quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A guerra santa revisitada


Por um palmo de chão
Livro organizado por autores catarinenses reúne estudos inéditos sobre o movimento do Contestado

Ellen Nemitz



Imagem clássica do movimento do Contestado, sangrenta disputa por terras entre os estados de Santa Catarina e Paraná que opôs populações locais às forças públicas no início do século 20. A foto mostra um piquete de ‘vaqueanos’, forças civis que combatiam os rebeldes (fotos: Claro Jansson).

Uma sangrenta disputa por terras ocorrida entre 1912 e 1916 na região de fronteira entre o Paraná e Santa Catarina marcou profundamente a história – e a geografia – desses dois estados do Sul brasileiro. Embora a questão social esteja na origem do conflito, fala-se em ‘fanatismo religioso’ ou ‘loucura coletiva’, como apontam os historiadores Márcia Espig e Paulo Pinheiro Machado na apresentação da obra A guerra santa revisitada – Novos estudos sobre o movimento do Contestado, lançada recentemente pela editora da Universidade Federal de Santa Catarina.

O livro, organizado por Espig e Machado, reúne artigos inéditos – e com visões diferentes – sobre o conflito, cujas conseqüências perduram até hoje, como, por exemplo, nas cidades de Rio Negro (PR) e Mafra (SC), divididas após os embates. União da Vitória (PR) e Porto União (SC), antes unificadas e pertencentes ao Paraná, também acabaram separadas.

O movimento do Contestado teve início em uma área onde hoje está o município catarinense de Irani, que começou a ser desbravado no século 19 por colonos vindos principalmente do Rio Grande do Sul. À época da chegada dos primeiros fazendeiros, as terras pertenciam ao município paranaense de Palmas, mas eram reivindicadas por Santa Catarina e também pela vizinha Argentina. Como a primeira batalha ocorreu nos campos de Irani, a 22 de outubro de 1912, pondo fim à vida de sertanejos, caboclos e militares e espalhando pânico pela região, Irani ficou conhecido como ‘berço do Contestado’.




O chefe rebelde Bonifácio Alves dos Santos (conhecido como Bonifácio Papudo, à direita, em primeiro plano) rende-se ao tenente Castelo Branco, do exército brasileiro.

A guerra envolveu rebeldes dos dois estados, que entraram em choque com as polícias locais e, posteriormente, com tropas do governo federal. Para pôr fim ao conflito, que se estendeu por quatro anos e deixou mais de 20 mil mortos, nada menos que metade do contingente do exército brasileiro foi deslocada para a região.

Apesar disso e de o movimento ter se espalhado por uma área de quase 40 mil km 2 , a imprensa da época não deu destaque aos acontecimentos. A I Guerra Mundial, que eclodiu em 1914, ‘roubou a cena’. Segundo Machado, “pouca gente sabe o que foi o movimento do Contestado e quais foram suas conseqüências”.

As informações que embasam os artigos do livro foram extraídas de documentos oficias – ‘ordens do dia’ do exército brasileiro ditadas pelos próprios comandantes das tropas – e de fontes diretas, escritos de pessoas que, de algum modo, tiveram relação com o movimento. Os autores lançaram mão ainda de jornais e outras publicações da época para obter muitas dos dados só agora trazidas a público.

“Há grande variedade de fontes pesquisadas, o que garante riqueza de detalhes dos fatos narrados”, diz Machado. Além de poder informar-se sobre o movimento, o leitor também encontrará na obra várias imagens originais – feitas em preto-e-branco – de soldados, jagunços, políticos e moradores da região do conflito durante o seu desenrolar.

Diferentes ângulos da guerra
A coletânea foi dividida em quatro eixos temáticos – a maneira mais adequada, segundo Machado, para reunir os textos selecionados. A primeira parte, intitulada “Conflitos, compadrio e luta por direitos”, contém três artigos. Neles, os autores falam sobre o impacto do compadrio na região, a luta por terras e as relações da população local com o exército.
Tropas do exército que lutaram na guerra passam por União da Vitória, no Paraná.


A segunda parte – “Milenarismo e memória” – discute questões como messianismo, religiosidade popular e destaca a figura do líder religioso do Contestado, que ficou conhecido como José Maria. O curandeiro Miguel Lucena de Boaventura, seu nome de batismo, foi mistificado pela população local e identificado com outro líder religioso, João Maria, que viveu antes e era tido como santo.

