quinta-feira, 27 de setembro de 2018

O remanescente – volume um: O tempo no exílio


Autor recompõe história de seus antepassados a partir da descoberta de documentos de família

Historiador da arte Rafael Cardoso lança romance baseado na vida do bisavô, Hugo Simon


Numa suntuosa mansão berlinense, os elegantes convidados desfilam sorrisos, fama e sobrenomes. O ano é 1930, e estamos em plena República de Weimar. Os donos da requintada casa atendem pelos nomes de Hugo e Gertrud Simon. Ele é banqueiro, ministro das Finanças da Prússia, então o estado que correspondia a 60% do território nacional. É, também, um conhecido colecionador de arte.

Entre os convidados estão o escultor Aristide Maillol, homenageado do dia, aproveitando sua passagem por Berlim; o físico Albert Einstein, em torno de quem se avolumam curiosidades relativas à sua ideia de religiosidade; o conde Harry Kessler, diplomata, editor, incentivador de diversas artes e um dos primeiros a vislumbrar a ideia de uma Europa unificada.

A cena desse almoço, composta quase como se fosse a sequência de abertura de um longa-metragem, compõe o primeiro capítulo de O remanescente – O tempo no exílio, volume um do romance de estreia do historiador da arte Rafael Cardoso. Na descrição da cena, parece que as palavras evocam o clima e suas variantes, da tensão da anfitriã para que tudo dê certo, passando pelo arranjo da mesa (como não lembrar de O leopardo, de Luchino Visconti?), ao silêncio nervoso após os questionamentos a Einstein.

Como Maillol e Einstein, Simon foi um personagem verídico, bisavô do autor. Ao revirar antigos documentos de família, Cardoso foi puxando os fios da história dos seus, que começou a mudar pouco tempo depois desse fatídico almoço. Nos anos seguintes, a tensão foi crescente, explodiu com a ascensão de Hitler, o que obrigou Simon, a mulher, as duas filhas e o genro a fugirem, primeiro para a França, depois para o Brasil, não sem viver as incertezas do embarque e uma rota de desencontros.

Para trás, havia ficado a fortuna da família, não só em dinheiro mas também em obras de arte. Assim como Cardoso, muitos outros membros de famílias escorraçadas da Alemanha e de outros países europeus durante a guerra, então donos legítimos de obras de arte tungadas pelo nazismo e por oportunistas de plantão, vão surgindo e contando suas histórias, como Simon Goodman (Degas, Renoir e o Relógio de Orfeu, ver ao fim do texto) ou Maria Altmann, vivida por Helen Mirren em A dama dourada (2015, de Simon Curtis).

Mais de 70 anos depois do final da Segunda Guerra, são histórias que continuam a sair dos escombros reais e simbólicos que marcaram a vida de tanta gente. Ainda que hoje em dia pareçam não ter força suficiente para evitar que se produzam novas catástrofes, permitem, como em O remanescente, que se conte boa parte da história do século 20. No livro de Cardoso, temos ainda muito da luta contra o nazismo na América do Sul. Nem sempre com a mesma força da sequência inicial, mas sempre mantendo o interesse vivo na história. Ou melhor, nas histórias: a pessoal e a coletiva.

O remanescente – volume um: O tempo no exílio
Autor: Rafael Cardoso
Editora: Companhia das Letras
496 páginas
Preço: R$ 59,90 / e-book: R$ 39,90

Erico Verissimo, escritor do mundo: circulação literária, cosmopolitismo e relações interamericanas



Erico Verissimo e a forma do playground iceberg, na leitura de C. Minchillo

Ieda Lebensztayn
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo / São Paulo, Brasil.

MINCHILLO, C. C.. Erico Verissimo, escritor do mundo: circulação literária, cosmopolitismo e relações interamericanas. São Paulo: Edusp, 2015.

Falta uma tristeza de menino bom

caminhando entre adultos

na esperança da justiça

que tarda - como tarda!

a clarear o mundo.

(Carlos Drummond de Andrade, "A falta de Erico Verissimo", Discurso de primavera e algumas sombras (1977))

Onde carros são incapazes de atropelar, cobras não mordem, crianças anãs, sardentas, aprendem a conviver com as diferenças, todas carecas, um olho preto e o outro azul? Idealizado por Graciliano Ramos em 1937 ao sair da prisão, com o inferno nos olhos e a cabeça raspada, tal mundo foi o céu, mesmo efêmero, de Raimundo Pelado, que sofria caçoadas por ser diferente. E quem deu a público em livro A Terra dos Meninos Pelados (Ramos, 1939), pela editora Globo, foi Erico Verissimo, que, além de romancista, atuou como editor, também tradutor, professor, palestrante e burocrata da diplomacia (diretor do Departamento Cultural da União Pan-Americana).

Tal fato - divulgar em livro um ideal humanista, carregado do respeito entre as pessoas e da consciência dos limites da realidade - é evocado aqui como síntese da trajetória de Erico Verissimo (1905-1975), cujos humanismo e angústias Carlos Minchillo acompanha, num estudo realizado com paixão e seriedade.

O título do livro, Erico Verissimo, escritor do mundo: circulação literária, cosmopolitismo e relações interamericanas, concentra os elementos da ambiguidade experienciada pelo romancista entre as faces ética e imperialista presentes no cosmopolitismo. E o crítico apreende momentos de inflexão em que tal ambiguidade se adensa em conflitos, apresentando-os aos leitores com precisão e clareza, ancoradas em seu vasto conhecimento da obra e do acervo do escritor, que consta do Instituto Moreira Salles (IMS) no Rio de Janeiro.

Veja-se que, em "escritor do mundo", o mundo é o objeto da escrita: observador, Erico buscou conhecê-lo, compreendê-lo e nele projetou seus anseios, dando forma a sua perspectiva ao criar seu mundo ficcional; ao mesmo tempo, o mundo é o lugar vasto, o plano para além do nacional, a que o artista se empenhou por pertencer. Aqui já se está na órbita do cosmopolitismo, e a própria palavra carrega duplicidade. Cosmopolita é etimologicamente o cidadão do mundo, aludindo, por um lado, a um teor de ética, de relações respeitosas em qualquer lugar; por outro, o cosmopolitismo pode significar a perda de uma identidade original, em nome de um artificialismo e de interesses consumistas de grandes centros, e daqui decorrem os sentidos negativos do imperialismo. Entender essas contradições do cosmopolitismo na trajetória de Erico Verissimo e a configuração delas em sua obra move a pesquisa e a reflexão exemplares de Minchillo.

Junto com o título do livro, a epígrafe escolhida dá a dimensão do humanismo que marca o cosmopolitismo de Verissimo, afinal o "escritor do mundo" se define como um contador de histórias, afeito a compreender figuras humanas, situadas num espaço e momento histórico, marcadas por memórias, por inquietações do presente e por possibilidades de diálogo com o outro e de transformações: "Ninguém pode falar de ninguém sem contar uma história. Nenhuma figura humana pode ser estudada em termos literários num vácuo, pois ela pertence a um tempo e a um espaço, tem um passado, vive um presente. É também um contínuo devir, um processo transitivo e não um produto acabado".1

Contar histórias é a forma por meio da qual Erico Verissimo se lança a representar a realidade, expressando suas angústias ante os conflitos humanos e abrindo-se à comunicação com o outro. Essa formulação, que se pode projetar da epígrafe para o conjunto do estudo de Carlos Minchillo, tem como pressuposto crítico, aprendido de ensaios teóricos e analítico-interpretativos de Alfredo Bosi (1991, 2006, 2009), as quatro vertentes da obra de arte, cuja leitura, antidogmática, perfaz o círculo hermenêutico: a vertente de construção formal, a de representação histórico-social, a de expressão subjetiva e a da recepção crítica, de transitividade com o leitor.

A originalidade da abordagem de Carlos Minchillo advém de centrar-se em obras cujos enredos se situam para além das fronteiras do Brasil: Saga (1940), O senhor embaixador (1965) e O prisioneiro (1967). Compostas num intervalo de 27 anos, acompanham continuidades e mudanças do olhar e dos sentimentos de Erico Verissimo em relação aos contextos históricos e espaciais representados, suas esperanças e decepções. Nesse sentido, cumpre assinalar que, resultado do talento e empenho de Minchillo como pesquisador de arquivos e intérprete de textos literários e de seus contextos históricos, quer de sociabilidade intelectual, quer de conflitos políticos nacionais e internacionais, o livro Erico Verissimo, escritor do mundo combina organicamente vários aspectos analíticos, voltados para o eixo cosmopolitismo/humanismo, que decerto atrairão o interesse do público: uma depurada leitura dos romances mencionados de Verissimo, com incursões também por anteriores, como Clarissa (1933), Caminhos cruzados (1935), Música ao longe (1936) e Um lugar ao sol (1936), e pelas obras México (1957), relato de viagem, e Brazilian Literature: an Outline (1945), compêndio de literatura; uma pesquisa atenta de sua correspondência ativa e passiva, presente no acervo do IMS; o evocar de passagens dos volumes de memórias Solo de clarineta (1973, 1976) e da biografia Um certo Henrique Bertaso (1972); uma comparação entre os dois livros de viagem aos Estados Unidos, Gato preto em campo de neve (1941) e A volta do gato preto (1943); diálogos com a fortuna crítica do escritor; reflexões, com embasamento nos romances e em estudos historiográficos, sobre os anos da Guerra Civil Espanhola, da Segunda Guerra Mundial, da guerra fria, as tensões sociais e políticas dos países latino-americanos, a questão racial dos negros norte-americanos; uma discussão a respeito do mercado editorial e da recepção crítica da literatura brasileira.

Em especial, o movimento comparativo entre os dois livros de viagem aos Estados Unidos dá a medida das referidas mudanças de matizes pelas quais passou Erico Verissimo. É perspicaz o título da seção referente a esse cotejo: "De volta à América ou impressões de um gato escaldado". Minchillo detecta, entre Gato preto em campo de neve (1941) e A volta do gato preto (1943), o tom menos deslumbrado do escritor, e faz conjecturas quanto às motivações que o tornaram gato escaldado: sugere desgostos de Verissimo com a situação política e intelectual brasileira durante o Estado Novo, sua percepção de aspectos problemáticos dos Estados Unidos, o envolvimento emocional com a brutalidade da guerra, a decepção com as promessas da política de boa vizinhança.

Esse ponto de inflexão a partir dos dois relatos de viagens aos Estados Unidos define o terceiro capítulo do livro de Minchillo, "Um camelô do pan-americanismo": depreendendo as hesitações de Verissimo quanto a tal função de camelô, de promotor da boa vizinhança, o crítico observa que o senso de esperança, marca do escritor, passava a ser ambíguo. Retomar aqui esse ponto de inflexão possibilita lançar luz ao todo do livro. Ele se organiza em quatro capítulos, que justamente apresentam e adensam faces dessa ambiguidade de Erico Verissimo entre adesão e distanciamento em sua experiência fora do Brasil.

