas Universo elétrico é um livro cativante, mesmo para os leitores sem grandes conhecimentos sobre ciência. David Bodanis revela em linguagem fácil um mundo que está ao nosso redor o tempo todo, embora muitos não lhe dêem a devida atenção.

Universo elétrico – a impressionante história da eletricidade
David Bodanis (trad.: Paulo Cezar Castanheira)
Rio de Janeiro, 2008, Editora Record
294 páginas
Revista Ciência Hoje

O tempo que o tempo tem – por que o ano tem 12 meses

Astros para contar o tempo
Livro resgata a origem dos calendários e das medidas de tempo e sua ligação com a astronomia
Igor Waltz

A astronomia nasceu da necessidade do homem de contar o tempo. Como o movimento de corpos celestes, principalmente o Sol e a Lua, não sofre a interferência humana, esses astros foram usados desde as primeiras civilizações para marcar a passagem do tempo, seja para prever a época do plantio ou da colheita, seja para comemorar festividades religiosas. A história dessa relação intrínseca entre astronomia e passagem dos dias é o tema do livro O tempo que o tempo tem, de Alexandre Cherman e Fernando Vieira.

O livro é baseado em um curso sobre astronomia e tempo criado pelos autores, que são pesquisadores da Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro. A idéia surgiu no ano 2000, por conta da chegada do novo milênio, quando o assunto se tornou uma febre e ganhou os noticiários. Desde então, os astrônomos ministram o curso todos os anos bissextos.

Na primeira parte, o livro apresenta, em linguagem simples e bem-humorada, as discussões filosóficas sobre o tempo e os conceitos básicos da ciência astronômica. Os autores explicam o funcionamento de movimentos da Terra, como a rotação, em que o planeta gira em torno de si mesmo, e a revolução (que alguns chamam de translação), em que se desloca ao redor do Sol, e de que forma influenciam a contagem do tempo.

Dia sideral
Um calendário nada mais é do que um conjunto arbitrário de regras para organizar o tempo. Nem sempre, porém, essas regras conseguem refletir com exatidão o movimento dos astros. Aqui na Terra, por exemplo, temos a impressão de que o Sol precisa de 24 horas para dar uma volta completa em torno de nosso planeta, o chamado dia solar. Porém, um dia sideral, que é o tempo em que nosso planeta gira em torno de si, dura em torno de 23 horas e 56 minutos.

Pequenas imprecisões como esta podem se acumular ao longo dos anos e se tornar enormes, o que obriga os povos a readaptar suas “folhinhas” de tempos em tempos. A segunda parte do livro aborda as diversas mudanças sofridas desde o calendário inventado pelos antigos romanos até o calendário gregoriano, utilizado por nós atualmente.

Os autores tratam também de outras formas de marcar o tempo, como os calendários judaico e muçulmano, ainda em uso. Também são discutidos sistemas já extintos, como o calendário maia, que tinha unidades de tempo similares às nossas, como o dia e o ano (também com 365 dias), mas também outras mais extensas, como o alautun, que abrangia um período de mais de 63 milhões de anos.

A seção final do livro explica dúvidas comuns na cabeça de muita gente: por que o ano tem 12 meses e a semana, sete dias? E por que o horário de verão começa no Brasil durante a primavera? O tempo que o tempo tem é uma leitura rápida e bastante envolvente, com uma abordagem simples e direta de temas da astronomia com uma influência direta no dia-a-dia. Os autores satisfazem a curiosidade do leitor, com um assunto capaz de prender a atenção de todos.

O tempo que o tempo tem – por que o ano tem 12 meses
e outras curiosidades sobre o calendário
Alexandre Cherman e Fernando Vieira
Rio de Janeiro, 2008, Jorge Zahar Editor
144 páginas
Revista Ciência Hoje

Os soldados brasileiros de Hitler

O Brasil de Hitler
Livro resgata história de centenas de brasileiros que lutaram pela Alemanha na Segunda Guerra Ellen Nemitz

Atraídos pela promessa de uma vida melhor em outro país, muitos jovens deixam a família no Brasil para se aventurar no exterior. Muito comum nos tempos atuais, o fato ocorreu também durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), quando cidadãos brasileiros foram recrutados para lutar em solo alemão ao lado das nações do Eixo, formado principalmente pela Alemanha de Adolf Hitler, pela Itália de Benito Mussolini e pelo Japão.

Mesmo após tantos anos, a história desses brasileiros que lutaram contra a pátria continuava ignorada pela maioria das pessoas. Agora, porém, em pleno século 21, virou tema do livro Os soldados brasileiros de Hitler, de Dennison de Oliveira, do Departamento de História da Universidade Federal do Paraná.
Carteira de membro da Jungvolk, subdivisão da Juventude de Hitler, do combatente brasileiro identificado como Güingo (foto de Dennison de Oliveira, a partir de original cedido pelo entrevistado).

Durante sete anos, Oliveira viajou freqüentemente a São Paulo para entrevistar os veteranos de guerra. Os ex-combatentes do 3º Reich (regime governado por Hitler) exigiram que as conversas não fossem gravadas e que seus verdadeiros nomes fossem mantidos em sigilo. “Isso decorre das ameaças constantes que eles sofrem”, justifica o autor.

O medo que ainda hoje ronda a vida dos sobreviventes da guerra reside no preconceito pelo fato de terem lutado contra o Brasil. Oficialmente, o governo brasileiro entrou na guerra para apoiar os Aliados (França e Reino Unido, entre outras nações). “As pessoas acham que se trata de nazistas perigosos que precisam ser denunciados”, conta o historiador. O livro traz, além de longos depoimentos de cinco ex-combatentes, um panorama completo do mundo antes do conflito, das relações entre Brasil e Alemanha por volta de 1940 e as conseqüências do pós-guerra.