A penúltima parte, "Etnia e discurso regional", trata das etnias envolvidas na guerra – desde caboclos a imigrantes poloneses e alemães –, do discurso regional e da visão que a imprensa da época tinha do movimento. “Devido à cobertura tendenciosa da imprensa, o caboclo passou a ser visto como bandido”, destaca o organizador da obra.

A última parte de A guerra santa revisitada reúne comentários sobre as imagens do conflito e apresenta fotos de Claro Jansson (1877-1954), fotógrafo sueco que morou na região de Três Barras (SC) e União da Vitória na época da guerra. O último texto, de Dorothy Jansson Moretti, é uma apresentação do trabalho de Jansson, seu pai.

A idéia de organizar uma coletânea sobre o movimento do Contestado surgiu em 2003, quando vários historiadores interessados na questão se encontraram em eventos científicos promovidos pela Anpuh, a Associação Nacional de História. Machado e Espig perceberam que a reunião dos vários enfoques dados ao conflito renderia um livro de grande interesse. No início de 2008, o trabalho de seleção dos artigos estava pronto. O título remete à obra A guerra santa no Brasil – O movimento messiânico do Contestado, de 1957, um dos primeiros trabalhos de fôlego sobre o tema, realizado pela socióloga paulista Maria Isaura Pereira de Queiroz.
A guerra santa revisitada – Novos estudos
sobre o movimento do Contestado
Márcia Janet Espig e Paulo Pinheiro Machado (org.)
Florianópolis, 2008, Editora UFSC
331 páginas
Revista Ciência Hoje

sábado, 28 de janeiro de 2012

Troglodita é você! Pequeno guia darwiniano da vida cotidiana


Trogloditas somos nós
Livro traz curiosidades biológicas e mostra como a evolução se manifesta no comportamento humano

Sofia Moutinho

Por que há cada vez mais pessoas míopes no mundo? Por que grávidas têm enjoos? Devemos tomar uma aspirina quando temos febre? Essas e muitas outras perguntas são respondidas no livro Troglodita é você! Pequeno guia darwiniano da vida cotidiana, do pesquisador francês de biologia evolutiva Michel Raymond. Lançada no Brasil pela editora Paz e Terra, a obra descreve e explica, sob a ótica da teoria da evolução, comportamentos humanos que vão desde a preferência por algumas comidas até a orientação sexual.

A fácil leitura desse livro revela a manifestação da evolução humana no cotidiano. Evolução esta que nem sempre é sinônimo de progresso. Como nos conta o autor, a alergia, por exemplo, é algo novo em nossa sociedade. Esse mal, que atinge 40% das crianças apenas na França, é resultado da adaptação humana a um meio limpo. Com a maior higienização e a urbanização a partir do século 19, o nosso corpo deixou de ter contato com uma quantidade de microrganismos suficiente para que o sistema imunológico aprenda a se defender.

Em seus seis capítulos, a obra nos mostra que o homem é um animal altamente especializado, e, mesmo assim, não escapa das regras da biologia evolutiva. Possui, por exemplo, a cultura, que afeta o modo como evolui. É por causa da cultura de cada povo que alguns de nós conseguem beber leite depois de adultos sem problemas, enquanto outros passam mal só de pensar nisso. Curioso? O autor explica isso detalhadamente.

Explicação evolutiva
Tudo nesse livro é esclarecido por meio da evolução. Até mesmo o porquê das meninas gostarem de bonecas enquanto meninos preferem brincar de luta e com carrinhos. Então, se você for um aficionado por Freud ou antropologia provavelmente irá discordar de alguns comentários do autor. Raymond não hesita em tratar de assuntos polêmicos e defende que a homossexualidade é determinada por fatores biológicos e não por uma escolha individual. Ele também nos mostra que toda guerra – e não só a de Troia – tem como causa a disputa por uma mulher.

Ao longo do livro, o leitor irá se deparar com muitas desmistificações que podem parecer “politicamente incorretas” à primeira vista. No entanto, todas as afirmações, mesmo que por vezes irônicas, são cientificamente embasadas. Para não restarem dúvidas, há um espaço no fim do livro cuidadosamente dedicado a notas científicas que aprofundam a explicação sobre os temas tratados em cada capítulo.