Significativamente intitulado "O escritor com um pé lá fora", o primeiro capítulo, situando a posição excêntrica de Erico nas letras brasileiras dos anos 1930 e 1940, nem modernista nem regionalista, sublinha a sua sensibilidade cosmopolita: como escritor, tradutor, editor e intelectual itinerante, atuou na interface do local e do internacional. Tanto em seus textos como em suas atividades no exterior, contribuiu para a abertura do romance brasileiro ao cenário mundial. Minchillo nos informa que, dos seis romances brasileiros traduzidos e publicados nos Estados Unidos durante a década de 1940, três eram de Verissimo: Caminhos cruzados, O resto é silêncio e Olhai os lírios do campo. E sugere um paralelo, depois retomado, com Monteiro Lobato, que merece destaque: ambos os escritores foram best-sellers, dedicaram-se ao trabalho de editores, conscientes do valor mercadológico dos livros e de seu valor artístico, necessários para a formação cultural brasileira, e voltaram o olhar para a importância dos Estados Unidos no cenário mundial.

Retomando aqui o pressuposto hermenêutico das quatro dimensões da arte, é preciso salientar algumas imagens analisadas por Minchillo, que incitam a buscar os livros de Verissimo: os círculos de giz, o iceberg, o playground, o prédio-fóssil. Elas constituem eixos de construção formal dos romances, em que se amalgamam a expressão de conflitos subjetivos e a representação de relações sócio-históricas.

No segundo capítulo, "A modernidade sitiada: trajetórias e deambulações nos primeiros romances de Erico Verissimo", Minchillo se detém em Clarissa, Um lugar ao sol e Saga, acompanhando, especialmente a partir das imagens do aquário, do círculo de giz e da engrenagem capitalista, as oscilações das personagens entre imobilismo e abertura para o outro, para os homens em guerra. A leitura dessas obras, que constituem um "romance-rio", lhe permite identificar como o escritor caminhava para uma "percepção mais complexa dos liames sociais e históricos em jogo nas atitudes humanas".

E, depois da referida análise das mudanças de Erico ao longo dos dois relatos de viagem aos Estados Unidos, o quarto capítulo, "O império, a guerrilha e o humanismo destroçado", desvela a intensificação de seu viés crítico contra o imperialismo e o neocolonialismo. Forte, a expressão "humanismo destroçado" traduz a descrença que Minchillo reconhece no escritor depois da terceira estada em solo norte-americano, entre 1953 e 1956, como diretor do Departamento Cultural da União Pan-Americana. Tem então lugar o estudo de México, O Senhor Embaixador e O prisioneiro, em que se destacam vários momentos analítico-interpretativos.

Do segundo desses livros sobressai a imagem do iceberg, que garante a Minchillo observar como se afinou a percepção da realidade de Erico, de idealista a desconfiada. Imagem "poderosa", o iceberg é uma forma que representa sua consciência de existirem, sob os fatos visíveis, motivações sociais e subjetivas submersas, um "torvo oceano de interesses políticos e econômicos, egoísmos e apetites nacionais e individuais", nas palavras do personagem William B. Godkin, jornalista especializado em assuntos latino-americanos. Também a imagem do subsolo do playground indica que o jardim ocidental é ilusório, fermenta cemitérios. Em O Senhor Embaixador, a comunhão diplomática não passa de superficialidade, ponta de um iceberg a sinalizar a consciência trágica de que a política de boa vizinhança e o colorido cosmopolita escondem interesses financeiros, tensão racial, violência, barbárie.

Igualmente a análise de imagens e figuras de O prisioneiro prende a atenção do leitor: Minchillo surpreende, na descrição de um prédio cor de osso onde ficavam oficiais do exército norte-americano solteiros, a figuração de um fóssil de silenciada hecatombe - representação crítica e expressão angustiosa da guerra do Vietnã. O crítico salienta ser a doença a marca das personagens desse romance (a professora francesa, a prostituta K, o tenente), forma a conjugar a esfera privada e a situação (neo)colonial: os dramas psicológicos estão entrelaçados à questão política, bélica. Com atualidade assustadora, as questões de terrorismo, intolerância, preconceito racial e violência culminam numa imagem do sem saída: o que parecia um livro era na verdade combustível de um suicida.

Nas "Considerações finais", Minchillo retoma a reflexão quanto à quarta vertente das obras de arte, da transitividade com o leitor. Se as três vertentes hermenêuticas foram apreendidas de maneira fecunda por Alfredo Bosi a partir da fortuna crítica machadiana, também seu olhar para a quarta vertente encontra inspiração em estudo sobre Machado de Assis: Os leitores de Machado de Assis: o romance machadiano e o público de literatura no século 19, de Hélio de Seixas Guimarães (2012), o orientador da tese de doutorado que originou o livro de Minchillo. Enriquecido agora da pesquisa e das análises a respeito da trajetória de Erico Verissimo, repõe-se o problema crítico de compreender os fatores das oscilações da recepção da literatura do romancista entre momentos de grande alcance nacional e internacional e outros de esquecimento; além dos critérios relativos à forma literária, tanto o vínculo com os Estados Unidos como o socialismo apartidário podem ter despertado resistência ou atração. Minchillo partilha com o leitor incertezas e caminhos para pensar sobre as motivações que interferem na comunicação da arte com o público - as questões de gosto, a construção da universalidade, o valor literário, condições históricas, linguísticas, culturais, posições ideológicas, interesses editoriais, relações de sociabilidade, a atuação do escritor, da crítica e da imprensa.

Conforme Kátia Gerab Baggio observa no esclarecedor prefácio do livro, Carlos Minchillo fez uma aposta arriscada, porém exitosa, ao deixar de lado a trilogia O tempo e o vento e se debruçar sobre a experiência cosmopolita do escritor. Essa aposta num viés original resultou num estudo consistente e com força de atualidade, voz contra as violências do mundo. Isso porque pautado pela tradição crítica, pela própria obra de Verissimo e pelo seu desejo de internacionalização da literatura brasileira - conjunto de fatores que, numa síntese significativa, permitem a Minchillo justificar a assinatura sem acentos do nome do escritor.

Assim, além de contribuir para a fortuna de Erico Verissimo e para os estudos das relações interamericanas sobretudo a partir dos anos 1940, o livro de Carlos Minchillo, ao tomar como problema os impasses vividos e configurados em arte por um escritor brasileiro no exterior, entre o ímpeto cosmopolita e a consciência anti-imperialista, indaga eticamente pelo papel da literatura em meio aos interesses econômicos dos homens e aos conflitos políticos das nações. Instiga a tarefa hermenêutica: a conhecer e compreender melhor as criações de um escritor, a (re)ver a história, a encontrar imagens que falem contra os preconceitos e a barbárie. Instiga a desentranhar, de uma imagem, de uma palavra, de um escritor aparentemente gastos, significados renovados (Silva, 1996, p.53-66), mesmo que devido à repetição trágica da história. Como a lâmpada acesa por Erico Verissimo (2005, p.65): "Desde que, adulto, comecei a escrever romances, tem-me animado até hoje a ideia de que o menos que um escritor pode fazer, numa época de atrocidades e injustiças como a nossa, é acender a sua lâmpada, fazer luz sobre a realidade de seu mundo, evitando que sobre ele caia a escuridão, propícia aos ladrões, aos assassinos e aos tiranos. Sim, segurar a lâmpada, a despeito da náusea e do horror" (apud p.247).


NOTA
Erico Verissimo em entrevista a João Alves das Neves, "Erico Verissimo, o Solo da Liberdade", Banas, São Paulo, n.1069, p.41-7, 7 out. 1974, apud Minchillo (2015, p.19).

REFERÊNCIAS

BOSI, A. Reflexões sobre a arte. 4.ed. São Paulo: Ática, 1991 

_______. Brás Cubas em três versões. São Paulo: Cia. das Letras, 2006. 

_______. Machado de Assis na encruzilhada dos caminhos da crítica. Machado de Assis em Linha, ano 2, n.4, dez. 2009. Disponível em: <http://machadodeassis.fflch.usp.br/node/12>. Acesso em: 22 nov. 2015. 

GUIMARÃES, H. de S. Os leitores de Machado de Assis: o romance machadiano e o público de literatura no século 19. 2.ed. São Paulo: Nankin; Edusp, 2012. 

MINCHILLO, C. C. Erico Verissimo, escritor do mundo: circulação literária, cosmopolitismo e relações interamericanas. São Paulo: Edusp, 2015. 

RAMOS, G. A Terra dos Meninos Pelados. Ilustrações de Nelson Boeira Faedrich. Porto Alegre: Globo, 1939.

SILVA, F. L. e. A dimensão ética da palavra. Tempo Social: Revista de Sociologia da USP, São Paulo, v.8, p.53-66, 1996.

VERISSIMO, E. Solo de clarineta. São Paulo: Cia. das Letras, 2005. v.1, p. 65.

Ieda Lebensztayn é pesquisadora de pós-doutorado na Biblioteca Brasiliana Mindlin (BBM-USP), Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (Processo CNPq 166032/2015-8).

Revista Estudos Avançados - USP

A demanda do Santo Graal: o manuscrito de Heidelberg


Ana Paula Tavares Magalhães
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo / São Paulo, Brasil.

BACCEGA, M., A demanda do Santo Graal: o manuscrito de Heidelberg. São Paulo: Hedra, 2015.

Uma das características mais emblemáticas da literatura medieval é aquilo que Paul Zumthor (1978) denomina "ausência de convenção de ficcionalidade". As relações entre as narrativas e o mundo concreto se operam pela mediação do elemento moral, o qual confere lógica ao discurso e garante sua viabilidade perante o público receptor. Por essa razão, o elemento que rompe com a lógica da natureza não destoa no conjunto da narrativa, devendo, antes, reforçá-lo. Quando os cavaleiros de Artur deparam com uma coluna de mármore que flutua, tendo presa a si uma espada, ocorre uma automática naturalização do "maravilhoso". Esse atua no sentido de reforçar uma narrativa que tem como objetivo antes a prova da honra (honor) do que o critério da verossimilhança.1 Trata-se de um conjunto complexo de conteúdos oriundos de tradições diversas, catalisados em um éthos cristão, que busca - e negocia, mediante um processo de acomodações - sua hegemonia nas sociedades da Idade Média Central.

