segunda-feira, 29 de março de 2010

Modern Afghanistan: a history of struggle and survival

Modern Afghanistan: a history of struggle and survival

Aureo de Toledo Gomes

Bacharel em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e mestrando em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP). E-mail: aureotoledo@gmail.com

Uma coleção de documentos do Departamento de Estado e de serviços de inteligência dos Estados Unidos da América (EUA) do período compreendido entre 1994 e 2000 teve seu sigilo recentemente quebrado. Tal gama de informações joga luz sobre um período da história contemporânea cujas reverberações atingiram os EUA em 11 de setembro de 2001: o relacionamento entre o governo do Paquistão e a ascensão do Talibã no Afeganistão, milícia que tomou o poder em 1996 e que deu abrigo à Osama Bin Laden e à sua Al-Qaeda. Os documentos, disponíveis no sítio do National Security Archive,1 deixam clara a preocupação da administração norte-americana com o estreitamento das relações entre Islamabad e o Talibã, destacando o fato de que o fortalecimento da milícia esteve sobremaneira ligado ao auxílio financeiro proporcionado pelo país vizinho.

Além das violações perpetradas pelo Talibã contra as minorias étnicas afegãs e contra as mulheres durante a vigência de seu regime (1996-2001), o Afeganistão ganhou ainda mais destaque na mídia internacional a partir do momento em que ficou evidente a ligação entre a Al-Qaeda e os dirigentes do país, os quais proporcionavam abrigo para o grupo terrorista. A partir de então, muitos analistas procuraram descrever como a situação no país degringolou a tal ponto de um grupo fundamentalista poder ascender ao poder, controlar quase 90% do território e ainda abrigar o terrorista mais procurado do planeta.

Muitas das análises arrolaram uma quantidade impressionante de dados, interligando a invasão soviética (1979-1989), o apoio dos EUA aos mujahidin (assim como de outros países, destacando-se Paquistão, Arábia Saudita e Irã)2 e, por fim, como o período de guerra civil (1992-1996) propiciou solo fértil para a emergência do Talibã. Todavia, o que muitos deixaram de lado, seja por opção metodológica, seja por optarem por um viés mais informativo, foi a construção do Estado no Afeganistão. Esse viés mais analítico é o ponto de partida de Amin Saikal.

Diretor do Centro de Estudos Árabes e Islâmicos, professor de Ciência Política da Australian National University e especialista em assuntos relativos ao Oriente Médio, Ásia Central e Rússia, Saikal, com a colaboração de Ravan Farhadi e Kirill Nourzhanov, abre sua obra com uma pergunta instigante: por que o Afeganistão teve um desenvolvimento histórico tão turbulento, permanecendo vulnerável à instabilidade doméstica e intervenções externas?

A hipótese apresentada pelo autor é a de que a construção do Estado no país desde 1747, a partir da criação da monarquia Durrani, foi afetada por três fatores que iriam perpassar sua história, quais sejam: a poligamia existente na elite real, interferências externas e extremismo ideológico.

Como tais variáveis se relacionaram e influenciaram a construção do Estado afegão? Segundo Saikal, o fundador do Afeganistão, Ahmad Shah Abdali, aproxima-se do conceito weberiano de domínio patrimonial, caracterizado pelo poder estar intimamente relacionado à pessoa do líder. Ademais, a política no Afeganistão era caracterizada por barganhas diretas entre clãs, tribos, populações regionais etc. Dentro desse contexto, a formação de instituições estatais tornava-se deveras problemática.

Nevrálgico nesse ponto foi o papel desempenhado pela poligamia entre a elite. Durante os séculos XVIII e XIX, os líderes da dinastia Durrani tomaram várias esposas, fossem elas de outras tribos ou grupos étnicos, objetivando ampliar as alianças políticas para a consolidação de seu domínio ou mesmo apenas por prazer. Além das quatro esposas autorizadas pelo Alcorão, as lideranças podiam ter um número ilimitado de concubinas. Destarte, o grande número de herdeiros, a confusão acerca do status dos mesmos e da ordem hierárquica culminou em um sem-número de conflitos entre meios-irmãos e seus parentes, impedindo a consolidação de instituições governamentais: o que era criado por um líder era subseqüentemente revogado pelo seguinte.

De outro lado, as interferências externas também tiveram grande peso na formatação do Estado afegão. Localizado no coração da Ásia Central, o país sempre esteve nos planos daqueles que pensavam em ampliar sua influência na região. Durante o período conhecido como Grande Jogo, no início do século XIX, os impérios inglês e russo tinham interesses distintos no Afeganistão. Enquanto o primeiro não queria ameaças à sua dominação no subcontinente indiano, o segundo visualizava o país como porta de entrada na Ásia Central. Espremido entre as duas potências, o Afeganistão tornou-se um Estado-tampão entre a Grã-Bretanha e a Rússia czarista. Uma das principais conseqüências do Grande Jogo para o Afeganistão foi a submissão de sua política externa à Inglaterra, ou seja, qualquer relacionamento externo do país deveria passar por Londres.

Apenas após a Revolução Bolchevique de 1917, com as disputas entre a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e a Inglaterra persistindo na região, é que as lideranças afegãs conseguiram alguma margem de manobra e alcançaram a independência do país pelos tratados de 8 de agosto de 1919 e de 22 de novembro de 1921. Conquanto independente, o país ainda era suscetível a interferências externas das potências em questão, principalmente quando os assuntos em pauta eram vultosos financiamentos para o país. Outrossim, durante a Guerra Fria até aproximadamente 1992, as interferências de outros países impactaram substancialmente o país. Conforme aponta Saikal, as interferências externas permitiram que as lideranças afegãs implementassem, parafraseando Jackson (1990), um quase-Estado moderno, no qual a renda oriunda das potências possibilitava a supressão de grande parte da população e disfarçava a natureza fragmentada do país. Todavia, com o a débâcle da URSS em fins de 1991, assim como o corte dos recursos norte-americanos para o país, qualquer vestígio de um aparato governamental centralizado no Afeganistão, outrora financiado por outros países, desapareceu.