Ao final da leitura, o leitor provavelmente não irá ficar chateado caso seja chamado de troglodita. Sim, segundo Raymond, trogloditas somos todos nós. Quando o que está em jogo é a luta pela sobrevivência, um resquício dos trogloditas do passado pode ser de grande ajuda.

Troglodita é você! Pequeno guia darwiniano da vida cotidiana
Michel Raymond
Tradução: Martha Gambini
São Paulo, 2009, editora Paz e Terra
256 páginas
Revista Ciência Hoje

A tribuna da ciência: as Conferências Populares da Glória



Darwinismo carioca
Livro analisa repercussão das ideias de Charles Darwin nos jornais do Rio de Janeiro no século 19

Isabela Fraga

No século 19, no bairro da Glória, no Rio de Janeiro, um ciclo de conferências para a disseminação das artes e da ciência trouxe à pauta popular um tema que já era alvo de polêmica na Europa e nas instituições letradas no Brasil: o darwinismo. Essas preleções não foram ignoradas pela imprensa, e os jornais cariocas tornaram-se veículo de repercussão e sedimentação das ideias nelas expostas.

É esse o tema do livro A tribuna da ciência: as Conferências Populares da Glória e as discussões do darwinismo na imprensa carioca (1873-1880), da historiadora paulista Karoline Carula. A partir de uma extensa pesquisa nos anais da imprensa do Rio de Janeiro do século 19, a autora busca mostrar de que forma esses veículos repercutiram as ideias – nem sempre alinhadas ao pensamento darwinista original – propagadas pelas conferências e sua importância na formação da opinião pública em relação ao conceito de raça.

Para exemplificar como o grande público assimilou a teoria darwinista, Carula fecha seu recorte histórico em 1880, ano de publicação do romance O Mulato, de Aluísio Azevedo. A boa recepção da obra pelas classes mais letradas foi um indício, para a autora, de que tanto as conferências da Glória quanto sua repercussão na imprensa ajudaram a preparar o público leitor para um romance de leitura darwinista.

Linguagem acadêmica
Por ser resultado da tese de mestrado de Carula, defendida na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o livro apresenta muitas características de um texto acadêmico. Nos três capítulos que o compõem, as extensas notas de rodapé, a padronização de referências a teóricos (com o uso de termos em latim como ibidem, que indica a repetição da referência anterior) e a própria linguagem da autora podem cansar o leitor desacostumado ou sem familiaridade com o tema.

Para aqueles, no entanto, que já possuem certo conhecimento sobre as teorias de Darwin ou têm um foco mais direcionado no assunto, A tribuna da ciência se coloca como leitura interessante, tanto por seu lado mais voltado para a história da imprensa quanto pelo viés sociológico da análise.

Mas, acima de tudo, o tema tratado por Carula é de interesse geral, porque pretende responder a uma pergunta importante para compreender a história do pensamento no Brasil: como o processo de racialização da humanidade – que começou a acontecer naquela época – se apoiou em ideias que buscavam mostrar justamente o oposto? Afinal, como afirma a também historiadora Iara Lis Schiavinatto na apresentação do livro, a teoria darwinista é uma “argumentação em favor de uma sociedade de iguais”.

A tribuna da ciência: as Conferências Populares da Glória e
as discussões do darwinismo na imprensa carioca (1873-1880)
Karoline Carula
São Paulo, 2009, Annablume Editora
185 páginas

Revista Ciência Hoje

A goleada de Darwin


Uma partida e tanto
Com analogias ao futebol, livro usa evidências da evolução para rebater argumentos criacionistas

Barbara Marcolini

“Se a batalha entre evolucionismo e criacionismo fosse resolvida em uma partida de futebol, Darwin ganharia de goleada.” É o que afirma o biólogo Sandro de Souza, autor do recém-publicado livro A goleada de Darwin. Com base nas evidências científicas da evolução das espécies, a obra rebate os argumentos criacionistas que ainda hoje tentam pôr em xeque a contribuição do naturalista britânico Charles Darwin para a ciência mundial.

O embate entre evolucionismo e criacionismo, que há mais de um século gera polêmica, é o tema escolhido por Souza em sua estreia no segmento literário e na divulgação científica. A obra surge em meio às comemorações dos 150 anos da publicação do livro A origem das espécies, de Charles Darwin, e à existência de inúmeras manifestações de apoio ao criacionismo no Brasil e no mundo.