Ao longo de cerca de um século, muitos estudiosos dedicaram-se à chamada "matéria da Bretanha" - conjunto de conteúdos oriundo de tradições ancestrais, radicadas nas ilhas da Grã-Bretanha, e apropriadas pela matriz cristã. Estudos em disciplinas de Antropologia, Filologia, Psicologia, História, entre outros, levaram a uma grande produção bibliográfica, na qual, em meados dos anos 1980, o leitor diletante não conseguiria discernir a pesquisa de bases científicas da pura especulação. Nos últimos anos, o tratamento do tema passou por algumas mudanças - dentre elas, uma maior ênfase no corpus documental enquanto fonte histórica, além de pesquisas privilegiando a produção do discurso em si - com sua técnica, seus recursos de linguagem, sua intencionalidade, sua recepção social. Importantes traduções, de diversos manuscritos, foram elaboradas, com ênfase para A demanda do Santo Graal. Sua narrativa é preponderante porque se fundamenta na tradição cristã e crística - que coloca o cálice da consagração como prêmio atribuído ao cristão perfeito. O cálice é a representação da própria paixão de Cristo, evento central e fundador do cristianismo. Mas sua conquista, ainda que levada a cabo por um homem só, deve superar o plano individual e acarretar na salvação de toda a comunidade cristã. Os manuscritos proliferaram em diversas línguas, a partir da circulação da matéria em ambientes laicos e clericais. Uma importante publicação, de Heitor Megale (2008), traz uma edição, comentada de forma muitíssimo competente, da tradução portuguesa d'A demanda do Santo Graal, considerada o texto mais completo da segunda prosificação dos romances arturianos (meados do século XIII), e que se encontra no códice português da Biblioteca Nacional de Viena. Ciente do significado do escrito, Megale ressalta a persistência do mito arturiano em Portugal no plano de uma longa duração - mediante apropriações e ressignificações.2

A edição que agora se apresenta é fruto de grande erudição e exercício de crítica documental. A demanda do Santo Graal: o manuscrito de Heidelberg, publicado em 2015, pela Hedra (São Paulo), tem tradução e texto crítico de Marcus Baccega, pesquisador nos campos de História da Cultura e da Religião, e com ampla formação em Humanidades. O manuscrito d'A demanda do Santo Graal alemã (Die Suche nach dem Gral) compõe, juntamente com o manuscrito d'A morte do rei Artur (Der Todd es Königs Artus), a terceira parte do Códice 147 da Biblioteca Palatina Germânica de Heidelberg. Trata-se de um conjunto que se baseia nos manuscritos franceses da chamada primeira prosificação, diferentemente do manuscrito português de que se ocupou Megale. A esse ciclo dá-se o nome de Vulgata. O autor alude, inclusive, à complexidade da documentação, uma vez que o códice em questão, embora contenha, majoritariamente, manuscritos produzidos na segunda metade do século XIII, só se consolidou no século XV, tendo, ainda, sofrido interpolações ao longo do século XVI.

O pendor do historiador condiciona, naturalmente, uma edição/tradução que busca preservar as características do documento, procurando manter proximidade das estruturas originais de escrita. Ressaltamos esse aspecto a fim de sublinhar os objetivos do trabalho, bem como a linha teórico-metodológica que orienta sua produção. Se a obra de Megale preencheu as lacunas de um texto por vezes truncado e lhe conferiu fluidez - trabalho literário de primeira grandeza, único, excelente na elaboração de sua proposta -, a obra de Baccega procurou manter - na medida em que a tradução do alemão o permitia - os conflitos textuais, preenchendo apenas parcialmente as lacunas identificadas. O texto parece, muitas vezes, carecer da lógica que a leitura contemporânea demanda; prevalece, contudo, o lógos de uma determinada visão - do mundo e do homem - que se expressa por uma forma diferente da nossa: a um conteúdo destituído de convenção ficcional corresponde uma forma que expressa necessidades igualmente específicas. Por essa razão, acreditamos que a obra de Baccega é complementar à de Megale, na medida em que se serve de um manuscrito diferente, baseado em matriz diversa, sob outra cultura/língua, e, por fim, sob uma nova perspectiva de análise e tratamento. A compreensão do leitor não é, de maneira nenhuma, comprometida por esse recurso, embora o estranhamento inicial seja inevitável. A experiência da leitura revela, por fim, uma civilização em sua totalidade - seus modos de agir e reagir; seus medos e destemores; aquilo que diz e aquilo que escolhe calar; aquilo que valoriza e aquilo que condena.

A Demanda de Baccega reúne, portanto, aspectos de princípio e de fim. Trata-se de um trabalho de enorme erudição no qual foi empenhado louvável esforço para a reconstituição de partes de um universo, que se nos apresenta como vivo, pulsante; nesse sentido, podemos afirmar que a obra é fim, conclusão, superação crítica de um diálogo do historiador com a fonte. Por outro lado, a obra é, ainda, a própria fonte - traduzida, disponibilizada ao leitor em língua portuguesa -, e carrega os dilemas de personagens e situações - que são também os impasses de uma sociedade; por essa razão, a obra é princípio, ou seja, documento do qual outros historiadores poderão se apropriar, sob sua própria perspectiva de análise, para a produção de novas historiografias. O livro divide-se em duas grandes seções, sendo a primeira a tradução da Demanda do manuscrito de Heidelberg, e a segunda, um apêndice intitulado "O Santo Graal, o 'Ciclo de Artur' e o mundo moderno". Esse último consiste em um texto de caráter analítico e explicativo, no qual o autor elabora uma crítica ao documento, procurando traçar suas origens, trajetória, interferências, produção, reprodução e recepção. Além disso, busca-se estabelecer o lugar do texto no contexto de sua produção, o que resulta em importantes considerações sobre a Idade Média e suas autorrepresentações. A tradução apresenta-se em oito capítulos, nos quais é possível observar um significativo trânsito de personagens célebres em várias narrativas dos ciclos arturianos. Trata-se de uma matriz, amplamente conhecida e partilhada entre escritores e leitores/ouvintes, e que permitia que aspectos considerados "familiares" retornassem às narrativas e fossem acolhidos como "naturais" daquele texto. A dinâmica da produção e circulação desse conjunto denominado, com propriedade, "ciclo" implicava a leitura/oitiva de textos prévios pelas gerações posteriores, o que resultava na recepção de uma literatura específica, cujas regras eram previamente conhecidas e acordadas. Por isso, voltamos a encontrar, aqui, tipos como Percival - ou Parsifal -, o homem puro, mas que deve percorrer um longo caminho; Galvão - ou Gawin - o homem de corte, nobre por excelência; e o próprio Lancelot, o cavaleiro destinado ao Graal, mas dele afastado pela mácula do pecado.

Trata-se de um conjunto de heróis em processo de sacralização, o que corresponde à progressiva cristianização pela qual passaram as matérias das narrativas - a chamada "matéria da Bretanha". Virtudes consideradas cristãs - a humildade, a justiça, a coragem, entre outras - e incorporadas à mentalidade social ao longo de muitas gerações passaram a caracterizar, por excelência, os heróis arturianos. Os modelos sociais valorizados foram transmitidos pelo discurso clerical e reforçados pela narrativa laica - caso dos ciclos arturianos. O herói a cavalo reúne as características relacionadas por São Bernardo de Claraval, no século XII, ao compor o Elogio da Nova Milícia. Esse foi composto com o fim de louvar os monges-cavaleiros da Ordem dos Templários, mas acabou por legar um modelo literário em que as duas figuras - o monge e o cavaleiro - se aproximaram e associaram. A narrativa dos feitos heroicos passou, paulatinamente, a integrar um cânone discursivo cristão, e a figura do herói a cavalo - o cavaleiro - começou a flertar abertamente com a santidade. Mas a santidade implícita na missão do Graal é também a santidade recalcitrante e conflituosa de muitas vidas de santos da Idade Média: ela tende a valorizar um vir-a-ser, e serve-se da noção de que o perfeito cavaleiro só pode ser construído no percurso de sua busca. Assim é para o peregrino, representação da condição humana na terra, cujo fim se encontra nos meios, a saber, o trajeto - a peregrinação.

O Lancelot-peregrino que salta do texto de Baccega é um homem contrito. Cavaleiro que, tendo caído pelo pecado, manteve a honra (honor); fora o melhor - doravante, é penitente e peregrino. Sua ação orienta-o ao fim, mas ele se sabe não merecedor da recompensa - deve propiciá-la a outro(s). A recompensa - a (re)conquista do Graal - é uma obra em comum. Sua consecução, em que pesem os atributos do indivíduo que deve executá-la ("é uma aventura maravilhosa, que não deve ser levada ao fim, a não ser que o faça aquele que lá deve superar, com bem e com cavalaria, todos os companheiros da Távola Redonda"; p.339), supõe uma finalidade social, um bem comum. Por essa razão, o reino e a sociedade do Graal possuem finalidade salvífica: a conquista do objeto material implica a afluência do bem imaterial, a salvação das almas. Nesse sentido, Artur é o bom rei cristão, que, ao comandar a Demanda, atua em proveito da salus populi. E Lancelot, o melhor cavaleiro da Távola do Rei - mas que perdeu a capacidade de tocar o Graal - é um elemento que atua em prol do conciliarismo: o corpo de conselheiros do rei assume papel fundamental - prevalente sobre o próprio monarca - na obra salvífica do Graal. Baccega conhece a necessidade de diminuir Lancelot a fim de lhe proporcionar a possibilidade da penitência, única saída para o personagem. Por essa razão, se, por um lado, o grande cavaleiro se encontra diminuído sob a perspectiva hierárquica da corte de Artur, por outro, sua ação permanece fundamental do ponto de vista da narrativa - é ela que viabiliza a saga, desde o primeiro momento, quando ele se põe em marcha, ao chamado da donzela que cavalga. O Lancelot da Demanda é, também, figura apoteótica de um processo de subjetivação que teve lugar entre os séculos XII e XIII, e que, do ponto de vista da relação do fiel com o sagrado, resultaria na elaboração da prática do "exame de consciência". A relação adúltera entre Lancelot e a rainha Ginevra - com a subsequente contrição de Lancelot - retoma, com efeito, uma trajetória de esforços no sentido de normatizar e regular o comportamento de uma aristocracia guerreira na Idade Média,3 e que deveria conduzir ao seu enquadramento na ordem social. O Lancelot penitente representa a (re)conciliação da cavalaria com os valores de corte, o que deveria resultar em um enquadramento social dos milites.

O Percival de Baccega, por sua vez, é igualmente humano, em sua atitude humilde diante da grandeza da empreitada. Ele cultiva uma perspectiva reverente, quase real, que nos remete a um personagem atemporal - que poderia estar hoje entre nós. Seu destino e sua atribuição são grandiosos, e até sobrenaturais, mas sua atitude o vincula permanentemente àquilo que há de mais humano - frágil e resiliente, esse Percival é um intérprete da condição do homem. Somente o caminho que ele percorre é capaz de torná-lo apto àquilo que já lhe está predestinado. Baccega assume a responsabilidade por uma tradução por vezes aparentemente conflitante, na medida em que é do conflito que emerge a maturidade: seu Percival deve deixar de ser criança para tornar-se homem - o caminho o obriga, ao mesmo tempo que a conquista do Graal o pressupõe. Se Percival personifica o cavaleiro do conciliarismo, ao representar a comunidade, Galvão é o cavaleiro da corte, aquele que se encontra ao lado do rei, personifica o princípio hierárquico e apresenta uma distinção visível, palpável. Mas não há, ainda, oposição entre as duas figuras, uma vez que elas são apresentadas como complementares. Ao retratá-los, Baccega mantém as tintas sob seu controle, e nos dá ciência de que estamos diante de uma sociedade agrária, territorial, cristã. Não há liberdade fora da órbita de influência de um senhor, na mesma medida em que não há salvação fora da crença no Senhor. A ordem do romance arturiano emula a ordenação de um mundo feudal, o qual pretende, ainda, emular a própria ordem celeste.