Por fim, a última variável apresentada pelo autor, o extremismo ideológico foi utilizado constantemente pelas lideranças para justificar sua dominação. Segundo Saikal, a maior parte dos conflitos políticos na história do Afeganistão não se iniciou de debates envolvendo desenvolvimento econômico, crenças religiosas, cidadania, entre outros; o objetivo final sempre fora a centralização do poder via patrocínios externos. Fosse o Constitucionalismo de Amanullah Khan, o Gradualismo dos Musahiban, a "Nova Democracia" de Zahir Shah e até o Fundamentalismo dos Talibã, as ideologias elaboradas sempre foram levadas ao limite para justificar os atos de seus perpetradores.

Uma vez expostos os marcos conceituais, o autor aventura-se na história do país, desde o período em que este se constituía por uma confederação tribal, passando pelas guerras com os britânicos e com a luta pela independência do país, chegando ao período da invasão soviética e, mais contemporaneamente, até os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001. Em cada momento histórico, o autor procura destacar como as três variáveis supracitadas influenciaram a formatação do Estado no país e como permitiram que o mesmo tivesse uma história tão conturbada.

Durante a leitura, é possível notar que as três variáveis atuaram paralelamente e por vezes em conjunto na história do país. No entanto, com a saída do rei Zahir Shah, em meados de 1973, a poligamia deixou de ter o mesmo peso que outrora havia tido. A partir de então, o extremismo ideológico ganha mais importância, enquanto podemos notar que as interferências externas continuam a ter grande influência no país.

O viés analítico proposto pelo autor é de grande valia para pensarmos o Afeganistão e a construção do Estado no país, assaz artificial. Tendo-se em mente este processo histórico, torna-se mais clara a resposta para a pergunta que abre o livro de Saikal. Se o país teve um desenvolvimento tão turbulento, sempre vulnerável à instabilidade doméstica e às intervenções externas, tais acontecimentos se devem sobremaneira à forma como o Estado foi erigido no país. E, nessa construção, as variáveis apresentadas pelo autor tiveram papel primordial.

Dois pontos, no entanto, precisam ser levantados. A metodologia empregada pelo autor conjuga-se muito bem para explicar a história do país. Todavia, um dos problemas da obra é que, ao adentrar no período mais contemporâneo do país, especialmente após a invasão soviética, a análise do autor torna-se um tanto quanto rasa, e uma gama de acontecimentos importantes como a guerra civil, as disputas entre os grupos mujahidin, a ascensão do Talibã e a intervenção norte-americana no país são tratados em um mesmo capítulo. Quiçá um dos motivos para tal fraqueza esteja no fato de que as variáveis apresentadas pelo autor se prestam para a análise de períodos temporais mais longos, o que ainda não seria possível. Ou mesmo que algumas delas, como a poligamia, não mais se encaixam na atual realidade do país, uma vez que o que se vislumbra no momento é a construção de uma democracia representativa e que o fator mais importante no momento seja a atuação das potências externas.

O segundo ponto a ser destacado relaciona-se com algumas informações arroladas pelo autor no decorrer da obra. Ao abordar a influência dos Deobandi na formação ideológica do Talibã, o autor argumenta que tal escola de pensamento muçulmano, surgida na Índia, recebeu influência Wahhabi, ideologia predominante na Arábia Saudita. É um ponto controverso, uma vez que Rashid (2001) e Rubin (2002), importantes estudiosos sobre o Afeganistão, não apresentam tal dado. Ademais, o autor deixa claro durante o texto a sua admiração por Ahmed Shah Massoud, um dos principais oponentes do Talibã, afirmando ser este um dos principais líderes da história do país. Não questionamos a sua competência; contudo, a Aliança do Norte, facção liderada por Massoud, também foi acusada de desrespeitar os direitos humanos. Segundo a Revolutionary Association of the Women of Afghanistan, organização criada em 1977 e cujo objetivo é lutar pelos direitos humanos e por justiça social no país, a Aliança do Norte tampouco apresentou grandes inovações vis-à-vis a situação feminina no país, o que em nenhum momento é citado no livro.

Ainda que o livro apresente tais problemas, o seu grande mérito é jogar luz na construção do (quase) Estado no Afeganistão enquanto fator explicativo para suas vulnerabilidades. Não devemos apenas entender a situação no Afeganistão no que se refere a problemas criados por políticas de governo equivocadas e por seus relacionamentos com o sistema internacional; para irmos mais a fundo na compreensão, devemos direcionar nossa visão para processos mais profundos. E isso Saikal faz muito bem.

Notas

1. . Acesso em: 15 ago. 2007.

2. Dentre as melhores análises, destacam-se as de Rashid (2001), Coll (2004) e Wright (2007).


Referências Bibliográficas

COLL, Steve. Ghost wars: the secret history of the CIA, Afghanistan, and Bin Laden, from the soviet invasion to september 10, 2001. New York: Penguin Books, 2004.

JACKSON, Robert. Quasi-States: sovereignty, International Relations and the Third World. Cambridge: Cambridge University Press, 1990.
RASHID, Ahmed. Taliban: the story of afghan warlords. London: Pan Books, 2001.

RUBIN, Barnet. The fragmentation of Afghanistan. New Haven: Yale University Press, 2002.
WRIGHT, Lawrence. O vulto das torres: a Al-Qaeda e o caminho até 11/09. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

Revista Contexto Internacional - PUC-RJ

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