“A ideia do livro surgiu depois que escrevi um artigo para o jornal Folha de S. Paulo comentando as declarações da então ministra Marina Silva em defesa do criacionismo”, revela o autor. “Percebi que faltava ao público brasileiro uma obra escrita em português que servisse como uma introdução ao debate.”

Souza, que é especialista em genética e bioinformática e há 20 anos estuda o evolucionismo, passou um ano colhendo dados e informações que contribuíssem para a argumentação do livro. Além de contestar a hipótese criacionista com evidências do trabalho de Darwin e citar exemplos que ilustram a discussão, a obra mostra por que religião e ciência não devem se misturar. Com linguagem acessível, a narrativa agrada tanto a leigos quanto a especialistas.

Duas paixões

Darwinismo hoje
Para engrossar a lista de títulos lançados em comemoração aos 150 anos da publicação de A origem das espécies, chega às livrarias A evolução do Darwinismo, de António Bracinha Vieira, professor de evolução da Universidade Nova de Lisboa e autor de diversos livros sobre o tema. Com texto breve e coeso, Vieira mostra como a ciência tem produzido novas provas que sustentam a teoria da evolução pela seleção natural.


O autor destaca que a lógica evolucionista está presente em nosso dia-a-dia, seja na prevenção e no combate a doenças, nos empreendimentos agropecuários ou nas pesquisas feitas com animais. O livro é resultado da fusão dos textos que serviram de base para duas conferências ministradas pelo professor e conta com um glossário de expressões que facilita sua compreensão pelo leitor comum.

A analogia com o futebol deve-se à união entre as duas paixões do pesquisador. O resultado aparece, por exemplo, no capítulo "O gol contra de Deus", que aborda o argumento do desenho inteligente (uma vertente mais recente do criacionismo), e no apêndice "O golaço de Jones", que reproduz parte da sentença de um juiz norte-americano que refutou o caráter científico do criacionismo.

Uma das discussões presentes no livro diz respeito ao ensino do criacionismo a alunos do Ensino Fundamental. Souza alerta para a frequência com que a teoria tem sido levada às salas de aula em oposição ao evolucionismo e para os efeitos que essa abordagem pode ter sobre uma geração de estudantes. “Isso é um retrocesso. Espero que o livro sirva como um alerta para esse problema terrível”, declara.

Em relação à oposição entre ciência e religião, quem faz o gol é Souza. O autor expõe a opinião de intelectuais, estudiosos e até do papa Bento 16 sobre o assunto, e conclui: “Como dois fenômenos oriundos da mente humana, não há razão para acreditar que a ciência e a religião não possam coexistir em um mesmo indivíduo.”

A goleada de Darwin: sobre o debate criacionismo/ darwinismo
Sandro de Souza
Rio de Janeiro, 2009, Editora Record
224 páginas
A evolução do Darwinismo
António Bracinha Vieira
Rio de Janeiro, 2009, Vieira & Lent
120 páginas
Revista Ciência Hoje

A encruzilhada da nanotecnologia



O outro lado da inovação
Livro discute riscos e desafios associados ao desenvolvimento da nanotecnologia

Isabela Fraga

A nanotecnologia está na moda. Jornais, livros, revistas e artigos acadêmicos têm exaltado de forma entusiasmada o poder revolucionário dessa ciência inovadora que promete mudar a forma como encaramos e administramos medicamentos, exames médicos, a informática, entre outros. Como qualquer novidade, entretanto, a nanotecnologia não é unânime. Sua aplicação apresenta riscos e, por isso, requer ponderação e reflexão.

É justamente esse olhar mais crítico que o físico Peter Schulz demonstra em seu livro A encruzilhada da nanotecnologia: inovação, tecnologia e riscos. Professor da Universidade Estadual de Campinas, Schulz utiliza uma linguagem simples e direta para discutir os riscos da nanotecnologia em diferentes áreas (como a médica e a ambiental) – e, principalmente, os possíveis problemas de considerarmos essa ciência perfeita.

Schulz faz inicialmente uma breve contextualização do tema ao tratar dos conceitos de invenção, inovação e risco, com direito a fartos exemplos históricos de inovações anteriores – como o telefone – e suas repercussões na sociedade.