A descoberta, no Ocidente medieval, da obra de Dionísio, o Areopagita, também conhecido como Pseudo-Dionísio, viria a exercer forte impacto sobre as teorias sobre a organização das sociedades. De raiz platônica, esse conjunto de escritos foi traduzido pela primeira vez no século IX por João Scott Eriúgena. As obras De coelestibus hierarchia e De ecclesiastica hierarchia viriam a reforçar um pensamento que primava pela hegemonia do mundo espiritual sobre o material, retomando a exegese da carta de Paulo (I Cor 13) segundo a qual haveria uma relação de espelhamento entre as ordens terrestre e celeste. Se as cortes na terra emulavam, de forma geral, a corte celestial, é certo que a corte arturiana, particularmente, teria sido concebida para replicar não somente a corte divina, como também a sociedade apostólica e seus principais eventos. No momento em que a tia de Percival fala ao sobrinho sobre o "Assento Maravilhoso", atribui-se à sociedade arturiana um papel de continuidade no interior do plano divino. Ela assim o diz: "Vós bem sabeis que Jesus Cristo foi entre os apóstolos senhor e mestre por mandato e a partir disto foi imaginada a távola do Santo Graal por José [de Arimateia] e a távola redonda por vontade dos cavaleiros" (p.105). Por essa razão, os eventos que presidem à chamada Távola Redonda se encontram em relação direta com os eventos da sociedade crística e da paixão de Cristo, na medida em que prolongam aquelas experiências ao mesmo tempo em que presentificam os fatos sagrados. Por essa razão, podemos afirmar que a sociedade arturiana possui um forte aspecto sacramental: na medida em que recorda e revive o sagrado, atua como elemento ritual, que se liga ao sagrado de forma direta, sem a necessidade de mediação, como na celebração eucarística ou na conferência das ordens eclesiásticas.

Em sua tese de doutorado, defendida em 2012, Baccega elaborou, a partir de uma argumentação consistente e um amplo espectro bibliográfico, as conexões entre a representação da sociedade arturiana e a questão do sacramento cristão. A dimensão sacramental do romance arturiano implica, para além de seus vínculos com a instituição e o ensinamento cristãos, uma tentativa de recuperar uma essência que subjaz à própria condição humana. Esse anseio se desdobra na busca pelo sagrado, cuja trajetória concreta, no espaço físico, apresenta um correspondente direto com o caminho interno, subjetivo, por meio do qual o homem espera encontrar e conhecer a si mesmo. Nesse sentido, vale, para a demanda tanto quanto para a ortodoxia cristã, a noção agostiniana de que o homem conhece a Deus na medida em que se conhece - o conhecimento é, para Agostinho, um recurso que faculta ao homem a capacidade de reconhecer e recuperar a similitudo perdida. A demanda fala ao coração dos homens, tanto quanto à sua sede de aventura, e à vocação cavaleiresca para submeter-se a provas. Se, por um lado, cabe ao cavaleiro realizá-la em virtude de seu pendor para a aventura, por outro, a demanda é obra humana, e visa religar o homem com o sagrado - e reconciliar-se com a essência sagrada dentro de si é o destino atribuído a toda a humanidade.


NOTAS

1Utiliza-se a expressão "verdade moral" para designar uma narrativa que não depende da História, mas da disposição correta e harmoniosa dos componentes textuais (cf. Amor, 2011, p.71-90).
2 Heitor Megale (2008) faz alusão, na introdução à sua edição, à retomada do mito arturiano no contexto do mito messiânico de Dom Sebastião.
3A esse respeito, cite-se Huizinga (2010).

REFERÊNCIAS

AMOR, L. La dimensión social del roman artúrico del siglo XII. In: RODRIGUEZ, G. (Dir.) Cuestiones de Historia Medieval, v.2. Buenos Aires: Selectus, 2011. p.71-90.

BACCEGA, M. A demanda do Santo Graal: o manuscrito de Heidelberg. São Paulo: Hedra, 2015. 

HUIZINGA, J. O outono da Idade Média: estudo sobre as formas de vida e de pensamento dos séculos XIV e XV na França e nos Países Baixos. Trad. Francis Petra Janssen. São Paulo: Cosac Naify, 2010. 

MEGALE, H. A demanda do Santo Graal. São Paulo: Cia. das Letras, 2008.

ZUMTHOR, P. Genèse et évolution du genre. In: Grundriss der Romanischen Literatur des Mittelalters: Le Roman jusq'à la fin du XIIIe. siècle. Heidelberg: Carl Winter, 1978. 
Ana Paula Tavares Magalhães é professora do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. @ - apmagalh@usp.br
Revista Estudos Avançados - USP

Heresias do marxismo brasileiro: a agonia de Caio Prado Júnior



Deni Alfaro Rubbo
Faculdade de Filosofia, Letras e CiênciasHumanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil.

EM UM TEXTO publicado no primeiro número da revista Amauta, José Carlos Mariátegui apontava que um dos trunfos da obra do filósofo espanhol Miguel de Unamuno era de reanimar a palavra “agonia”. Distante do significado comum que costuma exprimir, “prelúdio da morte”, “conclusão da vida”, agonia como dor permanente, a agonia teria um sentido quase contrário: vida, combate, luta. Segundo o pensador peruano, “agoniza aquele que vive lutando - lutando contra a própria vida. E contra a morte” (Mariátegui, 1971, p.116).

No Brasil, a trajetória e a obra de Caio Prado Júnior (doravante, CPJ), militante político dedicado e intelectual de prestígio, pode ser um exemplo dessa “agonia” nos termos de Mariátegui, pois não apenas dedicou toda sua vida à luta pelo socialismo, como também encarou com crivo crítico as ideias e práticas políticas da esquerda tradicional brasileira. Não por acaso, durante seu percurso, “Caíto” – era assim chamado pelos amigos e familiares mais íntimos - sofreu acusações de toda sorte: “burguês”, “aristocrata”, “reformista”, “radical”, “rebelde”, “eclético”... Pensar por conta própria, eis o pecado da heresia. Ora, como bem dizia Bernard Shaw (apud Mariátegui, 2014, p. 193) , “toda pessoa verdadeiramente revolucionária é uma herege”. Quanto mais as pesquisas avançam no campo da história social e intelectual do marxismo do século XX, mais a frase do escritor inglês torna-se atual. Afinal, o totalitarismo de Estado e de partido muitas vezes ocultou (ou liquidou) personagens situados à esquerda dissidente que procuravam formular ideias teóricas e políticas de maneira independente e em oposição a dogmas da rígida ortodoxia.

O recém-lançado ensaio político biográfico Caio Prado Júnior, uma biografia política, narrativa impecável, repleta de revelações, atenta-se justamente para a relação de CPJ com o “mundo socialista”. Luiz Bernardo Pericás (2016), professor de História Econômica da Universidade de São Paulo (USP), esquadrinha sua militância conturbada no Partido Comunista Brasileiro (PCB); as leituras dos clássicos marxistas; as viagens à então URSS, a Cuba e a China; os debates sobre a revolução brasileira; a experiência carcerária; a atitude em relação ao golpe civil militar; as relações com diversos intelectuais progressistas nacionais e estrangeiros, assim como o desenvolvimento teórico dessa que é uma das principais figuras do marxismo brasileiro. Procura construir uma narrativa cronológica da trajetória de CPJ sempre acompanhado de uma rigorosa contextualização política, econômica, social e cultural da realidade brasileira e dos principais acontecimentos internacionais.

Após seu lançamento, o livro conseguiu um grande feito: foi laureado com o Prêmio Intelectual do Ano – Troféu Juca Pato pela União Brasileira de Escritores (UBE). A entidade que outorgou a premiação logrou dois interessantes feitos: homenagear tanto o biógrafo, quanto o biografado. Vale lembrar a título de curiosidade que CPJ já havia recebido o mesmo prêmio em 1966 com a publicação de A revolução brasileira.

O empreendimento do livro durou praticamente seis anos até seu arremate. As fontes de pesquisa foram diversificadas e abundantes. Pericás pesquisou em arquivos públicos e particulares, com destaque para o do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da Universidade de São Paulo, onde se encontra a maior parte do acervo do intelectual paulista; consultou centenas de documentos inéditos (tanto aqueles de caráter pessoal como de órgãos de segurança); entrevistou dezenas de amigos, familiares e estudiosos; e, por fim, realizou um extenso levantamento bibliográfico. Essa obsessão por buscar elementos comprobatórios, principalmente por meio da documentação referente à época com o objetivo de verificar pormenores de determinados episódios, datas, lugares, justifica-se na medida em que a maioria dos livros e artigos sobre CPJ reproduziram erros de outros trabalhos. Para ilustrar a envergadura do projeto do livro, basta observar as notas bibliográficas e críticas localizadas ao final do livro, que ultrapassam mais de cem páginas.

Tamanha quantidade de fontes foi fundamental para traçar um perfil distinto do retrato amiúde difundido por alguns estudiosos. Para eles, o intelectual paulista seria apenas um intérprete e estudioso da realidade brasileira, e seus vínculos com a militância política seriam mencionados quase que por acidente. Em suma, esboçava-se um personagem desvencilhado de suas práticas políticas e sociais, como se elas fossem apenas um acessório do conjunto de sua trajetória.

Em contrapartida, nos doze capítulos de Caio Prado Júnior, uma biografia política as marcas históricas de sua passagem pelo mundo social e político ganham uma nova imagem. Apresenta-se um personagem complexo, multifacetado, permeável por contradições e de vida conturbada. Em oposição aos modelos com “personalidade coerente e estável, ações sem inércia e decisões sem incertezas”, conforme alertava o historiador italiano Giovanni Levi (2006, p.169), Pericás (2016, p.24) retrata, portanto, um personagem “profano”:




Na realidade, para Caio, o marxismo, o engajamento social e partidário e as experiências socialistas não eram acessórios, mas elementos essenciais em sua trajetória e visão de mundo; não eram apenas ferramentas para compreender o processo histórico nacional, mas aspectos primordiais de sua vida e de sua luta por mudanças estruturais no país.

Trajetória inquieta e aposta comunista

Nascido em São Paulo em 11 de fevereiro de 1907, Caio Prado Júnior foi oriundo de importantes famílias da elite paulistana, ligadas à administração de estradas de ferro, ações na bolsa de valores e proprietárias de fazendas de café. Durante a infância residiu no casarão de seus avós maternos, onde foi educado por preceptoras e governantas alemãs. No início da adolescência, em 1918, o marxista paulista ingressou no Colégio São Luís, instituição dirigida por padres jesuítas, com passagem na Independent Preparatory School no Reino Unido. Em 1924, ingressou no curso de Ciências Jurídicas e Sociais da afamada Faculdade de Direito do Largo São Francisco, formando-se em 1928, aos 21 anos.