Ao avaliar os fatos históricos, Oliveira deixa algumas opiniões pessoais transparecerem. Em algumas passagens, o autor lança mão da primeira pessoa para contar como foram os primeiros contatos com os entrevistados e dá um tom de relato pessoal ao texto. Ainda assim, procura ser o mais fiel possível ao transcrever o que ouviu durante longas conversas.
O soldado apelidado Der Amerikaner (ao centro) e dois de seus colegas de escola, mortos em combate (foto: Dennison de Oliveira, a partir de original cedido pelo entrevistado).

“Fui muito criticado por não contextualizar os depoimentos”, revela Oliveira. “Mas essa foi a melhor maneira de manter a integridade dos fatos.” Os textos também foram revisados mais de uma vez por todos os depoentes. Nas pouco mais de 100 páginas do livro, algumas ilustrações em preto-e-branco aproximam o leitor do mundo que a obra pretende trazer à tona.

Entre as muitas histórias resgatadas por Oliveira, uma chama a atenção: a de um soldado apelidado Der Amerikaner (o americano) que simplesmente se recusou a defender as forças alemãs. Os motivos principais foram o temor de represálias, por ser considerado ‘traidor da pátria’, e o medo de matar algum amigo que estivesse lutando em favor dos Aliados.

Planos futuros
Durante as pesquisas que realizou para escrever Os soldados brasileiros de Hitler, o historiador da UFPR obteve uma informação preciosa: não só os brasileiros lutaram pela frente alemã, mas também o contrário. Muitos germânicos se alistaram como soldados da Força Expedicionária Brasileira, a FEB, geralmente com o intuito de provar um nacionalismo muitas vezes questionado.

A propósito, essas histórias são o mote do próximo livro de Oliveira, intitulado Os soldados alemães de Vargas. Entre os personagens da obra, estão Max Wolff – melhor combatente brasileiro, considerado herói de guerra – e Bruno Larsen, também protagonista de um fato único. Diante de uma intensa e fracassada campanha para que os combatentes se rendessem, somente Larsen abandonou as tropas brasileiras. O novo livro deve ser publicado ainda em 2008.

Os soldados brasileiros de Hitler
Dennison de Oliveira
Curitiba, 2008, Juruá Editora
116 páginas
Revista Ciência Hoje

História da paz: os tratados que desenharam o planeta

A luta pela paz em retrospectiva
Livro resgata esforços para resolução de conflitos e convivência pacífica ao longo da história
Igor Waltz


Guerras entre nações, corridas armamentistas, degradação da natureza e outras situações de tensão marcaram a história da humanidade, em todas as regiões do nosso planeta. Na contramão desses conflitos, sempre houve personagens que dedicaram sua vida a evitar essas situações e se empenharam para construir um mundo melhor. A trajetória desses homens é o tema do livro História da paz, recém-lançado pela editora Contexto.

Organizado pelo sociólogo e geógrafo Demétrio Magnoli, da Universidade de São Paulo (USP), o livro reúne textos produzidos por autores como as historiadoras Maria Helena Valente Senise e Elaine Senise Barbosa, os diplomatas Celso Lafer e Marcos Azambuja, o deputado Fernando Gabeira ou o jornalista William Waack, entre outros. História da paz estabelece um diálogo com outro livro anteriormente organizado por Magnoli, História das guerras.

O livro aborda os esforços para alcançar a paz em diferentes períodos históricos, desde o Tratado de Tordesilhas (1494) até situações mais recentes, como o Protocolo de Quioto (1997). O livro mostra como a paz é construída não apenas nos intervalos entre guerras, mas também durante elas, ao contrário do que supõe o imaginário coletivo, que opõe de forma excludente os conceitos de guerra e paz.

Mas o livro organizado por Magnoli não se deixa levar por um discurso que banaliza o real sentido desse conceito. A obra mostra como a paz possível não equivale a uma utópica igualdade entre as nações, mas à estabilidade entre elas. Ao longo de suas páginas, é possível perceber que a paz é resultado de árduas negociações diplomáticas e se faz com acordos entre vencedores e derrotados que nem sempre satisfazem a todos e podem abrir caminho para outras situações de conflito.

Tratados de dominação
Esse foi o caso do Tratado de Versalhes (1919), que foi assinado entre os protagonistas da Primeira Guerra Mundial e marcou oficialmente o fim do conflito. Esse tratado impôs uma série de condições humilhantes à derrotada Alemanha – como a perda de suas colônias e o pagamento de duras indenizações pelos prejuízos causados na guerra – que, mais tarde, contribuíram para a ascensão do nazismo no país. Assim também foram os chamados “tratados imperialistas”, que impuseram a dominação européia sobre África e Ásia.

Mas o livro também relata situações em que a segurança do mundo esteve à frente dos interesses das nações, como a assinatura da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (1968) e o Protocolo de Quioto.

O tom acadêmico de alguns artigos pode frustrar o leitor com menos conhecimentos teóricos sobre história e ciência política, mas não compromete a leitura. História da paz é um livro fascinante, principalmente para aqueles que desejam entender como se configurou o mundo em que vivemos. Os autores mostram como foi e é realizado o trabalho de pessoas que fizeram a diferença para construir a civilização atual e mostram que, apesar de muito difícil, o caminho da paz é possível.

História da paz: os tratados que desenharam o planeta
Demétrio Magnoli (org.)
São Paulo, 2008, Contexto
448 paginas
Revista Ciência Hoje