É no terceiro capítulo (de um total de 18) que o físico começa a tratar especificamente da nanotecnologia. A abordagem de questões como o mercado da nanociência e o seu apelo ao público dá um novo enfoque ao tema, que em geral é analisado somente do ponto de vista técnico e potencialmente revolucionário.

Esse é o diferencial do livro de Schulz: a articulação entre a discussão técnica e o público, com foco na aplicação realista da nanotecnologia. Referências a filmes populares, exemplos de histórias em quadrinhos e de produtos oferecem elementos familiares aos leitores leigos, que em princípio podem não se atrair por temas científicos.

Nem oito, nem oitenta
Mas o autor não se limita a bases históricas ou lúdicas para construir seu argumento de relativização da nanotecnologia. Artigos, opiniões de cientistas e relatórios oficiais recentes são utilizados para exemplificar a posição exagerada, tanto otimista quanto pessimista, em relação aos frutos da nanociência – que ora é encarada como a cura para todos os males, ora como uma bomba-relógio.

A mensagem de Schulz é, afinal, de incerteza. “Ainda não sabemos o que será de fato a nanotecnologia na nossa sociedade”, escreve o físico. Em meio a tantas promessas e projeções pessimistas, só nos cabe buscar avaliar essa ciência da forma mais consciente possível.

Para isso, afirma o autor, é necessário considerar em conjunto os diferentes atores que têm peso sobre o crescimento da nanotecnologia – o público, os cientistas e o governo –, para que essa ciência se desenvolva de maneira saudável e adequada.

A encruzilhada da nanotecnologia: inovação, tecnologia e riscos
Peter Schulz
Rio de Janeiro, 2009, Vieira & Lent
128 páginas

Revista Ciência Hoje

A extinção dos tecnossauros

Êxitos e fracassos
Livro resgata história dos carros voadores e de outras inovações tecnológicas que deram errado

Ivan da Costa Marques

Você quer deixar de ter aquela velha opinião formada sobre questões de ciência, tecnologia e sociedade? O livro A extinção dos tecnossauros, de Nicola Nosengo, oferece uma visita guiada com o intuito de “aproveitar os fracassos, que são momentos de crise de um sistema, para evidenciar os lugares-comuns nos quais se baseia nossa percepção da inovação tecnológica”.

Privilegiando o prazer de contar histórias sobre a elaboração de teorias, ele afirma também que a história de um fracasso é geralmente mais interessante que a de um êxito porque as histórias de sucesso são mais parecidas entre si, uma ideia já celebrizada por Tolstói: “Todas as famílias felizes são parecidas entre si, cada família infeliz é infeliz a seu modo”.

Tal como o arranjo das salas em um museu bem arquitetado, o desfile de tecnologias que não emplacaram está organizado em capítulos de narrativas vivas, mas nem por isso fantasiosas ou historicamente mal referenciadas. Os fracassos de Thomas Edson, seja com o sistema elétrico de registro de voto, patenteado em 1869, seja com o caso mais conhecido do fonógrafo, ressaltam que “um inovador tem sucesso quando acerta em cheio a combinação de elementos [heterogêneos]”.

A ideia de uma separação nítida entre sucesso técnico e fracasso comercial ou ainda a complexidade da configuração de padrões são problematizadas por um olhar atento que enxerga que “no fundo, as coisas não foram tão mal para o sistema de gravação Betamax”.

Correio pneumático e carro elétrico
O caso do correio pneumático, que desapareceu das grandes cidades onde existiu por muitas décadas, mostra que “grandes sistemas podem ser considerados verdadeiramente concretizados apenas quando atingem um ponto [provisional] de não retorno.” O caso da recorrentemente frustrada espera pelo carro elétrico ilustra que não se entra duas vezes no mesmo rio da tecnologia, pois “aquele carro elétrico permaneceu uma promessa não cumprida”.

O fracasso do videofone ressalta que “a ausência de imagem é uma qualidade [e não uma limitação] do telefone.” A inexistência do carro voador é vista como evidência de que “os grandes sistemas técnicos precisam de um complexo aparato legislativo e logístico para funcionar, e é esse fator, só em parte influenciável pelo progresso técnico, o decisivo”.

As batalhas entre o CD e o velho vinil, o long playing, ilustram que “nenhuma indústria, por mais unida e bem organizada que seja, pode impor uma inovação.” O caso da longevidade da fita cassete ilustra uma “espécie de hierarquia informal, [pois ela] se aproxima, mais do que o disco, de uma tecnologia de rede, no sentido de que sua utilidade depende em maior medida da sua difusão, de sua ‘troca’ no interior de uma trama de relações sociais.”