No primeiro capítulo dessa biografia política (“O ingresso ao PCB”), Pericás mostra os primeiros movimentos de CPJ na militância política. Filia-se primeiramente ao Partido Democrático (PD), em 1928, formado por setores da classe média vinculados a fazendeiros de café mas dissidentes da oligarquia rural tradicional, ainda que esse partido não apresentasse o problema de classe e um perfil ideológico da legenda. No entanto, essa aproximação durou apenas até 1931, quando se desligou do partido que, segundo suas palavras, havia adotado o mesmo caminho da “situação” e um comportamento “politiqueiro”. Ingressou no PCB, em 1932, quando já estava casado com sua primeira esposa e com dois filhos. Pericás relata que houve alguns sacrifícios pessoais em decorrência dessa escolha, já que CPJ optou por uma ruptura ideológica com sua própria classe social. Há vários exemplos no livro de como o historiador paulista transformou-se numa “figura indesejável” nos círculos que frequentava e, principalmente, de como a opção pelo comunismo fez que ele arcasse com consequências nas dimensões familiar, afetiva e profissional. Como afirma Pericás (2016, p.33-4):

[CPJ] expôs a si mesmo e à sua família à execração pública, foi constantemente vigiado pelos órgãos de segurança ao longo dos anos, teve que se afastar daqueles que amava nas diferentes ocasiões em que foi detido e encarcerado, viu-se obrigado a se autoexilar durante o governo Vargas e a ditadura militar e, ainda assim, recebeu críticas dos mais diferentes setores partidários, tanto da esquerda quanto da direita.

De todo modo, um dos elementos que não se alteraram nessa trajetória de CPJ, mesmo com a aposta comunista, foi o conforto econômico que sempre acompanhou, herdado de sua rica família. Foi assim, inclusive, que pôde desembolsar quantias significativas em proveito do partido, do trabalho intelectual e de empreendimentos editoriais custosos como parte de sua militância política.

Participa da Aliança Nacional Libertadora (ANL) como presidente regional de São Paulo e como contribuinte mensal no financiamento da organização política, além de subsidiar grupos espiões em partidos conservadores (Pericás, 2016, p.101). Trata-se de um novo momento de sua militância, com mais responsabilidades, analisada no capítulo quatro (“Os anos de fogo: da ANL ao cárcere”). Em julho de 1935, com a ANL na ilegalidade e posterior insurreição, centenas de participantes são presos, dentre os quais CPJ. Nesse mesmo capítulo, por meio das cartas que trocava com sua família, fartamente citadas no livro, é possível conhecer como era a vida cotidiana do marxista brasileiro na prisão. Nos meses de cárcere, viveu em péssimas condições, com uma saúde irregular, saudades dos parentes. Depois de libertado, em 1937, exila-se na França, onde acompanha cursos na Sorbonne.

Ao retornar ao Brasil em 1939, já era uma das principais personalidades do meio intelectual no combate ao autoritarismo, como delineado no quinto capítulo do livro (“Novas trincheiras de luta”): CPJ “transitava com desenvoltura e habilidade entre a intelectualidade e o meio político oposicionista. Era a pessoa ideal para cumprir a função de articulador dos diferentes setores que se opunham a Getúlio” (ibidem, p.119). Provavelmente essas habilidades políticas foram o trampolim para sua candidatura e eleição como deputado constituinte em 1947; mas, como se sabe, sua experiência parlamentar foi efêmera, pois rapidamente houve cassação dos deputados eleitos pelo PCB. Uma vez que o PCB permaneceu na ilegalidade em praticamente todas essas décadas, militância e perseguição policial também acompanharam o itinerário de CPJ. Mesmo com essas dificuldades significativas, não deixou de investir em publicações partidárias, organização de festas para levantar fundos para agremiação e manutenção de uma gráfica clandestina com seus próprios recursos.

Não por acaso, um dos seus empreendimentos que merecem destaque foi a fundação da editora Brasiliense em 1943, tema exposto no sexto capítulo (“A batalha das ideias”). Além da Gráfica Urupês, criou a Revista Brasiliense em 1955, um dos mais importantes periódicos da esquerda brasileira (foram editados 51 números), fechado em 1964 pela ditadura militar. A casa editorial e a livraria tornaram-se espaços de reunião e discussão entre intelectuais progressistas que encabeçavam projetos políticos do historiador. Era a luta no campo das ideias que CPJ praticava com muito afinco. De publicação bimestral, a Revista Brasiliense seria orientada pelos próprios redatores e colaboradores e não por uma ordem política e partidária. Ou seja, tratava-se de um veículo “extrapartidário” (ainda que muitos deles fossem “comunistas”, mas com uma posição marginal nos círculos decisórios do partido), no qual tomavam parte forças progressistas diversas, economicamente autônomo, o que não raras vezes colidiu com as posições do PCB.

Ainda na mesma década da fundação da revista, o historiador paulista candidata-se à cátedra de economia política da Faculdade de Direito da USP, em 1954. Ficou em último lugar, além de ironizado por um membro da banca e aplaudido pelos estudantes, segundo testemunha (ibidem, p.154). Mesmo sem a aprovação, ficou com o título de livre-docência da Universidade, conforme estipulado no concurso. Vale lembrar que CPJ jamais conseguiu ingressar como professor na USP, apenas participando de eventos, debates e bancas examinadoras como convidado.

Com o golpe civil militar de 1964, ocorrem prisões em massa de membros da “base” do PCB ligados ao movimento operário, e obras de sua autoria também são proibidas, conforme assinalado no penúltimo capítulo. Diante desse quadro, CPJ exila-se no Chile, deslocamento doloroso para o intelectual paulista, como mostram as cartas aos familiares: o sentimento de solidão, de relações sociais conturbadas e de indecisão sobre seu retorno ao país. “Vida bem pouco atraente de exilado”, disse em determinada ocasião. No retorno ao Brasil foi condenado a quatro anos e meio de prisão, mas não chegou a cumprir toda a sentença.

Depois de todas essas experiências e atividades políticas, no último capítulo do livro (“Os últimos anos”) registra-se como CPJ começa a distanciar-se lentamente da prática militante. Não o fez por resignação, mas pela idade que já o impedia de acompanhar seu espírito agitador. De todo modo, “ainda que não atuasse ativamente em suas fileiras havia bastante tempo, ele nunca se retirou ‘oficialmente’ ou foi desligado da agremiação” (ibidem, p.265-6). Até mesmo sua própria personalidade transforma-se nessa época. De homem circunspecto, reservado quando se tratava de questões pessoais, depois do exílio e da prisão passou “a falar mais sobre si e seus sentimentos” (ibidem, p.258). E, no final da década de 1970, doravante mais recolhido em sua casa, surgiram os primeiros sinais de mal de Alzheimer cujos sintomas aumentaram gradualmente. Em decorrência dessa enfermidade, Caio Prado Júnior morreu em novembro de 1990 aos 83 anos de idade.


Um marxismo fora do lugar

Do ângulo da sua formação intelectual marxista, CPJ foi leitor de inúmeros nomes do pensamento de esquerda do século XX, como apontado no segundo capítulo (“Leitores (e leituras) de Caio Prado Júnior”). Tanto “marxistas clássicos” como também “marxistas ocidentais”, para ficarmos na denominação de Perry Anderson (2004), preencheram as prateleiras do intelectual paulista, assim como autores de correntes distintas do marxismo. Basta olhar a quantidade enorme de livros e revistas que guardava em sua biblioteca – atualmente parte de seu acervo encontra-se no IEB/USP –, em torno de 16 mil itens, entre coleção “marxista” e “brasiliana”. De qualquer modo, é curioso imaginar nos dias de hoje que um intelectual do estofo de Caio Prado Júnior tenha sofrido acusações como a de conhecer pouco o marxismo – segundo tais argumentos, não havia citado o suficiente para credenciá-lo como tal. De fato, CPJ jamais empreendeu uma marxologia, de reflexão sobre determinados textos; estudou os pensadores clássicos e contemporâneos do marxismo para aplicá-los metodologicamente numa realidade específica, com uma temporalidade discordante daquela em que viviam os autores marxistas europeus. Seus livros de cunho teórico, de tintas mais filosóficas e metodológicas, Dialética do conhecimento, de 1952, e Notas introdutórias à lógica dialética, de 1959, não tinham como meta estabelecer um manual de aplicação do materialismo histórico, mas sim “discutir o sentido de seu objeto de estudo, fosse no processo histórico brasileiro, fosse em sua conceituação do termo e suas implicações dialéticas dentro da filosofia” (ibidem, p.148, grifo do autor).

Pericás afirma que, na realidade, alguns teóricos marxistas eram comentados somente por meio de sua correspondência (em particular, com o jovem militante comunista Carlos Nelson Coutinho). Por exemplo, é nas cartas que percebemos que o intelectual paulista manifestou “apreço” pelo marxista húngaro Lukács; ao passo que, em relação à leitura de Atlhusser, a considerava “profundamente deformadora do marxismo” (ibidem, p.57). Já o marxista sardo Antônio Gramsci despertou pouco interesse pelo historiador paulista (ibidem, p.63). É interessante mencionar também que CPJ faz parte dos autores que ajudaram a divulgar os “clássicos” do marxismo no Brasil levando a cabo a tradução de Teoria do materialismo histórico, manual popular de sociologia marxista, de Bukharin.

Embora tivesse uma formação marxista “europeia” e priorizasse estudos da formação histórica brasileira, CPJ constituiu uma relação profunda com o Novo Continente. A bem da verdade, trata-se de um aspecto inexplorado pelos estudiosos caiopradianos. Pericás retrata não apenas um viajante curioso em vários países latino-americanos, mas também comprometido politicamente com os acontecimentos que eclodiam no continente por meio da leitura de obras e trocas de correspondências com dezenas de jornalistas, editores, militantes e intelectuais. Certamente essa dimensão pesou em seus estudos sobre o caráter especial do capitalismo brasileiro. E, em retorno, muitos analistas do exterior foram influenciados pelo historiador brasileiro a ponto de inserir sua obra “no contexto mais amplo de tradição marxista latino-americana, colocando-o ao lado de outros teóricos e militantes anti-imperialistas do continente” (ibidem, p.72), em vez de perfilá-lo como um autor estritamente “brasileiro”.

Questões como reforma e revolução – tema tratado no capítulo X (“Reforma, revolução e socialismo”) – não passaram despercebidas pelo marxista brasileiro. “Posicionava-se claramente contra um ‘capitalismo reformado’ (como afirmou em distintas ocasiões) e contra a livre iniciativa privada (para eles, onde esta se encontrasse haveria o capitalismo; e onde essa fase estivesse sugerida, existiria o socialismo). Em última instância, não poderia ser chamado de reformista, pelo menos em sua forma clássica” (ibidem, p.226, grifos do autor) – lembrando que a palavra “reformista” esteve sempre ligada às lutas dos subalternos para transformar a sociedade, como afiançava Carlos Nelson Coutinho (2010, p.35). Pericás relaciona com as de Lenin muitas das proposições da reforma e revolução do pensador brasileiro que abarcam a questão dos sujeitos da transformação, do partido, do Estado e do marxismo. Para tanto, faz uma distinção fundamental entre o marxismo-leninismo-stalinismo, santificado, calcificado em dogmas, preso às tradições esclerosadas da III Internacional; e o marxismo-leninismo crítico, ao qual está inserido CPJ, um pensamento da política em ação, no qual elementos como representação, organização e estratégia são decididos nos termos específicos da luta política (Bensaïd, 2000, p.183). Oriundo dessa segunda vertente, “o marxismo, para Caio Prado Júnior, não podia se assemelhar ao que ocorria nas doutrinas religiosas, com seus textos sagrados e interpretações baseadas no argumento de autoridade” (Pericás, 2016, p.238).

Do ponto de vista da militância política, ainda que jamais tenha saído do PCB, em vários momentos de seu itinerário ocorreram tensões e embates que são fartamente exemplificados no livro, inclusive com personagens ilustres como Luís Carlos Prestes (ibidem, p.125). Segundo Pericás, muitos desses dissabores advêm do fato de jamais ter sido reconhecido como uma figura preponderante do partido (como fora o caso de Nelson Werneck Sodré) – os dirigentes do partido somente o procuravam para pedir dinheiro para a máquina partidária. Essa marginalização deveu-se principalmente ao exercício do pensamento crítico e original de CPJ que era frequentemente discordante das posições defendidas pela linha oficial pecebista ou pela Comintern.

Todavia, a questão não permanece completa. Se prevaleciam inúmeros desacordos entre CPJ e a interpretação e estratégia adotada pelo PCB, em contrapartida, inexiste um distanciamento crítico do autor diante da então URSS. Isso pode ser vislumbrado a partir das viagens de CPJ ao mundo socialista. Elas representam “um elemento essencial para que ele molde suas opiniões sobre diversos temas candentes no campo do marxismo, como o caráter da ‘revolução’ e do ‘partido’” (ibidem, p.81). Nos capítulos III (“Primeira viagem ao mundo socialista”) e VII (“De volta ao mundo do socialismo”), Pericás esquadrinha os detalhes das viagens realizadas para a URSS, a primeira em 1933 e a segunda em 1960, bem como para a China (1960), Cuba (1961) e Alemanha Oriental (1963). Testemunhas, conversas, visitas, hospedagem, transporte, fotografias recheiam o périplo feito pelo militante brasileiro. As informações colhidas pelo biógrafo sobre as viagens são instigantes. Caíto publicou dois livros sobre a experiência soviética: URSS, um novo mundo, de 1933, e O mundo do socialismo, de 1961. Em ambos, sempre trata a URSS de maneira edificante, exaltando as vantagens do sistema político do país de maneira incondicional, e neles se verifica a ausência de distinção entre o espírito emancipador de 1917 e o totalitarismo de Stalin. Esse ponto de vista continua, mesmo após a surpresa criada pelas denúncias dos crimes de Stalin no XX Congresso dos PCU em 1956. Em suma, “o alinhamento continuava completo, ainda que fizesse críticas pontuais a amigos em alguns momentos” (ibidem, p.183). Por exemplo, o silêncio que manteve diante da repressão na Polônia e diante da revolta húngara em 1956 rompeu-se com a notícia da presença das tropas soviéticas na Tchecoslováquia.


Um intérprete do enigma brasileiro

Não é nenhum segredo que uma das dimensões de maior audiência, em termos de estudos, debates e pesquisa acadêmica sobre CPJ concentra-se em sua produção sobre a particularidade histórica do capitalismo brasileiro. Todavia, se a importância da obra pradiana tornou-se um consenso para os estudiosos do pensamento social, a repercussão de suas obras sempre foi bastante contraditória. Em Caio Prado Júnior, uma biografia política, toda obra de CPJ também é apresentada por meio de sua recepção em jornais e revistas da época. Expõe-se, assim, uma circulação de ideias altamente produtiva, de impressões de autores diversos, de debates amiúde polêmicos para além do próprio livro – sem dúvida um ganho para o leitor.

Ademais, Pericás constrói uma genealogia das primeiras tentativas de análise da realidade brasileira inspirada no referencial marxista, como Agrarismo e industrialismo, de Octávio Brandão, A caminho da revolução operária e camponesa, de Leôncio Basbaum, e “Esboço de uma análise de situação econômica e social do Brasil”, de Mário Pedrosa e Lívio Xavier. Por um lado, assinala a importância de tais empreendimentos como documentos históricos; por outro, aponta “graves deficiências teóricas e falta de conhecimento” (ibidem, p.52), em razão da ausência de uma bibliografia marxista robusta no país, bem como rara formação política sólida dos autores no período em que essas obras foram gestadas. Nesse contexto, insere Evolução política do Brasil de CPJ, o primeiro livro do autor (1933), na seara das tentativas de adaptar as ideias do marxismo científico às condições locais. Como era de esperar, encontrava-se em grau teórico mais elevado em relação aos autores citados. Essa seria, aliás, a primeira produção que podemos entender como “nacionalização do marxismo no Brasil” (Ricupero, 2000). Também se sabe que o crítico literário Antonio Candido considerava essa obra como um dos “clássicos” do pensamento social brasileiro da década de 1930, ao lado de Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, e Casa grande & senzala, de Gilberto Freyre. Empreendimento similar, mutatis mutandis, do já citado José Carlos Mariátegui (2010) e sua obra Sete ensaios de interpretação da realidade peruana. Ora, segundo Pericás (2016, p.54), “a intenção de Mariátegui era mostrar a importância da integração dos indígenas (que representava a maior parte da população) ao resto do país como elemento essencial para construir historicamente a nação indígena”. Enquanto CPJ, de forma similar, “também defendeu a inclusão das massas (majoritariamente descendentes de escravos negros e trabalhadores pobres) ao processo de construção da nação, enfatizando, como Mariátegui, a necessidade imprescindível de sua elevação material e cultural” (ibidem, p.54).

Assim, Formação do Brasil Contemporâneo, publicado em 1942, defende a tese de que o país havia sido estruturado, desde o início, para atender as necessidades externas, ideia sintetizada na expressão “o sentido da colonização”. Buscou expor relações, processos e estruturas sociais, econômicas e políticas que operavam na composição da sociedade brasileira. Três anos depois, em 1945, publica História Econômica do Brasil, que se inicia novamente numa perspectiva histórica: colonização, império e república. “Com um processo de desenvolvimento desigual e combinado, seria fundamental não apenas compreender, mas também saber como articular nas diferentes variáveis políticas, econômicas e culturais num projeto que estivesse moldado a partir das características específicas de nosso processo histórico (ibidem, p.129, grifos do autor). Outro elemento fundamental é a ideia de inexistência do “feudalismo” no Brasil.

É na mesma tônica de análise que se encontra A revolução brasileira, de 1966, um dos livros que “fizeram a cabeça” dos militantes da época, de acordo com Jacob Gorender (ibidem, p.207). A obra teve uma repercussão imediata significativa, e contou com infindáveis debates nas universidades e em círculos militantes. Nessa obra estava a espinha dorsal da heresia de CPJ: crítica à ideia de uma “burguesia nacional e anti-imperialista” e às sobrevivências “feudais” no campo brasileiro de maneira sistemática.

Caio Prado Júnior também se dedicou ao estudo da questão agrária brasileira, “um dos pontos de divergência entre CPJ e PCB ao longo dos anos”, bosqueja Pericás (2016, p.164). A leitura pecebista – assim como dos PC latino-americanos – da realidade agrária brasileira assentava-se da seguinte forma: a estrutura agrária foi classificada como semifeudal, a burguesia local considerada como agente confiável no processo de modernização e desenvolvimento e o camponês como hostil ao socialismo coletivista. Tratava-se da corrente eurocêntrica do marxismo latino-americano (Löwy, 2006, p.11), ou seja, o oposto da interpretação de CPJ. Para ele, as relações de trabalho na agropecuária brasileira não seriam “semifeudal”, mas um empreendimento comercial moderno. A elevação do nível tecnológico das atividades rurais – tome-se como exemplo a assim chamada “revolução verde” – estava longe de superar o “atraso” do país, mas, na verdade, o reatualizava por meio dos baixos salários e precárias condições laborais. Para Caio Prado Júnior (2007, p.27) “[...], o progresso tecnológico não significa necessariamente uma melhoria de condições do trabalhador. E, às vezes, até pelo contrário, pode agravá-las”. Portanto, existem discordâncias dos tempos nas relações sociais agrárias na periferia, diferentemente dos países do Velho Continente. Essa intuição analítica da dialética entre arcaico e moderno fora dos trilhos do eurocentrismo atraiu uma vertente da tradição crítica do pensamento brasileiro com nomes de Francisco de Oliveira (2003), Roberto Schwarz (2000) e Paulo Arantes (2004).

Foto Acervo Instituto de Estudos Brasileiros da USP
Caio Prado Júnior na década de 1940. 

Com estilo sóbrio e elegante, Caio Prado Júnior, uma biografia política transformar-se-á em leitura obrigatória para aqueles que desejam se aventurar pela trajetória e obra do historiador paulista. Pelo cuidado com todos os detalhes expostos em torno da figura de Caio Prado Júnior, um dos pensadores brasileiros mais importantes do século XX, esse livro biográfico já tem lugar cativo nas estantes das ciências humanas.

REFERÊNCIAS

ANDERSON, P. Considerações sobre o marxismo ocidental/ Nas trilhas do materialismo histórico. São Paulo: Boitempo, 2004. 

ARANTES, P. A fratura brasileira do mundo. In:___. Zero à esquerda. São Paulo: Conrad, 2004.

BENSAÏD, D. Lenin, ou a política do tempo partido. In: BENSAÏD, D.; LÖWY, M. Marxismo, modernidade e utopia. São Paulo: Xamã, 2000. p.177-91. 

COUTINHO, C. N. A hegemonia da pequena política. In: OLIVEIRA, F. de; BRAGA, R.; RIZEK, C. Hegemonia às avessas: economia, política e cultura na era da servidão financeira. São Paulo: Boitempo, 2010. p.29-43. 

LÖWY, M. Pontos de referência para uma história do marxismo na América Latina. In: ___. (Org.) O marxismo na América Latina: uma antologia de 1909 aos dias atuais. 2.ed. ampl. São Paulo: Perseu Abramo, 2006. 

MARIÁTEGUI, J. C. La agonia del cristianismo, de Miguel de Unamuno. In: ___. Signos y obras. Lima: Amauta, 1971. p.116-20. 