A televisão, o empreendimento econômico do Japão no pós-guerra, as características da escrita em uso no extremo Oriente, a evolução do mercado telefônico no Ocidente, o aparecimento de instituições transnacionais para a padronização de aparelhos eletrônicos configuraram a “primavera tardia do fax.”

Um exame do estabelecimento de padrões mostra como as regras do jogo da concorrência podem se modificar e como a afirmação de um padrão pode “ser determinada mais pelas expectativas sobre o futuro do que pelas considerações sobre o presente.”

Metáforas para uma teoria da inovação
As limitações e mesmo as controvérsias relatadas no livro podem ser melhor percebidas quando se chega ao último capítulo. O autor desenvolve ali uma breve apresentação de “metáforas para uma teoria da inovação”, após o desfile no qual seu faro de perdigueiro soube identificar e apontar a heterogeneidade do mundo em que se configuram “redes sem costura”.

Talvez o uso mais intenso e explícito destas mesmas metáforas durante a descrição dos casos tornasse mais visível também as semelhanças, as maneiras como as coisas se juntam na heterogeneidade. Mas Nicola Nosengo está consciente da opção que fez: “em primeiro lugar vêm as histórias – e o prazer de contá-las –, em seguida vem a especulação teórica...”.

No entanto, além disso, e aí talvez com maiores conseqüências, o último capítulo surpreende o leitor atento ao revelar um anseio por uma “verdadeira essência da tecnologia”, o que leva Nicola Nosengo a concluir o livro singularizando o que considera “provavelmente o mais ambicioso esforço realizado até agora para modelar e compreender o processo de inovação”, mas um esforço que parece trazer em seu bojo, tal qual um cavalo de Troia, marcações e separações pretensamente universais que o restante do livro tanto ajuda a afastar.

Mas isto de maneira alguma tira do livro seu mérito e atração: um texto leve e bem humorado que abre seriamente as portas para o tipo de construtivismo realista-relativista dos “novos” estudos de ciência-tecnologia-sociedade.

A extinção dos tecnossauros – histórias de tecnologias que não emplacaram
Nicola Nosengo (tradução: Regina Silva)
Campinas, 2008, Editora Unicamp
320 páginas

Ivan da Costa Marques
Instituto de Matemática,
Departamento de Ciência da Computação,
Universidade Federal do Rio de Janeiro
10/06/2009
* Texto publicado originalmente no número 2 do Jornal de Resenhas.

Revista Ciência Hoje

Conversa sobre a fé e a ciência

Quando ciência e fé dialogam
O tema é antigo, mas a abordagem surpreende. O teólogo Frei Betto e o astrofísico Marcelo Gleiser mais concordam do que discordam em novo livro que traz um diálogo sobre questões científicas e religiosas.
Gabriela Reznik


O teólogo Frei Betto (à esquerda) e o físico Marcelo Gleiser (à direita) têm visões muitas vezes complementares sobre questões científicas e religiosas no livro ‘Conversa sobre a fé e a ciência’. (fotos: Rose Brasil/ABr – CC BY 2.5; e Marcelo Gleiser)
Discussões sobre ciência e fé não costumam acabar bem. Muitas vezes a dicotomia esconde outra polaridade: o ateu versus o religioso. Mas esse não é o caso do diálogo travado entre o astrofísico Marcelo Gleiser e o teólogo Frei Betto, mediado por Waldemar Falcão no livro Conversa sobre a fé e a ciência.

Gleiser, físico brasileiro radicado nos Estados Unidos, se considera judeu agnóstico; Frei Betto, frade católico, escritor e jornalista nascido e residente no Brasil, vê Deus e espiritualidade como amor e doação. Ambos fazem da meditação uma prática diária. No livro, trazem reflexões consoantes acerca do lugar que esses temas ocupam na sociedade. Muitas vezes, não se sabe quem está em defesa de qual.


Capa do livro ‘Conversa sobre a fé e a ciência’.A narrativa começa com Gleiser e Frei Betto contando suas trajetórias de vida e como, por linhas tortas, receberam os rótulos de homem de ciência e homem de fé.