_______. Sete ensaios de interpretação da realidade peruana. São Paulo: Expressão Popular/Clasco, 2010. 

_______. El alma matinal y otras estaciones del hombre de hoy. Rosário: Ediciones del Sertão, 2014. 
OLIVEIRA, F. Crítica à razão dualista / O ornitorrinco. São Paulo: Boitempo, 2003. 

PERICÁS, L. B. Caio Prado Júnior, uma biografia política. São Paulo: Boitempo, 2016. 

PRADO JÚNIOR, C. A questão agrária no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 2007. 

RICUPERO, B. Caio Prado Júnior e a nacionalização do marxismo no Brasil. São Paulo: Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo; Fapesp; Editora 34, 2000. 

SCHWARZ, R. Ao vencedor as batatas. São Paulo: Duas Cidades; Editora 34, 2000. 

Deni Alfaro Rubbo é doutorando em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP) e bolsista da Capes. @ – deni_out27@uol.com.br
Revista Estudos Avançados - USP

Porous City


Rio de Janeiro. Explorações sobre uma cidade porosa

Daniel Bitter
Programa de Pós-Graduação em Antropologia, Universidade Federal Fluminense, Niterói, Rio de Janeiro, Brasil.

POUCAS obras foram capazes de mergulhar tão profundamente na história cultural do Rio de Janeiro, como Porous City de Bruno Carvalho. O livro é, sem dúvida, uma relevante contribuição e um vigoroso e requintado estudo sobre a cidade a partir das transformações de uma de suas áreas mais ricas, complexas e contraditórias: a Cidade Nova. O autor privilegia essa região por considerar que os processos sociais, urbanos, culturais e econômicos ali desenrolados fornecem imagens-síntese, frequentemente contraditórias, sobre a cidade e mesmo sobre o país.

O pretexto central para a elaboração do livro parece ser o ambivalente sentimento do autor com relação à cidade, amalgamado por um misto entre encantamento e estranhamento, ante as contradições da cidade. O Rio de Janeiro aparece aos olhos de Bruno Carvalho (2013) como um lugar que abriga simultaneamente mistura racial e exclusão, porosidade e segregação. O autor bem resume essas contradições apresentando o contraste entre o Rio da Bossa Nova e a situação de crianças abandonadas nas ruas.

A Cidade Nova foi criada por decreto em 1811 e até princípios do século XIX era uma área alagadiça que servia de passagem entre o centro da cidade e as áreas rurais da Tijuca e de São Cristóvão. O aterramento e a melhoria da região trouxeram um impulso de crescimento para a área que passou a ocupar um lugar importante para o desenvolvimento da cidade e de gêneros musicais definidores da identidade nacional. Para o autor, essa região estimulou a produção de representações em torno da cidade multirracial e étnica, comportando tanto a área afrodescendente, conhecida como a Pequena África, quanto o bairro dos imigrantes judeus, além de fazer referência a ciganos, italianos, espanhóis etc.

O trabalho procura, assim, acompanhar as representações construídas em torno dessa região e da música ali produzida, que se tornaram emblemáticas da identidade brasileira. Correlativamente, o autor se dispõe a investigar como mudanças urbanas podem moldar a linguagem, assim como a própria linguagem pode moldar o desenvolvimento e a experiência da cidade. O autor se propõe, ainda, a lançar novas luzes sobre algumas das mais importantes obras literárias que tematizaram essa região da cidade, bem como avançar em análises históricas e reflexões teóricas.

No prefácio do livro, o autor refere-se à marcante experiência de ter estado numa festa na chamada Vila do Éden, na Praça Onze, coração da Cidade Nova. Informalmente conhecida como Vila do Éden, a Villa Alberto Sequeira, localizada na rua Clementino Fraga, abrigou um número significativo de judeus do Leste Europeu nas primeiras décadas do século XX, refugiados da perseguição na Europa. A festa a que Carvalho se refere ocorreu em torno do casal septuagenário Pinduca e Celi – ele um judeu ashkenazim, e ela uma negra, ambos nascidos na região. Parentes, amigos e vizinhos reuniram-se em frente à casa do casal para celebrar o festim regado a mocotó, cachaça e música. O autor relata que esse acontecimento o inclinou a estudar esse peculiar espaço de encontros entre judeus e negros.

Movido pelo fascínio diante desses encontros e desencontros, Carvalho recua até o século XIX com o intuito de compreender a história cultural dessa região e suas representações em grandes obras da literatura, música e nas artes visuais. No prefácio da obra o autor atenta para aspectos teóricos e conceituais que embasam sua reflexão. Em grandes linhas, trata-se de explorar a ideia de cidade como um palimpsesto e articular a noção de “cidade porosa”. Carvalho expressa convenientemente o necessário cuidado em capturar imagens do Rio de Janeiro, complexas e em camadas, propondo dialogar com uma multiplicidade de fontes e referências disciplinares. Nesse sentido, o autor lança mão de textos teatrais, novelas, poemas, música, pintura, de um lado, assim como outras referências mais frequentemente situadas no horizonte das ciências sociais, tais como mapas, planos urbanos, discursos políticos, memórias, testemunhos orais, revistas e jornais.

Carvalho reconhece que o estudo sobre a Cidade Nova oferece muitos desafios, considerando-se que muitas das manifestações e expressões que ali tiveram lugar, tais como religiões afro-brasileiras, música popular, carnaval e prostituição, frequentemente eram consideradas ilegítimas a ponto de originar quaisquer escritos. O autor, assim, se pergunta como “escrever uma história cultural de espaços urbanos baseada em fontes que, em sua maior parte, os representam como marginais ou incidentais” (Carvalho, 2013, p.8).

O livro está distribuído em seis capítulos que, como o autor propõe, devem ser lidos como feixes de camadas históricas, na forma de um diagrama (Deleuze), dentro do qual as fronteiras são instáveis, porosas. De inspiração benjaminiana, a noção de porosidade é usada por Carvalho para pensar a fluidez de fronteiras entre ordem e desordem, popular e erudito, preto e branco, público e privado, sagrado e profano, centro e periferia, e assim por diante. Em cidades como o Rio de Janeiro, sugere o autor, impera uma sobreposição de categorias e grupos étnicos e raciais, mesmo quando indesejáveis. Carvalho explica que o termo deriva do grego poros, significando passagem, sugerindo que a noção é parte da etimologia de “porto” da cidade, o que designa certo modo de interação, próprio de alguns lugares. O conceito ocupa lugar central na empreitada do autor em interpretar alguns dos enigmas mais persistentes da cidade. Nessa direção, Carvalho questiona: “como uma cultura e uma autoimagem definida pela mistura, coexiste com tão pregnante disparidade socioeconômica?” (ibidem, p.10). Como escreve,




Este estudo tem a esperança de poder oferecer insights sobre como um ambiente de desigualdades e trocas assimétricas, num país em que a escravidão não foi abolida antes de 1888, encontros multiétnicos e uma permeável vida cultural, puderam florescer. (ibidem, p.10)



A noção de porosidade ocupa, assim, um lugar absolutamente crítico no livro. Ela vem contribuir para uma longa tradição de debates sobre diversidade racial e divisões sociais. Por outro lado, o conceito se apresenta como uma interessante alternativa às problemáticas e desgastadas noções de sincretismo e miscigenação que acabaram por ganhar uma conotação excessivamente celebratória, contribuindo para a reprodução do mito da democracia racial e obscurecendo as desigualdades sociais. Carvalho sugere que porosidade encontra sua expressão não apenas nas cenas musicais multirracias do Rio de Janeiro, mas também nas áreas de prostituição que unem negras e judias, frequentadas por pobres e ricos. O autor faz referência ao epíteto cidade partida que o Rio de Janeiro ganhou a partir do conhecido livro de Zuenir Ventura publicado em 1994. A obra marca um período de aguda crise da cidade, acentuada pelos trágicos massacres de Vigário Geral e da Candelária. Cidade partida é a expressão mais crua dessa divisão entre dois mundos, particularmente entre favela e asfalto. Apesar disso, Carvalho nota que está implícito na expressão de Ventura a admissão de que há mais porosidade do que a realidade aparenta. Porosidade, portanto, não se opõe à ideia de cidade partida, uma vez que mistura e separação frequentemente são aspectos complementares da realidade. Como escreve o autor, “Uma cidade dividida, portanto, pressupõe uma cidade porosa” (ibidem, p.12). Ao deslocar o olhar para a cidade dividida, Carvalho pôde reencontrar conexões inesperadas em meio às áreas de segregação socioespacial. Como propõe,

Através de grande parte dos séculos dezenove e vinte, elites governantes intentaram confinar, domesticar, eliminar ou expulsar aqueles aspectos de fluidez e intercâmbio que, paradoxalmente, marcaram a formação da cultura dominante no Brasil e que esteve frequentemente concentrada na Cidade Nova e lugares similares: a cena musical, prostituição, assim como, indesejáveis comunidades étnicas. (ibidem, p.13)

Carvalho sugere que a ideia de porosidade remete à mútua influência que distintos grupos podem exercer uns sobre os outros, absorvendo parcialmente suas tradições, apesar da inegável assimetria do sistema de distribuição de recursos e poder que caracteriza a vida na cidade do Rio de Janeiro. O exemplo fornecido é o das diásporas transatlânticas africana e judaica.

Nessa direção, a análise que Carvalho empreende do romance Memórias de um sargento de milícias de Manuel Almeida permite perceber como certos lugares associados à Cidade Nova, como o Campo de Santana, se constituem em foco significativo de sociabilidades e trocas interculturais em meados do século XIX. Carvalho nota que as narrativas de Almeida descrevem hábitos e costumes das camadas baixas e médias, incluindo afrodescendentes e ciganos. O Campo foi palco de manifestação de festas de santos, ranchos, umbigadas e batuques, como também de lavadeiras que aproveitavam os tanques ali instalados. O autor sugere ainda que a Cidade Nova, daquele período, podia ser vista como uma metáfora tanto da cidade partida quanto da cidade porosa. A região recebeu investimentos em infraestrutura, com a construção do Canal do Mangue e prédios monumentais, iluminação e linhas de transporte. Entretanto, com o passar do tempo, a Cidade Nova passou a abrigar majoritariamente a população mais pobre formada por afrodescendentes, ciganos, judeus e estrangeiros, muitos dos quais passaram a habitar em cortiços. As elites tenderam a se deslocar para as áreas litorâneas, procurando se distanciar dessas presenças indesejáveis, como também buscaram se proteger dos surtos de febre amarela e outras doenças associadas a lugares mais interiores.

Carvalho nota, entretanto, que a Cidade Nova, por meio de seus dois pontos centrais – o Campo de Santana e a Praça Onze – foi um território onde se manifestou uma interação do tipo porosa, a qual teria marcado a cultura carioca e mesmo a brasileira. O autor aprofunda esse argumento no segundo capítulo, observando a circularidade entre popular e erudito existente em muitas formações musicais urbanas do século XIX, tais como bandas marciais e orquestras ligadas às igrejas.