Gleiser relata que seu primeiro desejo era ser músico, mas, aos 14 e 15 anos, os livros do físico alemão Albert Einstein (1879-1955) o consumiram. O menino desejava experimentar, assim como o cientista, o mistério e o desconhecido. Enquanto Gleiser lia os físicos, Frei Betto, com a mesma idade, se engajava politicamente em encontros periódicos mediados por frades dominicanos e nos quais discutiam teologia, filosofia e temáticas sociais.

O livro, escrito na forma de diálogos, mantém uma linguagem leve e coloquial e nos aproxima dos interlocutores, como se estivéssemos com eles nos jardins do Hotel Santa Teresa, no Rio de Janeiro. A obra foi consumada lá, ao longo de quatro dias, e o fluxo de assuntos ocorre como na troca de ideias cotidiana.

Ao contrário do esperado, é difícil encontrar um ponto de discordância ao longo do diálogoA conversa se encaminha para as supostas divergências e as aproximações entre as ciências – com ênfase para a pluralidade, destacada pelos dois – e a fé. Ao contrário do esperado, é difícil encontrar um ponto de discordância ao longo do diálogo; os argumentos são em geral complementares.

Gleiser tenta desmistificar o estereótipo do cientista como ser mais racional que os demais e vê, em sua atividade, uma relação espiritual com a natureza. “Não existe uma incompatibilidade entre espiritualidade e ciência”, afirma. E explica: “Muito pelo contrário, o cientista é uma pessoa que dedica toda uma vida ao estudo da natureza, justamente porque é apaixonado por ela. Senão qual seria a graça?”

Relações de poder
Uma das abordagens interessantes do livro diz respeito a como a relação da ciência e da fé com o poder se transformou ao longo dos séculos na sociedade. Na Idade Média, a fé regia a vida e os valores. Exemplo disso é que a inquisição medieval impediu que inúmeros conhecimentos científicos viessem à tona, como foi o caso da observação de que a Terra girava ao redor do Sol, feita pelo cientista italiano Galileu Galilei (1564-1642), que foi condenado à prisão domiciliar e impedido de divulgar sua obra.


A valorização da fé durante a Idade Média foi responsável por impedir a divulgação de conhecimentos científicos para a sociedade, como a observação de que a Terra girava ao redor do Sol feita por Galileu Galilei (retratado na tela de Justus Sustermans, de 1636).Na modernidade, a racionalidade se sobrepôs à fé cristã e assumiu o topo de um pedestal. Foi nesse contexto que a ciência, como instituição, se constituiu. Ter conhecimento passou a ser sinônimo de ter poder, controle e potencial de transformação.

Hoje, um dos paradigmas que regem nosso modo de vida é o mercado. A ciência e a fé, como instituições, estariam sujeitas à mercantilização de seus serviços e diante de uma crise ética. Gleiser e Betto analisam longamente essa questão, ponderando entre os benefícios que a ciência traz para a vida cotidiana e as diretrizes que ela assume devido a interesses de mercado.

Frei Betto, que já foi assessor especial do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e coordenador do programa Fome Zero, reforça o viés político do diálogo, afirmando que, apesar dos avanços científicos e tecnológicos ocorridos desde o período medieval, a socialização dessas conquistas não ocorreu.

Gleiser e Frei Betto não se furtam de falar sobre o fundamentalismo, postura muitas vezes responsável por fazer o embate entre ciência e fé terminar em briga. “Nós precisamos baixar a bola, ter humildade; a falta de humildade leva ao fundamentalismo”, analisa Frei Betto.

Independentemente das convicções de cada um, Frei Betto e Marcelo Gleiser mostram, em Conversa sobre a fé e a ciência, que esses dois mundos podem, sim, dialogar. “Temos que desenvolver, por meio da ciência, a busca da verdade pelos caminhos da dúvida e a busca de Deus pelo caminho da tolerância”, pondera o frade.

No último capítulo do livro, Gleiser filosofa sobre a ligação intrínseca entre ciência e fé: “Aprendemos que somos feitos de poeira de estrelas, que estamos no cosmo e o universo está em nós. Para mim, essa união é profundamente espiritual e nos foi revelada pela ciência.”

Conversa sobre a fé e a ciência
Frei Betto, Marcelo Gleiser e Waldemar Falcão
Rio de Janeiro, 2011, Editora Agir
334 páginas


Revista Ciência Hoje