Ademais, o que torna interessante esse território é a sua conexão com outras áreas, para além de suas fronteiras mais estritas, ligando-se à Lapa boêmia, ao centro da cidade, às primeiras favelas e aos subúrbios habitados pela classe trabalhadora. Carvalho nota que ao longo de sua transformação, a Cidade Nova teve seus limites também alterados e que já não mais abriga a Praça Onze, espaço que ganhou notoriedade, especialmente entre afrodescendentes e judeus, configurando-se o que veio a ser conhecido como Pequena África. A destruição da Praça Onze para a abertura da Avenida Presidente Vargas, entretanto, não esvaziou esse espaço da memória coletiva de muitos grupos, permanecendo como um marco simbólico de encontros e da produção de certos gêneros musicais, tais como maxixe, samba, choro, que se tornariam emblemáticos da identidade carioca. Carvalho destaca ainda a proximidade da antiga Praça Onze com a chamada área do Mangue e da prostituição ali instalada desde os anos 1920.

Outro conceito basilar explorado pelo autor como uma metáfora significativa para pensar a natureza complexa e multifacetada das cidades contemporâneas é o de “palimpsesto” ao qual já me referi anteriormente. O autor propõe que espaços urbanos podem ser vistos como “palimpsestos”. Tal como antigos manuscritos, as cidades podem ser apagadas e reescritas sucessivamente. Na imagem representada pelo autor, ruas, praças, quarteirões são demolidos para dar lugar ao novo. Carvalho nota que ao longo de 200 anos, entre 1763 e 1960, o Rio de Janeiro foi “raspado” (scraped off) diversas vezes, consistindo num verdadeiro laboratório para planejadores urbanos. Há aqui o importante pressuposto de que ao longo desse processo de transformação a paisagem da cidade modelou formas urbanas, relações sociais e expressões culturais.

Ao evocar a noção de palimpsesto, Carvalho chama a atenção para as múltiplas camadas e processos de reescrita que certos territórios sofrem. O autor lança mão de ideias de Freud acerca da estrutura da mente, do inconsciente e do que chama de “escrita” para pensar o modo como a memória é articulada mediante um processo de recuperação arqueológica de vestígios, camadas, que ativam significados compartilhados. Nesse caso, o trabalho de historiadores, críticos literários e teóricos é especialmente relevante para o desvelamento dessas antigas camadas de cera. O uso da noção de escrita, assim como de palimpsesto é analógico. Carvalho sugere que “o que Freud chama de ‘escrita’ pode ser entendida como a intercessão entre funções espaciais e histórias pessoais” (p.4).

Nesse ponto, gostaria de fazer menção à ideia de Arqueologia Urbana proposta por Vogel e Mello (1984, p.47), o que me parece se aproximar do uso que Carvalho faz da noção de “palimpsesto”. Os autores desenvolveram um programa de pesquisa com o propósito de estudar a “evolução da sociedade urbana brasileira, quanto às transformações dos seus aspectos morfológicos, em particular, no que se refere à dinâmica dos sistemas construídos e de sua dimensão sócio-espacial” . Há uma ênfase aqui na materialidade dos sistemas construtivos e no seu potencial enquanto sistemas de memória. As cidades apresentam-se como arquivos em permanente processo de atualização. Os autores propõem construir as bases para uma melhor compreensão de identidades sociais que se constituem no diálogo entre o velho e o novo, o tradicional e o moderno (ibidem, p.48).

Duas outras noções balizam as sofisticadas análises e reflexões de Carvalho: cartografias letradas (lettered cartographies) e geografia cultural (cultural geography). A primeira se inspira nos trabalhos de Ángel Rama (1984), em cuja obra intitulada La ciudad letrada o autor procura mostrar como a palavra escrita foi empregada para impor ordem e estabelecer poder entre as sociedades latino-americanas, especialmente no período colonial. Cartografias letradas implicariam padrões adquiridos a partir de mapas cognitivos de “produtores de conhecimento”, por meio do rádio, governo, jornais etc. Geografia cultural, por sua vez, remete à realidade empírica do modo como os recursos materiais e espaços culturais são distribuídos na cidade. Como propõe o autor, essas duas dimensões estão frequentemente em tensão dialética, e um de seus objetivos.

Destaco o diálogo que Carvalho estabelece com a obra Slave life in Rio de Janeiro, 1808–1850, de Mary Karash (1987), explorando as flagrantes contradições contidas no fato de que o grupo social mais oprimido da cidade é, também, o mais visível e o mais audível. O autor chama a atenção para as complexas normas hierarquias de controle da circulação da população escrava na cidade. O argumento aqui é o de que apesar de essa enorme população ter ocupado o mais baixo nível na hierarquia social, deixou marcas profundas na vida social e cultural da cidade, com sua presença nas praças públicas mediante suas procissões rituais e festivas. As expressões musicais dos negros ocupam um lugar central nessa paisagem sonora. Carvalho observa que essa paisagem suscitou distintas apreciações por parte de viajantes estrangeiros e missionários católicos, e nota que essas expressões sonoras eram o produto de algum tipo de colaboração entre os escravos e outras categoriais sociais. De acordo com Karash (1987), há evidências de que os negros escravizados incorporaram ao seu repertório modinhas portuguesas, polkas e antífonas católicas.

Diversas obras de Machado de Assis são analisadas ao longo do livro e oferecem preciosas descrições da vida cotidiana na Cidade Nova, evidenciando-se certos padrões de interação que permitem ao autor corroborar a noção de porosidade. Carvalho sugere que a cartografia das relações sociais apresentada pelo escritor, com suas ambiguidades e tensões, antevê as transformações que terão lugar na cidade do Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XX, a partir de projetos autoritários de modernização, como os que foram conduzidos por Pereira Passos e mais tarde por Henrique Dodsworth.

A Cidade Nova com seus batuques e festas populares é aqui contrastada com outra região da cidade: a parisiense Rua do Ouvidor. Na visão das elites, a Rua do Ouvidor era o epicentro da vida civilizada e cosmopolita onde os valores associados à modernidade predominaram através da presença dos seus cafés e outros estabelecimentos comerciais de maior prestígio e sofisticação. Curioso notar que esses mesmos valores associados à modernidade e aos padrões civilizatórios europeus irão orientar as reformas urbanas da Cidade Nova, levadas a cabo na administração de Dodsworth.

Essas traumáticas intervenções cirúrgicas concentradas na Cidade Nova resultaram numa grande reconfiguração espacial e social da região, levando abaixo avenidas inteiras com seu antigo casario, minando também modos de vida e formas de sociabilidade marcadas pela porosidade. Essas intervenções remapearam a população mais desfavorecida, deslocando-as para a zona norte, para os subúrbios e para as nascentes favelas. Essas ações eram parte do plano para alinhar a cidade às mais importantes capitais europeias e vieram acompanhadas, também, de forte preocupação sanitarista. Carvalho ilumina esse processo mostrando seu viés higienista e racista, num momento em que diversas manifestações culturais dos negros, tais como batuques, rituais religiosos, entrudos carnavalescos, passam a ser perseguidas. O autor indica, entretanto, que havia resistência, especialmente em torno das tias baianas concentradas na Praça Onze. Essas negras, vindas da Bahia, tornaram-se figuras centrais na reprodução de todo um modo de vida que acaba por configurar-se como poroso a outras categorias sociais. Carvalho nota que algumas dessas tias baianas gozavam de grande prestígio e eram protegidas por policiais, funcionários públicos e políticos que frequentavam suas casas. Ficou particularmente conhecido o papel que a tia Ciata (Hilária Batista de Almeida, 1854-1924) ocupou nesse processo de resistência e porosidade. Sua casa foi palco de festas, rituais religiosos e reuniões musicais, contando com a presença de sambistas luminares, como Sinhô, Pixinguinha, Donga, entre outros.

João do Rio, outro grande personagem da cidade, deixou testemunhos importantes sobre a diversidade religiosa presente na Cidade Nova, assim como sobre os fluxos de inter-relações raciais e de classe que amenizaram o furor persecutório às manifestações populares. Carvalho nota, a partir dos escritos de João do Rio, que algumas tias baianas, mães de santo e sambistas gozavam de proteção de políticos e policiais. Havia circularidade cultural e contato interclasses. A diversidade musical da Cidade Nova também foi notada por Lima Barreto, e a despeito do fato de o maxixe, o samba e outros gêneros emergirem como sínteses desses contatos étnicos, raciais e de classe, um Rio dividido da belle époque insiste em impor uma visão das elites sobre a cidade, sugere o autor.

Carvalho explora os meandros de um bairro afro-judeu criado em torno da antiga Praça Onze de Junho. No início do século XX, judeus do Leste Europeu começaram a se fixar nessa parte da cidade como refugiados. O autor sugere que havia solidariedade entre afrodescendentes e judeus ashkenazim, uma vez que essas categorias sociais compartilhavam uma condição social semelhante. Carvalho nota que muito pouco se preservou da memória da relação entre negros e judeus, mas que maiores conflitos entre as categorias não são evidentes. Havia proximidade física entre essas categorias. Carvalho nota que muitos estabelecimentos de judeus eram vizinhos da tia Ciata e que até mesmo o espaço de prostituição do Mangue foi um ponto de convergência.
Acervo Biblioteca Nacioanl - Rio de Janeiro

Foto Augusto Malta (1864-1957) 

Nas conclusões do trabalho, Carvalho sugere que apesar de a Avenida Presidente Vargas ter se tornado uma referência no processo de alteração da concepção de cidade, ela não conseguiu frear práticas contraespaciais importantes. Com a construção do túnel Santa Bárbara, a Cidade Nova passou a figurar em notas de rodapé, perdendo sua centralidade na vida cotidiana da população. Entretanto, esse território simbólico é permanentemente revivido na contemporaneidade por diversas categorias sociais que têm reivindicado sua memória como parte de sua história e seu pertencimento.

Finalizo estas notas recomendando a leitura da obra, com a expectativa de que, em breve, esta seja traduzida para a língua portuguesa.

REFERÊNCIAS
CARVALHO, B. Porous City. A cultural history of Rio de Janeiro (from the 1810s Onward). Liverpool: Liverpool University Press, 2013. 

KARASCH, M. C. Slave life in Rio de Janeiro, 1808–1850. Princeton, NJ: Princeton University Press, 1987. 

RAMA, A. La ciudad letrada. Hanover, NH: Ediciones del Norte, 1984. 

VOGEL, A.; MELLO, M. A. da S. Sistemas construídos e memória social: Uma arqueologia urbana? Revista Arqueologia, Belém, v.2, n.2, p.46-50, jul./dez. 1984. 

Daniel Bitter é professor do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal Fluminense (UFF). Pesquisador do Núcleo de Estudos sobre Artes, ritos e sociabilidades urbanas, Narua-UFF. . – danielbitter@gmail.com
Revista Estudos  Avançados - USP